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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







26 de fev de 2011

O AVESSO DO DIREITO


Em pleno sábado, quase hora de mover-me para agitar o almoço, ele de repente disparou: - Vai ficar aqui? Vou sair, levar o carro pra trocar o óleo, o pino da rebimboca da parafuseta, vou depois comprar umas coisas e... E parou. O e... significava que ele encontraria os amigos pra tomar cerveja. Diante da minha inércia, insistiu: - Responde, vai ficar aqui? Se quiser pode ficar, não tem problema.
Já excluída de seus planos, limitei-me a responder: - Não, obrigada. Vou pra casa.
- Ah, não precisa, pode ficar se quiser.
Lançou um olhar furtivo pra máquina de lavar roupas a todo o vapor, lotada até a tampa.
- Pode deixar, querido. Quando você voltar é só estender as roupas no varal. Não esqueça, senão vai ficar tudo embolorado.
Peguei a sacolinha, que estava preparada pro final de semana. Despedi-me rapidamente, sob protestos: - Diva, espera, eu te levo em casa.
Saí apressada, desci um andar pela escada. A raiva estava misturada com o desgosto. É mole não avisar antes que iria sair no sábado?
Eu poderia ter marcado o cabeleireiro, combinado com alguma amiga pra ir ao shopping. Poderia estar até mesmo trabalhando. E fiquei lá, à deriva, sem saber ao certo se corria ou simplesmente caminhava com passos firmes rumo à porta. Corri. Mal dobrei a esquina ele surgiu, dirigindo seu carro.
- Entra, Diva.
Feito criança que não quer entrar na escola, meu ímpeto foi dizer: - Não! E novamente correr em direção a qualquer lado. Algo inexplicável fez com que eu me calasse e entrasse.
- Não precisava, não queria incomodar.
Olhou-me com olhos de pelotão de fuzilamento.
O caminho foi silencioso. À porta de casa, uma despedida fria da minha parte. Não contive a reclamação: - Na próxima vez, avise quando tiver outra programação no sábado. Assim, poderei agendar algo. A essa hora não tenho muito o que fazer, provavelmente ficarei sozinha em casa.
Ele riu. Juro, ele riu.


Tudo começou na véspera. Somos caseiros, seres que amam permanecer em casa, cercados de dvds, cds, preparando comidinhas deliciosas na cozinha. Porém, já que tudo enjoa, até mesmo as melhores coisas da vida podem tornar-se enfadonhas, sugeri que saíssemos na sexta-feira à noite, para tomarmos um choppinho. Um pouco de indecisão, terminou por aceitar.
Já era começo de noite quando ele telefonou: - Diva, estou quase chegando na sua casa. Está pronta? Não podemos demorar, o Mauricinho, meu amigo, está lá nos esperando.
- Mauricinho?
- É, aquele amigo do clube, coitadinho, ele adora conversar. Avisei que iríamos e, que bom, ele topou. Depressa, ele está lá sozinho, não podemos demorar.
O desgosto do sábado foi precedido pelo desgosto de sexta-feira à noite. Aquilo o que era pra ser um encontro a dois, romântico, a sós, era agora praticamente um mènage a trois. Ele, eu e... Mauricinho.
Produzida, saltão alto, cabelos esvoaçantes, maquiagem impecável. Ele, eu e... Mauricinho, que já tinha emborcado uma garrafa inteirinha de uísque.
- Muito prazer, como vai?
Essa foi minha última frase. Duas exatas horas se seguiram sem que eu abrisse a boca. O papo era comercial, trabalho e chateações incompreensíveis da dupla.
Eis que depois de mais uísque, emborcado por ambos, o assunto mudou. Eu ali, totalmente ignorada, tal e qual a mulher invisível.
O assunto agora eram as ex dele. A primeira, a segunda, a terceira... Histórias de arrepiar. E eu, pasma, danada da vida, calada. Quando fico quieta é sinal de perigo.
Contou detalhes pro Mauricinho que eu ignorava completamente. Confissões inconfessáveis, peças de um quebra-cabeças que toda mulher costuma tentar reunir. Estava tudo ali, sobre a mesa.
E eis que, lá pelas tantas, o já zoado Mauricinho exclamou: - "que legal, então voxes um dia vão xi casar?". "Quando vai xer o casório?".
Resposta que escutei com esses ouvidinhos que preferiam não funcionar: - Não quero casar.
E balançou a cabeça sinalizando um "não" tantas vezes que, creio, suas ideias ou voltaram pro lugar, ou embaralharam definitivamente.
Quase engasguei com o choppe. Precisei respirar fundo e olhar em direção à igreja defronte ao bar. - "Minha Santa Querida, amparai esta pecadora desvirtuada que tomou todas ao lado desses dois irmãos. Eles não sabem o que falam".
Fui despedida em casamento. Não quer casar. É a terceira vez que diz isso. Um bom número: 3!
Portanto, o sábado é a cereja do bolo. A sexta foi tão indigesta que só mesmo muito sal de frutas poderia me socorrer.
Ainda digerindo, nasceu o texto. Haverá protestos, mas garanto que não é vingança e sim mais um conto de Diva Latívia. Pra preencher a lacuna do sábado, vim fazer o que sei: escrever.

2 comentários:

Anônimo disse...

Diva, muito boa a história. Se é verdade ou se você criou, isso não posso dizer.
Esses homens são uns bobos. Perder uma mulher feito você é pra protestar de verdade.
Tem aqui o apoio e a torcida do seu fã.

Roberto

Anônimo disse...

Esquece ele e casa comigo.

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