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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







29 de jul de 2011

CHÁ CALMANTE


Às vezes me pego pensando o que seria de mim, não fosse a ajuda tão valiosa de minha ajudante do lar, Zezé.Cheguei em casa no começo da noite. Cansada! Zezé, esquecida da vida, estava na sala, televisor ligado na novela das seis. O jantar, pelo aroma e som da panela de pressão, estava a caminho.

- Dona Diva, a senhora acredita em paixão da vida toda?

- Paixão? Não, Zezé. Paixão é feito foguete que sobe e depois desce.

- Aff, Dona Diva. Deixa o Seu Divo saber disso.

- Lavou a verdura pra salada, Zezé?

- Lavei alface.

- Vou agora tomar um banho, tempera a salada pra mim, por favor?

Olhou-me indignada. – Dona Diva, nessa novela tem paixão da vida toda e eu não posso perder o que vai acontecer. “Despois” eu lavo a alface.

Resignada, fui cuidar da minha vida. Uma hora depois, voltei pra sala. Zezé assistia ao telejornal.

- A senhora viu o que fez aquele deputado? “Robô” o dinheiro da merenda das “criancinha”, coitadinha das “criancinha”!

Suspirei, tentando não me zangar.

- Zezé, já temperou a salada?

- Vixe Maria, esqueci, “peraí” que já vou lá.

Depois do jantar, sentamos juntas na sala. A novela das nove rolava solta. Entre suspiros e comentários diversos, Zezé não se conformava com o descaso do mocinho, que parecia não querer nada sério com a mocinha.

Durante os comerciais, veio outra daquelas perguntas que ela bem sabe fazer. – Dona Diva, se o Seu Divo te falasse que não vai se casar com a senhora, o que a senhora faria?

- Eu daria um pé no traseiro dele, com certeza.

- Xi...

- Por que o “xi”, Zezé?

- É que ele não quer mesmo casar, então a senhora vai dar um pé no traseiro dele. Ainda bem que ele é gordinho, não vai doer tanto assim o pé, né Dona Diva?

- Ô Zezé, você já lavou a louça do jantar?

- Já vou lavar! Quer um chá pra acalmar?

- Pare de fazer perguntas, Zezé.

- A senhora tá parecendo aquela minha patroa japonesa. Japonesa? “Num” sei se era chinesa, coreana. Já sei, era japonesa mesmo!

- O que houve com sua patroa japonesa?

- Ah. Eu tinha uns catorze anos. A patroa todo dia colocava umas comidas na frente da “estauta” de um santo japonês. Um que é gordinho, parecido com o Seu Divo.

- Buda?

- Num sei não senhora o nome do santo. Então ela colocava as comidas. Bala, bolo, doce. E eu vivia com fome. Então eu ia lá e comia tudo. E a patroa ia na frente da "estauta" e falava "umas coisa" em japonês, rezava. Depois ela agradecia pro santo: - Obrigada, você comeu tudinho, tava com fome!

- Não acredito, Zezé!

- É sério, Dona Diva!

- A “muié” pensava que o santo tinha comido tudo!

- Ela nunca desconfiou de você?

- Desconfiô. Ela um dia disse assim pro santo: - Óia santinho, se um dia eu “discubri” que alguém “robô” sua comida, eu mato essa pessoa.

Não pude me conter. Ri muito!

- Dona Diva do céu! Morri de medo da “muié”. “Pidi as conta” e fui embora, “sebo nas canela”!

- Zezé, o que tem essa patroa japonesa a ver comigo?

- Hum... A senhora faz de conta que é boazinha, mas é brava pra caramba. Acho que se souber que eu deixei cair cândida na sua “brusa vermeia”, vai me matar.

-Você estragou a minha blusa nova?

- Num falei? Tô morta!

A noite terminou comigo bebendo um chá de camomila que ela preparou. Um chá calmante, pra eu esquecer os males que me assolam.

E eu aqui continuo a pensar: não imagino como seria minha vida sem a Zezé!

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