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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







1 de set de 2011

DIVA, TRANCADA EM CASA


Lá fora o sol, dentro do apartamento a sensação térmica assemelhava-se à temperatura da geladeira. Frio, muito frio! Acordamos atrasados, cada um correu pra um lado. Não deu tempo de lavar os cabelos, mas consegui fazer uma maquiagem rápida e leve. Divo despediu-se, escutei sua voz vinda do corredor, junto à porta do banheiro: - Bom dia, amor.
A pia lotada de louça. A máquina de lavar roupas funcionando à toda! E eu atrasada, reunião de trabalho marcada para as 09h00. Assim que terminei de me arrumar, larguei a casa pra lá e rumei em direção à porta de casa. Pressa, eu estava com muita pressa. Porta trancada, o chaveiro não estava no lugar de costume. Tenho uma chave reserva, aquela que fica sobre a prateleira da cozinha. Não estava lá. Falei uns nomes impublicáveis, olhei mais uma vez pro relógio: 08h35. Chegaria atrasada! Levantei almofadas, revirei minha bolsa, fiz uma breve excursão pelo apartamento. Nada do chaveiro, nada da chave. Telefonei pra Divo. Irritou-se, disse que não tinha visto chave nenhuma. Mas, como ele saiu de casa? Eis que, com essa pergunta, ele encontrou no bolso de seu paletó o meu chaveiro. Distração, talvez. Deixou-me trancada no apartamento.
Escrava moderna. De tailleur, salto 10, maquiada. Trancada no apartamento. Divo não poderia vir libertar-me, no máximo poderia enviar um motoboy com o meu alvará de soltura, mas demoraria uma hora isso.
A reunião! Como explicar a minha ausência? Como dizia a vovó, melhor uma mentira inteira do que uma verdade pela metade. – Doutor Armando? Bom dia, doutor. Sou eu, a Diva. Como o senhor está? Hã? Reunião? Nossa, esqueci que havíamos agendado a reunião, doutor! Estou aqui, em Curitiba, vim buscar os documentos da Parto Feliz, a maternidade nossa cliente. Pois não, doutor. Sim, devo voltar no voo das... das... 17h00.
Menti! Escrava, trancada, mentirosa. Pela janela observei o movimento de carros e pessoas. Livres, todos livres. Inveja dessa liberdade. O motoboy chegou, o interfone tocou. – Ô Dona Diva, tem uma encomenda aqui pra senhora, mas a síndica proibiu nóis de subir no apartamento, a senhora tem que vir buscar. – Ô Severino, tem aí uma cordinha ou uma escada? – Tem sim senhora, pode vir buscar que empresto pra senhora. – Severino! Não me faça perder a paciência, preciso que traga pra mim essa encomenda, é a chave do apartamento, estou aqui trancada. – Dona Diva! Seu Divo trancou a senhora em casa? – Trancou sim, Severino. – Que homem doido, trancar um anjo feito a senhora! – Severino, anda depressa, traga logo essa chave.
Ele abriu a porta, parecia um super herói. Indignado, valente, corajoso. – A senhora está bem?Quer que eu chame algum parente seu? Olha, se precisar de testemunha na separação eu digo toda verdade pro juiz. – Que separação, Severino? – A sua com seu Divo, ele trancou a senhora em casa! – Severino, foi um acidente, ele trancou sem querer. Olhou-me como quem duvidava de minhas palavras. Voltou pra portaria, cismado.
Dia complicado. Não pude ir pro trabalho, afinal eu disse que estava em Curitiba. O resto do dia reservei para lavar a louça, arrumar a cama, passar seis camisas sociais de Divo, aproveitei pra fazer as unhas e resolver um assunto com o gerente do banco. No final do dia, Divo chegou com a expressão zangada estampada em seu rosto. – Sabe o Severino? Passei pela portaria, ele me disse que se eu de novo te trancar em casa, ele vai chamar a polícia. Você, Diva, não sabe resolver nada sem gritar, pedir socorro. – Não gritei, nem pedi socorro! – Pediu sim, Severino disse que você queria escada e corda pra se salvar.
Não adiantou nada explicar toda a história. Divo, o involuntário causador da confusão, parecia determinado a brigar comigo. Perdi a reunião, fiquei trancada, menti pro meu chefe, tive que aturar Divo e Severino. Agora tenho quatro cópias da chave de casa. Uma fica dentro da minha bolsa, a outra fica na prateleira da cozinha, a terceira fica dentro da gaveta de calcinhas e a última, essa deixei dentro do vasinho de pimenta, aquele que Divo cultiva. Não tem erro, presa no apartamento não ficarei nunca mais!

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