É proibida a reprodução não autorizada dos textos deste blog, de acordo com a Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que regula os direitos autorais.

Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







6 de out de 2011

O "COMPREXO" DA ZEZÉ


Não sei por qual motivo, mas eu detesto o domingo à noite. Aquela musiquinha do programa Fantástico, isso desde que eu era criança me assombra. Uma espécie de hino fúnebre, o aviso de que amanhã a coisa vai ficar feia, o bicho vai pegar. Nesse momento, quando olho pra minha pasta de trabalho, o arrepio de desespero percorre a minha espinha. Prazos, trânsito, chefe, filas e ... Já estava “de bico”, revoltada com a Glória Maria e o Zeca Camargo, sorrindo e indiferentes ao meu problema, quando meu celular tocou.
- Dona Diva, sou eu, a Zezé!
Sabem aquele mau pressentimento que invade a gente em um milésimo de segundo? A coisa subiu e desceu feito rojão. Zezé nunca telefonava, quanto mais em um horário daqueles.
- Diga, Zezé.
- Num vai ter condução amanhã não. Os “ombus” vão fazer greve. Num vou poder trabalhar.
Pensei no horóscopo do jornal, aquele do suplemento feminino dominical. Li que os aquarianos teriam contratempos e que a conjunção de Urano com Júpiter causaria atrasos e intrigas durante as próximas 24 horas. Esses caras do horóscopo nunca acertam, parece a previsão do tempo. Porém, lá estava o problema, e olha que nem havia terminado o prazo de 24 horas!
Olhei pra pilha de roupa suja, amontoada na área de serviço. Olhei pro cesto de roupa por passar. Abri o cesto. Nada menos que oito camisas sociais de Divo, aquelas camisas de algodão que a gente passa de um lado e a danada amassa do outro lado. Eu já tinha deixado a geladeira descongelando, portanto eu teria que limpar a geladeira antes de ir pro escritório. Teria que acordar às 5 horas da manhã, se quisesse resolver isso.
Tomei a minha decisão!
- Zezé, eu te busco em casa. Me explica como faço pra chegar na sua casa.
- Xi, Dona Diva, a senhora num vai achar minha casa não. Fica aqui no “comprexo”, na comunidade!
- Comunidade? É igreja?
- Não, Dona Diva. É bairro mesmo.
- Tá, dá o endereço e eu acho com o GPS.
- Com quem?
- Deixa pra lá, dá o seu endereço, anda!
- Rua 1, viela 13, casa 867, Jardim do Barro Preto, comunidade de cima.
Tá, anotei. Me espera amanhã às 07h00, eu vou te buscar.
Suspirei aliviada, tudo parecia bem resolvido. No dia seguinte, digitei no Google Maps o endereço. Nem pensar, aquele tal de bairro era um branco só, ou melhor, um mato só. Fui aproximando o cursor e nada. A rua 1 não existia.
Telefonei pra Zezé. Não atendeu uma, duas, trinta e nove vezes. Resolvi rumar em direção ao Jardim do Barro Preto. Isso ficava na saída da Rodovia dos Retirantes, a 45 km de minha casa. Como que a Zezé conseguia chegar todos os dias em casa às 08h00? Incrível isso!
O trânsito estava caótico. Atravessei a Marginal de ponta a ponta, peguei a última ponte, de lá o GPS apontou que eu virasse pra esquerda. Errei. A voz da Fafá, a locutora do GPS que assim foi por mim batizada, insistia em repetir: faça o retorno assim que possível. Vire na próxima à esquerda. Mas, como virar? Era só casa, muro, rua sem saída, viela, barraco. E, finalmente, caiu a ficha. Aquele era o tal do “comprexo” da Zezé.
Parei em um estabelecimento comercial, desses com gente bebendo todas naquele dia e hora, uma mesa de sinuca na calçada, funk tocando o último hit de sucesso da moçada. – Vem, vem gostosa vem. Vai descendo, vai subindo, vem pra cá pro meu colinho. Vem, vem... E eu indo e indo na direção do sujeito que já tinha dado uns 2 goles no copo antes de parar de me comer com os olhos. – Bom dia, senhor. Aqui é o compre... complexo?
Olha, já paguei muito mico nessa vida, mas aquela pergunta era exatamente tudo o que eu não deveria ter feito, ao menos não assim.
- A madame tá perdida?
- Não senhor, vim buscar minha funcionária em casa.
Chamou um colega de bar. – Tonhão, leva a madame até o endereço que ela tá procurando.
Comecei a entender que eu estava no lugar errado, na hora errada. Peguei o celular da bolsa, eu tremia sem parar. Finalmente a Zezé atendeu, minha vontade era de gritar um palavrão.
- Zezé, eu já te liguei umas cem vezes. Estou no seu bairro, no bar do senhor... Senhor... Moço, o nome dessa rua qual é?
- Diz pra sua funcionária que você está na prefeitura da comunidade.
- Ouviu, Zezé, o moço disse que estou na prefeitura.
- Ave Maria, Dona Diva. Meu Santo protetor, protege dona Diva!
- Por que? Eu perguntei isso com a voz sumida, quase muda de tamanha aflição.
O homem me olhava como quem diz: perdeu, Mané.
- É tudo bandido, Dona Diva.
Olhei pra cara daqueles sujeitos, um a um. Notei que um deles tinha uma arma na cintura, o outro usava uma corrente de ouro grossa, cujo valor certamente pagaria metade das minhas contas atrasadas. E o outro olhava pra minha bunda.
- Senhores, eu procuro a viela 13, rua 1, casa...
Já sei onde fica, dona. Mas, pra chegar lá, tem que ir a pé.
Nem precisa dizer que tive que deixar lá o meu carro. Ainda pedi com jeitinho: - cuida do carro pra mim? E acho que sorri, bem bonitinha. Quem sabe eles tivessem dó e não levassem o som, o estepe, as rodas?
Era uma pirambeira que não acabava mais. Ladeira pra cima, ladeira pra baixo. E eu de salto alto. E eis que entramos em um labirinto. Casas e mais casas. Ao meu lado o Tonhão, abrindo caminho. De repente, um cachorro apareceu não sei de onde, começou a latir e eu comecei a gritar. O meu guia disse: passa, sai pra lá, Tim-Tim. Esse era o nome do pulguento.
Continuamos a trilha, que mais parecia uma maratona de salto alto. Depois de quinze minutos de caminhada, de eu quase ter pisado no rabo de um rato morto, de ter agarrado histericamente o braço suado do Tonhão, chegamos à rua e à casa da Zezé.
Descontraída, sossegada, lá estava ela. Sorriu feliz, chamou o cara pelo nome, perguntou da família dele, mandou beijo pras “criançada”. Tudo o que eu precisava era de um copo d´água, pra tomar o meu Lexotan.
Voltamos pelo mesmo caminho. Curioso, como alguém conseguia gravar na memória a rota pra sair do labirinto? Lembrei do rato, quando vi seu cadáver quis novamente gritar, me contive e o pulei com classe.
Tim-Tim continuava ali, coçando as pulgas. Quando me viu, latiu de novo. Chegamos ao bar, meu carro são e salvo, ninguém mexeu. Agradeci e, mais do que depressa, saí de lá.
Tudo isso pra não passar oito camisas sociais! O que não faço pra não ser escrava branca, amarrada ao tanque de lavar roupas?
No final do dia, Zezé telefonou pro escritório. – Dona Diva, os “ombus” continua de greve. A senhora vai me levar em casa?
Mas nem morta. Nunca! Ela poderia pedir demissão, me colocar no pau na justiça do trabalho, poderia me cobrar o reembolso do táxi, hospedar-se em um hotel por minha conta, ou mesmo pernoitar em minha casa. Perdi a paciência e a compostura. Finalmente exclamei o palavrão, que estava comigo guardado desde a excursão matinal ao tal “comprexo da Zezé”. Desliguei o telefone e tentei respirar. Olhei pro lado, o meu chefe, Dr. Armando, olhando fixo pra mim. Só depois percebi que o palavrão era cabeludo demais e que ele nunca tinha me visto tão sem compostura, tão enfurecida.
Zezé dormiu lá em casa três noites, o tempo que demorou para os nobres condutores dos ônibus retornarem aos seus nobres trabalhos. O Jardim do Barro Preto eu risquei do mapa, aliás ele parece ter mesmo caído do mapa, de tão longe que fica.
O que eu gostaria mesmo de entender é: por que chamam favela de complexo comunitário? Se eu soubesse que era uma favela, não teria ido de salto alto buscar minha funcionária, ou melhor, a Zezé. Imaginei que fosse um conjunto residencial, esses no estilo da Cohab.
Já li a notícia de hoje no jornal. De novo os nobres... Vocês sabem o resto... Vão entrar em greve. De novo sem ônibus? Telefonei depressa pra Zezé, pedi a ela que traga amanhã uma malinha com mudas de roupa, que avise à família, porque ela virá pra ficar. Por tempo indeterminado e até que as reinvindicações dos profissionais do volante sejam atendidas. Dias? Semanas? Meses? Ou, quem sabe: nunca!

Esse texto é pra você, Fernando. A ideia surgiu em nossa conversa. Muito bom saber que amigos do tempo de juventude são hoje meus leitores!

Um comentário:

Isis Liberato disse...

Muito boa....
Tá certa você, Diva , de pedir pra Zezé levar a malinha..rsrsrsr...
Beijos

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário!