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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







23 de ago de 2010

A VINGANÇA DE DORALICE


Doralice sentiu o sangue esfriar em suas veias quando acessou o computador. Não podia acreditar no que seus olhos viam. Somente ela e o marido, Astolfo, acessavam a internet. Quem teria, então, deixado ali no histórico de navegação visitas a um site de relacionamentos? Levantou-se, andou pela casa, tentou se acalmar. Então, voltou ao computador e entrou no tal do site.
Pra descobrir se Astolfo estava ali cadastrado, fez um perfil falso: uma loira de 30 anos, cabelos longos, olhos verdes e residente na zona Oeste da cidade de São Paulo. Fez a pesquisa de perfis de homens na faixa etária de Astolfo e com características físicas semelhantes. E lá estava ele, usando óculos escuros em uma foto e dizendo-se "casado à procura de momentos de prazer".
Desesperada, Doralice conteve as lágrimas e arriscou enviar uma mensagem a Astolfo: "Olá, meu nome é Margot, quero te conhecer". Passou o resto do dia atormentada, de tempos em tempos olhava a caixa de mensagens na ânsia de ler uma resposta.
No final do dia, veio a resposta gentil de Astolfo. Sugeriu um café com Margot e pediu fotos. Doralice abriu o Google e escolheu fotos de uma loira norueguesa. Enviou junto com a resposta aceitando o convite para o café no dia seguinte, em um shopping perto de sua casa. Veio nova mensagem de Astolfo elogiando a beleza de Margot e declarando sua ansiedade para encontrá-la.
Quando Astolfo chegou do trabalho, Doralice fez o possível pra disfarçar o ódio que sentia. Serviu o jantar, assistiu à novela, foi se deitar como se nada estivesse acontecendo.
Chegou o grande dia, Doralice chegou ao shopping no horário marcado. Lá estava ele, sentado e esperando Margot. A princípio, sentiu-se paralisada. Agora o sangue fervia e parecia que o cérebro estava em ebulição. Foi então se aproximando, passos hesitantes, trêmula. Quando Astolfo viu a esposa diante de si ficou pálido de espanto. Mal conseguiu balbuciar que estava ali esperando um cliente.
- "Margot é sua cliente, Astolfo?". O homem não podia crer no que se passava. Como ela foi descobrir? E o que fazer quanto à linda Margot, prestes a chegar? - "Querida, não sei do que você está falando! Você está louca!".
Foi então que Margot realmente enlouqueceu. Tirou os sapatos, subiu na mesa do café e gritou pra quem estivesse ali ouvir: - " Atenção, gente! Este aqui é o Astolfo, o canalha com quem me casei. Ele marcou encontro com uma loira boazuda da internet, uma tal de Margot. Ela está pra chegar a qualquer momento!". Juntou uma plateia ao redor. Tinha gente tirando fotos com o celular, veio até segurança.
Margot se recusava a descer da mesa, sob risos, aplausos e vaias da multidão. Astolfo ficou encolhido junto à uma loja, quase se agarrando à vitrine. Doralice apontava pra Astolfo e berrava: - "É aquele ali! Vem aqui se for homem, Astolfo!".
Por fim, após 20 minutos, Doralice desistiu do protesto. Desceu da mesa, calçou os sapatos e disse ao marido: - "Vá procurar a Margot e peça a ela que lave suas roupas, prepare sua comida, escute seu ronco e suporte o seu chulé!". E foi embora com passos de general.
Essa foi a penúltima vez que Astolfo viu Doralice. A última foi na audiência de separação litigiosa, que Doralice ganhou, com direito a receber a metade dos bens que compraram durante o casamento.
Astolfo tentou diversas vezes encontrar Margot. Deixou 15 mensagens pra ela, todas sem resposta. Agora deixou no perfil a seguinte frase de chamada: "Procuro Margot, que não sai do meu pensamento!".
( Texto publicado em 2009 no blog Janela das Loucas)

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