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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







30 de ago de 2011

CHAMA QUE ARDE SEM SE VER


Para esquecê-lo ela precisava esquecer o que levava em seu coração ferido: paixão. Há meses não se encontravam, ele não atendia às chamadas no celular, nem mais frequentava os mesmos lugares onde juntos antigamente iam. Os amigos não tinham notícias, sequer no MSN ele aparecia. Ninguém sabia por onde andava o Anderson. No fundo, ela sabia que tudo havia terminado. Relacionar-se com alguém casado, no começo acreditou que o sentimento seria o bastante. Ele dizia que a separação da esposa estava próxima, aconteceria quando menos esperasse, mas os filhos ainda eram pequenos, havia a prestação da casa própria. Desculpas que apenas protelavam a esperada decisão de assumir o romance.
As noites eram longas. Sozinha, tentava afastar a assombrosa imaginação dele ao lado da esposa, juntos, na mesma cama. As datas que considerava especiais, todas elas não eram compartilhadas. No máximo, recebia um telefonema rápido, ele falando com o tom de voz apreensivo, baixo. Feliz Natal, feliz ano novo. Isso doía tanto que parecia que o sentimento a mutilava. Precisava arrancar aquele homem de dentro do seu coração. E eis que sua prima, Marisa, deu uma ideia que pareceu excelente. Toda vez que lembrasse dele, deveria imaginar um rato morto, podre, nojento. Associar a imagem do amado a algo tão repulsivo tornou-se, pra ela, algo obrigatório. Nem isso adiantou, a dor da ausência, isso superava a dor na consciência. Filhos, família, esposa, nada disso parecia ser maior que o relacionamento incompleto que ela tinha com o Anderson. Outra sugestão, essa veio de uma amiga: queimar todos os presentes que ele havia lhe dado. Todos. O apartamento era pequeno, ficava no segundo andar de um edifício no bairro de Santa Cecília. Chorou, enquanto olhava pela última vez o ursinho de pelúcia, o dvd de Cidade dos Anjos, as fotos, o broche de fitas azuis, o perfume Armani. Juntou tudo dentro do tanque de lavar roupas. Buscou álcool, riscou um fósforo e a fumaceira foi tamanha que vizinhos chamaram uma viatura do corpo de bombeiros.
Ela tentou apagar o princípio de incêndio, jogou água que buscou na pia da cozinha. Nervosa, arrependida, teve tempo de salvar o cestinho de vime, que havia caído entre o quarto e a sala. Foi tudo o que restou. Quando o bombeiro entrou em sua casa, ainda havia chamas na área de serviço. Descabelada, olhos inchados de tanto chorar. Vizinhos se amontoavam no corredor do apartamento. Soldado Milton, esse o nome dele. Perguntou como que aquilo havia começado, ela não conseguia explicar. Aos poucos, mais calma, contou a verdade. O olhar do bombeiro foi de cumplicidade, pareceu entender que aquelas chamas queimaram lembranças indesejáveis. Empatia imediata. Foi assim que eles dois se conheceram, há três anos.
Hoje, casados há um ano, quando ela se lembra do Anderson pensa em rato morto, incêndio, mas termina por sorrir. Não fosse aquele caminho incendiário que trilhou, jamais teria conhecido o homem que a ajudou a salvar-se de si mesma.

27 de ago de 2011

HISTÓRIA DESCOSTURADA


Essa mania que homem tem de andar com a mão no ombro da gente, sabe? Feito boiadeiro levando vaca pelo chifre. Vaca tem chifre? Nem sei. Então, essa mania que homem tem de conduzir a gente pelo ombro. Levemente ele guia, empurra, freia. Mostra pro mundo que aquela ali tem dono, é mulher dele!
Sexta-feira à noite eu estava deslumbrante. Um vestidinho esvoaçante de cor cinza, a estampa tinha leves matizes de cor rosa. Meia-calça grafite fio 70 e scarpin de verniz salto 10. Perfeita? Claro, não fosse a mão de Divo esborrachada sobre meu ombro e me conduzindo pela calçada rumo ao bar. O vestido se desgraçava pra direita e minha divina elegância estava completamente comprometida, porque eu estava capenga pra um lado só: torta!
Resmunguei alguma coisa, ele nem ouviu. Equilibrar-se sobre um salto 10 em uma calçada esburacada, rua mal iluminada, Divo mandando ver na minha condução pelo ombro. Eis que o pior aconteceu, a alça do vestido estourou. Sim, estourou. Abriu fazendo um som meio assim: ploft! Vestido novo, tinha usado apenas duas vezes. Ideia de Divo: vamos até o carro pegar aquele grampeador de papel, dois ou três grampos e ninguém vai reparar que o vestido rasgou. Indignada, resolvi dar a noite por encerrada, ou ele me levava de volta pra casa, ou eu pegaria um táxi e iria embora sozinha.
Começou a terceira guerra mundial em frente ao estacionamento do bar. Eu dizia que ia embora, daquele jeito, estraçalhada. Ele dizia que eu estava fazendo frescura e foi buscar o grampeador, pra acabar de destruir meu vestido e fritar de vez a minha pouca paciência. Ele com o grampeador em mãos, vindo na minha direção e eu, descontrolada, gritando e chorando, dizendo que não. E foi assim que ela apareceu: a Ana Marcela, minha ex-colega de colégio. A gente não se via há uns vinte anos, pelo menos. É mole tanto azar? Eu mais gorda, eu mais velha, eu com o vestido rasgado, com Divo me mandando à merda e vindo na minha direção com um ameaçador grampeador de papel. Pura loucura. Quis evaporar, mas não foi possível. O jeito foi enxugar as lágrimas e tentar me livrar da criatura, tentar explicar de um jeito light e meio fictício, que meu vestidinho tinha descosturado e que eu estava dando “piti” porque sou mesmo histérica, concordar com Divo. Despedir-me com um beijinho, Divo e eu entrarmos no carro e sumirmos depressa de lá, pra nunca mais vermos ou ouvirmos falar da Ana Marcela. Não consegui. Ela fez questão de oferecer linha de costura e agulha, que sempre trazia dentro de sua bolsa. Sabem essas mulheres metidas a “mulher que vale por muitas”? Ela sempre tinha na bolsa: linha, agulha, novalgina, vaselina, isso desde os tempos do colégio. Chata! Precisei deixá-la costurar o vestido cinza com linha branca, morrendo de medo que me espetasse com a agulha, ou com aquele baita anel de brilhantes, que fez questão de dizer que ganhou de presente de casamento, durante sua viagem de lua-de-mel às Bermudas.
Ódio, eu estava com ódio. Fiquei parecendo a boneca Emília. Sutura encerrada, sob o olhar vitorioso de Ana Marcela e aplausos irritantes de Divo, que finalmente pôde me conduzir pelo mesmo ombro pra dentro do bar. Ana Marcela, quanta sorte a minha, sentou-se na mesa ao nosso lado, acompanhada do marido e um casal de amigos. Não demorou, o marido de Ana Marcela, o tal do Adolfo Elias, resolveu nos convidar pra mesa deles. Quanta gentileza. Pelo resto da noite o assunto foi cricricricri, ou seja, criança, criada, criada, criança. E eu, que não tenho criada, não tenho criança, fiquei muda. Divo e Adolfo Elias falaram sobre a cotação da bolsa de valores, sobre carros antigos, sobre futebol. Beberam uma garrafa de uísque. Noite interminável aquela. Lá pelas tantas, finalmente nos despedimos daquela gente. Já no estacionamento, Ana Marcela me chamou. – Diva, amor. Aqui está o cartão do meu cirurgião plástico. Ele é ótimooo! Quando resolver fazer um lifting diga a ele que fui eu que o indiquei. Mas, você está linda, apenas essas ruguinhas ao redor dos olhos, essa barriguinha, eu se fosse você...
Larguei a mulher falando sozinha. O cartão eu piquei em pedacinhos tão pequenininhos quanto confetes e mandei enfurecida na direção de Divo, que recomeçou o seu discurso, dizendo que tudo começou porque eu tive inveja do anel de brilhantes de Ana Marcela. Depois dessa noite eu jurei: daqui em diante quando eu andar ao lado de Divo, caminharei atrás dele. Assim, ele não poderá mais se apoiar em mim. Ana Marcela, nunca mais a vi. O vestido eu mandei pra costureira, que precisou transformá-lo em saia, tal foi o tamanho do estrago. E minhas ruguinhas vão bem, obrigada, elas se reúnem contentes a cada novo sorriso, especialmente quando consulto catálogos de joalherias, escolhendo o imenso anel de brilhantes que pretendo ganhar de noivado. Divo que me aguarde!

26 de ago de 2011

GLAMOUR EM PRETO-E-BRANCO


Quando voltei pra casa, já tinha passado do horário do almoço. Estômago nas costas, barriga roncando a reclamar de fome. O dia começou atrapalhado. Atrasada, quase perdi a hora marcada no médico. Consulta com o oftalmologista, cuidado pós-cirúrgico. Cheguei um tanto atrasada, mesmo assim ainda não havia sido chamada pelo doutor. Melhor assim, pensei. A sala de espera lotada. Algo notei, recentemente: parece que ninguém com menos de oitenta anos de idade tem catarata. Há uma exceção: Diva Latívia. Por isso mesmo, quando chego ao consultório desse médico, eu me sinto uma jovenzinha. Sou a mascote daquela turma acometida desse mal.
Acomodei-me em uma poltrona da sala de espera. Ao meu lado dois senhores com uns... Uns... Noventa anos de idade. Logo adiante estava sentado um casal, a idade da dupla somada deveria alcançar duzentos anos. Depois de mim, chegou uma senhora simpática, com idade pra ser minha avó. Espertinha, lúcida. Ficou a observar meus gestos e, a cada olhar que eu lançava demonstrando tê-la flagrado, ela sorria com simpatia. Resolveu tornar-se mais íntima: - Você veio acompanhar sua mãe?
– Não senhora, a consulta é pra mim.
– Tão novinha! Já está usando óculos?
– Não senhora, não mais, fiz a cirurgia de catarata.
– O quê?! Catarata? Uma mocinha da sua idade?
Eu me senti uma adolescente. Acho, minhas ruguinhas ao redor dos olhos receberam uma espécie de botóx de felicidade. Há quanto tempo ninguém me chamava de mocinha? Nem sei, acho que desde que era uma mocinha.
O médico demorou muito pra chamar um paciente. Uma demora irritante! Paciente-impaciente, decidi folhear uma revista. Levantei-me da poltrona, dirigi-me ao outro lado da sala. Escolhi uma dessas revistas que contam o que vai acontecer no próximo capítulo da novela. Não assisto, mas gosto de me manter bem informada. Revistinha escolhida, caminhei até o meu lugar. Comecei a folhear a revista. Estava lá, descobrindo que o cangaceiro bonitão da novelinha das 6 vai casar com a donzela. Aquele ator... Domingos... Não lembro o sobrenome. Digno de transformar qualquer diva em rainha do cangaço. Estava entretida, quando fui interrompida pela discussão do casal idoso.
– Demétrio, velho sem vergonha!
– Que é isso, minha velha?
– Safado, você não presta, Demétrio!
– Não fiz nada, tá louca Marieta?
– Não pode passar por você mulher bonita, que você logo fica olhando o traseiro dela? E apontou na minha direção.
Enfiei meu nariz na revista e tentei não rir. O tiozinho tinha olhado pro meu traseiro? Seria possível isso? – E loira, sempre as loiras. Não pode ver loira que logo se acha o Don Juan. Você, Demétrio, não é nenhum galã de novela, não se parece nada com o William Bonner. Essa moça nunca que vai te dar bola. Quer ver? – Mocinha, você acha que meu marido tem idade pra ser seu namorado, ou meu marido tem idade pra ser seu avô?
Que roubada! Como eu poderia responder sem magoar os sentimentos deles dois? Pensei depressa, dissimulando minha real opinião: - o senhor é tão simpático, que casal bonito, parabéns! Vocês têm a idade dos meus pais.
Achei que, com isso, eu teria resolvido o problema. Mas, ao contrário, arrumei uma confusão pior ainda.
O tal do Demétrio resolveu protestar. – Seu pai tem que idade, jovem?
– Setenta anos.
- Eu tenho sessenta e oito, portanto sou mais jovem que seu pai!
Diante de tamanha marmelada, Marieta meteu-se pelo meio da conversa. – Sessenta e oito??? Mentiroso! Você tem...
Fomos interrompidos. O doutor finalmente me chamou! Mais do que depressa, entrei em sua sala. Aliviada, quase uma refugiada da guerrilha instalada na sala de espera.
Quando terminou a consulta, saí apressada em direção à porta da rua. Medo que aqueles dois me vissem e toda a confusão recomeçasse. Olhei pra trás, lá estavam eles sentadinhos, sem mais brigar. Acenaram um “tchauzinho”. Demétrio lançou uma piscadinha.
Eu, uma jovenzinha de cinquenta anos. Uma loira L´Óreal, irresistível para quem ultrapassou os oitenta anos de idade. Quem diria? Musa da terceira idade!
Em casa,finalmente. Morta de fome. Resolvi preparar uma saladinha. Enquanto picava tomates, ri sozinha: Divo que se cuide, sua concorrência tem o glamour dos filmes em preto-e-branco da sessão da tarde.

25 de ago de 2011

O PÃO QUE COMPARTILHO


Quando acordo, cedinho ou não, a inspiração me cutuca. Entre um golinho de café forte e outro, tento espantá-la. Menina chata, espere um pouco, ainda estou acordando! Mas, ela é mais teimosa que meus dedos, que aqui dedilham o teclado do notebook. Afobada, lança muitas ideias, não dá sossego. Quanto maior a minha pressa, quanto mais compromissos eu tiver me esperando, mais ela me atiça. Egoísta, exige prioridade. Primeiro eu! Primeiro eu! Parece assim exclamar. E eu, mero instrumento de seus caprichos, entrego-me ao seu comando e deixo que as palavras se reúnam em formato de frases, histórias. O resultado, que leio depois, nem sempre me agrada, mas a danada da inspiração é vaidosa, ela aplaude o ponto final, vibra de modo parecido com o jogador de futebol que marcou um gol de placa.
Todos os dias ela marca presença, às vezes fica quietinha, não se manifesta tão cedo. Quando já estou na rua, trabalhando ou resolvendo algo banal, eis que ela espeta meus pensamentos. Basta observar uma cena urbana. Obedeço a sua ordem, pego um bloquinho de anotações que conservo dentro da minha bolsa. Busco a caneta, perdida entre tantos objetos miúdos. Rabisco as palavras que ela dita, parada na calçada, ou no trajeto entre as estações do metrô. E o mote? O mote pode ser o resfriado do gerente do banco, a mulher gorda que não conseguia passar pela catraca do ônibus, o motorista do carro que acelerou e quase atropelou aquele pedestre. Pode ser a notícia do telejornal, ou o voo ligeiro do passarinho que pousou no fio do poste.
Ainda de pijama, um tanto sonolenta, o primeiro alimento do meu dia é esta crônica. Quieta, ela ficou quietinha. Já trama a próxima história. Leio o resultado e sorrio. Aqui está o texto, o pão que alimentou minha alma hoje cedinho. O pão que compartilho com vocês, que aqui chegaram. Bom dia!

24 de ago de 2011

FILHO, AMOR INCONDICIONAL


Recebi, no Facebook, um convite para compartilhar uma mensagem bonita, que falava sobre o amor maternal, esse amor incondicional pelos filhos. Dizia ali que esta é a “semana dos filhos”. Não compartilhei a mensagem com os demais contatos, preferi assim.
Recostei-me na poltrona, meus pensamentos viajaram no tempo, há 25 anos mais precisamente. Viajei ao dia em que, com um pequeno pedaço de papel em mãos, li o que estava escrito em um teste de gravidez: positivo. Misto de êxtase e medo. Um filho comigo, meu, dentro de mim.
Dizia minha mãe que, desde o dia em que concebeu seus filhos, nunca mais adormeceu profundamente. Nunca mais almoçou sossegada. Nunca mais soube o que fosse ter paz no coração. Isso parecia cruel, mas ela dizia a verdade. Filho tira o sossego da gente, por maior que seja o amor, por mais bela que seja a maternidade.
Se o garoto atende o celular, a conversa é breve, ele não tem tempo. Se não atende o celular, fico inquieta, o que poderá ter ocorrido com ele? Se ele apresenta uma nova garota, imagino o quanto torço meu nariz, nenhuma mulher do planeta parece bonita o suficiente, inteligente o bastante ou capaz de fazer metade do que desejo de bom a ele. Se ele não apresenta uma nova garota, temo por sua ocasional solidão. Se ele fica resfriado, eu me preocupo. Se ele tem alergia. eu me preocupo. Se ele topa o dedinho, eu me preocupo. Se ele não almoça, eu me preocupo. Se ele sorri, meu coração se derrete. Se ele chora, meu coração se arrebenta.Tento adivinhar seus pensamentos. Tento esconder meus pensamentos. E eu, que há quase vinte e cinco anos pari meu filho, dou à luz diariamente o mesmo amor à primeira vista que me arrebatou: amor infinito, que não mede esforços, que nada espera senão que meu fruto vingue e siga toda a sua trajetória terrena de modo belo e justo.
Ser mãe tira o sono. Ser mãe é um desassossego. Esta semana não é a semana dos filhos. A vida toda é a vida dos filhos! Toda a vida, todos os dias, todas as semanas, todos os anos. Eternamente.
Para você, Gabriel. Instrumento da mais pura, bela e gratificante missão que recebi nesta vida: SER MÃE.

23 de ago de 2011

UM DIA É DA CAÇA, O OUTRO DIA É DA PESCA!


Sábado é um dia dedicado à manutenção geral: cabeleireiro, manicure, depilação, telefonar para minhas amigas e ir ao supermercado. Não obedeço nenhuma ordem pra isso. Às vezes começo o dia telefonando para as amigas, depois vou à manicure, à depilação, em seguida ao cabeleireiro e, por fim, passo no supermercado. E foi exatamente assim, nessa sequência, que segui meu roteiro do último sábado.
Linda e loira, cabelos lisinhos e esvoaçantes, perfumada, lá fui eu pro setor de frios, depois setor de pães e eis que cheguei à peixaria. Peixe é nutritivo, mas o cheiro não combina nem um pouco com um dia dedicado ao embelezamento de uma diva. Com a pontinha dos dedos fui mexendo naquelas bandejinhas contendo filés. Para o jantar havia pensado em preparar salmão com batatas no forno. Conquistar Divo pelo estômago, deliciosa vingança, afinal engordei três quilos saboreando seus quitutes.
Ali estava, procurando o meu pescado, quando ouvi uma voz estranha , grave, meio sussurrada em meu ouvido: - Procurando namorado? Olhei pra criatura, um tiozinho de uns mil anos de idade, barriga protuberante e ausência de cabelos no topo da cabeça. Não, gente, não era o Divo, ele não tem mil anos de idade! Era um sujeito esquisito, que tinha comprado um peixe inteiro, desses que pescador adora tirar foto e mostrar que é bom de vara. Vara? Esqueçam! O tio parecia animadinho.
– Marina, há quanto tempo não te encontrava!
– Senhor, desculpe, não me chamo Marina.
– Pare com isso, Marina. Veja o que comprei, um namorado!
– Ah, que legal. Namorado é o peixe?
– É... Já tem namorado pro jantar?
– Tenho marido.
– Perguntei namorado, marido é feito arroz com feijão, pro dia-a-dia.
O tiozinho parecia criativo. Dei um jeito de escolher depressa o salmão e, com passos rápidos, fui pro setor de frutas e legumes. Já tinha escolhido batatas, cebola, cheiro verde. Bonitas as uvas! Estava escolhendo uns cachos quando surgiu novamente o tiozinho. – Pode provar que não tira o batom. Perdi a paciência. – Tio, sai fora, meu marido está logo ali e, quando chegar, vai te fazer correr.
Mentira, nem sou casada com Divo. Mas, o que eu poderia fazer a respeito? Tratava-se de um ancião. Assanhado, mas ancião!
Lembrei do vinho. Muita gente prefere vinho branco pra acompanhar o peixe, mas sou fã do carmenere. Já tinha escolhido uma garrafa quando lá veio de novo o mala do tiozinho. – Hoje teremos um brinde. Saúde, Marina! Um brinde à sua beleza.
Em seguida, pegou do meu carrinho de compras a garrafa de vinho que eu tinha escolhido e levou-a embora. Coisa de louco!
Busquei na prateleira outra garrafa igual, não tinha. Precisei encontrar um vinho similar, de outra marca. Dirigi-me ao caixa, paguei as compras e, no caminho do estacionamento, de novo fui encontrada pela criatura. – Marina, aceite o vinho. É um presente, para você brindar com seu marido e pensar em mim.
Recusei, agradeci. Mas, quando ele se plantou atrás do meu carro, de modo que eu não poderia dar ré sem atropelá-lo, acabei pegando a garrafa. Fui embora.
O sábado terminou com um belo jantar. O salmão delicioso, o vinho que ganhei de presente foi a segunda garrafa que abrimos. Estava ainda sentada à mesa quando Divo exclamou surpreso e um tanto zangado. – Diva! O que é isso? Meio tontinha com o vinho apertei os olhos pra conseguir ler o que estava escrito à caneta no rótulo do vinho: - Com amor de seu fã, Antônio”.
Expliquei do jeito que pude, omiti a história do tiozinho. Disse que peguei sem ler direito o rótulo e, provavelmente, alguém havia, por brincadeira, escrito isso.
Divo engoliu o peixe, mas duvidou da história. E eu, que pouco entendo de vinhos, menos ainda de peixes, arrumei uma confusão enorme aqui em casa. Agora, quando toca meu celular, Divo lança um olhar furtivo, de cantinho de olho, e se ajeita no sofá. Acho, ele imagina que o Tio Antônio é um caso que estou tendo.
Ah, querem saber? Bem feito! Esses homens, vez ou outra, merecem sofrer por amor. É o equilíbrio natural da vida, um dia é da caça e o outro dia é da pesca.

20 de ago de 2011

20.000 ACESSOS!


Quando observei os vinte mil acessos, pensei no que escrever. Este texto escrevi pra você, Abílio Manoel. Uma história, ou estória, sobre um encontro cibernético, que fala do Brejo Perfeito. No blog Janela das Loucas, www.janeladasloucas.blogspot.com, o tema sempre foi esse. E você, Abílio, quando partiu pras estrelas, há mais de um ano, fez pra mim o layout deste meu blog, o Diva Latívia. Um presente lindo, de um amigo que sempre amarei. Hoje, o Diva Latívia alcançou 20.000 acessos. São leitores de todo o Brasil e de vários países. Sucesso. Quem diria, Abilinho? A gente só queria brincar, mas crescemos!
Abílio lá nas estrelas e eu, aqui na Terra, fizemos deste espaço um ponto de encontro de quem gosta de ler, escrever, contar histórias. Eis aqui um texto clássico, ao estilo do que fazíamos no blog Janela das Loucas. Foi assim que comecei a escrever, sob a edição de Abílio Manoel. Vinte mil abraços aos meus leitores, muito obrigada! Eis o texto.

Há dois meses ela estava cadastrada naquele site de namoro, o Brejo Perfeito. Toda noite, quando chegava do trabalho, mal entrava em casa e já entrava na internet para checar as novas mensagens, olhava quem estava online. Dois meses, aquilo parecia uma eternidade.
Não aguentava mais ler perfis sem noção. Alguns perfis pareciam ridículos, um dos candidatos buscava uma mulher que jamais se depilasse. Detalhe: uma mulher que não depilasse as pernas, axilas, adjacências e muito menos tirasse o buço ou a sobrancelha. Enfim, a tampa daquela panela deveria ser uma mulher das cavernas, provavelmente.
As horas passavam sem que percebesse o longo período de sua navegação. Já tinha visto tantas fotos, lido tantas frases de chamada! Não aguentava mais o lugar comum: “homem de coração ardente”. Isso a fazia imaginar alguém sedentário, prestes a enfartar. Sapos, verdadeiros sapos obesos, mentirosos, mas ela precisava tanto encontrar alguém especial, realizar o seu sonho de ter um par perfeito! Eis que, finalmente, engraçou-se com Homem2011, um sujeito que escrevia relativamente bem, ao menos colocava as vírgulas longe dos travessões em seus e-mails. Na foto pareceu alto, simpático. Recusou-se a ligar a webcam, alegou timidez. O papo pegou fogo no MSN no dia em que declarou estar virtualmente apaixonado por sua formosura. Encantada, aceitou marcar o primeiro café no shopping.
Quanta emoção! Aquele momento poderia ser o instante mágico que havia aspirado, a sua grande chance de desatolar da lagoa do Brejo. Dividiu as emoções com sua amiga, Cidinha, outra usuária do mesmo site, alguém veterana na busca virtual do grande amor. Combinaram de, juntas, irem ao shopping. Cidinha ficaria à distância, furtivamente observaria a aproximação de Homem2011, se algo saísse errado ela gritaria, chamaria os seguranças. Com uma escolta dessas, nada poderia dar errado.
No grande dia foi ao cabeleireiro, caprichou na pranchinha, na escolha da roupa, no perfume. Trêmula, quase sendo puxada pela mão de Cidinha entre os corredores e lojas, sentou-se em uma mesinha no lugar marcado. O coração parecia querer fugir pela boca. Cidinha, conforme o combinado, se afastou, sentou-se a uns cinco metros de distância. Dois cafés, uma água e nada dele chegar. Vinte minutos depois, alguém que deveria pesar 150kg, com não mais que 1,60 de altura aproximou-se. Sim, era ele. Fechou os olhos, respirou fundo. Preferiu nada dizer. Fez um esforço imenso, tentando ser gentil. Homem2011 havia mandado uma foto antiga, do tempo em que praticava natação, isso há mais de dez anos. Os minutos seguintes pareceram um tormento, ela queria sumir, fugir, aquele não poderia ser quem ela tanto procurava. Quando se despediram, lembrou-se de Cidinha, que a tudo observara, de longe ela sorria e acenava. Bem, foi naquele dia que Cidinha e Homem2011 se conheceram. De segurança da amiga a namorada de Homem2011 foi um passo. Casaram-se na semana passada.
Nossa amiga continua cadastrada no Brejo Perfeito, já encontrou outros candidatos, tomou muitos cafés, sofreu alguns desapontamentos e fez novas amizades. O príncipe esperado ainda não apareceu, mas ela não perdeu a esperança. E quem foi que disse que aquele tal de Brejo Perfeito não ajuda a encontrar um par? Homem2011 e Cidinha podem provar que sim, ainda que, vez ou outra, nem tudo aconteça do jeito esperado.

DIVINA COZINHA


Essa história de ter que cozinhar, isso a princípio pareceu um bicho de muitas cabeças. Picar temperos, sujar as mãos. E escolher carnes então? Recém-casada, ganhei de presente de casamento um jogo de panelas inox. Na época, isso era novidade, algo chique e de bom gosto. O fogão, pra meu desespero, era alimentado por outra novidade: gás encanado. O medo de me queimar, cortar os dedos. Uma espécie de jardim de infância gastronômico, assim era a minha cozinha. Pra mostrar meus novos dotes culinários, em meio a muitas trapalhadas e imensos equívocos, resolvi preparar algo que considerava muito simples: frango assado com batatas. Telefonei pra minha mãe, ela explicou o que eu deveria fazer e, especialmente, o que eu não deveria fazer: sair de perto da cozinha, para evitar estragos e, quiçá, um incêndio.
Atrevida, a juventude é mesmo ousada. Escutei os conselhos maternos, mas eu me sentia uma mestre cuca, uma chefe de cozinha! Temperei a ave, descasquei as batatas. Escolhi uma forma para acolher o preparado. Quando liguei o forno, a coisa não pegava. Liga, liga, liga. Cheiro de gás. Resolvi desligar e, abanando o ambiente com um paninho de prato, esperei alguns instantes antes de insistir na mesma operação. Descobri que tinha esquecido de ligar a tomada do fogão, como o acendedor poderia funcionar? Problema resolvido, busquei a forma sobre a pia, abaixei-me para melhor visualizar o forno e tomei um choque desses de fazer os cabelos ficarem arrepiados. Creio, o meu grito deve ter sido escutado a longa distância. Ainda sem entender nada, o coração disparado, tocou o interfone. O porteiro, já esqueci seu nome, queria saber o que estava acontecendo. Eu não tinha colocado lâmpada naquele soquete que fica dentro do forno. A forma encostou no soquete da lâmpada e eis o motivo do choque que tomei. Já apavorada, busquei um chinelinho havaiana, afinal dizem que borracha isola choques elétricos. Olhava pro frango cru, inerte, como se fosse um monstro malvado.
Sentei na cadeirinha junto à mesa da cozinha com vontade de chorar. Até meses atrás eu sequer sabia distinguir asa de sobrecoxa! Nunca tinha preparado um só café! E eu ali, dona de casa. Senti raiva, senti muita raiva! Decidi ligar o forno antes de levar a forma novamente pro seu interior. Um milagre, lá estava o danado funcionando! Busquei a forma e esqueci algo muito importante: papel alumínio para cobrir o assado e proporcionar o seu cozimento. Já sabia que deveria esperar 30 minutos para retirar o assado do forno. Por isso, fui fazer o que sabia: lavar os cabelos, passar hidratante corporal, relaxar alguns instantes.
Quando abri a porta do banheiro, eu estava em uma espécie de sauna sem vapor, mas com muita fumaça. Frango incendiado, carbonizado, irreconhecível até mesmo com um exame de DNA. A fumaça invadiu meu apartamento e causou grande confusão no meu andar. A vizinha, alguém um tanto estressada, chegou a me chamar de irresponsável. Difícil mesmo foi consertar a confusão. Eu não sabia sequer como remover aquele grude que ficou na forma do frango, por isso joguei tudo, incluindo a forma, dentro da lixeira. O cheiro do incêndio impregnou meu apartamento. E eu, desconsolada, aprendi naquele dia que receitas foram feitas para serem seguidas à risca e que cozinha não é mesmo lugar de criança.
Três décadas se passaram. Cá estou escrevendo tudo isso pra vocês. Minha casa está quentinha, no forno costelas de porco com batatas e sobre o fogão feijão que acabei de preparar. A saladinha de rúcula e tomates foi lavada com muito cuidado. E eu, uma garota de 50 anos de idade, ainda cometo algumas loucuras gastronômicas, principalmente quando resolvo fazer duas coisas ao mesmo tempo, por exemplo: cozinhar e escrever. Ah, a vida. O tempo passa, a gente aprende tantas coisas! Quem diria que eu, que tinha medo de fogão, aprenderia tanto assim? Cozinha lembra um pouco alquimia. Quem diria que eu, um dia, amaria cozinhar?

Sei cozinhar de um jeito comum, normal. Aquelas comidinhas do dia-a-dia. Mas, se você "curte" gastronomia, deixo aqui uma dica muito boa, um blog que é sensacional: www.tropecosdeumgormet.wordpress.com

19 de ago de 2011

PESSOA - Marina Lima

Minha vida foi pautada por claves de sol. Música! Uma vida cercada de artistas interessantes e sons, acordes, melodias. Hoje, deixo um vídeo pra vocês, algo que busquei no Youtube. Marina Lima cantando "Pessoa". Eu sei que o amor é bom demais, mas dói demais sentir!



SONHOS NA LINHA DO HORIZONTE


O tempo foi passando e, feito um cachecol tricotado ponto a ponto, o relacionamento deles dois foi evoluindo. De namoro recente a um namoro mais sólido, eles dois já tinham uma história em comum, mas os sonhos de ambos não eram compartilhados. Ela era idealista, gostava de novos desafios e tinha o olhar na linha do horizonte. Ele era mais chão, mais terra, usava as lições do passado como bússola no presente. Não sonhava. Ela queria casar, ele queria viver o momento atual sem alimentar expectativas futuras.
Um pequeno apartamento acolhedor, em um bairro agradável, apareceu em suas vidas em forma de oportunidade de morar junto. Ela pensou no casamento, ele pensou na aquisição imobiliária. Ela chegou a desenhar em um pedacinho de papel o futuro quarto. Fez contas, sabia o quanto custaria reformar armários, ter pra si mais gavetas. E ele pensou em morar sozinho, recebê-la nessa nova casa como visitante, ocasionalmente. Malinhas indo e vindo, essa a imagem dela que mais se adequava ao que ele pretendia. Sem laços, sem compromisso, sem passos maiores do que o tamanho de seu ideal celibatário.
No dia em que ele assinou a escritura de compra do imóvel já não estavam juntos mais. Ela tinha ido embora, em uma noite fria de inverno. Pegou a sacolinha de sempre, atirada em um canto minúsculo de uma sala menor ainda. Foi-se porta afora, sepultando sonhos que sonhou em vão. E ele, indiferente, dormiu em paz.
Relacionamentos sobrevivem de possibilidades reais, enfrentamento de dificuldades lado a lado. Relacionamentos bons alimentam-se de sonhos. O amor deles dois morreu de inanição, árido, seco, esmaecido. Hoje, ele vive feliz na casa nova e ela sumiu, simplesmente ela sumiu.

Hoje, muito cedo, despertei. Este texto parecia ferver em minhas ideias, queria transformar-se em uma nova história. Teria personagens com nomes que eu criaria. Talvez Elisa e Ernesto. Porém, eu me vi nessa história. Eu e malinhas que percorrem cinco quarteirões, entre minha casa e a casa de Divo Latívio. Triste perder o fio da meada, ver o cachecol desfazer-se, ponto a ponto. Triste ter os sonhos matados de fome e sede. Os olhos recém-operados, devido à cirurgia de catarata, evitei chorar. Ao invés de lágrimas, um texto. And the show must goes on. A vida não para, os sonhos se renovam, pois que rufem os tambores! E, apesar do dia tão nublado em minha São Paulo, admirei a linha do horizonte mais uma vez. A vida é maravilhosa, não vou desistir de ser feliz. Jamais! O amor que habita em mim cabe de modo justo no peito de um sonhador.

18 de ago de 2011

TRAIÇÃO, DOR E SUPERAÇÃO


Se há algo que faz qualquer um sair do sério é a traição. Traição entre namorados, entre casados. Creio que, pra isso, não existe uma regra a ser seguida, senão aquilo o que o próprio casal estipula como regra dentro do relacionamento. Mais liberais, menos liberais, o que vale é ser feliz e viver em paz, sem ultrapassar os limites que a dupla considera ideal.
Existe um tipo de traição que, apesar de não ser convencional, tornou-se comum: a traição virtual. Sites de namoro, Orkut, Facebook, Skype, MSN, Badoo e etc. Por ali muitos amigos, mas a porta sempre aberta para a livre escolha: direita ou esquerda, certo ou errado? Depende de cada um ou, como se diz por aí: problema de cada um.
A oferta de gente para relacionar-se, seja de modo casual ou sério, é extensa. Ainda que não seja feita uma listinha de espera, afinal gente não é assento de avião, quase todo mundo sabe que tem uma segunda opção, alguém à disposição para o caso de ver-se sozinho, ou sozinha, no dia de amanhã. E é aí que passeia o perigo: a segunda opção. Há alguns anos escutei algo interessante a respeito desse coringa escondido na manga: é a batatinha frita, aquela coisa gostosa que sempre acompanha o seu lanche e, em caso de emergência, pode ser comida a qualquer hora, rapidinho, sem deixar muitos traços. Enfim, eis a figura do outro, da outra. Como se dizia nos tempos do guaraná com tampa de rolha: o amante, a amante.
Será que o ser humano consegue, sem sofrimento, sem mutilar-se, ser fiel? Ser exclusivo e oferecer exclusividade, sem ao menos dar uma só puladinha de cerca, ainda que de modo virtual, será isso possível? Tão fácil ser infiel, está ao alcance de um clique no computador, de um toque no celular, de uma olhadinha pra quem está ao seu lado. Não ser flagrado é simples também, basta não deixar muitas pistas. Resta a consciência. Se não houver peso extra, senão aquele deixado sobre a cabeça do parceiro ou parceira, nem haverá com o que se preocupar.
As agências de detetives particulares oferecem um serviço que, em curto ou médio prazo, costuma elucidar dúvidas angustiantes. Legal ou ilegalmente, afinal o quesito privacidade está em xeque quando o assunto é o sentimento do ser traído, bisbilhotam senhas do computador, seguem o alvo por ruas durante dias, talvez meses. Esperam nessa espreita discretíssima um deslize que será fotografado, filmado, gravado e entregue ao cliente, com um relatório minucioso passo a passo. É o flagra!
Sou da seguinte opinião: quem acha que está sendo traído, está sendo mesmo traído. Traído por sua desconfiança. Abriu-se uma fenda no relacionamento, há a insegurança. Perguntar na lata: você está me traindo? Isso costuma terminar em discussões desgastantes, em brigas, em mágoas. Dificilmente alguém vai responder que sim. Observar mudanças comportamentais leva tempo. Mudança de hábitos, excesso de vaidade, desculpas que incluem viagens de trabalho, reunião de negócios. Telefonemas que não são atendidos, celular desligado, Orkut ou Facebook com o conteúdo fechado pro parceiro ou parceira. Apenas indícios que, por si só, nada significam, mas deixam a pulga atrás da orelha.
A sombra de traições ocorridas no passado, com o mesmo par ou com pares anteriores, isso deixa a criatura mais vulnerável, menos confiante. Uma vez traído, uma vez traída, parece que pro resto da vida fica uma marca, uma cicatriz no coração da vítima. Qualquer esbarrão nessa ferida e ela abre novamente, não importa se quem te feriu já foi embora.
É possível ser fiel sem fazer sacrifícios, sem abrir mão do que é bom na vida? Sim. Ser fiel é questão de escolha, uma escolha livre, que não precisa ser cobrada, exigida. É algo natural. Não acontece sempre, porque tem gente que simplesmente não consegue ser fiel a par algum. Alguns homens, principalmente, têm esse tipo de dificuldade.
Uma vez descoberta a traição a dor é lancinante. Raiva, desespero, sentimento de perda, revolta. Isso tudo vem à tona feito um tsunami emocional. Separar-se ou não, dar o troco ou não? Eu sou adepta do adeus, melhor seguir adiante e tentar a sorte com alguém mais leal, menos complicado.
Traição virtual é traição? Sim, claro que sim. Uma simples escapadinha, isso é traição? Sim, evidente que é. Ir a uma dessas boates de strippers, um bordel com amigos, só pra olhar, é traição? Se não houver consentimento do parceiro, da parceira, se for às escondidas sim, isso também é traição. Porque dentro de um relacionamento, tudo deve ser compartilhado, sem segredos e sem claustrofobia. A não ser que seja um relacionamento capenga, pela metade.
Acho que, pra ser fiel, amor não basta. É preciso que exista muito oxigênio no relacionamento. Muita conversa, boa cama, muitos momentos a dois agradáveis, que os objetivos atuais e futuros sejam plantados e cultivados diariamente. Sem individualismo, mas respeitando a individualidade dos dois.
Será que ele está me traindo? Será que ele ou ela está te traindo? Como saber? Quem procura, acha. Pode contratar um detetive, gastar uma boa grana. A resposta virá em pouco tempo. As dúvidas invadem os pensamentos de quem está inseguro, especialmente as cabecinhas femininas. Será que aquele telefonema que ele desligou sem atender era de outra mulher? Será que ele comprou aquele monte de cuecas novas, aqueles perfumes, porque tem outra pessoa? Será que o interesse sexual dele está tão fraco assim porque transa com outra pessoa? Será que ele me ama? Será que ele ainda me quer? Perguntas muitas, que só mesmo você poderá responder. Traídos, traídas, pra sempre desconfiados, por mais longa que tenha sido a terapia após a traição anterior. É a vida, seus percalços. É o desafio da superação da dor passada.
Confiar em alguém depende não apenas do número de vezes que esse alguém transou com você, mas de suas atitudes. Carinho, alegria, motivação, vontade de planejar a vida juntos. Isso tudo dá energia, fôlego pro relacionamento seguir adiante sem desconfianças injustas. Algo muito diferente de estar dentro de um relacionamento no qual não se fala de futuro, não se planeja nada juntos.
Sim, já fui traída. Isso no passado, em um relacionamento findo há muito tempo. Também trago cicatrizes que são permanentes. Sou desconfiada, sou ciumenta. Quem perde com isso sou eu mesma, que a qualquer gesto suspeito perco a minha paz. Se meu companheiro não atende a uma simples ligação no celular, começa uma desordem emocional em meu coração, algo que aos poucos tento apaziguar, sem nada dizer, mas que me faz sofrer. Acho que pra quem sofre do mesmo mal que sofro, a frase de Chico Xavier deve servir de alento: ”Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”. Difícil superar, difícil tornar-se tão inteiro quanto quem jamais foi alvo de uma traição. Pra ser feliz é preciso acreditar em si, acreditar no par e fortalecer-se de modo confiante e positivo. Amor não é tudo, confiança é fundamental.


17 de ago de 2011

MEDO DE BARATA!


Medo de barata? Medo. Nem sei se a denominação certa é essa, acho que eu tenho pavor, pânico, verdadeiro horror de barata. Tanto faz o tamanho, coloração, se está viva ou morta. Se voar, tanto pior, sou capaz de arremessar-me ao estilo alto ornamental sob alguma mesa. E grito, eu grito! Detalhe importante: tanto faz onde eu esteja, ou com quem eu esteja. É vexame garantido, gargalhadas certeiras. Um papelão assim causou uma ida ao consultório de uma psicóloga recentemente. Três sessões de terapia e eu começava a entender que minha mãe era a causadora dessa fobia que me assolava. A mamãe e o Tio Freud. Medo de barata ocasionado por alguma chinelada no traseiro, algum castigo trancada no quarto nos meus tempos de meninice. Respire fundo, deixe o ar suavemente penetrar em seus pulmões. Segure o ar durante três segundos e, calmamente, expire. O treino eu fiz durante semanas. Respire, segure, expire. Não há baratas. Baratas são nojentas, mas não picam. Que barata? Ter medo de barata é ridículo. Um mantra, isso era um mantra que eu repetia sem parar.
Tudo correu bem. Aliás, parece que as baratas souberam que eu estava armada, treinada para enfrentá-las com classe e equilíbrio. Misteriosamente, sumiram! Até que, em um final de semana fui convidada para viajar com Divo Latívio e sua família. Passeio bucólico, uma linda chácara no interior. E lá fui animadinha, fazendo planos românticos, imaginando o quanto seria bom descansar ao lado do meu amado. Primeiro dia, tudo correu conforme o imaginado. Segundo dia, após o almoço, resolvemos tirar uma sonequinha. Assim que me estiquei no sofá da sala, sem os velhos óculos de grau, vi um besouro na parede, a dois metros de mim. Parado, parecia agitar suas asas. Chamei Divo: -amor, está vendo aquele besouro? Ele voa? Divo a princípio ficou calado, mas chegou a levantar-se do sofá e examinou o inseto bem de perto. Na volta, trouxe pra mim os meus óculos. – Diva, dá uma olhadinha nesse besouro! Com os óculos na ponta do nariz, tudo o que consigo lembrar é que comecei a gritar por socorro. Gritei, corri pro lado que estava apontada, totalmente descontrolada. Esbarrei na futura sogra, que entrou na sala pra saber onde era o incêndio. Tropecei no cachorro labrador que estava dormecido e alheio a tudo. Fui parar junto à piscina, ainda descontrolada e gritando. Pois a barata saiu da sala e veio na minha direção. Precisa dizer o que fiz? Eu me joguei na piscina de roupa e tudo. Destruí a escova progressiva que tinha feito há dois dias, meus cabelos espetaram feito uma vassoura de piaçava. Aquela era uma barata voadora enorme! Outro vexame, tudo por culpa de Freud, de sua discípula que garantiu sucesso com seu método de exercícios respiratórios. Pois ela, a tal terapeuta, é quem deveria agora fazer esses tais exercícios: Dona Pissicóloga: respire lentamente contando até mil, segure o ar contando até mil e expire lentamente contando até mil! Os seus problemas vão desaparecer, todinhos eles!Quanto a Divo Latívio, bem poderia ter me salvado, matado aquele dragão, digo, aquela barata, porém preferiu não perder a piada. Já faz alguns meses, mas continuo zangada com ele. Fobia de barata? Ridículo, mas faz parte do meu show. Um show garantido, basta eu ver uma e saio correndo.

DEFICIÊNCIA-CIDADÃ


Vez ou outra em meus textos abordo um tema que considero importantíssimo: deficiência física. O assunto, além de delicado, é extenso. Hoje quero falar sobre a fragilidade de nossos corpos, os revezes inesperados que ocasionalmente podem ocorrer conosco e a necessidade de nos voltarmos para a seriedade, a gravidade desse assunto.
Sabemos que, infelizmente, algumas pessoas são portadoras de deficiências consideradas irreversíveis, permanentes. Algumas dessas deficiências são congênitas, outras foram adquiridas ao longo da vida, ocasionadas por doenças ou acidentes. Porém, hoje estou pensando nas deficiências temporárias: uma perna quebrada, uma paralisia momentânea, a perda total ou parcial de algum dos sentidos. E eu, que neste momento sofro de deficiência visual temporária e parcial, mais uma vez considero obrigação minha falar da deficiência física, dos portadores dessas deficiências e de tudo aquilo o que é feito em prol dessas pessoas, bem como de tudo o que deveria ser feito.
Até poucos meses atrás, minha visão parecia normal. Fazia o uso de óculos de grau, para hipermetropia e presbiopia, esta última costumamos chamar de “vista cansada”. O grau aumentou, a visita ao oftalmologista pareceu ter sido em vão. Busquei outro médico, fiz novos exames e veio a notícia, que me deixou triste, aflita e pensando no avanço da minha idade: eu sofria de catarata. Essa notícia veio no mês de fevereiro deste ano. Após consultar mais médicos, escolhi o profissional que iria me operar. Ontem, terça-feira, fui submetida à segunda etapa dessa cirurgia de catarata, foi operado o olho esquerdo. Apesar da visão falha, embaçada, ainda em recuperação, pesquisei na internet, em sites nacionais e estrangeiros, artigos médicos que descrevem a recuperação dessa cirurgia, a adaptação às lentes que são implantadas nos olhos. Visualmente, estou deficiente. Algo temporário, sem prazo exato para terminar. E eis que, com autorização médica, decidi fazer uma caminhada a pé pelo meu bairro, um percurso curtinho, entre minha casa e a casa de meu irmão.
Buracos e irregularidades nas calçadas. Sacos de lixo colocados junto das guias, fora de lixeiras, aos pés de árvores. Carros e motos que não respeitam a sinalização, param sobre faixas de pedestres e, pior, infringem o Código Nacional de Trânsito, sem respeitar a travessia de pedestres. Gente mal educada, que passa quase esbarrando em quem caminha no sentido oposto da calçada. Esses donos de cãezinhos que não recolhem as fezes dos animais, ou atiram na própria calçada o saquinho plástico onde recolheram essas fezes. E, se eu for enumerar tudo o que aconteceu nesse pequeno trajeto, poderei desistir de sair a pé de casa até estar totalmente recuperada, isso seria péssimo pra minha alma, afinal sou feito passarinho, não suporto viver presa em casa. Sou irmã de dois deficientes físicos, um deles em fase de recuperação, o outro irmão é deficiente neurológico, com sérias dificuldades para locomover-se. Fico pensando: como um cadeirante, ou alguém que usa muletas consegue caminhar pelas ruas mal conservadas da cidade de São Paulo?
A deficiência física pode ser transitória, isso ocorre hoje comigo. Em meu bairro, na região da Vila Mariana, algo no mínimo ridículo ocorreu recentemente. Uma praça foi reformada, restaurada, isso demorou longos meses, obras sem fim. Transtorno para todos, especialmente para pedestres que precisavam caminhar pelo meio da rua, devido à falta de calçada livre para caminhar. Terminada a obra enrolada, deixaram as guias rebaixadas, destinadas ao acesso de deficientes físicos, obstruídas. Quem tentasse acessar aquelas rampas, daria com o nariz em um poste. Lá vieram os atrapalhados, encarregados daquela obra, arrumar a aberração cometida. E não é que, de novo fizeram errado o acesso e deixaram um degrau na rampa? Difícil entender onde começa a burrice, onde termina o mau uso do dinheiro público. Quem é a vítima de uma situação dessas? Nós! Nós, os contribuintes, os pagadores de altos impostos, nós os cidadãos. Nós, que não somos super-heróis e, ocasionalmente, podemos sofrer um acidente, um problema de saúde e nos tornarmos deficientes físicos, seja de modo temporário, ou não.
E eu aqui, catando letrinhas no Word, o notebook em meu colo. Um tapa-olho de acrílico que teima em cutucar meu nariz. Deficiente. Mas, muito mais que deficiente visual, de modo temporário, sou deficiente como cidadã e deficiente da alma, padeço de uma deficiência-cidadã. Precisei perder parcialmente a minha visão, por algumas semanas, para lembrar-me daquela rampa de acesso na pracinha do meu bairro.




15 de ago de 2011

EM FARTA ASCENSÃO


Essas liquidações de inverno lotam as lojas. No final de semana resolvi ir ao shopping comprar uma nova calça jeans. Entrei em uma butique dessas de grife, estava superlotada. Enquanto eu olhava as roupas penduradas em araras, nenhum vendedor apareceu pra me atender. Já estava no local há uns dez minutos quando escutei isso: - Quanto custa?
Olhei sem entender nada. Estava vendo umas blusas quando uma senhora carregada de sacolas me fez essa pergunta. Solícita, olhei pra ela a etiqueta: - R$170,00.
– Tem tamanho 38?
Admirei sua figura, de cima abaixo. Certamente a blusa era pra dar de presente pra alguém magrinha. Novamente olhei a etiqueta da blusa, que sorte a dela, era tamanho 38! - Tem sim, esta aqui é 38!
- Se eu pagar à vista tem desconto?
- Ah, acho que não tem, porque a loja está em liquidação, tudo pela metade do preço.
- Onde fica o provador?
Apontei pro fundo da loja e lá se foi a senhora gordinha, calculei que seu manequim não deveria ser menor que 48. Minutos depois, voltou com ares de vitória: - coube certinho em mim. Pode embrulhar? Vou levar. E foi aí que percebi que a mulher estava me confundindo com uma vendedora da loja. - Ah, não, eu não...
- Como não? Vai me dizer que porque é promoção vocês não embrulham a mercadoria?
- Não, senhora, é que eu...
- Nós, os consumidores, já estamos cheios dessa frescura de sacola retornável. Quero que coloque a minha compra em uma sacola da loja.
- Não, senhora, eu...
- Como não? Eu exijo meus direitos!
- Senhora, desculpe, eu...
– Sim, você! Eu vou pagar à vista e quero desconto. Quero 10% de desconto e quero uma sacola.
– Eu não...
- Não? Então fique com essa porcaria de blusa, não vou levar. Jogou a blusa no chão e foi embora da loja, pisando duro.
Tentei me recuperar do stress momentâneo. Respirei fundo e fui procurar minha calça jeans. Assim que encontrei algo do jeito que procurava, tentei encontrar uma vendedora. Lá estava uma mocinha, que parecia atender um comprador. – Moça, por favor, tem manequim 42? Olhou-me de cima abaixo, ares de dúvida. Insisti: - Não tem tamanho 42?
- Desculpe, não trabalho nesta loja.
Desisti. Fiquei vinte minutos dentro da loja. Fui confundida com uma vendedora, pra completar eu confundi uma cliente com vendedora também. Não encontrei minha calça jeans e a dor de cabeça começou a me atiçar, tal a raiva que passei. Decidi comer uma coxinha, beber um suco de laranja. Sentei-me na praça da alimentação, aproveitei pra, discretamente, tirar as sandálias que estavam matando meus pés. Olhei pro lado, quem estava ali? Ela, a compradora que havia me confundido com vendedora. Não parava de me olhar. Em certo momento, levantou-se e veio na minha direção.
- Estou te reconhecendo!
Praticamente esfregou uma sacola de loja no meu nariz. - Isso é pra você e sua loja ficarem sabendo. Fui na outra loja, fui muito bem atendida e me deram desconto e sacola. Tá vendo? Nunca mais comprarei naquela butique, entendeu? E você é uma péssima vendedora! Péssima!
Sem saber o que responder, agradeci: - Obrigada, senhora. E fui embora, sob o olhar mal humorado de minha algoz.
Aproveitei pra ir à loja onde a maluca fez as compras. Excelente. Fui bem atendida, ganhei desconto, sacolinha plástica anti-natureza e ainda me ofereceram água e café. Pensando bem, já que é pra gastar o suado dinheirinho, pois que seja em um lugar onde a gente é bem atendida. Virei cliente da loja e, quanto ao meu manequim, apertei, apertei e coube no 42. Tudo culpa de Divo Latívio que tem preparado aqueles quitutes irrecusáveis. Vaca atolada, torta de palmito, pastelão de forno. E eu, na escala de ascensão de numeração, já alcancei o manequim 44. Não é à toa que a turma daquela obra, o prédio em construção ao lado do meu trabalho, tem assobiado, cantado e falado bobagem quando passo, algo sobre jaca, melancia, essas coisas. Estou farta de medidas, eis a explicação. Diva, a Miss Mestre de Obras. Acho melhor reverter isso depressa, antes que chegue o verão!

13 de ago de 2011

PEDACINHOS MIUDINHOS


Ao passar o aspirador de pó no tapete da sala escutei o barulhão: créc, créc, créc! Depressa desliguei o aparelho da tomada. Abri o compartimento que acumula a poeira aspirada. Achei uma tampa azul, de caneta esferográfica. Belo achado, pensei. Onde estaria a própria, ou seja, a caneta? Observei a lapiseira, na prateleira sobre o televisor. Há poucos meses, ali havia meia-dúzia de canetas. Restavam duas. Decidi fazer uma mega operação de busca em toda a casa. Onde teriam parado as canetas desaparecidas? Olhei dentro das bolsas que usei nos últimos tempos. Olhei dentro de gavetas, caixas, atrás de móveis, nas frestas miúdas entre as almofadas do sofá. Encontrei moedinhas de um centavo, uma caixinha de chiclete de canela, o batom de cor fúcsia que tanto havia procurado. Empolgada, comecei a revirar tudo o que estava nas prateleiras do guarda-roupa. Encontrei aquela camiseta cinza de manga longa, uma echarpe xadrez e uma fivela de cabelos. Precisava encontrar as canetas! Um desaforo, um desafio. O casacão de lã grossa, preto, pareceu suspeito. E foi assim que encontrei aquele cartão de visita. Não imagino há quanto tempo não usava o casaco, acho que há uns três invernos, no mínimo. Naquela época era solteira. O cartão era de alguém que nem imagino onde foi parar, alguém que sumiu sem deixar traços. Tentei lembrar quando isso aconteceu, certamente em algum inverno distante. Lá estava, sentada na cama, puxando os fios tênues de minha memória, quando escutei a chave ser colocada na porta de entrada de casa: Divo!
A sensação foi de estar cometendo uma espécie de crime. Eu precisava eliminar a prova, aquele cartão que surgiu do nada, que veio do mesmo lugar onde foram parar as canetas que sumiram. Divo, curioso, quis saber o que eu estava fazendo. Falei algo sobre as canetas, ele pediu que eu procurasse também suas meias, ímpares, viúvas, sem o par. Onde será que vão parar as meias que somem? As canetas? Onde será que vão parar pessoas que passam pela gente e, praticamente, evaporam pra sempre? O cartão amassadinho em minhas mãos, tentativa aflita de ocultá-lo. Decidi picá-lo em pedacinhos miudinhos e atirá-lo no vaso sanitário. Duas descargas e ainda restavam pedacinhos que teimavam em não seguir o rumo ideal: cano abaixo. Lá pela quarta puxada de descarga foi tudo embora. Ufa! Cartãozinho persistente!
Não encontrei as canetas, as meias sei lá onde foram parar. O casacão decidi doar para a Campanha do Agasalho. Aquela busca pela caneta rendeu uma arrumação enorme nos armários e gavetas. Imensa organização, que parece não estar terminada. Entre objetos obsoletos, roupas que não servem mais, resta a constatação de que hoje sou muito mais feliz do que há alguns anos. Tenho Divo, finalmente encontrei Divo,o meu grande achado!

11 de ago de 2011

O TRIO


Lá vou eu. Seja lá o que Deus quiser!
Não devo usar os óculos de grau. Meio que vejo, meio que não vejo. O olho direito tem a lente importada, bifocal, caríssima e já implantada após a cirurgia de catarata. O olho esquerdo é o mesmo de sempre, original de fábrica. Tem catarata, precisa dos óculos de grau. Se eu usar os óculos, prejudicarei o olho direito, que já tem a lente. Estou sem óculos, como eu diria de modo informal: tá tudo embaçado! Mas vejo, incrivelmente eu vejo!
Segue o texto, pra inaugurar a visão, ainda que em fase de recuperação, capenga e complicada.
Descobri que estava ficando cega, mas a descoberta sensacional é outra. Divo está surdo. Talvez algo emocional, devido ao stress diário de quem vive em uma cidade frenética e doida feito a nossa São Paulo. Talvez, ele precise ir ao otorrinoseiládasquantas, pra descobrir se precisa desentupir os ouvidos. Mas, que ele está ficando surdo, está. Não comentem isso com ele, por favor. Ficaria magoadíssimo com a divulgação dessa notícia para o Brasil e o mundo. Especialmente para a Letônia, onde um leitor assíduo acompanha diariamente o meu blog. Beijos para Latvia, vizinha da Lituânia, terra de Divo Latívio.
Hoje o que aconteceu aqui nesta casa merece vários textos, foi tão engraçado que se eu não compartilhar com vocês terei uma crise de riso após a outra, melhor rir de uma só vez. Rir de modo compartilhado.
- Bom dia, Divo!
Não respondeu.
- Bom dia, Amor!
- Poxa, Diva. Tome o remédio que o médico prescreveu pra dor.
- Que dor, Divo?
- Então! Tá doendo, tome o remédio!
- Eu falei Amor, não falei dor!
- Que coisa, Diva! Vou pegar o remédio pra você!
Tive que tomar um analgésico na marra! Sem dor alguma, sem precisar de remédio algum!
Fui pra sala contendo o riso. De que adiantaria teimar com ele? O televisor ligado na sala, altíssimo!
- Divo!
Nada.
- Divoooooooooo!!!! Poxaaaaaaa!!!!
- Hã?
- Abaixa a televisão!
- Não. Agora não dá, estou com pressa, hoje tenho que sair mais cedo. Pode ser mais tarde, Amor? E segurou caridosamente a minha mão.
Não sei o que ele entendeu, mas acho que foi outra coisa terminada com “ão”.
E aqui eu meio cega, meio vendo. Lá se foi Divo porta afora, quando eu disse tchau ele respondeu: pra você também.
Esbarrou na nossa ajudante do lar, Zezé, que saía do elevador.
- Bom dia, Seu Divo. Tudo bem?
- Não sei, Zezé, mas quando encontrar guarde pra mim. Até mais tarde.
E foi embora.
Zezé não se conteve: Eu, heim? Isso tá parecendo casa de doido. Não falo mais nada, vou ficar mudinha!
Que trio! Uma cega, um surdo e uma muda.
É a vida, é a vida...

10 de ago de 2011

AOS PAIS QUE ESTÃO AUSENTES ( na semana do Dia dos Pais)


Dia dos pais. Essa data, pra mim, é especialmente complicada. Digo isso porque meu pai faleceu há muitos anos, em 1999. Digo isso também porque ele já morreu, mas antes de morrer ele se tornou meu anti-herói. Estou aqui espremendo minhas lembranças, há horas deletei um texto inteirinho no qual tentava falar desse homem de modo ameno, alegre. Impossível. Meu pai causou estragos imensos na minha vida e na vida da minha família. Sinto muito, justamente nesta data, falar do meu pai nesse tom desaforado. Escreverei um texto destinado aos pais ausentes, aqueles pais que não sabem onde estão os filhos, que talvez tenham se separado há muitos anos das mães desses filhos.
Meu pai era um romântico, desses que compõem música pra amada. A amada nem sempre era a minha mãe, mas sempre era a amada. Meu pai acreditava em final feliz e, pra buscar esse final, ele não media consequências. Alegre, muito sociável, as pessoas o consideravam adorável. Eu não. Eu sabia que, quando ele estivesse de humor alterado, minha mãe sofreria as consequências e, por conseguinte, a família inteira sofreria. Passou por cima do valor principal que alguém pode ter na vida: a família. Abandonou a família e foi embora. Meu irmão deficiente físico ficava horas olhando pro portão de casa, esperando o seu regresso, que nunca aconteceu. E, sinceramente, eu também olhava pra esse portão com a mesma expectativa.
Acho que ele pegou pesado conosco, afastou-se, foi viver uma vida alheia a todos nós, longe daqui, buscando uma paz que ele mesmo havia destruído. E acho também que o câncer que rapidamente o matou foi causado pela dor que levava em seu coração, mas que se recusava a admitir: culpa! Ele sabia que tinha cometido um erro imenso ao nos deixar sozinhos.
Pra não detestá-lo, tratei de amá-lo. Lembrar suas maluquices, ideias, piadas, palhaçadas. Ele sabia ser engraçado, isso quando a conjunção astral ajudava, porque seu humor era demais instável, variável. Aprendi a rezar por sua alma e pedir a Deus que me ajude a compreendê-lo, desculpá-lo. Especialmente, pedir a Deus que o perdôe, porque as mancadas aqui na Terra foram muitas.
Dia dos pais e eu sinto que, praticamente, nasci e vivi órfã de pai. Pra superar a dor, adotei um pai, isso aos trinta e muitos anos de idade. Um pai que torcia por mim, telefonava pra me dizer boa noite, que almoçava comigo, que ganhava nesta data o meu beijo, meu abraço e meu presente. E esse pai foi embora pro Céu há dois meses, o Nelson. Agora sim, fiquei órfã pra valer.
Tão bonito trazer um novo ser pro mundo. Tão bom acompanhar seu desenvolvimento, educá-lo, tê-lo em sua vida com responsabilidade e todo o amor do mundo. Que coisa triste esses pais que souberam curtir a concepção do filho, mas não sabem criá-lo. Esses pais que fogem de assumir a paternidade do filho, os pais que se furtam do pagamento da pensão alimentícia, os que cometem violência física, moral e psicológica contra a família. Os pais que não são pais coisa nenhuma, praticamente foram fornecedores de esperma! E ter um filho é uma bênção divina!
Este texto, que escrevi chateada comigo mesma, afinal nada tinha de bom pra falar a respeito do meu pai biológico, eu dedico a você que tem seus filhos no mundo, que talvez tenha netos, mas que não os tem em sua companhia, por sua decisão, ou porque algo saiu errado. Faça diferente do que fez meu pai. Ainda que leve uma portada em seu nariz ao procurar seus filhos, vá procurá-los. Posso dizer que nada na vida é tão triste quanto perder alguém pra vida. Perder pra morte é algo natural, infelizmente. Perder pra vida é escolha. Não perca seus filhos biológicos pra vida e não se perca deles. Busque-os! Eles terão a escolha de não aceitá-lo, mas você terá feito a sua parte. FELIZ DIA DOS PAIS!

Resolvi complementar o texto ou, como se diz no mundo jurídico onde trabalho, fazer um aditamento ao meu texto. Enquanto existir desamor, enquanto as pessoas estiverem olhando apenas pro próprio umbigo, a Justiça continuará abarrotada de processos lamentáveis, com pedidos de investigação de paternidade, pensão alimentícia e outros tantos processos similares. Filhos estão no mundo, não por acaso. Pai responsável cuida do filho, mesmo que separado da mãe desse filho. Enquanto houver um só processo desses tramitando nos fóruns abarrotados de processos, não existirá um mundo bom e digno pra receber uma criança, um mundo de paz!

FOREVER YOUNG!


A gente aprende certas coisas durante a vida que, nem sempre, correspondem à realidade. Desde que “cinquentei”, ou seja, desde que completei cinquenta nos de vida, passei a ter provas diárias do quanto sempre fui preconceituosa quanto ao avanço da idade. Aqui escrevo o texto no Word, para posteriormente “copiar e colar” no editor do blog. Recém-operada de catarata, a visão está melhor do que anteriormente, mas não posso abusar desses meus olhinhos ainda dodóis. O corretor do Word grifou palavras nas cores vermelha e verde, creio estar cometendo erros imperdoáveis de gramática. Espero que sejam relevados.
Voltando ao tema deste texto, sempre fui preconceituosa quanto ao avanço da idade e, somente agora, posso compreender isso. Uma sobrinha, outro dia, sem notar meus ouvidos atentos, contava para outros jovens que alguém já era velha, tinha mais de quarenta anos a tal mulher. Não fiz qualquer comentário, mas viajei no tempo. Aos vinte, trinta anos de idade, eu também considerava minha mãe, apenas dezesseis anos mais velha que eu, uma velha, ou como se dizia naquela época: coroa.
Há algumas décadas, quando eu tentava imaginar o meu futuro, acreditava que, aos cinquenta anos, eu teria grossas varizes nas pernas, cabelos grisalhos, estaria gorda, usaria dentadura, estaria meio caduca e teria operado catarata. Ops! Não tenho varizes, nem uso dentadura, portanto estava meio enganada.
O tempo passou, aliás o tempo passa pra todo mundo. Quando vejo fotos antigas, minhas e de todos aqueles que são meus contemporâneos, admiro a mudança física de cada um. Não somos jovenzinhos, estamos mais velhos. O que perdemos, afinal de contas? Perdemos o padrão de beleza ditado pela sociedade. Para ser desejável, uma mulher precisa ser magra, ter cabelos lisos e longos, de preferência loiros. Aí vale a tinta! É preciso usar roupas da última moda. Na foto, deve fazer biquinho ou caras e bocas. E isso tudo me irrita profundamente. Creio que uma das últimas fotos que tirei, ou melhor, uma das últimas fotos que tiraram de mim, estou usando chapéu de caipira e fazendo careta. Sempre na contramão, sou assim. Os homens também sofrem com essa ditatura de beleza, esse hedonismo compulsório. Carequinha, barrigudinho, grisalho, nada disso se parece com um garotão de vinte e poucos anos. Pessoalmente, acho os homens mais velhos extremamente charmosos. Idem as mulheres mais velhas, ficam lindas, especialmente quando “pensam jovem”.
Já fui considerada uma mulher muito bonita fisicamente. Quanto mais bonita a mulher for, isso naturalmente, sem o uso e abuso dos recursos estéticos, tanto maior é a cobrança social para que permaneça bonita. E a juventude vem atrelada a esse conceito, ou preconceito, de padrão de beleza feminina.
Outro dia um conhecido olhou meu semblante e exclamou: “nossa, você está diferente!”. Eu olhei bem dentro de seus olhos ( ou tentei, afinal andava meio cegueta) e quis decifrar o motivo daquela exclamação sem qualquer sentido. Diferente no quê, oh criatura? A resposta foi: você está mais velha, tem até umas ruguinhas em volta dos olhos, que pena! Pois ele foi embora com a minha resposta: vá à merda. Desculpe, leitor, mas mandar alguém ir à merda em uma situação dessas, considero o mínimo a ser feito. Espero que ele tenha ido e que não volte, ou que volte mais velho.
Envelhecer é parte da vida. Hoje em dia as pessoas têm uma expectativa de vida muito maior do que no tempo de nossos pais, de nossos avós. Se houver boa saúde, viveremos até os noventa anos de idade, isso pelo menos. A minha avó tem noventa anos de idade! Portanto, eu me recuso a me sentir uma velha, eu me recuso a ser chamada de velha e eu me recuso a envelhecer sem qualidade de vida. Passarei os próximos trinta, talvez quarenta anos ou mais, sendo uma velha? Claro que não. A velhice está na maldade alheia, está no julgamento equivocado das pessoas, está na ditadura de beleza que determina que apenas as gatinhas de bumbum empinado são belas. Um dia elas também vão envelhecer e, nem por isso, serão menos belas!
Para completar, eu sonho em um dia voltar a me casar. Divo Latívio está na minha mira. E quando eu falo em casamento, não falo em fazer as malinhas e mudar pro lar, doce lar de Divo. Falo em casamento mesmo, com papel, cerimônia, alianças e lua-de mel. Escutei uma exclamação desagradável outro dia: nessa idade? Com cinquenta anos? Sim, nessa idade sim! Porque estou viva e tenho meus sonhos. Meus olhos podem ter ruguinhas ao seu redor, ruguinhas que o tempo cravou, ruguinhas de quem já muito riu e muito chorou. Mas, os meus sonhos têm ainda o bumbum durinho, a pele lisinha e eles não envelhecerão jamais.
E tudo isso foi pra lhes dizer que ontem operei um dos meus olhos, o olho direito. Adeus, catarata, metade de um dia se passou desde a cirurgia e já estou aqui, a digitar letrinhas pra vocês. Meio dia mais velha, mas com a visão e os planos de uma garotinha que envelhece sem envelhecer.

8 de ago de 2011

OLHOS DE DIVA LATÍVIA


Oh segunda-feira! Quando o dia amanheceu, você já estava magrinha e com uma hora a menos. Levantei seguida do temor habitual: perder a hora. O relógio de cabeceira, aquele digital que tem dupla função: rádio e relógio. O apetrecho projetava no teto do quarto ferozes números de cor vermelha. As minúsculas frestas da janela, cortina entreaberta, mostravam com clareza que já era dia. Levantei desorientada, rumei para a cozinha. Um café forte, para me ajudar a lembrar dos compromissos da manhã. Busquei meus óculos. Entrei novamente no quarto, tateando e caminhando às cegas. Escutei o som vindo do chão, algo assim: créc! Sob meus pés a sensação de ter pisado em caquinhos. Meus óculos de grau já eram.
Desde que o oftalmologista pronunciou seu veredito médico: presbiopia e astigmatismo, o acessório com armação moderna repousa sobre meu nariz. Sem os óculos sou quase cega. Lembrei-me dos óculos reserva, algo que serve de quebra-galho. Óculos de aro vermelho, que comprei em uma farmácia. Encontrei e fui até o espelho observar minha aparência. Um tanto embaçada a visão, mas o alívio foi imediato, novamente podia enxergar. Atrasada, corri e corri. Quando cheguei ao trabalho, a missão parecia impossível: relatórios, letrinhas desaforadamente miúdas. Um desafio para completar o primeiro dia da semana, o dia em que “pego no tranco”.
Depois do almoço, voltei ao escritório. Um cafezinho para preparar meu espírito para o restante da maratona do dia. Papinho com os colegas, uma balinha de hortelã para adoçar a boca. Rumei para a minha mesa, resignada. Foi naquele momento que enfiei meu pé dentro do cesto de papéis, uma espécie de lata de lixo. Algo digno de um desenho animado, talvez. Risos ao redor. Trapalhadas que coleciono, ao longo da novela protagonizada pela cegueira progressiva. E eu, na véspera da cirurgia que me salvará da catarata, da intervenção que promete me devolver a visão de antigamente, jamais esquecerei que nesta segunda-feira de agosto, praticamente meti o pé no balde. Por sorte, não derrubei o pau da barraca. Após a cirurgia poderei saber o que vem primeiro: minha distração ou minha pouca visão? Poderei avaliar o quanto sou distraída. Garota desastrada, essa sou eu, Diva Latívia!
Voltar a ver o mundo, ter a visão corrigida. Assustadora a ideia de ser operada, mas a compensação parece tentadora: voltar a ver! Este texto, carregado de veracidade, é também a explicação que deixo aqui, pra você leitor, leitora. Durante alguns dias poderei estar ausente, em fase de recuperação. Porém, o resultado parece certeiro: não voltarei a usar óculos e a minha visão será tão boa quanto foi antigamente. Restará a distração, essa não tem conserto e faz parte do meu jeito.

5 de ago de 2011

DIVA, A DESLIGADA!


O dia foi uma loucura. A correria contra os segundos do relógio parecia interminável. Pra complicar, o trânsito não ajudava. Assim que terminei os mil afazeres, algo que parecia uma gincana com diversas tarefas cronometradas milimetricamente, consegui chegar ao supermercado. Tentei seguir a listinha que fiz, anotada em papel cor-de-rosa. Carrinho de compras lotado, a sacolinha retornável abarrotada, rumei pra minha casa. Suspirei exausta. Guardei todos os itens, um a um, em armários, prateleiras, gavetas, geladeira. Decidi tomar um banho, lavar os cabelos. Já debaixo do chuveiro, percebi que havia esquecido de pegar o shampoo, que tinha acabado de comprar. Sob esse frio que tem assolado minha cidade, enrolada em uma toalha, fui até meu quarto. O shampoo não estava no lugar de sempre. Fui então até o outro quarto, também não estava lá. Cabelos escorrendo água, observei minhas mãos: roxas de frio. Fiz uma espécie de excursão pela casa: área de serviço, cozinha, sala. Nada do shampoo. Será que eu teria que lavar meus cabelos com sabonete? Meus cabelos ficariam parecidos com os do Sivuca, aquele cantor de cabelinhos arrepiados. Vontade de chorar. Será que havia esquecido o shampoo no porta-malas do carro? Sequei os cabelos com secador, pra tirar o excesso de água. O resultado foi terrível,meus cabelos pareciam ter sido lambidos por uma vaca: emplastrados. Vesti uma roupa quentinha, por cima de tudo um casaco. Desci até à garagem. Abri o porta-malas do carro. Nada do shampoo. Olhei o chão do carro, os bancos. Nada! Que raiva senti! Voltei pro apartamento. Sentei desgostosa na sala. Olhei atrás do sofá, sobre a mesa da sala de jantar, debaixo das cadeiras. Nada, nada, nada. Por fim, resolvi deixar os cabelos pra depois, quem sabe meu cabeleireiro, Faustino, pudesse resolver esse estrago no dia seguinte? Adormeci tentando lembrar, passo a passo, o que fiz. Onde estaria o shampoo? Acusava na notinha do supermercado que, realmente, eu o comprei. Teria caído pelo trajeto?
Dois dias mais tarde, resolvi preparar uma sopinha, pra me aquecer do frio. Batatas, cenoura, couve. Quando decidi pegar cheiro-verde, guardado na gavetinha debaixo da geladeira, quem foi que encontrei? Sim, ele: o shampoo. Como foi parar ali? Não me pergunte isso. Não sei!

3 de ago de 2011

VIAJANDO COM DIVA LATÍVIA

E lá naquele site que vende perfume, maquiagem e balangandãs, inventaram um concurso com a distribuição de prêmios para os vencedores. É preciso escrever um texto, explicando por que você gostaria de ir pra Nova Iorque. Nova York? New York? Tanto faz! Enfim, por que você acha que merece viajar pra lá. Viagem com acompanhante, hotel razoável, passagens de ida e volta, passeios, traslados e café da manhã pago. E eu, que ando contando moedinhas, resolvi caprichar no texto. Ficou assim:
Mereço viajar pra Nova Iorque porque sempre participo de tudo quanto é sorteio e nunca ganho nada. Já concorri ao carro distribuído pelo sabão em pó. Concorri à casa daquele programão de TV dominical. Concorri às bicicletas, sorteadas pela videolocadora. Perdi tudo! Nem mesmo o sorteio de prendas, feito na minha escola quando eu tinha 7 anos, nem isso consegui ganhar. Quem ficou com a lapiseira colorida foi uma gordinha chata, de óculos, uma tal de Maria Sueli. Ganhou e sentou em cima pra esconder. Caro concurso, preciso dizer o que aconteceu com a Maria Sueli? A lapiseira quebrou. Ganhou, mas não levou. Por isso tudo eu mereço que a sorte mude, que meu texto vença. Não tenho dinheiro pra comprar um novo jogo de malas, nem dólares pra gastar com perfumes e souvenirs para minha família. Porém, se vocês me ajudarem a conseguir o visto pros USA, estará perfeito. Escolham-me e façam uma Diva very happy!
Mandei. Ao menos quem ler isso vai rir, ou vai resmungar um nome feio. Por que mereço ir pra Nova Iorque? Acho que mereço ir pra qualquer lugar, contanto que seja pra descansar. Hei, alguém já conseguiu descansar em uma megalópole? Eis a questão! Nunca ganhei nada, nem aquelas rifas com os nomes de mulher. A gente escolhe um nome, dias depois vem aquela criaturinha xexelenta que nos vendeu a rifa e diz: ah, quem ganhou foi a fulaninha do departamento pessoal. O nome que ela escolheu foi : Darlene. E eu, que sempre escolho nomes bonitinhos – Juliana, Mariana, Giovana – nunca ganhei nada: nem ovo de Páscoa, nem óculos ray-ban.
Acho, minha sina é trabalhar e comprar. Andei visitando outro site, esse de viagens. Bisbilhotei os roteiros e preços dos pacotes turísticos para o mês de janeiro de 2012. Acreditam que já tem lugar com a lotação esgotada? E eu, que sonho sem parar, sonhei com a Jamaica. Eu, Divo e muito reggae. Bob Marley que se cuide, esteja onde estiver. Um dia desses aportarei em sua terra, transformarei devaneios em realidade. One love, one heart, let´s get together and feel all right!

DIVA E SEUS ACESSÓRIOS DE BELEZA


Divo condenou a imensa quantidade de coisas que guardo no armarinho do banheiro. Entenda quem quiser essa mania de mulher! Ali tem creme hidratante corporal, creme hidradante facial, creme anticelulite, creme para os pés, creme para as mãos. O quesito maquiagem é vasto e complexo: máscara para os cílios de cores diversas: preta, azul, marrom e incolor. Tem lápis pra contorno dos olhos, tem delineador e tem lápis de sobrancelha. Um tal de curvex, que lembra um instrumento medieval de tortura e promete curvar os cílios. Tem base líquida, base em pó. Tem pó de arroz, como dizia a vovó: translúcido. Blush de duas cores: mais claro e mais escuro. Tem sombras das cores mais incríveis, a amarela nunca usei. Já sei que sou maníaca: tenho mania de batom! Pinça, jamais esqueço a pinça, que serve pra puxar fiozinhos, mas também já serviu para remover caquinho de vidro fincado no pé. Tem desodorante que combina com o perfume, tem desodorante sem perfume: roll on, spray, em forma de creme. Para os cabelos, uma infinidade de itens: shampoos sem sal, shampoos para cabelos com tratamento químico, condicionadores muitos, máscaras hidratantes que prometem deixar os cabelos sedosos e brilhantes. Os perfumes deixo no quarto, para melhor conservá-los. Tem umas tais pomadas, para ajeitar os fios rebeldes de minha franja. Pranchinha, dois secadores, escovas redondas de tamanhos diversos. Joguinho de pincéis, de vários tamanhos e formatos. Touca de banho? Isso tenho de dúzia, só perde pra quantidade de lixas de unha: umas trinta. Bobe! Grampos, prendedores que levam a fama de piranha. Tudo o mais delego ao cabeleireiro, até porque não há espaço no armário do banheiro. Tudo muito essencial e olha que nem comentei sobre algo fundamental: meus itens indispensáveis para as unhas, para os pés, para a depilação de minhas pernas. Acho, preciso de um espaço enorme que abrigue todos os miúdos pertences que uso diariamente.
Quando fomos visitar aquele lindo apartamento, com a intenção de comprá-lo, olhei para o guarda-roupa do quarto de casal e segurei o riso.
Pequeno para a quantidade imensa de roupas que tenho. Hoje, em minha casa, há um armário para roupas de inverno, um armário para roupas de verão e, para os muitos pares de sapatos que tenho, há espaço sob a cama e até mesmo dentro de gavetões.
Moral da história: para casar-me com Divo Latívio será necessário promover um mega bazar. Quem sabe, abrir um brechó? Desfazer-me de metade de minhas roupas, cremes, perfumes e, principalmente, sapatos.
O problema é que tudo o que tenho considero necessário. Nem sei por onde começar. Quando separei as sandálias, deu até vontade de chorar! Creio, sou Diva na alma e não apenas no nome. Meu quarto, um camarim de superstar, com direito a espelho enorme, muito brilho e uma vastidão de cores e texturas. E eis que acabei de lembrar: a louça que herdei, baixelas, faqueiro de prata da vovó. Cristais antigos, toalhas de linho. E tem os livros, alguns tão velhos que poderiam ir direto pra algum museu. O que será de mim? Nem sei. Meu acervo é tão grande que eu precisaria de uma casa pra morar e uma outra casa para guardar tudo o que possuo. Creio, não vou caber em meu novo lar! Ah, sim, leitor. Pois não. Se vou casar? Oh, não, infelizmente não. Mas, quando vi aquele apartamento passei a sonhar. Meus pertences ali não caberiam, mas o sonho que acalento encaixou-se tão perfeitamente dentro daquele espaço que dei-me a chance de sonhar. Divinos delírios!