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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







9 de set de 2011

O RESGATE DO CARANGUEJO


Na panela aqueles bichos que lembraram não apenas o passado, mas também o quanto eu tenho pavor de tudo quanto é bicho que pica, morde e rasteja. Caranguejos, quem merece isso? Foi um custo cozinhá-los, eu ali, na porta da cozinha, aflita e preparada pra sair correndo, em caso de emergência.
Voltei ao passado. Vovô e Vovó me levaram até Santos, litoral paulista. Na estrada compraram caranguejos. Sei lá o que dava na cabeça daquela gente de antigamente. Deixaram os bichos ao meu lado, sentadinha no banco de trás do carro. Os bichos escaparam, começaram a fazer excursão pelo veículo. E eu, divinamente exagerada, dei um show escandaloso. Gritei, pulei, quase me atirei pela janela do carro em movimento. Socorro! Pega! Mata!
Minha lembrança seguinte é aquelas coisas querendo escapar da panela, a cozinheira jogando os infelizes ainda vivos na água fervente, eles ficando com a cor avermelhada. A Mami brava, me mandando parar de chorar. Os bichos dentro do prato, a família feliz e reunida, indiferente à tortura e morte dos pobres animaizinhos. E eu, horrorizada, fui obrigada a comer tudinho.
Lá estava Divo, cozinhando caranguejos. Sim, eles ainda meio vivos. Resolvi salvá-los. Divo deu as costas, eu peguei uma colher de pau e a lancei para as vítimas, na esperança de resgatá-las. E não é que um deles se agarrou à boia, digo, à colher? Que maravilha, como eu sou altruísta. Tirei o caranguejo da panela e não sabia o que fazer com ele. Deixei sobre a pia. Meio morto, meio vivo. Vai bichinho, vai embora! Embora pra onde? Estávamos no oitavo andar de um edifício, em plena cidade de São Paulo.
Caminhou trôpego até a pontinha da pia e... Plóft! Caiu no chão. Mais do que depressa, fugi pra sala. Nesse exato momento, Divo voltou pra cozinha, envolto na mais santa ignorância dos fatos. Chinelinho de dedo, distraído e ocupado com os caranguejos a cozinhar. O fugitivo lá, encostadinho em seu pé, suas garrinhas afiadas a postos, preparadas para o ataque. E eu, sem saber o que fazer ou dizer, estava paralisada a metros de distância.
- Diva, amor, pode vir aqui?
Ir até lá, pertinho do perigo. Se fosse, gritaria apavorada. Se ficasse,quem gritaria seria Divo, que anda mimado e não sabe escutar o meu “não”. Ir ou não ir, eis a questão. Fui. O caranguejo andou de ladinho, ao menos se afastou dos pés de Divo.
- Diva, o que há com você? Está tudo bem?
- Hã... Claro!
Acho, eu estava visivelmente assustada. Meu olhar foi delator, mirei o bichinho, que já tinha saído da cozinha rumo ao corredor de acesso aos quartos.
Começou então a caça ao caranguejo. Correu sobre o tapete, entrou no quarto de casal. Desviou de um par de chinelos, subiu na pontinha do edredom que se arrastava no chão. Preferi fechar os olhos, creio que eu estava gritando enlouquecida. Fugi de volta pra cozinha. Divo, armado com uma vassoura, em instantes, voltou com o seu troféu: o caranguejo novamente capturado.
Triste fim, foi pra panela. Divo, excelente cozinheiro. Moqueca preparada com capricho e dedicação. E eu, quase vegetariana, não consegui saborear o prato. Solidariedade ao amiguinho que terminou  cozido.
Amanhã, sábado. Prefiro nem pensar nisso. No cardápio, anunciado por Divo, ostras. Nunca comi, mas já assisti à degustação. Meu paladar, quase infantil, contenta-se com arroz, feijão, bife bem passado e batatas fritas. Ainda bem que ostras não fogem, nem correm. Ainda bem!



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