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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







27 de ago de 2011

HISTÓRIA DESCOSTURADA


Essa mania que homem tem de andar com a mão no ombro da gente, sabe? Feito boiadeiro levando vaca pelo chifre. Vaca tem chifre? Nem sei. Então, essa mania que homem tem de conduzir a gente pelo ombro. Levemente ele guia, empurra, freia. Mostra pro mundo que aquela ali tem dono, é mulher dele!
Sexta-feira à noite eu estava deslumbrante. Um vestidinho esvoaçante de cor cinza, a estampa tinha leves matizes de cor rosa. Meia-calça grafite fio 70 e scarpin de verniz salto 10. Perfeita? Claro, não fosse a mão de Divo esborrachada sobre meu ombro e me conduzindo pela calçada rumo ao bar. O vestido se desgraçava pra direita e minha divina elegância estava completamente comprometida, porque eu estava capenga pra um lado só: torta!
Resmunguei alguma coisa, ele nem ouviu. Equilibrar-se sobre um salto 10 em uma calçada esburacada, rua mal iluminada, Divo mandando ver na minha condução pelo ombro. Eis que o pior aconteceu, a alça do vestido estourou. Sim, estourou. Abriu fazendo um som meio assim: ploft! Vestido novo, tinha usado apenas duas vezes. Ideia de Divo: vamos até o carro pegar aquele grampeador de papel, dois ou três grampos e ninguém vai reparar que o vestido rasgou. Indignada, resolvi dar a noite por encerrada, ou ele me levava de volta pra casa, ou eu pegaria um táxi e iria embora sozinha.
Começou a terceira guerra mundial em frente ao estacionamento do bar. Eu dizia que ia embora, daquele jeito, estraçalhada. Ele dizia que eu estava fazendo frescura e foi buscar o grampeador, pra acabar de destruir meu vestido e fritar de vez a minha pouca paciência. Ele com o grampeador em mãos, vindo na minha direção e eu, descontrolada, gritando e chorando, dizendo que não. E foi assim que ela apareceu: a Ana Marcela, minha ex-colega de colégio. A gente não se via há uns vinte anos, pelo menos. É mole tanto azar? Eu mais gorda, eu mais velha, eu com o vestido rasgado, com Divo me mandando à merda e vindo na minha direção com um ameaçador grampeador de papel. Pura loucura. Quis evaporar, mas não foi possível. O jeito foi enxugar as lágrimas e tentar me livrar da criatura, tentar explicar de um jeito light e meio fictício, que meu vestidinho tinha descosturado e que eu estava dando “piti” porque sou mesmo histérica, concordar com Divo. Despedir-me com um beijinho, Divo e eu entrarmos no carro e sumirmos depressa de lá, pra nunca mais vermos ou ouvirmos falar da Ana Marcela. Não consegui. Ela fez questão de oferecer linha de costura e agulha, que sempre trazia dentro de sua bolsa. Sabem essas mulheres metidas a “mulher que vale por muitas”? Ela sempre tinha na bolsa: linha, agulha, novalgina, vaselina, isso desde os tempos do colégio. Chata! Precisei deixá-la costurar o vestido cinza com linha branca, morrendo de medo que me espetasse com a agulha, ou com aquele baita anel de brilhantes, que fez questão de dizer que ganhou de presente de casamento, durante sua viagem de lua-de-mel às Bermudas.
Ódio, eu estava com ódio. Fiquei parecendo a boneca Emília. Sutura encerrada, sob o olhar vitorioso de Ana Marcela e aplausos irritantes de Divo, que finalmente pôde me conduzir pelo mesmo ombro pra dentro do bar. Ana Marcela, quanta sorte a minha, sentou-se na mesa ao nosso lado, acompanhada do marido e um casal de amigos. Não demorou, o marido de Ana Marcela, o tal do Adolfo Elias, resolveu nos convidar pra mesa deles. Quanta gentileza. Pelo resto da noite o assunto foi cricricricri, ou seja, criança, criada, criada, criança. E eu, que não tenho criada, não tenho criança, fiquei muda. Divo e Adolfo Elias falaram sobre a cotação da bolsa de valores, sobre carros antigos, sobre futebol. Beberam uma garrafa de uísque. Noite interminável aquela. Lá pelas tantas, finalmente nos despedimos daquela gente. Já no estacionamento, Ana Marcela me chamou. – Diva, amor. Aqui está o cartão do meu cirurgião plástico. Ele é ótimooo! Quando resolver fazer um lifting diga a ele que fui eu que o indiquei. Mas, você está linda, apenas essas ruguinhas ao redor dos olhos, essa barriguinha, eu se fosse você...
Larguei a mulher falando sozinha. O cartão eu piquei em pedacinhos tão pequenininhos quanto confetes e mandei enfurecida na direção de Divo, que recomeçou o seu discurso, dizendo que tudo começou porque eu tive inveja do anel de brilhantes de Ana Marcela. Depois dessa noite eu jurei: daqui em diante quando eu andar ao lado de Divo, caminharei atrás dele. Assim, ele não poderá mais se apoiar em mim. Ana Marcela, nunca mais a vi. O vestido eu mandei pra costureira, que precisou transformá-lo em saia, tal foi o tamanho do estrago. E minhas ruguinhas vão bem, obrigada, elas se reúnem contentes a cada novo sorriso, especialmente quando consulto catálogos de joalherias, escolhendo o imenso anel de brilhantes que pretendo ganhar de noivado. Divo que me aguarde!

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