É proibida a reprodução não autorizada dos textos deste blog, de acordo com a Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que regula os direitos autorais.

Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







28 de dez de 2011

FELIZ ANO NOVO!


Um ano termina, outro ano começa. Assim é o tempo, ele flui, segue adiante continuamente. O ano novo inspira desejos de mudança, de começos, de recomeços. Penso naquele dizer, ao brindarmos felizes nas confraternizações com parentes e amigos: saúde! É esse o meu desejo a você. Boa saúde é o bem mais precioso que podemos ter, para trabalharmos, para estudarmos, para planejarmos o futuro, para aproveitarmos os momentos bons ao lado daqueles que amamos. Para quem está dodói, desejo a recuperação de sua saúde, com muita esperança!
Obrigada por sua companhia, por sua presença (ainda que virtual) ao longo de mais este ano. Espero o seu retorno durante todo o ano de 2012, para juntos rirmos, para falarmos de assuntos sérios, interessantes, divertidos, românticos e de tudo aquilo o que a vida nos trouxer.
Feliz ano novo, com paz, amor e... Saúde, leitor!
Diva Latívia

A VOLTA DE QUEM NÃO FOI


Alguns dias antes do Natal, minha ajudante do lar, Zezé, pediu uns dias de folga. Nada mais justo, então concedi a folga à minha querida auxiliar.
Estava eufórica, seu novo pretendente, Joelmilson, tinha feito um convite pra lá de especial.
- Ai, dona Diva, a senhora sabe o que é “salvero”?
Pensei um pouco. Será que o nome da coisa era “saveiro”? Ela disse que sim, isso mesmo!
Explique rapidamente: saveiro é um tipo de barco.
Zezé ouviu minha frase dando pulinhos de alegria. – Vou passear com o Joelmilson no “salvero” do patrão dele!
- Jura Zezé? Mas que chique!
- Só que eu não tenho roupa pra passear de “salvero”!
Providenciei tudo o que considerei necessário: um maiô, saída de praia, chapéu, óculos de sol, chinelinho e protetor solar. Zezé estava nas nuvens.
Assim que nos despedimos, ela prometeu trazer fotos do passeio de barco.
Fiquei impressionada. Alguém ter um saveiro, “salvero”, sei lá? Um patrão rico o do namorado da Zezé.
Hoje cedo, Zezé voltou de sua folga. Entrou em casa sem falar muito, foi direto pra lavanderia. Comportamento pra lá de estranho, resolvi checar o que aconteceu.
- E o passeio? Quero ver as fotos!
- Que nada, dona Diva. O “desinfeliz” do Joelmilson me enganou. Não era passeio de “salvero” não. Fui de maiô por baixo do vestido, entupida de bronzeador que a senhora me deu. Ele chegou de carro, com o rádio tocando forró. E ainda queria que eu achasse bonito isso.
Notei seu desapontamento. – Zezé, você não disse que era um passeio de barco?
- Tirei uma foto, olha só dona Diva, esse carro parece um barco?
Realmente, não era um barco, mas era uma saveiro, um carro, aquela pick-up.
Tentei explicar que o Joelmilson não a enganou, mas não adiantou nada eu dizer que o carro se chama Saveiro, igual ao barco.
Agora, Zezé resolveu aproveitar o presente que eu lhe dei, o “kit passeio de saveiro”, para o seu Réveillon na praia. Disse que o Joelmilson prometeu levá-la em um outro passeio, que o nome do lugar é Paraty. Quis saber onde fica a cidade, porque vai dar umas voltinhas, segundo disse o Joelminson. Começo a suspeitar que, de novo, ela vai passear de carro. Bem... Ao menos o Joelminson ainda não a convidou para passear de Picasso. Acho!

27 de dez de 2011

AO MEU IRMÃO, ABÍLIO MANOEL


Quem te mandou entrar na minha vida assim, devagarzinho? Quem te mandou me cutucar, me inspirar, encontrar nesse meu emaranhado de emoções a capacidade de expressar sentimentos assim, escrevendo? Você, que partiu desta vida de repente, precocemente. Meu irmão, meu amigo Abílio Manoel.
Gostar de escrever, isso sempre gostei. Mas, a vida parece ter congelado esse dom. Mais de vinte anos sem arriscar um só versinho, uma só prosinha. E foi você, meu amigo tão amado, quem me entregou essa tarefa. A brincadeira, no seu blog, o Janela das Loucas. Mandei um texto contando minha desventura amorosa mais recente. Entre muitos risos, muitas brincadeiras, nasceu Diva Latívia. O presente bonito que ganhei, o layout deste blog aqui, quem fez foi você, meu webmaster, meu editor cabeça-dura.
O sucesso. Quem diria, você me entregou sucesso. O nosso último abraço, a sua promessa de sempre voltarmos a nos encontrar. A sua morte em uma tarde de junho de 2010.
Quis continuar, Abilinho, mas quem disse que eu soube assim fazer? Era tão complicado viver, correr, enfrentar os dias! O Janela ficou sozinho e, hoje, ele partiu pra pertinho de você.
Hoje, o blog Janela das Loucas partiu para o infinito, onde moram as estrelas. Foi pra pertinho do Abílio.
Por problemas técnicos, o blog Janela das Loucas foi hoje encerrado. Viveu exatamente dois anos, cinco meses e três dias.
Sinto tristeza, sinto saudade de um tempo recente, tudo parece tão presente.
Diva Latívia

COMUNICADO IMPORTANTE AOS LEITORES DO BLOG!


Fiquei surpresa quando tentei acessar o meu blog, a partir do Google Chrome, e recebi o mesmo aviso que alguns leitores receberam. Meu blog parecia estar infectado por um malware, ou seja, por algo virótico e nocivo para a nossa navegação na internet. Entrei imediatamente em contato com o Google, forneci explicações necessárias, fiquei muito preocupada.
O problema já foi resolvido, ao que parece teve origem no blog que estava associado ao meu, o querido Janela das Loucas, do meu saudoso amigo Abílio Manoel. Infelizmente, como medida profilática, desliguei o Diva Latívia do Janela das Loucas.
Espero que os leitores me desculpem, apesar do tal malware não ter sido por mim causado.
Podem agora acessar o meu blog com tranquilidade.

Obrigada,

Diva Latívia

22 de dez de 2011

O MEU AGRADECIMENTO AO PAPAI DO CÉU


Uma pena que o mundo esteja sempre em guerra. Uma pena que as notícias dos jornais sejam assustadoras, carregadas de tristeza. Uma pena que a gente tenha a cada dia menos tempo para si mesmo, para aqueles que amamos, para refletirmos, e para agradecermos ao nosso Criador. Chegou o Natal, já desejei a todos boas festas, mas faltou deixar aqui o meu agradecimento ao Papai do Céu.

Querido Papai do Céu,
Você me trouxe um presente lindo no último Natal: meu Divo e sua bela família. Desde então, eu não soube mais o que é solidão. Todos os domingos eu tive o aroma, o calor e o aconchego de um lar materno. Ganhei de presente uma sogra com sorriso, olhar e carinho de mãe. Tenho três irmãos biológicos, mas ganhei outros irmãos. Tenho sobrinhos, ganhei mais sobrinhos.
Eu sei que foi Você quem promoveu essa mudança boa em minha vida, que Você assistiu minha dor, quando lutei ao lado de minha mãe e ela não resistiu, foi embora pro Céu. Eu sei que Você acompanhou meu sofrimento, ao enfrentar dificuldades incontáveis para organizar minha vida depois desse episódio. Quem me deixou a missão de cuidar do meu irmãozinho mais novo, que é deficiente.
Papai do Céu, Você me amparou, me deu Sua mão, me carregou em Seu colo quando imaginei que não seria capaz de enfrentar tantas dificuldades. Foi Você quem me trouxe mais amigos, quem me inspirou para escrever tantos textos neste blog. Eu hoje tenho muito que agradecer e pouco que pedir. Meu único pedido é a CURA do meu irmão Flávio e, se não for pedir demais, a boa saúde de todos nós, especialmente a do meu menininho, o Gabriel.
De Sua filha, aquela que neste blog assina Diva Latívia.

20 de dez de 2011

A VISITA NATALINA DE TIA MARIETA


Ajuda de tia é pouca, mas não aceitar a ajuda da tia, em plena mudança de casa, isso eu apenas faria se fosse louca! Tia Marieta mora pra lá da Serra do Tereré, exatos quatrocentos e trinta quilômetros de estrada. Tão perto do final do ano, senti pena quando ela contou que passaria o Natal sozinha em casa, sem os filhos, sem os netos. Praticamente se convidou: posso ir pra sua casa? Sem alternativa, imbuída do mais puro espírito natalino, chamei a titia pra nos visitar.
O ônibus chegou na rodoviária meia hora atrasado. A plataforma lotada de gente carregando crianças chorando, caixas de papelão, trouxas, malas, sacolas. Um inferno rodoviário! Titia desceu do ônibus com dificuldade, esbaforida, desalinhada. O abraço que esbocei ela praticamente recusou: Diva, estou morta, sua casa fica muito longe daqui? Tentei apresentar Divo, ela o olhou de cima abaixo, como quem observa uma minhoca, um rato, talvez. Fez uma espécie de careta.
Tia Marieta nunca se separa do Haroldo. Gatos costumam ser carinhosos, afáveis. Acho que o felino Haroldo estava também estressado com a longa viagem, confinado em uma espécie de gaiola. Assim que entramos no carro, a titia libertou o bichano, que tentou suicídio, quis saltar pela janela com o carro em movimento. Gritaria geral, foi por um triz que o pior não aconteceu.
A distância entre a rodoviária e minha nova casa é de oito quilômetros. O trânsito à véspera das festas de final de ano é caótico. Demoramos uma hora pra chegar. Orgulhosa, assim que dobramos a esquina da rua, mostrei o condomínio: titia, olhe que lindo! Ela resmungou qualquer coisa incompreensível, acho que disse um palavrão, qualquer coisa que termina com “osta”.
Descer do carro na garagem, isso pareceu uma missão impossível. Titia praticamente entalou no banco de passageiro. Precisei ajudá-la a desentalar, o Haroldo pareceu não gostar. O arranhão que ganhei no braço deixou uma cicatriz.
A bagagem necessária para uma viagem curta, de uma semana, deve ser reduzida. Uma malinha, nada além disso. Titia trouxe três malas, duas sacolas e, claro, Haroldo e sua gaiola.
O novo apartamento ainda aguardava a chegada dos móveis da sala de estar e da sala de jantar. Titia resmungou em alto e bom som: ainda não mudaram? Expliquei que a entrega da mobília aconteceria em janeiro. Irritada, Tia Marieta nem pediu licença, fez uma breve excursão pela casa. Achou pequeno o meu lar, quis saber onde iria dormir. Mostrei o escritório, o sofá-cama. Ela falou alguma coisa, comecei a achar que estava ficando surda. Será que ouvi bem? Qualquer coisa que terminava com “erda”.
Tia Marieta fez uma visita rápida, exatos quarenta minutos em minha casa. Recusou o café, a água, o uísque que Divo ofereceu. Aliás, tamanha era a tensão, que Divo bebeu dois copos de uísque duplo, cowboy. Inquieta, titia aguardou a chegada de minha prima Verinha. Foi embora pra casa de parentes que moram na zona oeste, casa grande, confortável. Disse que Haroldo tinha alergia ao cheiro de tinta, que certamente teria uma crise alérgica em meu recém-pintado apartamento. Foi embora sem ao menos desejar-nos feliz Natal.
Três dias depois, Verinha telefonou pra mim. Desesperada, não encontrava passagem de ônibus para despachar a Tia Marieta de volta. Disse que estava sobrevivendo à base de calmantes,desde que havia resgatado a titia do meu novo lar. Titia despediu a empregada de prima Vera, ateou fogo no colchão enquanto fumava seu cachimbo durante a noite, implicou com as crianças e indispôs-se com o marido de Verinha. Haroldo pendurou-se na cortina nova e estraçalhou-a de ponta a ponta. Com uma visita dessas, a solução que pareceu melhor foi devolvê-la ao lugar de onde veio: a Serra do Tereré.
Soube que depois desse episódio, Tia Marieta foi pra casa de praia da prima Elenice. Viagem curta, voltaram antes do planejado. Parece que a titia não gostava muito de areia, que a maresia estragava a permanente que havia feito nos cabelos. Não sei quem mais hospedou Tia Marieta. Ela foi de casa em casa, um jogo de empurra-empurra até que, um dia, o interfone do meu apartamento tocou. Era o porteiro para avisar que lá estava uma senhora com muitas malas e um gato. Tia Marieta rodou por toda a família e voltou pra mim.
Em menos de um dia, ela quebrou dois copos do meu jogo novo de cristal, riscou uma cadeira da sala de jantar e ofereceu ao gato uma toalha de banho novinha, branquinha e felpuda. A canequinha de louça branca, aquela que Divo prefere para beber seu café, a titia usou para guardar a dentadura.
Eu providenciei a passagem de volta da titia. Divo, de tão nervoso, roía as unhas compulsivamente, com o olhar meio perdido. Ao nos despedirmos na rodoviária, admirei feliz a partida do ônibus. Adeusinho, Titia! Adeusinho, Haroldo!
O espírito natalino é lindo. O desejo de abraçar o mundo e celebrar! Vale quase tudo, mas trazer a tia Marieta, isso foi o cúmulo do espírito de Natal. Já prometi: Tia Marieta na minha casa? Isso não acontecerá nunca mais! Sei lá onde eu estava com a cabeça! Nem Papai Noel carregaria um saco tão cheio assim!

18 de dez de 2011

FELIZ NATAL!


Natal lembra a luz azulzinha da casinha de bonecas que ganhei quando tinha quatro, ou cinco anos de idade. Papai Noel deixou sob a árvore de Natal vários presentes, para mim e para meus irmãos. Os enfeites coloridos, bolinhas de vidro, cordões vermelhos e prateados. O pisca-pisca que era mágico e iluminava a nossa imaginação. O burburinho feliz, a casa lotada de gente, o aroma das delícias preparadas na cozinha. Os mais belos sonhos se realizaram na noite de Natal, ao lado de pessoas queridas.
O tempo passou, hoje nem tudo é tão perfeito assim, mas as lembranças daqueles Natais, daqueles momentos felizes, me acompanharam ao longo de toda a vida. Esteja onde eu estiver na noite de Natal, viajo ao passado e abraço meus avós, meus pais, experimento a expectativa do momento de abrir os presentes, embrulhados em papéis coloridos. A luz azulzinha da casinha de bonecas se acende e tudo se torna perfeito. Uma luz que me guia, abençoa e protege sempre, todos os dias. Amor!
Natal é esperança, a celebração do nascimento de quem veio ao mundo para nos salvar. Que seu Natal, com ou sem festa, com ou sem presentes, com muita gente ao seu redor, ou até sozinho, seja celebrado primeiramente em seu coração. O Natal acontece é no coração da gente!
Aos leitores desejo Feliz Natal!
Diva Latívia

16 de dez de 2011

O ESQUECIDO SUTIÃ


Quando o meu joelho direito estalou, imaginei que tivesse quebrado o dito cujo. A mudança de casa já rendeu dor nas costas, dor de cabeça e vários hematomas. A unha do dedão ficou lascada, a unha da mão quebrada.
Até parece que coleciono caixas de papelão. Durante vários dias, por onde eu passava, recolhia essas caixas. Jornais, então, nem se fala. Quando o rolo de plástico-bolha terminou corri até à banca de jornal. - Moço, quero seis jornais, mas quero o mais grosso. O sujeito me olhou como se eu fosse uma alienígena. Pela rua eu parecia uma catadora de papel. A pé, carregando toda essa tranqueira. Acho, se eu sentasse na calçada, alguém lançaria uma moeda.
Hoje cedo quis encontrar um sapato para ir ao trabalho. Fora das malas, somente havia um chinelo e um par de tênis. Sexta-feira, dia de visual casual. Decidi calçar o tênis e parar em uma loja de calçados. Adquiri meu centésimo terceiro par de sapatos, uma sandalinha verde. Quando Divo soube disso, avisou que ou eu me livro de oitenta pares de sapatos, ou não haverá espaço para mais nada no apartamento. Desta vez, a aquisição aconteceu por uma boa causa.
Precisei parar na farmácia e comprar uma caixinha de band-aid. Meu dedão estava com o esmalte vermelho descascado. Um ótimo disfarce o curativo. Assim que fui ao banheiro, quase gritei quando me vi no espelho. Eu tinha esquecido de vestir o sutiã. Coisa mais absurda, como pode uma mulher sair de casa, ir pro trabalho nessa condição? É nisso o que dá tamanha correria, tamanho cansaço. Saí do banheiro, olhei ao redor, vi dois colegas proseando enquanto tomavam café. Voltei pra dentro do banheiro. Pensei e pensei. Encontrei uma solução. Telefonei para a minha valiosa ajudante do lar, a Zezé.
Assim que ela atendeu disparou: - Dona Diva, “o homi que veio ligá o fugão disse que a senhora percisa comprá uma manguera di cobri”.
- Zezé, preste atenção. Preciso de sua ajuda. Vá na gaveta do meu armário do quarto, a segunda gaveta. Pegue um sutiã bege. Depois chame um táxi e traga o sutiã pra mim, aqui no meu trabalho.
- Quê?
- Zezé, eu preciso que você traga pra mim um sutiã.
- Dona Diva, a senhora bebeu aquela cachaça do seu Divo, foi?
- Zezé, pare de fazer piada. É sério! Agora mesmo, já, pegue o sutiã no meu armário e traga aqui pra mim.
- Posso não!
- Por que?
- O homi do fugão tá instalando a manguera di cobri.
Eu comecei a sentir uma mistura de raiva com desespero.
- Tá, Zezé, eu estou indo agora mesmo pra casa.
Saí do escritório sem ao menos dizer “tchau”. Parei o primeiro táxi que vi passar. O percurso entre o escritório e a minha casa, em dias normais, demora em torno de vinte minutos. Hoje o trânsito estava totalmente travado. Demorei exatos quarenta e cinco minutos para chegar em casa.
Mal entrei, dei de cara com o tal do técnico do fogão.
O cara olhou direto pros meus peitos, apesar de eu estar agarrada à pasta de trabalho. Disse bom dia e corri pro quarto.
Problema resolvido, fui à cozinha resolver o problema do fogão. O cara explicava algo e parava o olhar exatamente no mesmo lugar. Comecei a desconfiar! A linguaruda da Zezé, só podia ser ela, provavelmente comentou algo com o homem.
Serviço terminado, chamei a Zezé pra uma conversinha.
- Ai, a senhora é "perconceituosa”. Num fiz nada, apenas disse que a senhora “tava com um pobrema dos peito”.
Voltei pro escritório fazendo de conta que jamais tinha saído de lá.
Ou eu acabo logo essa mudança, ou essa mudança logo vai acabar comigo!

14 de dez de 2011

VISITINHA INDESEJADA


Acho que minhas histórias atraem os fatos. Poderia ser o oposto, mas os textos parecem saltar do blog, eles se materializam de vez em quando.
Hoje cedo olhei pro rádio relógio, estava apagado. Muito sonolenta, concluí que faltava energia elétrica. Dia nublado, a casa um tanto escura. Na sala um amontoado de caixas de papelão, sacolas e malas. A mudança de casa ocorrerá dentro de poucos dias. Uma bagunça que já rendeu espirros, uma topada feia no dedão do pé, arranhões e uma dor nas costas incrível. Sonolenta, quis ligar o fogão, preparar o café. Sem fósforos, a missão pareceu impossível. Achei um isqueiro depois de revirar duas caixas contendo louça. Café preparado, comecei a me preocupar. Como eu poderia tomar um banho, se o chuveiro deste velho apartamento é elétrico? Suspirei resignada: canequinha ou água fria, paciência.
Banho de gata já tomado, sentei na sala. A experiência, ao sentar-me no sofá, não foi das melhores. Algo espetou meu traseiro. Divo esqueceu sob a almofada do sofá dois porta-retratos. O créc seguiu-se ao meu “ai”, de dor. Por sorte, os danos foram apenas materiais.
E eis que meu olhar percorreu o chão da sala e lá estava ela, moribunda, tonta, procurando a saída: uma barata! Tamanho médio, nojenta, horrorosa!
Quando falta luz o despertador não toca. Divo poderia ter perdido a hora, não fosse eu ter acordado cedo. Divo poderia ter despertado com meu suave chamado, meu desejo de bom dia. Porém, ele acordou com meu grito desesperado: - Divo, corre aqui, mata, mata, mata!
Pobre Divo. Levantou zonzo de sono, tropeçou no amontoado de tapetes que deixei no corredor. Com a canela esfolada, olhou pra mim do mesmo jeito que eu olhava pra barata. Acho, se ele pudesse, me daria uma vassourada.
Um casal ter uma briguinha às vésperas de mudar de casa pode ser normal. Porém, Divo e eu somos dois gatos amarrados no mesmo saco. Dois gatos amarrados no mesmo saco e em plena “operação mudança de casa”.
Uma hora depois, a energia elétrica voltou. A barata ainda jazia juntinho da porta de entrada. Divo, quando saiu pro trabalho, pulou aquele cadáver e recusou-se a chutá-la pro corredor. Foi chegando a hora de eu sair, também ir pro trabalho. Eu olhava na direção da falecida e sentia um misto de pânico com aflição. Tentei passar depressa, sem olhar pro chão, mas não conseguia. Resolvi interfonar pro porteiro, o Severino. Expliquei que um bicho tinha entrado no apartamento, que precisava que ele viesse me ajudar. Não disse que era uma barata, afinal ele poderia menosprezar meus sentimentos. Munido de vassoura e inseticida, Severino, com a chave-mestra, entrou no apartamento. Assim que apontei pra defuntinha, o homem começou a rir. – Só uma baratinha, Dona Diva?
Quando a mortinha foi removida, resolvi procurar no Google o nome da fobia de barata. Nada aparecia. Acho, de tão abalada, troquei a letra “r” pela letra “t”. De modo insistente, eu digitava “fobia de batata”.
Já que este blog também é cultura, eis o nome da fobia de batata: celulite! E o nome da fobia de barata é: catsaridafobia. Com esse nome, merece um apelido: catsa!

9 de dez de 2011

QUANDO A LUZ APAGOU


Algumas crianças têm medo de escuro. Eterna criança, assim eu sou. Escurinho bom é o do cinema, do meu quartinho na hora de, literalmente, dormir. Mas, escuro inesperado, isso me deixa apavorada.
O temporal caiu no final da tarde. Aquele horário da nostalgia, quase comecinho da noite. O bucólico horário da Ave Maria: dezoito horas. O vento zunia insistentemente. E eu, sozinha em casa, mal tinha chegado do trabalho e tirado os sapatos. Assim que o relâmpago veio de mãos dadas com o trovão, faltou energia elétrica. Lembrei que tinha visto uma barata cascuda no corredor, pertinho da garagem. Meu primeiro impulso foi procurar uma vassoura. Pensei: vai que a danada entre em casa? O meu segundo impulso foi sentar no sofá e recolher as pernas, para evitar o indesejável inseto. Assim fiquei , com o coração aos pulos, sei lá por quanto tempo.
O escuro foi chegando rapidamente. A luminosidade vinha dos raios. Cismei que a barata caminhava sobre o tapete. Calculei: se ela entrou pela porta da sala, se eu sair pela esquerda, não vamos as duas nos encontrar. Posso chegar à cozinha, pegar o inseticida e me defender.
Cheguei à porta da cozinha, tropecei no banquinho deixado de qualquer jeito logo de manhã. O dedinho latejava. Quis ver o tamanho do estrago, mas naquele escuro eu só podia sentir a dor. Mas que dor! Fósforos, sabia que tinha uma caixa deles. Onde? Talvez na mesma prateleira onde guardava as velas. Outro relâmpago, olhei pro pé, ao invés de olhar pra prateleira.
Tateando, cheguei a um frasquinho cilíndrico. Espirrei um pouco no ar. Que arrependimento, pude perceber que o aroma era de limpa-vidros! Continuei tateando, derrubei o rodo, a caixa de sabão em pó e o cestinho de prendedores de roupas.
Foi então que senti algo fazendo cócegas em minha perna. Gritei desesperada. Era ela, a barata! Saí desembestada pela casa, dei de cara com uma parede.
Acordei com Divo batendo de levinho no meu rosto. – Anjo, anjo! Você está bem? O que aconteceu?
A luz tinha voltado, eu estava caída no corredor. Um imenso galo na cabeça, totalmente zonza.
A barata nunca encontrei, talvez ela tenha tomado um susto tão grande quanto eu, desmaiado em algum cantinho escondido qualquer.
Desse dia em diante, passei a guardar um kit de sobrevivência para apagões de energia elétrica. Uma caixa contendo: lanterna com pilhas, fósforos, velas e inseticida. Mulher prevenida é assim!

8 de dez de 2011

UM NÚMERO MENOR QUE EU


Final de ano e seus contratempos, suas correrias infindáveis. Outro dia ganhei uma blusinha. Linda e de grife. O problema foi o tamanho da blusinha, um manequim menor que euzinha aqui. Sem tempo, aliás sem a menor vontade de ir ao shopping trocá-la, fui protelando a desagradável excursão ao lotadíssimo centro de compras. Já que não emagreci 3 kg em duas semanas, acabei achando um tempinho e fui trocar a bendita blusa. Mal entrei na loja, chiquérrima e caríssima, a vendedora veio na minha direção, sorridente e quase saltitante. Assim que proferi a minha intenção de fazer a troca da minúscula peça de roupa, aquele sorriso simpático se transformou em uma testa franzida. Por gentileza, me acompanhe, vou falar com a gerente.
A gerente parecia uma executiva ocupadíssima, uma dessas que trabalham no mercado financeiro. Nervosíssima, estressadíssima. Assim que soube que esta criatura aqui tinha adentrado na loja para realizar uma troca de mercadoria, olhou-me com profundo descaso. Pediu a blusa, pegou-a com jeito desconfiado. Olhou, olhou, examinou a etiqueta. Você comprou quando? Expliquei que não comprei, que eu ganhei. Continuou a examinar a peça. Por gentileza, a nota fiscal do produto.
Meu cérebro deve ter dado umas voltas antes de eu dizer irritada: que nota fiscal?
Não tem a nota fiscal? Sinto muito, não poderemos ajudá-la.
Mas...
Lamento, senhora, as trocas são feitas mediante a apresentação da nota fiscal da mercadoria.
Mercadoria... Pensei em outra coisa que começa com mer... Que mer...
Costumo ser gentil, educada. Porém, a paciência já estava frita e torrada. Desde quando alguém que ganha um presente recebe a nota fiscal, especialmente de roupas?
Alegação da tal gerente da loja: entre em contato com a pessoa que te deu o presente e peça a nota fiscal. Pra piorar, disse que eu poderia ir pra Granja Viana ou Ituverava trocar a blusa, pois lá são feitas as trocas sem nota fiscal.
Uma loja de grife de renome perdeu uma cliente em potencial: Diva Latívia.
Não sei se vou emagrecer, nem sei quantos quilos irei emagrecer. Talvez, em pouco tempo a blusa caiba certinho em mim, basta uns dois ou três quilos a menos e pronto. Mas, já resolvi: dessa blusa quero distância.
Mal saí da loja, tocou meu celular. Era o Divo. Queria saber onde eu estava. Na verdade, eu estava em uma espécie de inferno lotado de gente fazendo compras natalinas. Pra espairecer, relaxar, tratar de esquecer, comprei duas sandálias. E tem coisa melhor que comprar sapatos para compensar todo e qualquer sofrimento?

7 de dez de 2011

TUDO NOVO


O que você quer ganhar de Natal? A pergunta , que ele não respondeu, me levou ao shopping duas vezes. Olhei vitrines, entrei em várias lojas. Tudo parecia bonito, mas tão sem graça! Acho que presente bom é aquele simples, mas que combina certinho com a personalidade e a necessidade do presenteado.
Pensei em comprar uma máquina de fazer pães pra ele. Achei loucura, isso certamente ficaria encostado em algum canto da cozinha. Pensei depois em comprar um novo relógio de pulso, algo de grife. Outra bobagem, ele tem tantos relógios! Eis que, entre um corredor e outro do shopping, resolvi sentar em um banco, pra descansar. Bem em frente ao local onde eu estava sentada, havia uma agência de viagens. Acho, meus olhos devem ter brilhado. Entrei e perguntei sobre todos os pacotes de viagens interessantes para o mês de janeiro. Resolvi qual seria o presente de Natal dele: a nossa viagem de lua-de-mel.
Foi assim que Divo teve que tirar férias, foi assim que eu também pedi férias. Em plena correria de final de ano, falta muito que fazer para encerrar todo o meu trabalho. Falta muito também para terminar de preparar a mudança para a casa nova. Mas, em meio a tamanho corre-corre estou feliz. Muito feliz. E tem coisa melhor que começar tudo do zero? Ano novo, vida nova, casamento novo. Estou que é só alegria!
Este é um dos últimos textos que publico em 2011. Um ano com altos e baixos. Saudade, perdas, preocupações, contratempos. Mas, em meio a todo o temporal, Divo e eu permanecemos juntos, na alegria e na tristeza. O resultado disso é o casamento que aconteceu quietinho, sem alarde, sem ao menos percebermos. Casados no coração, um laço bonito, feito pra durar. O Amor nos torna mais belos, nosso olhar se modifica!
Ano que vem muitas histórias haverão de inspirar meus textos. Casa nova, empregada nova, vizinhos novos, acontecimentos muitos que deverão caber em letrinhas aqui publicadas. Entendem agora por que ando sumida? Quantas emoções!

4 de dez de 2011

A MORTE DO EX-JOGADOR SÓCRATES


Acordei sentada diante do computador. Ao meu lado um copinho de café com leite. Bebo café no copo, isso dá mais gosto. Primeira coisa que li: Morreu o ex-jogador Sócrates.
Quem perdeu alguém que amava para o alcoolismo chora aos pouquinhos, diariamente, indefinidamente. Pela perda, pela dor, pela impotência. Eu choro um pouquinho todos os dias.
Como se diz por aí, o que não mata, engorda. O álcool consegue fazer as duas coisas: engorda e mata também.
Beber pra comemorar, beber socialmente. Beber com os amigos. Beber naquele churrasco de final de semana. Beber pra afogar as mágoas. Beber pra esquecer. E então, um dia, alguém começa a beber muitas vezes, beber regularmente, beber e beber. Os danos não se limitam a si mesmo, extravasam o corpo e atingem a vida de quem está perto de si.
Para o alcoolismo perdi pessoas que eu amava profundamente. O alcoolismo dessas pessoas matou o brilho do meu olhar, quando eu ainda era jovem, muito jovem. O alcoolismo de quem estava muito perto de mim destruiu sonhos bonitos que eu plantava. O alcoolismo de quem estava ao meu lado tirou de mim a alegria dos finais de semana. Apagou as luzes de muitas festas de Natal em família. Arrancou de mim a paz.
Lamento pelo Doutor Sócrates. Lamento especialmente por sua família, pelos que tentaram ajudá-lo em vão. A dor de quem perde um parente, um amigo para o vício de uma droga qualquer, é dilacerante. Creio que se assemelha à dor de quem saltou na água para tentar salvar alguém se afogando, mas não conseguiu salvá-lo. Assim me senti quando enterrei quem amava: ineficaz. Não consegui.
Descanse em paz, Sócrates. Que pena, percorrer esse caminho do alcoolismo é caminhar na beirada do desfiladeiro. Adeus.

1 de dez de 2011

NOTA DA AUTORA


Eu lhes devo uma explicação, leitores.
Atire a primeira pedra, ou "clique aqui" quem nunca teve problemas de conexão da internet. Fui inventar uma moda nova, adquiri um novo modem para o meu notebook. Tudo funcionou muito bem durante as primeiras semanas. Pouco a pouco a internet ficou lenta. Mais e mais, mais e mais... Até eu ficar completamente sem conexão. Comecei a telefonar para a operadora de celular, reclamei, resmunguei, mudei as configurações do tal do modem. E nada! Adquiri um novo modem, quase enlouqueci, aliás quase enlouqueci os funcionários da tal operadora e Divo, que não é flor que se cheire, anda mais zangado comigo do que nunca. Irritante, irritável, sem internet eu fico insuportável. Muito pior que tudo isso foi a falta de comunicação. Quem não se comunica, não publica. Não pude divulgar meus últimos textos durante vários dias. Agora, assim parece, tudo voltou ao normal. Tomara que meus textos possam, daqui em diante, chegar até vocês. Senti saudade!

Diva Latívia

30 de nov de 2011

À MINHA MATRIZ


Esta Diva tem uma matriz. Vim de uma forma com linhas tortas, mas que de tão bela que era me fez assim, do jeito que sou. Só posso agradecer!
O céu hoje está nublado, mesmo assim ela brilha infinita, estrela cintilante. Eu também estou nublada, saudade é o mais complexo e incompreensível de todos os sentimentos que já experimentei. Minha mãe pulsa em mim. Hoje, 29 de novembro, dois anos de seu falecimento.
Mami, descobri que Deus existe quando você partiu e veio me abraçar. Agora sei que um dia nos encontraremos novamente, para celebrar a vida, pra sempre!

23 de nov de 2011

SENHORITA MOCINHA


Em plena Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, meus passos apressados, entre rostos desconhecidos, automóveis, vultos acelerados. Saí da estação do metrô e alcancei a rua. Eu tinha apenas uma hora para resolver algo burocrático, chato, urgente. Todo documento é precedido de uma imensa amolação. Autorizações, arquivos, pendências, carimbos, grampos, papéis, assinaturas. E eu, com aquele papelzinho em mãos, só precisava encontrar quem recebesse o documento, pra resolver a questão e voltar ao escritório.
Já entrei estressada no edifício comercial. Santa paciência, ir de salto alto a uma avenida daquelas? Pensei em tirar os sapatos e andar descalça, ganharia tempo. Jurei que, na próxima vez, usaria tênis. Já vi isso por aí, mulheres vestidas de tailleur, roupa formal, e tênis nos pés. Deselegante, talvez, mas a solução pareceu inteligente naquele momento. Um lamento. Meus pés doíam.
Na recepção do prédio venci o primeiro obstáculo: - já tem cadastro conosco? Não, eu não tinha cadastro algum. - Seu RG, por favor. A mania de usar bolsa grande, isso também preciso rever. Dentro da minha bolsa tinha de tudo. Encontrei um grampeador de papel, escova de cabelo, a fatura do cartão de crédito, uma sombrinha ( isso é coisa do tempo da vovó). - Acho que esqueci o RG no escritório. Andar por aí sem documentos, querer ficar descalça. Onde estaria o meu juízo? Por falar em juízo, tentei argumentar com a recepcionista. - Meu bem, eu não trouxe o RG porque saí correndo do escritório. Por favor, me ajude, senão vou perder meu emprego.
Acho que ela sentiu peninha de mim, consegui o que pretendia. A foto, feita com aquela webcam, deve ter ficado horrorosa. - Olhe pra cá, por favor. Clic! Eu de óculos de grau, cabelos desalinhados, com cara de quem ia entregar um papel pra um tal de diretor financeiro de uma tal de instituição. Cruz, credo!
Crachá deveria ser aquela coisa pendurada no pescoço. Agora não é bem assim. A gente encosta o crachá em uma catraca eletrônica. Aparece uma setinha verde e pronto, pode passar. O crachá que estava comigo parecia ter entrado em greve, não funcionava. Uma, duas, três tentativas. Vontade de falar aquele palavrão bem cabeludo. Ao meu lado um segurança do tipo 3x4, fortão. – Mocinha, você precisa de ajuda? Sorrindo, o olhar brilhando, ele liberou a catraca, finalmente. E tem coisa melhor que encontrar um príncipe encantado em um momento de sufoco?
A mocinha aqui resolveu o problema burocrático, passou de novo pela catraca eletrônica e escutou algo assim: - Até logo, senhorita. Voltei pro escritório. Eu, dez quilos mais magra, dez anos mais jovem, dez vezes mais poderosa. Senhorita Mocinha! Pra quê mais?

22 de nov de 2011

QUANDO A GENTE AMA, ISSO É PRA SEMPRE!


Essa coisa de amor, essa coisa de paixão. Ainda haverei de entender isso, mas eles não entendiam disso não! Cada vez que eles dois se encontravam, isso de tempos em tempos, parecia que o mundo parava de girar e toda a luz do sol focava neles. A tal da cotovia, aquela do Romeu e da Julieta, assobiava era pra eles. Feitos um pro outro. E quem não gostaria de ter um par perfeito? Eles dois eram exatamente assim: perfeitos, mas teimavam em permanecer ímpares. Ou meio assim.
Um dia ela chegou em casa se achando um lixo. Nem adiantava pensar em reciclagem, ela estava se sentindo um lixo sem aproveitamento. Irreciclável, por assim dizer. Tirou os sapatos, as meias. Abriu uma garrafa de vinho. Isso às 3 horas da tarde, sozinha, sem companhia. Ligou o rádio em uma estação de música dos anos 80. A cada gole de vinho, brindava ao amor insatisfeito. Naquele dia ela estava do avesso, daria tudo por um daqueles beijo de aeroporto, que só mesmo ele sabia dar.
A história do beijo de aeroporto vem dos filmes de Hollywood. Aqueles beijos na boca, de tirar o fôlego. Beijo de novela. Ele sabia beijar como ninguém, suas bocas se encaixavam do jeito certo, com o sabor ideal, tudo feito sob medida, um pro outro.
Ela secou a garrafa. Nem estava tão bêbada assim, mas resolveu telefonar pra ele. Perguntou sobre o dia, perguntou sobre coisas frugais. Faltou dizer que o amava tanto que, se pudesse, entraria pelo telefone, descalça e tontinha de tudo.
Quando desligou o telefone, estava sentada em alguma nuvem. A voz de seu amado ecoando em seus ouvidos, o coração batendo descompassado. Resolveu tomar um banho, água quase fria, queria tirar da pele o sentimento incontrolável por ele. Deixou a água escorrer pelo corpo, pra passar a tonteira, pra voltar pra realidade. O resto do dia sonhando. Sonhando com ele.
Amor de verdade é assim, não adianta tentar fugir dele. O amor fica.

21 de nov de 2011

ATÉ QUE O RONCO OS SEPARE


O despertador tocou às 06h30. Ela abriu os olhos com dificuldade, a vontade era de virar pro outro lado e dormir mais algumas horas. Devagarzinho lembrou que era segunda-feira, que os compromissos diversos a esperavam. Sonolenta, levantou-se. A noite tinha sido longa, mal dormida. Ao seu lado o futuro marido, que se transformou durante a madrugada em um tipo de adversário, brigaram pelo pequeno espaço, o território coberto por um edredom e delimitado pelas dimensões da cama de casal.
Duas vezes acordou descoberta, uma vez acordou com uma cotovelada no meio das costas. Eram 03H00 quando ela novamente acordou, ele tinha abraçado o seu travesseiro e ela estava com a cabeça meio pendurada pra fora da cama. Às 04H10, ela escutou ele resmungar qualquer coisa meio assim: vai mais pra lá! Depois disso ele começou a roncar insistentemente. Irritada, ela foi ao banheiro e encontrou naquela gavetinha debaixo do armário um pacotinho de algodão, fez dois chumaços para tapar os ouvidos. O som do ronco parecia atravessar não apenas o tampão improvisado em suas orelhas, mas penetrar em seu cérebro e dar duas voltas em sua sanidade mental. A vontade era de socar o namorado, mas conseguiu se controlar. Levantou-se outra vez, olhou pro relógio, eram 04h40. Resolveu dar um basta na situação. Pegou um remedinho pra dormir, receitado há mais de um ano pelo seu cirurgião plástico, isso coisa do tempo em que colocou silicone nos seios. Tomou um comprimidinho sem calcular as consequências, tudo o que ela queria era dormir.
O despertador tocou às 06h30. Em pé no corredor de acesso à cozinha, não conseguia ir pra lado algum. Pegou água para preparar o café e se esqueceu de ligar o fogão. Foi pro banheiro escovar os dentes e pegou a escova de dente dele, sem perceber o que fazia. Derrubou pó de café no chão, falou um palavrão. Resolveu tomar uma ducha fria, pra despertar. Quase adormeceu dentro do box do banheiro. Bebeu três xícaras de café, mas não conseguia voltar ao estado normal de consciência. O namorado a encontrou dormindo na poltrona da sala, cabelos molhados, enrolada em uma toalha de banho. Tentou acordá-la, não conseguiu. Ela despertou às 11h30, coberta com o edredom. Ao seu lado um bilhete: “amor, quando acordar telefone pra mim”.
Sonolenta, a boca amarga. Correu pro escritório, inventou uma desculpa para o sumiço matinal. Passou a tarde inteira fazendo força pra não fechar os olhos e cair de cara na mesa de trabalho. Às 18h30, entrou em uma loja de móveis e comprou uma cama de tamanho king size. Ao ver todas aquelas camas expostas no showroom, sentiu vontade de deitar ali mesmo e dormir um século de sono profundo.
Eles dois não mais brigaram durante a noite pelo mesmo espaço. O único problema é que ele continua roncando e, parece, ela vai ter que se acostumar com o barulhão. Pra ronco, não há cama gigante que resolva. Amor é o mais sublime dos sentimentos, ronco um antídoto poderoso contra qualquer traço de romantismo. E durmam com esse barulho!

18 de nov de 2011

30.000 VISITAS!


Chegamos a 30.000 visitas nesta data.
Um dia de festa, de alegria. Uma sexta-feira especial!
Obrigada a você que acompanha minhas histórias.
Obrigada a quem me trouxe até aqui, meu irmão e amigo Abílio Manoel.

Diva Latívia

17 de nov de 2011

FELIZ ANIVERSÁRIO!


Aniversário de Divo e eu sem a menor inspiração há vários dias. Vim caminhando entre o trabalho e minha casa. A pé e pensando nisso. Escrever depende da minha alma, que anda meio jururu nas últimas semanas.
Estava embebida em lembranças e preocupações muitas, um passo e outro totalmente distraída, quando tocou meu celular. Era o Divo. O projeto de decoração do novo apartamento estava pronto, a decoradora mandou as imagens pro meu e-mail. Apressei meus passos, ansiosa para logo ver como tudo ficaria arrumado! A internet não colaborou, estava lenta. Preparei um café, voltei pra sala. Aos pouquinhos o e-mail abriu e pude ver a sala de estar e a sala de jantar. E imaginei nós todos sentados à mesa. Amigos e parentes. Rindo e celebrando a vida. Uma confraternização com laços fortes do mais autêntico afeto.
Não sei ainda como farei para guardar toda a louça antiga que herdei de minha mãe. Não sei como farei para guardar sequer a quantidade enorme de roupas e sapatos que possuo. E isso, realmente, não importa. O mais importante é que, sem muito esforço, o rio da vida trouxe Divo pra mim. E eu, que tanto sonhava com uma vida a dois, tenho um par que encaixa certinho no meu dia-a-dia.
Que seja assim, bonito assim, até o fim, pra você e pra mim. Mais que amigos, mais que cúmplices. Um dueto que cabe em um sonho que virou realidade. Que a gente saiba conduzir essa nave espacial que chamam de “amor”. Que sejamos felizes, sem muita complicação e com muito respeito.
É aniversário de Divo. O presente que ele ganhou, até eu gostaria de ganhar, mas há um prazer imenso em presentear quem a gente ama. Comprei pra ele um desses toca-discos estilo retrô. Bonito, charmoso. Para ouvirmos os quase duzentos discos de vinil, ou LPs, que temos em comum. Lá em nossa nova casa.
E tudo o que parecia impossível, aconteceu. E tudo o que jamais imaginaríamos mudou completamente nossas vidas. A gente se conheceu na contramão de nossas histórias e, quem diria, a gente floresceu. Uma nova etapa, em um novo cenário, tudo isso começa com essa nossa vontade de sermos felizes e compartilharmos essa nossa felicidade.
Divo, querido, parabéns pelo seu aniversário! Ao som de todas as músicas que nos acompanham desde a juventude e, especialmente, ao som do tilintar das herdadas taças de cristal em nosso brinde. Saúde, Divo! Saúde para termos vida no tempo que nos espera. Saúde pra você, pra mim e pra quem leu este texto.

12 de nov de 2011

IOIÔ DE IAIÁ ( pra vc)


Quando era menina escutava a história de seus avós, enquanto saboreava bolo de fubá e café com leite. Sentados à mesa, a viagem seguia rumo ao passado, início do século XX. Na distante cidadezinha de interior, mais precisamente em 1941, seu avô, Laércio, vestido de terno de linho branco e elegante chapéu, entoava serenatas sob a janela de sua avó, Amália. O coral de vozes era formado pelos colegas da faculdade de Direito, acompanhados no violão por Silas, o farmacêutico. O repertório era de modinhas, hoje fora de moda.

Ai, ioiô,
Eu nasci pra sofrer.
Foi olhar pra você,
Meus zoinho fechou.
E quando os óio eu abri
Quis gritar, quis fugir.
Mas você,
Eu não sei porquê,
Você me chamou.

A noite nem bem havia caído, sob a janela do quarto da mocinha a turma de amigos caprichava na afinação e desfiava o repertório musical. Assim foi durante muito tempo, todos os domingos, até que o Vô Laércio terminou a faculdade, se firmou na profissão e, finalmente, pediu pro pai da Vó Amália a sua mão em casamento.
 Desde os tempos de menina, a cena que idealizava ao escutar aquela história atiçava a faísca romântica dentro de si. Sete décadas mais tarde, sentada na sala de seu apartamento. O notebook pertinho. Abriu os e-mails, entre as mensagens estava aquela que fez seu coração bater mais forte, mensagem dele. O título escrito apressadamente pelo remetente: pra vc. Assim estava escrita a mensagem: aceita uma serenata? Baixou o arquivo mp3 e ouviu a canção, entoada por um coral. Viajou ao passado, foi de encontro aos avós ainda jovens, foi à cidadezinha tão pequena, iluminada pelo luar.

Ai, ioiô,
Tenha pena de mim.
Meu senhor do Bonfim
Pode inté se zangar.
E se ele um dia souber
Que você é que é
O ioiô de iaiá.


Terminou de escutar a música e suspirou. Finalmente, a serenata a encontrou. Atravessou o tempo e chegou de modo inusitado, eletrônico. Sem terno branco, sem reverência. O mesmo amor, o mesmo gesto, de outra forma, em outra época. Gravou o arquivo em um pen drive com o seguinte título: serenata dele pra mim.

Chorei toda noite, pensei
Nos beijo de amor que te dei.
Ioiô, meu benzinho do meu coração,
Me leva pra casa, me deixa mais não.
Chorei toda noite, pensei
Nos beijo de amor que te dei.
Ioiô, meu benzinho do meu coração,
Me leva pra casa, me deixa mais não.


Na voz de Zélia Duncan, Linda Flor ( Ioiô de Iaiá).

9 de nov de 2011

FOTOGRAFIAS DE MIM


Cheguei em casa depois de um dia longo, cansativo, uma quarta-feira dessas que parecem infindáveis. Meu desejo era básico: um banho. Coloquei a chave na porta de casa, a sensação era de entrar no meu refúgio. Lar, doce lar!
Não deu tempo de suspirar feliz. Dei de cara com minha valiosa ajudante, a Zezé.
- Ô, dona Diva, a senhora sabe o que foi que aconteceu?
Minha vontade de abstrair aquelas palavras foi imediata. Preferia não ter ouvido nada.
Praticamente me joguei sobre o sofá. Exausta, uma guerreira de volta ao quartel-general.
- Pode dizer, Zezé.
- Eu abri aquela sua gaveta sem querer.
Tentei imaginar qual gaveta ela abriu. Gaveta de calcinhas? De remédios? De documentos? Essa terceira hipótese me afligiu.
- Qual gaveta?
- Tinha umas fotografias.
Era o que eu temia.
- A senhora usava franjinha quando era criança, né?
Eu me senti nua. Zezé pegou as minhas fotografias de infância. Naquela gaveta estavam as fotos de toda minha vida. Meus pais, meus avós, meus bisavós. Meu casamento, meu sorriso de felicidade. Amigos de outrora, gente que foi embora. Fotos em branco e preto, fotos que nem lembro mais. Minha vida retratada. E Zezé abriu a gaveta.
- O que mais você viu, Zezé?
- Vi a senhora feliz.
Isso foi o meu sinal de alerta. Eu já fui feliz. Não que eu não seja feliz, não é isso. Mas, olhando as fotos eu pareço ter sido muito mais feliz. Uma criança com o olhar inocente, uma adolescente sorridente. Quando será que a vida me pegou de surpresa e me chacoalhou assim? Quando será que perdi aquele mesmo sorriso, aquele brilho que eu tinha no meu olhar? Sei lá quanto tempo fiquei assim, a pensar na vida.
Fui pro banho e resolvi não jantar. Eu me tranquei no quarto e espalhei muitas fotos sobre a cama. Adormeci tarde, os álbuns antigos ao meu redor. E sonhei que ainda era criança, abraçada aos meus irmãos. Um sonho que se tornou colorido, mais e mais. Um jardim florido, cercada da proteção de meus super-heróis. Não sei explicar, não sei! Minha vida inteira coube dentro de uma gaveta!

6 de nov de 2011

TER IRMÃO É...


Ter irmão é uma vasta série de descobertas, passo a passo, lado a lado. É descobrir unidos que o recheio da minhoca é meleca. Que tatu-bola abre e fecha. Que daquele casulo vai sair a lagarta toda remodelada, em formato de borboleta. É a cumplicidade da pescaria dentro do aquário. A risada no mesmo tom. A espera ansiosa da chegada do Natal, rodeados do burburinho dos adultos, entre eles o Papai Noel. É pular ondas do mar, juntos, rindo sob o céu azulado e catando conchinhas espalhadas na areia. Tocar a campainha da casa vizinha e sair correndo. Estourar bombinha dentro da lata. E rir, rir, rir.
Crescer dividindo as dúvidas, somando novos ingredientes ao calor da vida. Ver as fotos antigas e relembrar o mesmo momento. Olhar dentro dos olhos um do outro e entender que ali está a explicação. Laço sem nó, que enfeita a alma da gente. Ter irmão é torcer pela vitória, participar das lutas, ser parte da alegria e da tristeza. Passo a passo, lado a lado, uma vez, outra vez, todas as vezes. Recomeçar, refazer, reencontrar a infância no sorriso refletido no olhar da gente. Ter irmão é o crescer da alma da gente. Passa o tempo, gira o mundo feito o colorido catavento, e a gente ainda sonha o mesmo sonho, ri das mesmas histórias, sente a mesma emoção. Assim é ter um irmão.

Para meus irmãos: Zeca, Flávio e Chicão.

5 de nov de 2011

NÓ NO CORAÇÃO


Deu claustrofobia nela. Olhou pela janela, lá fora um final de tarde lindo na cidade de São Paulo. Observou as nuvens espalhadinhas no céu, feito fiapinhos. O azul escondidinho por detrás daquele algodão doce, parecia brincar de esconde-esconde.  Passou um avião barulhento.  Uma criança riu feliz em alguma casa vizinha. Um cão latiu.
 Pôs-se a imaginar a felicidade alheia. O televisor ligado, estava desatenta à programação. Suspirou resignada. Quando tinha sido feliz? Lembrou do calor da areia sob seus pés, o mar morninho tocando seus tornozelos. O sorriso de seu filho ainda pequeno. O abraço caloroso de sua mãe. O sabor do bolo de aniversário recheado com doce de leite e ameixas pretas. O aroma dos livros na biblioteca de seu avô. A brincadeira com os irmãos no jardim de casa. O sabor do primeiro beijo. Aterrissou no brinde feliz do último revéillon. 
Encostou o nariz na vidraça da sala. Lá fora parecia ser mais feliz que dentro de casa. O passado mais feliz que o presente. Sentou-se na frente do computador e escreveu. Publicou no blog, feito prece. Uma oração ou um apelo. Murmurou tão baixinho que só seu coração ouviu: e agora, o que será de mim?

"É NÓIS"!

29.000!!!


Cheguei a 29.000 visitantes!
Falta pouco pra festa dos 30.000.  
A vocês, leitores, deixo o meu agradecimento!


Diva Latívia

4 de nov de 2011

AOS BAILINHOS DE GARAGEM


Meu vestido era azul com a estampa de flores miudinhas de cor branca. Na barra havia um babado e na cintura um laço. Minissaia. O salto da sandália que eu usava não era muito alto, acho que tinha uns sete centímetros. Nos meus lábios, brilho “love in gloss”. O perfume era "Charlie", da Revlon. Em pleno verão, bronzeada. Nada de protetor solar, na década de 70 usávamos bronzeador, de preferência caseiro e feito com ingredientes que hoje em dia são considerados um atentado ao bom senso de qualquer um. Cabelos longos e esvoaçantes, as garotas copiavam o corte do cabelo de Farrah Fawcett, atriz protagonista do seriado televisivo As Panteras.
Bailinhos de garagem, eram assim chamadas as festinhas com música, luz negra e cuba libre. Ao som de Bee Gees, Donna Summer, Elton John, dançávamos soltos, ou de rostinho colado. Músicas lentas, ou músicas rápidas. Sempre tinha aquele garoto que a gente tinha paquerado o ano todo, sem muito resultado. Diferente do tempo atual, nenhuma menina “de família” ficava com este ou aquele. Um beijo na boca era sinal de namoro iniciado. Ele me beijou, estamos namorando! E chegar ao beijo era uma longa história, que às vezes começava no primeiro dia de aula, com a troca de olhares pelos corredores do colégio. Seguia lentamente até o dia do bailinho, com a presença de ambos e a sorte de tocar aquela música, o fundo musical ideal para tornar real o sonho sonhado durante longos meses. Quer dançar comigo?
Voltei no tempo, parece que estou escutando How Deep is Your Love. Amor intenso, ligeiro, inesquecível. Resolvi procurar no Facebook o meu primeiro amor. Certa de que visualizaria um senhor gordinho, grisalho e irreconhecível, digitei seu nome e, que surpresa, ele tem perfil no Facebook e está ótimo, o tempo lhe caiu bem! Eu me contive, não enviei um convite. Veterinário, mora longe da minha cidade, tem filhos, uma longa história que desconheço, afinal perdemos o contato há mais de trinta anos. O perfume que ele usava pareceu ter saltado do computador. Como pude me lembrar disso? Era colônia após barba, talvez emprestada do pai, ou de um irmão mais velho. Fomos namorados de meia dúzia de beijos e só isso. Ele se mudou, foi cursar a faculdade em outra cidade. Lembro que chorei durante um mês, sem parar.
Eu me casei com um, ele se casou com outra. E lá está a criatura no Facebook. E foi assim que vim pro Word, eu saí da internet por precaução. Melhor não mexer com o passado. Será? Possivelmente, sim. Depressa despertei das lembranças. Viajante do tempo, recém-chegada na estação do presente, uma viagem com duração de três décadas. Aqui desembarquei com ruguinhas ao redor dos olhos, mas o mesmo ideal romântico de sempre. O meu coração ainda é o de uma garota.
Deixo pra vocês a música que embalou aquele instante: How Deep is Your Love, da trilha sonora de um filme de enorme sucesso naquela época, Saturday Night Fever, estrelado por John Travolta.

31 de out de 2011

A HISTÓRIA DELES DOIS


Ela tentou disfarçar. Há quanto tempo os dois não se viam? Muito tempo! Os e-mails eram ocasionais, as notícias esporádicas. Quando ele parou a poucos metros de si, tentou ser natural, mas o coração estava disparado. Aqueles olhos castanhos tinham o poder de refletir o brilho de seu olhar, ela se via nos olhos dele. Comunhão de almas. Tentou sorrir, mas riu de um jeito tímido, nervoso. Calculou: um ano? Dois anos? Não conseguia pensar direito.
Sentaram-se lado a lado. Escondeu as mãos, estavam geladas. Evitou olhá-lo dentro dos olhos novamente. Qualquer gesto a delataria. Todas as vezes que ela se sentia assim, disparava a falar. As palavras se derramavam feito um temporal. Falou do trabalho, da família, de sua impressão a respeito do cenário político. Evitou falar de seu novo relacionamento, sensação de abismo, pra não ficar sozinha encontrou um novo alguém. Se pudesse, voltaria no tempo, começaria tudo outra vez, só pra não perdê-lo de vista. Nunca mais. A saudade corria em suas veias, secava sua boca, parecia um perfume impregnado em sua alma. Em vão tentou esconder o que sentia. Seus olhos se encontraram com os dele.
Longo silêncio, ela tocou suavemente uma mecha dos cabelos grisalhos e desalinhados dele. Esperou um sinal, um gesto. Desejou mudar todo o rumo de suas histórias, trilhar juntos a mesma estrada, no mesmo ritmo e direção. Ele olhou para relógio de pulso, levantou-se apressado, despediu-se evitando um novo encontro de olhares, seguiu a rua por ela observado, passo a passo, até desaparecer na curva.
Voltaram a se ver muito tempo depois. Ela casada, ele sozinho. Ele se sentou ao seu lado, admirando o seu olhar. Longo silêncio. Ele disfarçou a inquietação e o coração acelerado e tocou suavemente uma mecha dos cabelos dela. Ela se afastou alguns centímetros, atendeu o celular, levantou-se apressada. Quando se despediram evitou olhar dentro de seus olhos e foi embora, sendo observada por ele, passo a passo, até desaparecer na entrada do metrô.
Ela tentou ser feliz no casamento. Ele aproveitou a vida ao seu modo, preenchendo o tempo com novidades muitas e afazeres interessantes. Não se encontraram mais, mas não se esqueceram. Jamais.A vida é feita de sonhos e de escolhas. Feita de encontros e despedidas. De decisões e de esperança. De expectativas e mudanças.
Anos mais tarde, encontraram-se no saguão do aeroporto. Ela, ao lado do marido. E ele com uma mulher que conheceu na internet. Era a terceira namorada que tinha em menos de um ano. Fingiram não se ver. Ela lembrou rapidamente de toda a história e sorriu tranquila, havia superado. E ele? Viajou e voltou pensando nela. Despedidas deveriam caber apenas em textos, mas o adeus se encaixou sob medida na vida dos dois. Definitivamente, desencontraram-se

27 de out de 2011

O BOTÃO DA BLUSA QUE EU USAVA


Acordei atrasada, tomei banho às pressas, vesti a primeira roupa que peguei no guarda-roupa. Bebi um suco de laranja, aqueles de embalagem longa vida. Quando cheguei à rua, um morador vizinho me cumprimentou com o olhar esquisito: - oi, lindo dia! Achei tão bonitinho, respondi: pra você também. Entrei no metrô. O homem da bilheteria pareceu ter fixado em mim os olhos. Eu era a terceira da fila, mas ele olhava pra mim. Pedi dois bilhetes, ele ainda continuou a olhar pra mim. Resolvi me despedir dizendo o que o vizinho tinha dito pra mim: tenha um lindo dia. Ele sorriu meio de ladinho, fez sinal de positivo. Que gracinha!
Ai, eu estava me sentindo uma sementinha do bem. Tão bom encontrar pessoas com a alma elevada! Entrei no trem do metrô. Um garotão de uns 16, 17 anos, sentado bem em frente a mim, sorriu. Sorriu e não tirava os olhos de mim. De novo? Assim foi até a estação Sé, quando me levantei pra descer do trem. E, na escada rolante, um homem mais velho disse: ô coisa linda! Um homem galante. Eu estava nas nuvens.
Cheguei à repartição pública onde precisava entregar um documento. O recepcionista pediu o meu RG e também o número do meu celular. Obediente, forneci o que ele solicitou. Cheguei ao andar que procurava, perguntei pelo tal do Sebastião Haroldo, o chefe da sessão. Entrei na sala do sujeito. Atrás de pilhas de papel, grampeadores, computador antigo, lá estava o dito cujo. Pareceu indiferente à minha presença. Esperei, impaciente. Por fim, olhou pra mim. E, sem nada dizer, sorriu. Novamente, olhos fixos em mim. Pegou o papel, algo que deveria ser indeferido, afinal esses órgãos públicos complicam tudo. Pois ele pediu que eu sentasse, ofereceu café, água. Sempre olhando pra mim. Perguntou se eu era solteira, se era casada. E deferiu o pedido! Sinceramente, eu agradeci aos Céus. Aquele era o meu dia de sorte!
Fui direto pro trabalho. O porteiro sorriu simpático, o ascensorista me chamou pelo meu apelido e disse que eu estava linda. Ai, que felicidade! Quando entrei na minha sala, sentei na cadeira, veio a Cidinha, minha colega. – Diva, pelo amor de Deus! Você está com a blusa totalmente desabotoada, feche isso! Olhei pra minha roupa. O botão aberto, na altura do decote. Tudo de fora. Foi assim que entendi que não fui abençoada com energia positiva vinda dos meus semelhantes. Não foi bom astral, nem bondade. Eram homens admirando a paisagem, janela aberta, botão faltando. Acabei de receber um torpedo no celular: gostosaaaaa!!! Pensei que fosse engano, mas lembrei do recepcionista da repartição pública. Só pode ter sido ele. Como dizia minha avó: pra viver é preciso ter peito. Isso eu tenho de sobra.

26 de out de 2011

CASAMENTO: QUANDO UM QUER, MAS O OUTRO NÃO QUER


O que fazer quando ele não quer casar, quando ela não quer casar? Um namoro deveria rumar pra um compromisso sério, sem passos trôpegos, sem divergências estruturais. Inevitável que, diante dessa divergência de objetivos, aconteça uma cisão, um abalo no relacionamento.
Tenho escutado, feito um mantra em meus ouvidos, a seguinte afirmação: casamento não serve pra nada, pra quê casar? . Quanto mais escuto, mais penso no quanto é importante a comunhão de esforços, o mesmo ritmo, a mesma intenção, para que o relacionamento valha a pena, seja feliz, faça sentido.
Tem que ser bom para os dois. Sem brigas, sem mágoas, sem medos. Tudo claro, simples e conversado. Um não quer casar, o outro quer casar. O que fazer? Há duas alternativas, as mais evidentes: parar ou continuar. Um dos dois vai abrir mão de algo, sacrificar o que deseja pra si, em prol do casal. E quem ama se sacrifica em favor do par. Até que ponto isso é bom? Um casamento que começará assim, com um sacrifício da vontade, abrindo mão do que se quer pra si, poderá ser um casamento feliz?
Dessa falta de união de objetivos, surgem dúvidas que machucam muito aquele que escuta as negativas: será que sou amado? Será que sou amada? O risco, que é natural e sempre existe. Somente o passar do tempo, o enfrentamento das muitas dificuldades da vida, é que fortalecerão a relação. Casando, ou não casando, se vai dar certo ou não, será sabido depois de certo período. Muitos dias de sol, muitos dias de chuva, muita água sob a ponte. O resultado chegará depois de algum tempo.
Acho que a pergunta principal é: quem ama age assim? Quem ama pega trilhas paralelas no caminho da vida? Eu acho que não. Quem ama se transforma em pedra no caminho do par? Claro que não. Quem ama fica ao lado, quem ama quer o bem. Quem ama não se imagina sem o ser amado. E se for preciso casa, não casa, mas faz isso pensando no melhor pra si e pro casal. Sem individualismo, sem egoísmo, sem causar sofrimento, sem sacrifícios que te anulem.
Vale a pena conservar um relacionamento com tamanha divergência de objetivos? Cada um tem que encontrar, por si, essa resposta. Investir em uma relação que causa mágoa, sem harmonia de ideais, isso não vale a pena. Quem ama não solta, não abandona, não machuca, não destrói sonhos, quem ama faz planos bonitos lado a lado. E se não for assim, é um relacionamento oco, sem o ingrediente principal: amor. Tem que fluir com naturalidade, sem fazer muita força, de um jeito gostoso. Não quer casar, mas ele quer. Não quer casar, mas ela quer. Será que o melhor não seja parar tudo e ir procurar alguém que pense parecido com você? A separação dói. Viver em um relacionamento sem ser amado, amada, isso dói muito mais.

Leitores: recebo muitos comentários nesta postagem. Recomendo a leitura desta outra publicação, aqui no blog: Casamento: sim ou não?

ATENÇÃO LEITORES: Os comentários desta publicação continuam a ser recebidos, respondidos e publicados por mim. Vocês ultrapassaram 200 comentários aqui e o blog direciona para uma segunda página. Vocês poderão visualizar seu novo comentário e minha resposta olhando em letrinhas miúdas, abaixo da publicação dos comentários, clicando em "mais recentes". 

25 de out de 2011

O AMOR DENTRO DO AQUÁRIO


A vida passa correndo e os personagens de nossas histórias são muitos. Dos parentes aos amigos, dos amores aos desamores, dos conhecidos aos que apenas vemos diariamente e não sabemos qual é o seu nome. Alguns marcam profundamente o nosso caminho,outros tentam nos atrapalhar. É uma trama complexa, rica, bonita, triste, engraçada, comum ou não.
Hoje um dos personagens da minha história parecia saltitar em minhas lembranças. Parecia dizer: hei, lembra de mim?.
Sentei no cantinho da sala, no horário do almoço. Sem fome, alimentei o espírito com as recordações doces de um tempo remoto. Peter Pan! Não, não é o Peter Pan dos contos infantis. Peter Pan era um peixinho dourado, seu aquário ficava sobre o piano de minha casa. Os acordes do piano o faziam bailar, adorava música. A família toda o alimentava. Minha mãe perguntava: já deram comida ao Peter Pan? A resposta costumava ser positiva e sequencial: sim, sim, sim e sim. Todos haviam depositado comida no aquário. Dizem, peixes morrem pela boca. Ele não! Viveu um tempo recorde para um exemplar de sua espécie: cinco anos!
Cães são ótimos companheiros, gatos são manhosos. Peter Pan, assim que nos aproximávamos, fazia festa. Ele nos reconhecia. Tornou-se membro de nossa família, era querido por todos nós. Comprado na feira, dentro em um saquinho plástico. Quem diria que aquele serzinho tão miúdo pudesse se transformar em alguém tão amado, importante e inesquecível?
Ele se foi e, contrariando aquele hábito que muitos têm, de jogar no lixo o corpinho inerte de um peixinho ornamental, nós o enterramos no jardim. Com solenidade, respeito e muitas lágrimas.
Amigo pode ter várias formas. Pode ser humano, pode ter quatro patas, pode ter bico, penas, ou escamas. Amigo só nos faz bem, sem pedir nada, senão a nossa felicidade. Quantos personagens em minha história! De muitas formas, de muitos modos.
Este texto é seu, Peter Pan. Amigo querido, que virou estrelinha brilhante lá no Céu.

22 de out de 2011

O CARA ERRADO


Os amigos sempre torceram o nariz pro Mário Lúcio. Insistiam: ele não combina com você, Solange.
Há seis meses eles namoravam, se conheceram na academia, em uma aula de pilates. A Solange tinha engordado três quilos. Depois de fazer todas as dietas, especialmente aquelas publicadas em revistas, decidiu ir malhar. O Mário Lúcio era o tipo do cara que saía da academia e bebia seis latinhas de cerveja em seguida. A academia, pros dois, era passatempo e arapuca pra capturar uma nova paquera.
No dia que se conheceram, foram direto da academia pra um barzinho. O namoro começou no dia em que a Solange o convidou pra comer pizza com a turma da faculdade. Daí em diante, começaram a caminhar juntos no parque, uma vez por semana. Uma hora de caminhada, compensada com macarronada, sanduíche, salgadinho.
No terceiro mês de namoro tinham engordado tanto que as roupas estavam justas, mal cabendo em cada um. Por fim, em comum acordo, decidiram abandonar a academia. Uma vida sedentária, sem muitos passeios, sem muito o que fazer. Passavam horas a fio na frente do televisor, assistindo às novelas e programas de auditório. Ele não esqueceu dos amigos, aqueles do chope, da cerveja, costumava encontrá-los nos dias e horários em que, normalmente, os casais estão juntos e namorando: sexta-feira à noite, por exemplo. Ela, praticamente, abandonou os amigos, e passava metade do tempo livre navegando na internet, usando o computador do Mário Lúcio. Um tédio, compensado com sorvete, bolachinha, bombom. Assim foi até o dia que o Mário Lúcio reclamou: você está gorda! Não usa maquiagem nos olhos! O esmalte de suas unhas está descascado. Solange resolveu caprichar no visual, comprou roupas novas, perfume e até sombra verde ela passou nos olhos.
Um dia, para dar uma virada nessa história, usou o vestidinho preto e foi ao cabeleireiro fazer luzes, ficou ansiosa esperando a chegada do Mário Lúcio. Ele chegou, nem bem a cumprimentou, pegou o controle remoto do televisor, sintonizou o canal do futebol e só depois disse: como foi seu dia? Ela, toda produzida, ele de chinelo e bermuda. A noite foi em casa.
Foi assim que ela, pela primeira vez, percebeu que, pra ele, não existia. Não fossem os quilos a mais, sequer ocuparia espaço na vida do Mário Lúcio. Percebeu que as unhas podiam estar pintadas, a maquiagem podia estar caprichada, os cabelos esvoaçantes, o vestido ser lindo, caro e da moda. Pra ele, tanto fazia. Telefonou pro Caio Henrique, namorado do tempo de cursinho, pra desabafar.
E foi assim que a Solange descobriu que estava com o sujeito errado.

ESTE MUNDO É DOS LOUCOS


Larguei toda a papelada espalhada sobre a cama e resmunguei para as paredes: estou ficando louca!
Fui ao quintal, admirei o belo dia de sábado. As plantinhas ( pobres plantinhas) secas, pedindo água. Regador em punho, tratei de molhar a terra ressecada, dar às verdinhas o alimento necessário. Que diversão! Descalça, brincando com água. Sei lá quanto tempo assim fiquei, são tantos os vasos de plantas que herdei de minha mãe!
Voltei à realidade. Melhor cuidar logo dos papéis. Coisa mais chata. O sol continuava a brilhar lá fora. Liguei o notebook. Um e-mail, dois, três. Notícias sobre os jogos Pan-Americanos. Medalha, medalha, medalha!
Acabei aqui, o meu porto inseguro e predileto. Blog, doce blog. Lar, doce lar. E vocês ainda querem saber o que fiz com os papéis? Estão a me esperar. E eu aqui a delirar.
Lembrei-me de um filme muito antigo, fui ao Google procurar algo que me ajudasse a recordar quem era o ator principal. Alan Bates. O título: Este mundo é dos loucos, o título original é bem diferente: Le Roi de Coeur, tradução: O Rei de Copas. Pra quem não assistiu, afinal assisti há uns quarenta anos ( minha nossa!), o filme trata da Primeira Guerra Mundial de um jeito doce, atípico. Um soldado se refugia em um vilarejo francês, em plena invasão alemã. Com o desenrolar da trama, descobre tratar-se de um hospício, onde os loucos são muito mais felizes que os que se dizem “normais”.
Sim, estou ficando louca. Louca para picar os papéis. Mundinho burocrático, chato! Não sei o que eu tinha na cabeça quando resolvi cursar Direito e exercer a profissão. Naquela época sim, eu estava completamente louca. Ou será que eu era normal? Nem sei. Devo ter “pirado” entre um parágrafo e outro.
Termino o texto decretando que hoje é sábado, que mereço o descanso de uma brava guerreira. Que não vou mais ler esses documentos todos. Que fique tudo isso pra segunda-feira que, assim espero, vai demorar muito pra chegar.
E agora, com licença, vou dançar. Sozinha, pela casa. Ao som de músicas que embalaram minha adolescência nos saudosos anos 70. Louca, leve e solta.

21 de out de 2011

PEÇO DOADORES DE SANGUE



Talvez, você que é leitor ou leitora deste blog não entenda o motivo de eu ter chegado ao extremo de publicar o que virá a seguir, logo abaixo deste meu texto. Talvez, você compreenda e me ajude a divulgar este apelo. Faço isso por AMOR.
Um dos meus irmãos, o Flávio, está com câncer. Uma luta que culminou com a cirurgia de ontem, muito extensa, muito delicada. Eu decidi pedir aqui, no meu blog, doadores de sangue pro meu irmão. Sei que nem todos podem doar, por razões diversas. Porém, eu sei que muitas pessoas de bem poderão nos ajudar a divulgar este pedido!
Ao meu irmão ofereço o meu coração, a minha força, a minha fé e também este pedido muito especial e URGENTE, que publico aqui, para você que é leitor ajudar. Desde já agradeço de todo o coração.

Cláudia ( Diva Latívia )

LOCAL: Hospital Santa Catarina, Avenida Paulista, 200, 4º andar, bloco F, São Paulo - SP.
Tel: 11 3016-4111

HORÁRIOS DE ATENDIMENTO:
· De 2ª a 6ª, das 08:00 às 18:00h.
· Sábados, das 08:00 às 15:30h.

PACIENTE: FLÁVIO JOSÉ DE SIQUEIRA

No período da doação o veículo colocado no estacionamento do hospital será isento de taxa.

18 de out de 2011

SOMBRIA


Anoiteci. A casa pareceu imensa, o tic-tac do relógio transformado em trovões. Meus passos ecoavam ensurdecedores no assoalho. Louca, estaria enlouquecendo? As luzes apagadas, faminta. Cozinhar só para mim? Uma fruta, isso seria o bastante. Subi a escada apressada, lembrei-me do antigo medo de fantasma. Acelerei o ritmo, corri. Cheguei ao quarto, deitei na cama improvisada com um edredom, acomodei-me. Fechei os olhos bem apertados. Na rua, o barulho dos carros passando, as vozes de vizinhos conversando ao longe.
Toca celular, por favor, toca! Silêncio, o mundo pareceu emudecido. Eu restei, só eu, sozinha, eu! Adormeci. Estava na praia, o mar cor-de-rosa. Ele, feito Netuno, venceu as ondas e caminhou na minha direção. – Vem! Vou te ensinar a voar! Estendi minha mão. Despertei.
Madrugada. As horas se arrastaram, pareceu proposital. Ideias reluziam feito vagalumes a rodear minha cabeça. Onde estariam todos? Aqueles, os que faziam festa? Entre um brinde e outro, desapareceram. Pouco a pouco.
O sol começou a despontar. Peguei a mala no cantinho do quarto, mais uma vez olhei pra casa vazia. E me despedi dos tijolos que me abrigavam. Mudança, adeus programado.

"Love is in the air", "cause I just can´t take my eyes off you"


Em uma noite dessas eles se conheceram no MSN. Ele sem foto e ela com fotos diversas e de vários momentos de sua vida. Jeito parecido de pensar, de escrever, mesmo gosto musical. Passaram a conversar todas as noites com a webcam ligada, enviando mp3 com músicas que iam  de MPB até Diana Krall. Resolveram escolher a “música deles”. Ela elegeu  I Can´t Take My Eyes Off You, porque não conseguia desgrudar os olhos da tela e o achava “just too good to be true”.
Sem muito planejar encontraram-se pessoalmente. Ela sem maquiagem e cabelos soltos e ele vestia olhos cor de mel, coisa que a webcam escondia. Quando se viram não disfarçaram a alegria que sentiram. Foram à pracinha comer pastel de palmito. Total sintonia de paladares. Riram, olharam- se dentro dos olhos sem nada esperar, mas com o desejo latente de ter a paz de um amor que sobrevivesse aos vendavais desta vida.Uma tarde inesquecível, assim foi para os dois.
Horas depois ele a acompanhou de volta pra casa, despediram-se,  não sem antes trocarem os primeiros e inesquecíveis beijos. Com química, física, matemática, geografia e línguas que se encontraram em total harmonia. Tocava no rádio “and let me love you baby, let me love you”. 
A semente foi lançada à terra. Perfeita, apesar das imperfeições que ambos carregam e das dificuldades que a vida entrega. I thank God I’m alive, you’re just too good to be true, I can’t take my eyes off you.

Este texto foi por mim escrito há dois anos. Está publicado no blog Janela das Loucas. É de uma série de textos do Janela que pretendo publicar novamente. Segue a música, que mexe com meu coração e me faz balançar!




16 de out de 2011

AMANHECER, ENTARDECER, MORRER, VIVER


Amanheci. Não lembro exatamente o ocorrido, não de modo detalhado. Sonhei com minha mãe. Jovem, cabelos soltos, porém aflita. Amanheci exausta e angustiada, deitada no sofá da sala. Meu refúgio, ali adormeci fazendo uma prece entrecortada pelas lembranças do que sonhei. Durma bem, Mami, descanse! Mortos deveriam descansar em paz! Mortos? Que tolice, você não morreu, está viva em minhas lembranças, em meus genes, em toda esperança.
Manhã chuvosa, puxei a cortina da janela da sala. Perdi a noção do tempo observando as folhas das árvores balançando ao vento. O corpo dolorido, a garganta seca. Saudade de tempos remotos. Entardeci. O sonho marcou as minhas horas. Onde estará você agora? A chuva ainda teima lá fora. Sua ausência se derrama em mim.

15 de out de 2011

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL


Ter um blog não é fácil, especialmente pra quem leva isso tudo muito a sério. Eis aqui Diva Latívia. Na caixa postal o e-mail de uma leitora, pedindo um conselho amoroso. Li, reli, dei uma volta no quarteirão pensando no que responder. Aqui segue a resposta, que demorei dois dias antes de publicar, pra ter certeza de não cometer um desatino, ser leviana, falar bobagem. Enfim, sou alguém com defeitos, com problemas pessoais, feito todo mundo. Mas, a ajuda que ela pediu merece a minha consideração e resposta. Cá está a história dessa leitora e, a seguir, a minha opinião. Você, leitora, leitor, poderá também opinar.

“Passei muitos anos sozinha. Depois da minha separação tive vários namorados, aquela coisa de sair, dançar, rir, transar. Porém, eu me sentia muito sozinha, sem ter um companheiro de verdade. Quando conheci o Nestor ( nome fictício), pensei ter encontrado o grande amor da minha vida. O tempo foi passando. O Nestor não me dava tanta atenção quanto no começo do namoro. Ele ia pro futebol com os amigos três vezes por semana. Além disso, ele viajava muito a trabalho. E eu conheci o Pablo ( outro nome fictício) e me apaixonei por ele. Agora, não sei mais o que fazer! Diva, devo me separar do Nestor? O que eu faço? Sozinha e Carente".

RESPOSTA

Sozinha e Carente, quem sou eu pra te julgar? Afinal, coitado daquele que achar que não está sozinho e não tem qualquer traço de carência. Como se diz por aí, nós viemos ao mundo sozinhos e, um dia, morreremos sozinhos. Quanto à carência, ainda que seja indecifrável, inadmissível, ela sempre existe em cada um de nós. Apaixonou-se por outro alguém? Pergunte a si mesma se tem amor pelo Nestor. Vale a pena viver um relacionamento sem amor, sem tesão, sem calor? Andei lendo algo um dia desses, é mais ou menos assim: se não tem tesão, se não me tira do chão, então não serve pra mim. Pense nisso, talvez o Pablo seja quem você precisa, pra acordar, renascer, rir, pular de alegria. A não ser que o Nestor te tire do chão, claro. Carente e Sozinha, vá viver. Não perca seu tempo com quem não te faz flutuar! Se o Pablo quer algo verdadeiro ou não, só o tempo poderá responder. É um risco que, pessoalmente, acho difícil enfrentar, mas que vale a pena correr. É o que penso. Boa sorte! Diva Latívia

14 de out de 2011

TEMPORAL EM MIM


Solidão é ter gente ao redor, mas amanhecer assim, sozinha, se sentindo tão só. Preparar o café pensando na vida, em silêncio, depois de uma noite mal dormida. Ganhar um beijo de despedida automático: “bom dia, se cuida”. Se cuidar? Escovar os dentes admirando as profundas olheiras naquele espelho sujo de pasta de dente. Preciso de um novo corte de cabelo, algo mudou, devo expressar a mudança no visual também. Protestar, talvez? Um corte picotadinho, franja caindo sobre a testa. Mais loira, menos jovem. Dizem que mulheres não envelhecem, simplesmente enloirecem. Um banho demorado, a água morna em meu pescoço dolorido. Lá fora um dia nublado, dentro de mim há temporal. A agenda lotada de compromissos, apresso meus passos para não me atrasar. Se sou feliz? Nem sei. Eu cumpro os prazos, pago as contas, respondo o “bom dia”, tento sorrir. Mas, sem afinidade, o que será mesmo ser feliz?

Sabe por que o amor é cego? Porque a gente não ama cabelo, não ama a roupa, não ama o corpo, não ama a cor dos olhos, e enfim, não amamos o físico. A gente ama o sentimento, a atenção, o carinho e isso não se vê, se sente.

13 de out de 2011

DIVAGANDO DISTRAÍDA


Cabeça cheia causa acidentes de percurso inumeráveis. Distrações, confusões. Nesses últimos dias ando assim: nas nuvens! Cheguei em casa carregando várias sacolas de compras do supermercado. Na boca o molho de chaves, porque não havia mais como segurar nada. Tinha a minha bolsa, a pasta de trabalho e o guarda-chuva. Nem bem pisei os pés no apartamento, o celular tocou. – Alô? E nada de responderem. Insisti: - Alô? Alô? Desliguei. Guardei as compras do jeito que foi possível, quase guardei o sabonete na gaveta de legumes da geladeira. Estava me preparando pra sair novamente, ir ao banco, quando de novo o celular tocou. - Alô? E nada! Isso ainda se repetiu quando eu estava dentro da agência bancária, depois no caminho de volta pra casa e, mais uma vez, quando eu tinha acabado de sair do elevador. Já estava zangada. – Quem é, pô? Não tem nada melhor pra fazer da vida, não?
O número era desconhecido. Gente anônima. Pensei até no José Raylton, aquele namorado de outrora, que fugiu levando o rádio que ganhou de presente. Sentei à frente do televisor. Para relaxar, escolhi um desenho animado. Já tinha tirado as sandálias, ajeitado as almofadas confortavelmente no sofá. Eis que o celular tocou de novo. Nem esperei o silêncio: - Fala desocupado, diga alô!Alô, Diva. Aqui é do consultório dentário. A sua consulta está confirmada para amanhã, às 9h00.
Quase morri de tanta vergonha. Era a Nazaré, minha dentista. Por pouco não foi xingada, imaginei que fosse de novo aquele tal de” desconhecido”!
Resolvi mudar o canal, ver se a novelinha já tinha começado. Apertei o botão do controle remoto uma, duas, três vezes. E o celular tocou de novo. Procurei ao meu redor, não estava. Tocou até parar de tocar, não conseguia encontrá-lo. Foi quando reparei que eu estava tentando mudar o canal com o celular, não com o controle remoto da TV.
Decidi levar o aparelho celular à loja onde o comprei. Talvez, alguém pudesse me explicar como fazer para não mais receber aquelas chamadas indesejáveis. Eis que me explicaram que eu, possivelmente em uma dessas minhas crises de distração, tinha selecionado a opção “chamada falsa”. Então, o telefone tocava, eu atendia e não era ninguém. Eu nunca tinha ouvido falar nisso. Pra quê serve a chamada falsa, afinal? Só pode ser pra se livrar dos chatos. A pessoa finge que recebeu uma ligação urgente e cai fora!Voltei pra casa meio desconsolada. A cabeça anda sobrecarregada de deveres, missões. Resmunguei: - pirei!
Saí do elevador. A sensação foi estranha. Alguém tinha colocado na parede do corredor um quadro com o desenho de uma galinha. Ali escrito: “home, sweet home”. Não gostei do quadro, como que podiam ter feito isso comigo? Não sou galinha! Peguei o quadro e levei até à lixeira. Desaforo! Isso parecia coisa da vizinha do apartamento ao lado. Olhei furiosa em direção à porta da fulana. Engraçado, ela também tinha colocado um novo quadro junto à sua porta. Flores coloridas. E, no apartamento 21, bem em frente, pintaram a porta de branco! Eu só podia estar louca, o meu tapetinho de entrada não era aquele. Peguei a chave e tentei colocar na fechadura. Não entrava! Uma tentativa, duas, três. Que vontade de chorar! Estaria louca? Resposta: sim, totalmente louca. Aquele não era o meu andar. Desci do elevador um andar antes do meu! Depressa busquei o quadro na lixeira, coloquei direitinho de volta na parede. Corri pela escadaria, me mandei pro meu apartamento. Suspirei aliviada! Nada melhor do que a casa da gente! Parecia tudo resolvido. Não encontrei o controle remoto da TV durante um dia inteirinho. Tinha levado dentro da bolsa, descobri isso quando paguei o táxi hoje de manhã. Enfim, minha cabeça precisa de um upgrade, alguns downloads e muito mais memória!

11 de out de 2011

DIA DAS CRIANÇAS


Dia das crianças. O meu desejo, há vários dias, era escrever algo a respeito. Sou criança de vez em quando. Coitadinhos daqueles que tentam 100% de seu tempo ser adultos: são os insuportáveis de se conviver.
Que delícia quando uma criança nos convida: vamos brincar? Ossos emperrados e desobedientes, ter que sentar no chão, pular e correr. Ofegante e às gargalhadas, esquecer os problemas diários,voltar no tempo, voltar muitas décadas e reencontrar a criança que ainda mora dentro de si. E assim era a infância, a gente ria, corria, sonhava, ainda que a vida já se apresentasse nem tão cor-de-rosa assim. Invencíveis, assim éramos nós. Tínhamos superpoderes, olhar de raio X, os monstros sempre eram vencidos em nossas batalhas no jardim. Sem inimigos, sem muitos problemas, tudo tão simples! Joelhos esfolados, dedo cortado, dente quebrado. Uma lista sem fim de machucados que, muito depressa, ficaram cicatrizados. Medalhas de um tempo distante, quando a mãe nos chamava pontualmente: venha almoçar!
Nossas possantes bicicletas, os balões que subiam em direção ao céu, as pipas coloridas ao vento, as bolinhas de gude em tons azuis e esverdeados. Menino, volta pra casa! A rua era o nosso cenário, entre carrinhos de rolimã e disputas futebolísticas da molecada. Bombinha de cem, bombinha de quinhentos. Taco e polícia e ladrão. Um tanto explosivos,ocasionalmente, as experiências do kit de química causavam resultados inesperados. Esconde-esconde, entre árvores, de modo astuto. Que coisa boa era escutar: vamos brincar? Esperar o Papai Noel chegar, o bicho Papão não voltar. Passa-anel, amarelinha, brincar de casinha.
Feito passe de mágica a gente cresceu, quem parou de brincar simplesmente envelheceu. Um dia chegam os filhos, de novo correr e pular. Mais adiante chegam os netos, para nos exercitar e fazer reencontrar o começo de nossa história, quando voávamos corajosamente inspirados por nossos super-heróis favoritos. Um ciclo, uma ciranda, feito brincadeira de roda a vida se renova.
Hei,você! Vamos brincar?