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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







23 de ago de 2011

UM DIA É DA CAÇA, O OUTRO DIA É DA PESCA!


Sábado é um dia dedicado à manutenção geral: cabeleireiro, manicure, depilação, telefonar para minhas amigas e ir ao supermercado. Não obedeço nenhuma ordem pra isso. Às vezes começo o dia telefonando para as amigas, depois vou à manicure, à depilação, em seguida ao cabeleireiro e, por fim, passo no supermercado. E foi exatamente assim, nessa sequência, que segui meu roteiro do último sábado.
Linda e loira, cabelos lisinhos e esvoaçantes, perfumada, lá fui eu pro setor de frios, depois setor de pães e eis que cheguei à peixaria. Peixe é nutritivo, mas o cheiro não combina nem um pouco com um dia dedicado ao embelezamento de uma diva. Com a pontinha dos dedos fui mexendo naquelas bandejinhas contendo filés. Para o jantar havia pensado em preparar salmão com batatas no forno. Conquistar Divo pelo estômago, deliciosa vingança, afinal engordei três quilos saboreando seus quitutes.
Ali estava, procurando o meu pescado, quando ouvi uma voz estranha , grave, meio sussurrada em meu ouvido: - Procurando namorado? Olhei pra criatura, um tiozinho de uns mil anos de idade, barriga protuberante e ausência de cabelos no topo da cabeça. Não, gente, não era o Divo, ele não tem mil anos de idade! Era um sujeito esquisito, que tinha comprado um peixe inteiro, desses que pescador adora tirar foto e mostrar que é bom de vara. Vara? Esqueçam! O tio parecia animadinho.
– Marina, há quanto tempo não te encontrava!
– Senhor, desculpe, não me chamo Marina.
– Pare com isso, Marina. Veja o que comprei, um namorado!
– Ah, que legal. Namorado é o peixe?
– É... Já tem namorado pro jantar?
– Tenho marido.
– Perguntei namorado, marido é feito arroz com feijão, pro dia-a-dia.
O tiozinho parecia criativo. Dei um jeito de escolher depressa o salmão e, com passos rápidos, fui pro setor de frutas e legumes. Já tinha escolhido batatas, cebola, cheiro verde. Bonitas as uvas! Estava escolhendo uns cachos quando surgiu novamente o tiozinho. – Pode provar que não tira o batom. Perdi a paciência. – Tio, sai fora, meu marido está logo ali e, quando chegar, vai te fazer correr.
Mentira, nem sou casada com Divo. Mas, o que eu poderia fazer a respeito? Tratava-se de um ancião. Assanhado, mas ancião!
Lembrei do vinho. Muita gente prefere vinho branco pra acompanhar o peixe, mas sou fã do carmenere. Já tinha escolhido uma garrafa quando lá veio de novo o mala do tiozinho. – Hoje teremos um brinde. Saúde, Marina! Um brinde à sua beleza.
Em seguida, pegou do meu carrinho de compras a garrafa de vinho que eu tinha escolhido e levou-a embora. Coisa de louco!
Busquei na prateleira outra garrafa igual, não tinha. Precisei encontrar um vinho similar, de outra marca. Dirigi-me ao caixa, paguei as compras e, no caminho do estacionamento, de novo fui encontrada pela criatura. – Marina, aceite o vinho. É um presente, para você brindar com seu marido e pensar em mim.
Recusei, agradeci. Mas, quando ele se plantou atrás do meu carro, de modo que eu não poderia dar ré sem atropelá-lo, acabei pegando a garrafa. Fui embora.
O sábado terminou com um belo jantar. O salmão delicioso, o vinho que ganhei de presente foi a segunda garrafa que abrimos. Estava ainda sentada à mesa quando Divo exclamou surpreso e um tanto zangado. – Diva! O que é isso? Meio tontinha com o vinho apertei os olhos pra conseguir ler o que estava escrito à caneta no rótulo do vinho: - Com amor de seu fã, Antônio”.
Expliquei do jeito que pude, omiti a história do tiozinho. Disse que peguei sem ler direito o rótulo e, provavelmente, alguém havia, por brincadeira, escrito isso.
Divo engoliu o peixe, mas duvidou da história. E eu, que pouco entendo de vinhos, menos ainda de peixes, arrumei uma confusão enorme aqui em casa. Agora, quando toca meu celular, Divo lança um olhar furtivo, de cantinho de olho, e se ajeita no sofá. Acho, ele imagina que o Tio Antônio é um caso que estou tendo.
Ah, querem saber? Bem feito! Esses homens, vez ou outra, merecem sofrer por amor. É o equilíbrio natural da vida, um dia é da caça e o outro dia é da pesca.

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