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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







4 de nov de 2010

DESCONFIANÇA ATÁVICA



A ideia de minha amiga Cleusa pareceu sensacional! Mr. Divo Latívio deveria ser chipado, vigiado, seus passos rastreados por satélite. Desliguei o MSN entusiasmada.
Quarta-feira, 16h00. O celular tocou e, como diria a vovó: “do outro lado do aparelho” estava meu algoz, digo, Mr. Divo Latívio: - Oi Diva. Tudo bem, meu amor? Hoje à noite vou sair com uns amigos, mas vou te telefonar quando sair do trabalho.
Engoli cada palavra. Ele não telefonou, mas saiu com os amigos. Pra onde? Com quem?

Quarta-feira, 23h00: A esta altura eu já tinha enlouquecido a Cleusa que, possivelmente, pra livrar-se de minhas lamúrias, sugeriu essa ideia fantástica.
Dormi muito mal. O que teria Divo aprontado?

Quinta-feira, 08h00: Parei no pet shop ao lado de casa. A veterinária me atendeu.
- Bom dia. Em que posso ajudá-la?
- Doutora, sei que alguns animais de estimação recebem um chip de identificação. É possível rastrear o animalzinho via satélite?
- Para o caso dele se perder?
- Simmmmmm!
- Podemos ver isso. É um cachorrinho?
- Mais ou menos.
- Um gatinho?
- É...
- Então, traga o bichano e verei o que é possível fazer.

Quinta-feira, 09h00: O celular tocou novamente. Era ele, Mr. Divo Latívio. – Bom dia, meu amor. Ontem cheguei tão tarde, perdi a hora tomando cerveja com o Sinfrônio e o Simplício. Não quis telefonar e te acordar. Dormiu bem?
Fiz que engoli, a vontade era de cospir marimbondos furiosos.

Quinta-feira, 10h30: Voltei ao pet shop. – Doutora, meu cachorrinho, digo, meu gatinho tem medo de sair de casa, sabe? Quero apenas comprar o chip.
- Mas isso é irregular. Pra implantar o chip é preciso uma micro-cirurgia e eu não venderei o material sem ter toda a garantia de que será implantado por um colega veterinário.
- Não por isso, meu irmão é veterinário.
- É mesmo? Em qual universidade ele estudou?
- Havard ( cruzes!).
- Senhora, esse chip somente pode ser usado em animais, tem ciência disso?
- Claro...
- Venderei, mas terá que assinar um termo de responsabilidade.

Assinei e escutei várias recomendações. Não implantar nada sem ter ao lado um veterinário habilitado. E se usasse o produto em humanos poderia ser processada por crime de lesão corporal dolosa. Em suma, coisa feia de se fazer com seres de duas patas, digo, de duas pernas.
Agora estou à procura: alguém aí entende de bichos? Digo, alguém aí é veterinário? Vai que algo sai errado, um bom profissional poderá fazer respiração boca-a-boca!

Quinta-feira,14h00: Lembrei que está ocorrendo o Salão do Automóvel. Juro, ele me deixou em casa tossindo, com gripe, e foi ver as modelos pirulonas de 1,90 de altura ao lado daquelas Ferraris coloridas. Na próxima desculpa saberei exatamente onde ele está. Implantarei o chip enquanto ele estiver dormindo. Se acordar, direi que uma abelhinha entrou no quarto, mas já matei a coitadinha. E depois poderei segui-lo pra todo lado. Adeus dúvidas, agora terei certezas! E “teje dito”.


Acho que este texto merece uma nota da autora. Trata-se de uma caricatura do que ocorre entre alguns casais, fala sobre a insegurança feminina, a desconfiança. A maioria de nós, mulheres, não acredita nos homens. São tantas as desculpas esfarrapadas de alguns deles, as mentiras que eles contam, a falta de consciência ao trair fisica e moralmente a companheira, que aprendemos desde o berçário a não confiar em homem algum. O texto é irreal, mas a cisma feminina é real. Se você, homem, deseja ter ao seu lado uma mulher que confia em você, não minta pra ela. Seja sincero, por maior que seja a confusão que ocorrerá. Mil vezes a verdade mais dolorida do que a mais doce das mentiras. A nossa desconfiança é atávica, ou seja, deve ser proveniente do tempo em que os homens deixavam as mulheres em cabanas e cavernas, iam caçar e guerrear. Voltavam anos depois, isso quando voltavam. Existe uma piada antiga, que conta a história do - desculpem o termo - do idiota que saiu de casa dizendo pra esposa que ia comprar cigarros. Voltou anos e anos depois, quando ela o viu começou a falar, falar, falar. E ele, então, disse: - putz, preciso sair de novo. Esqueci de comprar os fósforos.
Homens que não compreendem a mulher, não entendem a alma feminina, causam estragos irreparáveis. Deveriam saber permanecer sozinhos.

Diva Latívia

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