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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







13 de dez de 2012

FELIZ NATAL, FELIZ 2013!


Natal lembra infância, a casa com aroma de alimentos deliciosos preparados para a ceia, burburinho de gente feliz a conversar e rir, muitos presentes, muita saudade.  Esta época do ano eu considero difícil de enfrentar, porque minha viagem ao passado tem passagem só de ida, preciso voltar a pé todas as vezes que vejo uma árvore de Natal com luzes coloridas, que escuto as canções de Natal. Meus pais, meus avós e bisavós, meus tios, meus irmãos. Muitos partiram deste mundo, em direção ao infinito. Lembro de um Natal que deixou lembrança especial.  
Talvez, eu tivesse quatro, cinco anos de idade. No céu vi uma luz que se movia entre as estrelas. Talvez, fosse um avião, ou um satélite. Pra mim era o Papai Noel, com seu trenó iluminado.  Meu coração acelerou, eu pulava de contentamento! Noite Feliz! Quase todos os anos eu pedia o mesmo presente: uma nova boneca Susie. 
Minha mãe e minha avó me levavam às compras, que faziam de modo discreto, conseguiam me enganar direitinho. As lojas escolhidas, invariavelmente, eram a Sears e o Mappin, aqui na cidade de São Paulo. A loja Sears ficava localizada onde hoje funciona o Shopping Pátio Paulista, na Rua Treze de Maio. O Mappin ocupava a esquina da Praça Ramos de Azevedo com Rua Xavier de Toledo, no Centro da cidade.  Nenhuma dessas duas grandes lojas de departamentos sobreviveu ao passar das décadas.  Eu adorava ir à Sears. Havia no fundo da loja um setor destinado aos gulosos e esfomeados, ou seja, um setor feito sob medida pra mim!  Guloseimas irresistíveis, tais como amendoim e castanha de caju torrados na hora, eram pesadas e acondicionadas em saquinhos de papel branco. Havia também um chocolate branco, em formato de bichinhos, de sabor inesquecível. Balas azedinhas da Sönksen.  Tudo isso e mais um pedido especial: Papai Noel, traga pra mim a minha boneca. A foto sorrindo ao lado do bom velhinho é em preto e branco. Eu usava um lacinho de fita, vestidinho rodado e sapato branco de pulseirinha.  Zeca, meu irmão, ao meu lado, rostinho feliz e sapeca.  Esperar pelo Natal era o melhor da festa. 
O dia em que minha mãe buscava as caixas guardadas com todos os enfeites natalinos era um dia mágico. Montar a árvore, aquela confusão de bolinhas que quebravam, luzes do pisca-pisca que volta e meia não funcionavam. Risos, alegria, esperança. O grande dia, a mesa caprichosamente posta, todos reunidos para celebrar o nascimento de Jesus Cristo.  Anos mais tarde, vi o mesmo sorriso feliz, o mesmo brilho nos olhos verdes do meu filho. A magia do Natal que passei adiante, o doce encantamento da espera do Papai Noel.  Outros dias virão, a vida segue em frente, o tempo passa. Um dia, meus netos viverão o mesmo instante, feito uma brincadeira de roda infinita, um laço bonito que enfeita a vida.
Natal, pra mim, é saudade. Saudade de você, Mami, que fez dessas datas um momento inesquecível pra mim e meus irmãos. Saudade de você, Pai, Vó, Tia, Vô. Meus personagens reais, que me ensinaram a ser quem sou.  Celebrarei mais uma vez, escondendo em uma caixa bonita o meu coração quebradinho pela ausência de todos vocês. Celebrarei buscando no Céu estrelinhas muito brilhantes, que acenarão pra mim. Meus “Papais Noeis”, que tanta alegria me trouxeram ano após ano, lembranças que valem mais do que todo e qualquer presente que alguém possa comprar.

A você, leitor, leitora, deixo aqui o meu desejo de um Feliz Natal, com muito Amor, muita Paz. Que o ano de 2013 seja repleto de bons motivos pra você celebrar a Vida, com saúde, harmonia, prosperidade.
Diva Latívia sai agora de férias. Até a volta!

8 de dez de 2012

O ANUNCIADO FIM DO MUNDO


Acho que eu tinha cinco, seis anos de idade. Creio que não mais do que isso, afinal eu estava na pontinha dos pés para visualizar meu rosto no espelho do lavabo. De onde será que eu tiro essas ideias malucas, que parecem ter sido adquiridas ainda na época em que eu era um embrião dentro do útero de minha mãe? Cismei que eu deveria olhar bem dentro dos meus olhos, refletidos naquele espelho que parecia imenso diante de mim. Ali fiquei por algum tempo, não sei se durante uma fração de segundo, ou se por vários minutos. Lembro muito bem do resultado: pânico! Olhar dentro dos olhos, ao admirar-me no espelho, revelou-se algo assustador. Medo! O tom azul esverdeado de meus olhos ganhou dimensões infinitas, que me conduziram para algum lugar estranho, longe daqui, dentro de mim. Sensação indescritível, gritei!  
Explicar o que eu, afinal de contas, havia aprontado, não foi muito simples. Minha mãe, já acostumada ao resultado de minhas travessuras, de modo surpreendente compreendeu que eu havia me assustado ao fitar demoradamente meus olhos no espelho do banheiro. Muitos anos mais tarde, eu soube que ela tinha tido a mesma experiência em alguma época de sua vida. Maluquice hereditária, talvez.
Hoje cedo, ao olhar-me no espelho do banheiro, esse episódio passou por mim, feito um filme antigo, em preto e branco. Olhei-me, corajosamente. Olhos nos olhos, eu e eu. O mesmo temor, desta vez controlado. Entendi que fora de mim havia apenas uma salvadora, uma super-heroína: eu! Eis a diferença daquela época de infância para o tempo de agora. Tudo o mais é desconhecido, misterioso, um tanto angustiante. Que mundo é esse, afinal? O portal que leva ao infinito parece ter sua chave no olhar!
Cedo demais para tamanho delírio, em meio a dúvidas, sentimentos, lembranças, puras e simples divagações. Bebi o café distraída, sem reparar que sequer o havia adoçado. Li algumas notícias do dia. Hoje, outro dia. Dezembro, outro dezembro.  Ano após ano.  A vida passa depressa, sem se importar com minhas perguntas sem resposta. 
Li algo sobre o anunciado fim do mundo, prometido para o dia 21 de dezembro de 2012. Fim do mundo com data marcada, um evento final, orquestrado por aqueles que se dispuseram ao papel de arauto do apocalipse.  Algo mais ou menos assim: - “Vai acabar, olha aí freguesia. Leve dois e pague três!”.  É pegar, ou largar. É pagar pra ver. O mundo no final, muita gente fazendo compras de Natal, planos para as viagens de férias, tocando a vida sem se importar com isso. E se for propaganda enganosa? A quem deveremos recorrer? Procon? Justiça? Polícia? Ir à delegacia e reclamar com o doutor delegado: -“ Dotô, fui pra festa do fim do mundo e nenhum meteoro bateu na Terra, nenhum furacão me levou, sequer o chão se abriu. Não fui pra pqp!”.
Fim do mundo? Isso é coisa de quem não tem muita coisa que fazer. De quem não fica três, quatro horas em um ônibus, ou trem, para chegar ao trabalho todos os dias. Isso é coisa de quem não usa sua energia, seus conhecimentos, sua força para edificar boas obras nesta vida. De quem pouco se importa com o sofrimento alheio. O mundo acaba quando acaba a esperança, quando o brilho do olhar se vai, deixando ali apenas as marcas opacas e fundas da indiferença e do egoísmo. Mundo que é mundo não acaba. Mundo que é mundo está dentro do coração de cada um. Mundo que é mundo a gente acessa no olhar, no sorriso, nas palavras de alguém. Isso tem aroma de eternidade, isso é inextinguível.  Temos os corpos mortais, frágeis, passageiros. Foi isso o que vi em meus olhos aos cinco, seis anos de idade. A minha mortalidade, a finitude de meus ossos, nervos e músculos. Tudo isso versus algo maior, indelével, interminável. Deus, esse o nome disso. Minha fé nasceu diante daquele espelho e hoje, tantas décadas mais tarde, quando escuto algo sobre o fim do mundo, eu rio de mim, rio de tudo isso. Algo além de nós, porém em nós, jamais acabará, feito chama que nunca se apagará: AMOR!


28 de nov de 2012

90 MIL VISITAS!



Noventa mil. Belo número! Chegamos a essa marca hoje, o número de visitas aumenta a cada dia. Aos leitores, mais uma vez, deixo aqui o meu agradecimento.

Diva Latívia

26 de nov de 2012

PROCURANDO O ESPÍRITO DO NATAL


E eis que o espírito natalino invadiu meu coração. Resolvi decorar minha casa com luzes, enfeites coloridos, guirlanda, árvore de Natal. Pra entrar no clima, encontrei um antigo CD com "Jingle Bells" e etc.
Pra começar, escolher onde vai ficar a árvore de Natal, isso em um novo apartamento com dimensões muito reduzidas, não é simples. Perto da varanda, certamente a árvore voaria pelos ares com o vento. Perto da porta atrapalharia a passagem. Perto do corredor atravancaria o vai e vem.  Acabei por escolher a sala de jantar, um cantinho espremido entre a mesa e o buffet. 
Primeiro passo, abrir a imensa caixa de papelão lacrada com fita adesiva, com os seguintes dizeres anotados: “cuidado, frágil!”. Essa anotação eu fiz pra que a equipe da mudança não quebrasse os minúsculos e delicados enfeites natalinos.
Segundo passo, correr da barata que saiu voando de dentro da caixa de papelão.  Entrei em pânico, tive uma crise de nervos. A bicha voou direto pra dentro do meu quarto, a poucos metros da sala. Voou e pousou na porta do guarda-roupas. Procurei, em vão, um daqueles aerossóis que prometem eliminar insetos. Encontrei no armário da lavanderia os seguintes itens: bom ar, pinho sol, comfort e sabão em pó. Só? Sim, só. Olhei na direção da vassoura, a vassoura me encarou. Não tinha jeito, era vassourada, ou então conviver indefinidamente com aquele ser cascudo e repulsivo. Não sou muito de beber nada alcoólico em dias úteis, horário comercial. Porém, eu precisava tomar umazinha, pra criar coragem, matar aquele monstro horripilante. Era ela, ou eu.  Na dispensa da cozinha encontrei uma garrafa de uísque de Divo Latívio. Dispensei o copo, bebi um imenso gole direto no gargalo. Argh! Eu pulei segurando firme a vassoura. Eu estava preparada pra voar!
Marchei com passos decididos rumo ao quarto. A barata que se preparasse, aquela seria sua última cena! Abri a porta do quarto e... Cadê a barata? Tinha sumido. Procurei atrás da porta, segurei a respiração, me coloquei na pontinha dos pés e puxei a cortina da janela. Nada da fugitiva! Embaixo da cama, nada. Bati com a vassoura em cima do guarda-roupas, atrás do criado-mudo, balancei a roupa de cama. Simplesmente ela tinha desaparecido.
Voltei à decoração natalina mas, por precaução, deixei ao meu lado minha poderosa arma: a vassoura.
Esses pisca-piscas costumam dar pau depois que os guardamos durante vários meses. Estiquei aquele fio embaraçado de ponta a ponta na sala, uns quatro metros no máximo, já que a sala é liliputiana. Notei que havia um fiozinho solto, coisa simples de ser consertada. Onde eu teria guardado a fita isolante? Lembrei: na caixa dentro do guarda-roupas do quarto. Lá fui eu descalça, cantarolando "We Wish You a Merry Christmas". Abri a porta do guarda-roupas e quem estava lá, pousada na minha jaqueta de couro argentino? Ela, a barata voadora, que fez seu número e voou rasante sobre a minha cabeça. Foi pra sala, eu peguei a vassoura e acertei uma cacetada na mesa lateral, derrubei o abajur e quase mandei pelos ares um vaso de cristal, herança da bisavó de Divo. Aquilo estava além dos meus limites, era uma questão de honra: eu teria que exterminar a barata, ou não me chamaria mais Diva Latívia!
Atrevida, parou no alto da árvore de Natal, feito uma estrela guia. Falei um palavrão impublicável. Eu já não mais raciocinava, eu estava programada para matar a barata. Peguei a vassoura e... Bati na árvore de Natal com tamanha força que matei a barata e destrocei a árvore de Natal, que partiu em três pedaços.
Naquele instante, tocava "Noite Feliz" no CD. A casa toda revirada, o cadáver do inseto ali, inerte. O pisca-pisca atropelado pela vassoura. E eu? Ah, eu desliguei o CD, liguei o rádio naquela estação de rock. Busquei um copo, coloquei duas pedrinhas de gelo, peguei novamente aquela garrafa de uísque de Divo e me servi com dois dedinhos de uísque, que não aprecio, mas bem serviu pra relaxar. Dancei uma espécie de dança de vitória de guerra, algo atávico, herança ancestral dos vikings. Meio fora de mim, desisti de continuar a arrumação natalina. Adiei, por tempo indeterminado.
Essa foi a minha primeira tentativa de entrar no ritmo do Natal. Quem sabe, se eu visitar as ruas decoradas com luzes e enfeites muitos, eu volte ao clima? Quem sabe?

21 de nov de 2012

CAMPANHA PAPAI NOEL DOS CORREIOS

Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...
A frase da antiga canção natalina bem pode traduzir o quanto é injusta a distribuição de renda neste planeta. Enquanto pouquíssimos detém uma fortuna incalculável, muitos padecem na mais degradante miséria material. Nosso país não é exceção. Aqui no Brasil crianças morrem de fome, muitos moram nas ruas, não têm sequer registro de nascimento, não têm o que vestir, o que comer. Os problemas sociais são gravíssimos.
Vem aí o Natal. Há vários anos os Correios, em um belíssimo trabalho, promove a campanha "Papai Noel dos Correios". Podemos ser ajudantes, ou padrinhos. Podemos escolher uma, ou algumas cartinhas que crianças carentes enviam para o Papai Noel e darmos a esses meninos e meninas o sonhado presente. Para saber mais detalhes, aqui está o link: http://www.correios.com.br/papainoelcorreios2012/
Faltam poucos dias, é até o dia 30.11.12!

12 de nov de 2012

OUTRORA


Nem sou tão velha assim, mas sou de outro tempo. No “meu” tempo os homens usavam cueca samba-canção ( qualquer coisa parecida com uma bermuda, um cuecão), eram provedores ( pagavam todas as contas), usavam bengala, chapéu, bigode e... Nossa, viajei no tempo!  O “meu” tempo antecede a mim.
Naquela época, antes de mim, os homens cortejavam as damas, faziam serenatas sob as janelas, os casais suspiravam apaixonados à luz do luar. Usavam terno risca de giz, lenço no bolso do paletó, abriam as portas para as senhoras passarem, eram galantes, cavalheiros. O “meu” tempo, que nem vi, eu li em livros, assisti em filmes, escutei em histórias de avós, tias velhas, gente que teve a sorte de chegar ao mundo cinquenta anos antes de mim.
Quando nasci havia neste mundo uma revolução feminina, as moças queimavam sutiãs, os hippies pediam paz e amor e os Beatles cantavam Let It Be. Não, aquele não foi o “meu” tempo, cheguei atrasada meio que perguntando “cadê todo mundo?”.
E hoje, ah... Hoje eu vivo em um mundo mais maluco que qualquer história de ficção científica. Um mundo cinzento onde tudo é eletrônico. As pessoas passam umas pelas outras nas ruas, todas apressadas, ninguém abre a porta pra ninguém. Os homens andam dentro de seus carros, não fazem serenatas, nem usam chapéu. Quase ninguém observa a lua. E eu percebo que estou fora de moda, sou de outro tempo, do tempo em que o homem curvava-se respeitosamente, estendia sua mão à amada e a convidava a dançar. Do tempo do vestido rodado, da flor nos cabelos, do tempo em que o tempo parava para dar lugar ao romantismo, entre rosas e suspiros. E nem sou tão velha assim...

7 de nov de 2012

A MALVADA DO SUPERMERCADO


Eu tinha acabado de sair da reunião quando tocou meu celular. Era Divo.
- Amor, a que horas você vai voltar do trabalho?
Jamais sei a que horas voltarei pra casa. A correria é muita, o trânsito complica tudo e eu não sei de mais nada.
- Lá pelas 20h00. Talvez, lá pelas 21h00. Por que a pergunta?
- Precisamos ir ao supermercado.
Nada, mas nada mesmo me irrita tanto quanto fazer o supermercado.  Pior que isso, nada, mas nada mesmo me irrita tanto quanto fazer o supermercado à noite, depois de um longo e cansativo dia de trabalho.
Passei o dia sem a menor pressa de voltar pra casa. Pudera, eu sequer teria o gostinho de ver na TV o bonitão. Não, ele não é mais O Astro. Rodrigo Lombardi agora salvou Jorge, digo, trabalha na novela Salve Jorge. Ai, ai...
Voltando ao assunto: eu odeio fazer supermercado, detesto esse tipo de compromisso depois de dez, doze horas de trabalho. Porém, Divo, melhor do que ninguém sabe o jeito certo de me intimar. Ou será me intimidar? Nem sei. Tudo o que sei é que eu saí às 20h30 do escritório me arrastando.  Eu era o retrato em preto e branco da situação. Parecia que uma nuvenzinha de chuva caminhava sobre minha cabeça, a desaguar um temporal.
Supermercados modernos, de fato hipermercados. Lá tem de tudo: de fralda geriátrica até ração para o cachorro. É possível caminhar quilômetros a puxar e empurrar um pesado carrinho de compras. Pensando bem: pra quê academia de ginástica, não é mesmo?
 Quando eu preparo a lista de compras faço questão de anotar tudo o que falta em meu lar, doce lar. Primeiro, faço uma limpeza na geladeira. Depois, faço uma limpeza na dispensa. Depois, é a vez do banheiro e da área de serviço. Mas, ultimamente, ando sem tempo. A lista foi preparada por Divo Latívio. Lista econômica, exótica, como se escreve “esdrúxula”?
Estávamos na fila dos frios, meus pés doíam tanto que decidi tirar os sapatos. Descalça, provei uma fatia de mortadela. Meu estômago roncou satisfeito. Divo continuava a escolher calmamente entre salame italiano e salame hamburguês. Ao meu lado um senhor de uns 79 anos admirava o meu decote. Quase faleci, eu estava mortinha de cansaço. Sorri amarelinho pro vovô.
A sessão de produtos de limpeza é muito interessante, especialmente às 22h00 e depois de um longo dia de trabalho suado. Na lista de Divo constava apenas detergente e sabão em pó.  Lembrar-se de cada ítem faltante na área de serviço, isso parece um tormento. Pelo sim, pelo não, coloquei uma porção de coisas no carrinho já lotado.
Congelados. Não gosto muito disso, prefiro tudo natural, mas Divo é moderninho. Couve de Bruxelas, smiles e hambúrguer. Tudo isso e mais alguma coisa. Eu já não via mais a hora de voltar pra casa! Tentei calcular a quantas horas eu estava vestida com aquele tailleur, meia-calça, scarpin de salto alto. Exatamente quinze horas e quarenta e cinco minutos.
Divo, vestido com bermudão, chinelão e nem aí, estava sem a menor pressa. Decidiu escolher pilhas para a lanterna. Depois decidiu escolher vinhos para a nossa adega. Não fosse meu desespero, eu o teria ajudado a escolher, mas eu estava literalmente desesperada. Eu daria tudo por um banho, por meu pijaminha, minhas pantufinhas. O que teria acontecido no capítulo de Salve Jorge?
- Divo, estou muito cansada, ainda faltam muitas coisas na sua lista de compras? - Falta, não reclame Diva, deixe de moleza!
Moleza, eu? Aquilo começava a mexer com meu juízo.
Eram 23h20 quando passamos pelo caixa. Divo atento ao empacotamento dos produtos, que embalava sossegadamente, sem o menor sinal de estresse, e eu fazendo trabalho braçal, ou seja, era eu quem tirava as coisas de dentro do carrinho e colocava sobre a esteira rolante do caixa. Tudo bem, se minha missão terrena era sofrer tamanho sacrifício, pois que assim fosse. Eu sabia que estava suada, desgraçada, descabelada. Eis que a água de lavadeira, a maldita Cândida, escapou de minhas mãos, bateu na quina do carrinho e estourou no chão, juntinho de minhas pernas. Respingou em mim. Manchou irremediavelmente minha roupa. Eu comecei a chorar. O que fez Divo Latívio? – Pare de chorar, você está ficando louca?
Pois foi assim que vi Divo Latívio pela última vez, isso há 48 horas. Eu saí do supermercado pisando duro e ligeiro, eu e meu perfume de limpeza de vaso sanitário.  Ainda escutei Divo gritar: - Diva, volte aqui, você está com minha carteira dentro da bolsa! Peguei um táxi e rumei pra um hotel quatro estrelas (poderia ser cinco estrelas também).  Tomei um banho de banheira digno de uma rainha, dormi uma noite de princesa, espalhada na cama, meu corpo em formato de X. No dia seguinte, comprei duas mudas de roupas e tratei de não atender nenhum telefonema de Divo.
Escrevo este texto no tablet que adquiri ali no shopping. Nada como um bom hotel com wi-fi, cama king size e serviço de quarto.  Quando voltarei pra casa? Sei lá! Tirei férias depois do episódio do supermercado. Ah, fala sério... Tem coisa melhor que umas férias conjugais, ainda mais com tudo pago com o cartão de Divo Latívio?


31 de out de 2012

PAPO DE FINADOS


Finados, de coisa finda, finita, findada. Já foi, já era! Findou!
Há quatro décadas, usando trancinhas e lacinho nos cabelos, eu acompanhava uma comitiva “sui generis” ao cemitério no Dia de Finados. Minha avó, acompanhada de sua irmã, uma  tia e uma prima. Na floricultura em frente ao cemitério a vovó comprava palmas vermelhas, funéreas. E lá íamos nós, pelas alamedas da terra dos pés juntos, o sol escaldante a nos maltratar. Ano após ano, o ritual se repetia. Ao chegarmos ao túmulo de nossos falecidos parentes, todas faziam expressão de tristeza profunda. Silêncio! A vovó, abraçada às flores, mexia os lábios em um quase filme mudo. Estava rezando em voz baixa, tão baixa que eu tentava inutilmente ler seus lábios. A seguir, começava a enfeitar o túmulo, de terra, com as flores funéreas. Formava caprichosamente uma cruz. Mais algumas preces quase mudas, um sinal da cruz e íamos embora, a observar as esculturas das sepulturas e as inscrições em suas lápides. Programa fúnebre, pouco indicado para uma criança de sete, oito anos de idade.
O tempo passou e hoje eu visito o jazigo de minha mãe, no Cemitério do Morumbi, em São Paulo. Sem túmulos, apenas o gramado e uma placa com o nome da mamãe. Pra ela eu costumo levar margaridinhas e esqueço o tempo, a hora. Minhas preces, provavelmente, também se parecem com um filme mudo. Algo particular, somente nós três sabemos o que rezei:  Deus, Mami e eu. E é assim que compreendo o que ia fazer minha avó naquele cemitério, o que ela rezava, por que insistia em repetir o mesmo ritual anualmente. Lá no cemitério estava enterrada minha bisavó Almerinda, a mãe da vovó.  Saudade! Mães, avós, bisavós. Todas deveriam ser imortais!
Às vezes eu evito ir ao cemitério. As flores são entregues semanalmente por uma florista, um jeito que encontrei de homenagear minha falecida mãe. De tudo isso restou o pavor que tenho de cemitério, um trauma de infância. Já decidi que, quando eu partir desta pra seguinte, quero que meu corpo seja cremado. Nada de enterro, nada de cemitério.
E esse papo funerário, inspirado no Dia de Finados, termina com um dizer de ninguém menos que minha saudosa avó: “vivam cada dia como se fosse o último”. É isso aí, Vó, você sabia das coisas!




23 de out de 2012

O FIM DO RELACIONAMENTO



E quem semeia pé de vento colhe furacão.
Os relacionamentos amorosos deveriam ser tão longos, previsíveis e estáveis quanto foi o casamento dos meus avós. Porém, a vida nem sempre é assim. Altos e baixos. Baixos e baixos, mais baixos... Enfim... É uma pirambeira!
Eu já declarei isso anteriormente, mas nada custa repetir: minha certidão de casamento é tão extensa que parece uma “capivara policial”. Casei, separei, divorciei, casei. Enfim, o único estado civil que eu ainda não provei é o de “viúva”.
Qual será o primeiro sinal de alerta, o primeiro indício de que um relacionamento amoroso está indo pro beleléu? A falta de beijos na boca? A falta de tesão de ambas as partes? As visitas fugidias dele aos sites pornôs enquanto ela trabalha? As brigas reincidentes por conta de bobagens? A falta de planos  em comum para o futuro?  Aquelas férias sonhadas que precisaram ser canceladas porque ele não quer viajar? A sacanagem do orçamento financeiro mensal, quando um arca com  mais despesas do lar que o outro?
Quantas divergências podem atormentar a vida de um casal à beira do abismo? A prévia do adeus é longa, demorada, dói aguda feito um dente cariado. O desamor dói!  Desamar. Desfazer. Desatar. Separar!
O primeiro momento é de dor, torpor. O segundo momento é de solidão, desordem. Nem quero pensar nisso, prefiro não lembrar.Quando aquele jeito dele se sentar esparramado no sofá deixa de ser bonitinho e passa a ser invasão de território, isso é o começo do fim. Quando a conchinha acolhedora do momento de dormir passa a ser a causa da insônia, isso é o começo do fim. Quando aquele jeito dele se vestir se torna deselegante. Quando o sorriso dele tem um defeito. Quando o perfume dele é enjoativo. E tudo o mais é um pulo no escuro: ou vai, ou racha!
Vida e seu ciclo. Gente que vai, gente que vem. Relacionamentos longos, duradouros, equilibrados, coisa rara! Voltar ao mercado dos solteiros, ser experimento, cobaia, momento? Começo a vislumbrar a positividade da solidão, do celibato, da reciclada castidade. Desfaz-se um laço, sabiamente não foi nó!

Texto baseado no relato de uma leitora, recém-separada. Há de surgir um novo sorriso, uma nova energia, um novo amor!






14 de out de 2012

AOS MEUS PÉS


Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Tentei disfarçar, mas ele mexeu comigo, abalou minha estrutura. Andei alguns passos, mas a todo instante eu, discretamente, lançava um olhar furtivo na sua direção. Ele era exatamente o que eu sonhava, do jeito que eu sempre quis. 
Sei que eu sorri! Ajeitei minha franja, caída sobre minha testa. Suspirei, depois tentei me recompor.  Simplesmente perfeito, ele era perfeito!
Comecei a sonhar acordada, delírios breves. Uma cena quase hollywoodiana,  sonhei usar um vestido esvoaçante, dançávamos juntos, ele reluzia discretamente com seu brilho natural e eu me sentia descalça, a pisar em nuvens de algodão.  Era ele! O quanto eu o havia procurado? Finalmente nos encontramos! Não resisti e tomei uma decisão: ele seria meu! Não importava o quanto isso custaria, quantos sacrifícios eu teria que fazer para tê-lo. Era ele, tinha que ser ele e ponto final. Iríamos pra night, pra balada, viajaríamos para Nova Iorque, talvez Paris. Glamour, estilo, ele era tudo o que faltava para compor a minha produção.
Eu o tive em minhas mãos, depois aos meus pés. Meu objeto de desejo! Quanto prazer, quanta emoção! Mandei embrulhar o scarpin preto de cetim. Paguei no cartão de crédito em três vezes. Ainda não o calcei, mas de vez em quando eu o tiro da caixa e o admiro: mais um  par de sapatos pra minha coleção, pura paixão!

8 de out de 2012

12 DE OUTUBRO


Semana mais curta, hoje é segunda, mas na prática hoje é terça-feira. Duvida? Faça as contas: sexta-feira será feriado nacional. Dia de Nossa Senhora Aparecida, santinha bonitinha, padroeira do Brasil. Mas, cá entre nós, bom mesmo é que sexta-feira, além de ser feriado, é o Dia das Crianças.
Antigamente, no Dia das Crianças, as freiras do colégio onde eu cursava o antigo primário, promoviam uma festinha com a presença dos pais das alunas. Que horror, lembro que havia um toque militar naquela formação organizada, as crianças todas enfileiradas. Ai daquela que sentisse vontade de fazer xixi, espirrasse, ou fizesse tchauzinho pra mãe, pra avó. Linha dura, criança tinha que obedecer aos adultos e ponto final. Um tormento, no pátio da escola se formava um imenso círculo, uma roda de alunas que  ao som de “criança feliz” giravam cabisbaixas, mãos para trás, sem noção, sem explicação. Ordens são ordens. Assim foi criada a minha geração, praticamente batendo continência. Idos anos 60 e 70!   “Criança feliz, feliz a cantar. Alegre a embalar seu sonho infantil”.  Se havia alegria, estava longe de mim tal sensação.
Que Nossa Senhora Aparecida me perdoe, sei que havia exceções, mas aquela época não me traz boas recordações, lembro da ditadura militar, da ditadura familiar e da ditadura das freirinhas do colégio, momentos nada felizes, sonhos infantis controlados, enfileirados, podados. Ser criança não era tão fácil quanto é agora. Queria ser criança do século 21!
A alegria dessa data ficava por conta da minha família. Lembro que, certa vez, recebi do meu pai um presente especial, um kit de mágica. Ah, o papai, ele era brincalhão, quando faltava energia elétrica usava a pouca iluminação, luz de velas, para ensinar a fazer com as mãos sombras na parede, em formato de pássaro, macaco, coelho. Ríamos todos, isso se eternizou em meu coração.
Antigamente um  presente do Dia das Crianças era apenas uma lembrancinha, algo simples, tal como um baralho do jogo do mico, um saquinho com pinos mágicos, um livro, um saquinho de balas. O consumismo ainda não havia acometido nossas vidas. Minha geração não ia às lojas de brinquedos e esperneava histericamente, feito alguns rebentos atuais: - " Compra! Compra! Eu quero! Me dá! Buáááááááá!". Isso é coisa da geração seguinte à minha. Ah, os filhos, esses foram criados sem filas, sem linha dura. Outro problema, os extremos jamais funcionaram a contento. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Regras demais, regras de menos, nada bom isso. Sou da geração salsicha do hot dog. Minha geração obedecia aos pais e décadas mais tarde obedece aos filhos. Obediente, portanto, essa minha geração.
Falei do meu pai? Hoje completa treze anos que ele partiu rumo ao infinito. Espero que tenha se transformado em uma estrela, que brilhe com jeito divertido no firmamento, que faça as estrelas ao seu redor rir sem parar. Foi bom ser criança e ter momentos breves, alguns leves, acompanhada desse alguém, que às vezes fez o bem. Esperar perfeição de nossos pais, isso é  exigir demais.
Minha infância transcorreu normalmente, do jeito que a infância de uma criança deveria transcorrer. Obediente, mas nem tanto, ainda tenho marcas, cicatrizes de tombos de árvores, quedas de bicicleta, até mesmo do estouro de bombinhas eu trago cicatrizes. Fui moleca! Naquela época a gente brincava na rua, esqueçam o que acontece agora com a falta de espaço e crianças brincando em brinquedotecas de condomínios sofisticados que, de fato, são cortiços verticais.  A gente era feliz, apesar das ordens, apesar das freiras, apesar dos pais. Ser criança era simples demais!
Quer uma sugestão? Seja criança, não cresça. Ser adulto não tem graça, a gente para de brincar, ganha rugas de preocupação, se chateia e chateia quem está ao nosso redor. É muito chato ser adulto!  Hoje sinto saudade da infância, sinto saudade da inocência, da felicidade desinteressada. Hoje, de um modo indulgente, sinto saudade do meu pai!

3 de out de 2012

A HOSPEDAGEM DE TIA DEUZINETE


Há quantos anos eu não via a Tia Deuzinete? Tentei calcular, puxei a memória até lembrar aquele dia. As férias escolares a gente passava no sítio. O pomar com jabuticabeiras, abacateiros e limoeiros. Goiaba com bicho, fiapos de manga presos nos dentes, mastigar cana-de-açúcar até virar bagaço. A vida corria lenta, morna, azulzinha. Doce época que foi a infância, a adolescência. Tempo bom demais! Titia costumava nos acompanhar nessas empreitadas.
Tantos anos mais tarde, o convite para Titia visitar São Paulo partiu da Tia Marieta, prima-irmã de Tia Deuzinete. Quem a convidou deveria hospedá-la, mas a missão foi a mim entregue. A casa de Tia Marieta pareceu muito distante do posto de saúde onde Tia Deuzinete deveria fazer seu tratamento para úlcera varicosa, coisa que deu em suas pernas.
E lá fui eu na rodoviária buscar Titia, munida de muita boa vontade, valores morais elevados, compaixão e senso familiar digno da perfeição retratada naquela propaganda de margarina. Juro, em minha cabeça até tocava insistentemente aquela música que fala do amor ao próximo:  é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã!
Mal aquele ônibus proveniente da Serra do Piriri atrelou na rodoviária, eu me aproximei da plataforma imbuída do mais alto espírito de amor, bondade, carinho sem fim por minha tia idosa, que eu não via há... Há... Trinta e quatro anos!
Tia Deuzinete, em 1978, tinha mais ou menos uns cinquenta anos de idade. Era gordinha, tingia os cabelos de cor de burro quando foge, não depilava as pernas e não suportava tomar sol, nem mesmo em nossas viagens à praia.  Um tanto rabugenta, em sua árida viuvez, não teve filhos que a ocupassem. Titia era um tanto desocupada, pra dizer a verdade. Vivia da pensão pós-morte do Tio Nicolau e não fazia muita coisa da vida, ou melhor, fazia sim: cuidava da vida alheia. Sabia de tudo o que acontecia na sua rua, na rua de cima, na rua de baixo. Era a fiscal da vida dos outros. Em suma, Tia Deuzinete era fofoqueira. Passava uma temporada na casa de um parente, depois rumava pra casa de outro parente, outro e outro. Itinerante, por assim dizer. Falava mal de todos, falava de uns para os outros. Era um inferno!
Ah, lembrei uma história! Passamos a Semana Santa e Páscoa no sítio. Naquela época, minha avó preparava deliciosas compotas e geleias com as frutas colhidas de nosso pomar. Os quitutes eram deliciosos e preparados no fogão à lenha, em pesadas panelas de ferro. Titia, muito religiosa, começava seu jejum na quarta-feira de cinzas, alimentava-se apenas com uma sopinha rala, torradinhas e chá. Na quaresma Titia emagrecia que era uma beleza, mas estava longe de ser formosa, tinha o  semblante sempre fechado, os cabelos presos em um coque baixo e amarrados com grampos de cor preta.
A Páscoa significava muitas guloseimas, especialmente na sexta-feira, quando bebíamos sangria,  preparada para acompanhar a bacalhoada no forno e o arroz branquinho. De sobremesa doce de leite, figos em calda, goiabada cascão.  Pois Tia Deuzinete, assim que despertou na sexta-feira da paixão, vestiu-se de preto da cabeça aos pés.  Titia parecia um urubu! Com o terço nas mãos e a expressão ainda mais sisuda do que o habitual, decretou que naquele dia o jejum da família seria total: somente água, nada mais, em homenagem a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Tibúrcia, nossa cozinheira, foi proibida de preparar ao menos o café da manhã. De nada adiantou um e outro resmungar. Era dia santificado, dia de chorar pelos nossos pecados. O jeito era fugir daquele luto, dar uma escapadinha e contrabandear maria-mole, pão doce e balinha puxa-puxa para o meu quarto. Sob o meu travesseiro Titia flagrou o resultado do meu furto à despensa. Uma trilha de formiguinhas me dedurou. Apanhei: - Diva, estique sua mão. Fechei os olhos e, enquanto meus dedos ardiam com a chinelada, escutei o “splac” daquele chinelo de quarto, de tecido rosa, estalar em minha mão. Doeu, muito!
Por sorte, o dia seguinte era aleluia! A fome era tanta que, se eu pudesse, comeria um bolo sozinha. Deve vir desse episódio o meu atual aumento de peso. Preciso anotar e contar à endocrinologista: tenho trauma de Tia Deuzinete!
E lá estava a Titia, parada no topo da escada do ônibus. – Não quero ajuda, sou velha, mas não estou imprestável!
Desceu a escada com muito sacrifício, um tanto aflitiva a cena. Olhou-me com arzinho de nojo, mediu-me da cabeça aos pés. – Quem é você?
- Titia, querida, como a senhora está? Sou eu, sua sobrinha, Diva!
- Diva? Engordou! Tá horrorosa!
Ela não precisava dizer mais nada. Eu levei Titia pra minha casa, tentei acomodá-la da melhor forma possível. Foram quinze dias de martírio, uma experiência que pretendo não repetir. Ela conseguiu me convencer que minha cama, meu quarto, eram mais apropriados para o seu conforto  e restabelecimento de sua saúde. E eu fui dormir no quarto de hóspedes.  Ela não suportava: meu cachorro, o tempero da minha comida, meus amigos, meu apartamento. Enfim, ela não me suportava e eu já começava a retribuir a esse desafeto na mesma moeda. Descobri que eu odiava Tia Deuzinete!
Para não ter que enfrentar a chatice de Titia eu comecei a fazer hora extra no trabalho. Quando chegava em casa, ela estava dormindo e roncando em minha saudosa caminha. Tudo correu relativamente mal, porém de modo contornável, até o dia em que o vaso sanitário da suíte entupiu. Facilmente descobri o que havia caído na privada. Essa mania de Titia deixar a dentadura sobre a pia do banheiro terminou mal, muito mal. Foi necessário chamar o encanador. Diagnóstico: o vaso sanitário precisava ser removido, para que a dentadura fosse capturada e o encanamento desbloqueado. Enquanto isso, até que enfim, Titia permaneceu de boca fechada, para que sua banguela não aparecesse. Após esse episódio, Tia Deuzinete decidiu ir embora de minha casa. Um lar nada cristão, em sua opinião. Ali, ninguém ia à missa, ninguém rezava o terço. Pecadora que sou, não consegui convencê-la que a dentadura caiu no vaso por um acidente. Chegou a insinuar que meu cachorro a pegou e atirou dentro da privada. Impossível, Bono é baixinho e não alcança a pia do banheiro.
Prima Rosa veio buscar Tia Deuzinete. Acompanhei as duas até o portão, ajudei a acomodar as malas no bagageiro do carro. Enquanto o veículo fazia a curva lá embaixo na minha rua, eu suspirei feliz, dando pulinhos de alegria e fazendo tchauzinho.  Que felicidade a minha, ufa!  Até que enfim pode tomar posse do meu quarto novamente. Precisei trocar  os travesseiros, com odor inexplicável, e o colchão, que estava mijado. De resto,  tudo pareceu de volta ao normal. Que bom ter minha vidinha de volta! Lar, doce lar!




30 de set de 2012

À HEBE


É domingo novamente! As crônicas deste blog - quanta coincidência - aportam neste mar teimosamente aos domingos. Antigamente a inspiração era menos previsível, chegava em dias e horários inesperados. Domingueiras ideias me trouxeram hoje aqui.
Domingo ensolarado, a temperatura agradável, um típico dia para passear no parque,  quem sabe levar o cachorro para passear; visitar a mãe, a tia, a avó;  preparar um churrasquinho. Vale uma cervejinha, talvez uma caipirinha. Domingo é dia de reunir os parentes, rever a sogra, os cunhados, os sobrinhos. Dia de escolher qual será a sobremesa: sorvete, pudim, pavê? Difícil não engordar no dia de domingo, não trair a dieta, não ameaçar as taxas de colesterol, de glicemia, burlar as ordens médicas.  Um dia diferente, lento, enjoadinho, dia de preguiça. Sem pessimismo, de fato o domingo é véspera de segunda-feira. Assim que chega a noite a angústia é inevitável. Correria, organizar o  material escolar, separar aqueles documentos importantes, rever e-mails, anotar algumas coisas importantes na agenda. E é aí que o domingo já era! Não há pizza no jantar que salve o humor de quem cai na real no final do domingo.
Quando eu era criança eu inventava todas as doenças possíveis a partir das 18h00 de domingo. Gripe, dor de barriga, dor de garganta, até catapora! Peguei uma daquelas canetinhas hidrocor, de cor vermelha, e salpiquei meu corpo com minúsculas pintinhas. Perfeito, mas nenhum adulto acreditou na minha encenação. Talvez, meus pais tivessem feito o mesmo durante a infância, minha farsa foi descoberta  e o castigo foi cruel: já pra cama, menina!
O melhor dia de domingo é aquele feito sob medida para dormir. A gente se espalha confortavelmente na cama, ou no sofá da sala. Escolhe alguns filmes para assistir, pega um livro bom de ler, almoça fora de hora, adormece vestido de moletom sem nem perceber. Domingo ideal, sem muitas testemunhas e sem planejamento.
A vida transcorre de um jeito calmo e previsível quando temos felicidade no dia de domingo. É o descanso, a recarga da energia para muito mais que há de vir.
O leitor agora se pergunta: e a Hebe? Não vai falar sobre a Hebe? Nem todos os domingos são felizes. Abro aqui um parêntesis, com a licença de quem desceu o olhar até esta frase. Assim que acordei lembrei que ontem Hebe Camargo partiu para o infinito. Outra linda estrela a brilhar no Céu, uma estrela que é uma gracinha!  
Algumas pessoas parecem ter vindo ao mundo predestinadas: esta aqui vai ser especial, vai brilhar intensamente! Hebe foi assim, brilhou, aproveitou a vida, levou alegria para pessoas que não conheceu pessoalmente, alguém famosa e muito querida. Hoje, cedinho, aconteceu o enterro de seu corpo. E eu, enquanto isso, de olho no relógio, tecia este texto. Não gosto dos dias de domingo, mas admiro os dias de sol, admiro gente que tem luz no olhar e sorri escancarado. Hebe, querida, que Deus a receba com todo o Seu Amor Infinito. Obrigada, você alegrou momentos da minha família, momentos meus e eu  espero que a ciência vença a guerra contra o câncer em breve. Não foi em vão, não!
Aos leitores, bom domingo. Um dia que é gerúndio e rima com ingo!        




25 de set de 2012

DIA DA TIA SOLTEIRA


Hoje, dia 25 de setembro, é o Dia da Tia Solteira. Quando li a respeito disso, tive a ideia de enviar flores à Tia Marieta. Pensei melhor, desisti! A titia tem o costume de aproveitar qualquer brechinha para hospedar-se longamente em minha casa.
Solteira, solteirona.  Tia Marieta, aos oitenta e dois anos, tem muito orgulho de dizer que ainda é virgem, invicta! Nunca namorou, nunca beijou na boca, nunca deu uns amassos. Acha isso o máximo e, pior que isso, acha que quase todas as mulheres do mundo não prestam, incluindo eu que casei duas vezes e namorei um bocadinho.
Homenagear Tia Marieta seria pura falsidade de minha parte. Titia implica com tudo, com o decote das blusas, o comprimento das saias, a transparência dos tecidos. A internet é coisa do capeta, as novelas são uma pouca vergonha, as meninas de hoje estão todas perdidas. E eu, uma pecadora incorrigível, fujo de Tia Marieta do jeito que posso.
No dia em que Titia conheceu Divo Latívio, ela subiu e desceu o olhar, percorrendo a figura de meu marido. Seu ar de reprovação era indisfarçável. Na primeira oportunidade, puxou-me pelo braço e em tom severo começou o seu interrogatório, quase policial: - Em que ele trabalha? – Ele tem imóveis? – Ele fez faculdade? – Qual é o sobrenome dele? – A família dele é brasileira ou europeia? – Ele tem filhos? – Por que ele se divorciou da outra?
Só faltou me pendurar no pau-de-arara e me dar choque na planta dos pés. Uma espécie de ditadora, general de saia. Por falar em saia, a Titia insiste em usar aquelas saias rodadas e anágua. Anágua, há quanto tempo eu não ouvia falar disso? Resolvi deixar a homenagem e as flores de lado. Sinceridade, isso não tem preço: que Titia vá às favas, com sua moralidade antiquada.  O tempo passou, o mundo mudou, hoje ser solteira significa escolha e não infelicidade.
Hoje é celebrado o dia da titia solteira que resolveu viajar pelo mundo, que decidiu investir em sua carreira, que tem amigos, talvez um grande amor, mas não casou porque não quis. Ser tia é ótimo, afinal a educação, a parte chata da criação dos sobrinhos resta para os pais. A parte boa, incluindo mimos e muita diversão, fica para as titias.  Hoje é dia da tia divertida, que às vezes cai na balada, que tem perfil no Facebook, que bem que poderia ser a mãe da gente!
Ser tia é privilégio, estar solteira é um detalhe. Solteirona, coisa de Tia Marieta. Estar solteira, isso difere de ser solteirona e é estilo de vida. Solteira e feliz, coisa boa dos tempos modernos.
Parabéns pelo seu dia, titias!

23 de set de 2012

FORA DO AR


Tremenda falta de imaginação voltar ao mesmo tema. Hoje, de novo, é domingo! A semana, nada inspiradora, devorou as horas. Tempo que é bom, nada! Terça, quarta-feira, sei lá, voltei do trabalho mais cedo. Entrei em casa, descalcei os sapatos, monologuei qualquer coisa a respeito da liberdade: lar, doce lar! Notei que estava sem conexão da internet. Mexi, remexi, conectei fios, desconectei da tomada, falei um palavrão, dois. Telefonei para a prestadora do péssimo serviço de internet:  - Senhora, por favor desconecte o fio da tomada, conecte. Falei outro palavrão. Ao menos eu já não estava monologando, era um diálogo. Pobre atendente da péssima operadora de internet! Respondeu algo mais ou menos assim: - Pois não, senhora.
Ser mandado para onde  o sol não bate e simplesmente agradecer? Isso derruba qualquer espírito de porco. Nocauteada, restou-me pedir desculpa e agendar dia, horário para um técnico da porcaria da operadora de internet vir ao meu lar, doce lar.
Um dia sem conexão. Deu de tudo um pouco: fissura, barato, loucura, claustrofobia! Sim, claustrofobia! Descobri que minha casa tem quatro paredes espremidas entre o chão e o teto. Longe do resto do mundo, feito passarinho engaiolado. O mundo lá fora rodando ligeiro e eu incomunicável.
O tal do técnico, da tal da operadora pavorosa de internet,  chegou ao meu apartamento munido de cara feia e maleta preta. – Qual o problema, senhora?
Vontade de contar todos os meus problemas, a começar pela sensação de asfixia e aquela tal “gana” de “esganar” alguém.  Busquei em minhas entranhas algo melhor que um pum, encontrei uma resposta meio civilizada: - Por favor, conserte!
Uma hora de mexe e remexe naquilo o que pra mim é mais sagrado. Não, senhor, não, senhora! Ninguém mexeu no meu traseiro, nem adjacências! O que há de mais sagrado é o meu computador! Um notebook já rodado, fora da garantia e que nunca deu pau (amém). Sujeito folgado, não pediu licença para adentrar em minhas configurações e etc. Meia hora engolindo puro fel. Minhas garras estavam afiadas, eu era puro estresse.
- Pronto senhora, já está consertada a sua conexão da internet!
Fiz o test drive. Nada melhor que beber com sede, comer com fome, dormir com sono e navegar na internet depois de um dia sem conexão.Aos poucos voltei à minha “normalidade”. Chequei e-mails, visitei o Facebook, respondi mensagens. Meu blog tinha alcançado 80 mil visitas, escrevi um texto breve e comemorativo. Leve e solta, do outro lado do mundo, sem paredes, sem limites. Asas cibernéticas acionadas na ponta dos meus dedos, palavras que giram por aí. Livre, enfim!



18 de set de 2012

80.000 VISITAS!

Chegamos a 80.000 visitas! A vocês, leitores, mais uma vez agradeço o bom gosto e a preferência!
Querem que eu fale algo sério? Falarei!

Caros leitores,

O blog Diva Latívia, após um ano e meio no ar, alcançou nesta data a espetacular marca de oitenta mil acessos. Sinto-me feliz, honrada e deixo o meu agradecimento a cada um de vocês. Especialmente, o meu agradecimento segue em direção às estrelas: Abílio Manoel, meu irmãozinho querido, muito obrigada!

Um beijo,

Diva Latívia

                                                                                   

16 de set de 2012

DIA DE LENGA-LENGA: HOJE É DOMINGO!


Domingo é gerúndio e parece lenga-lenga. A gente acorda e não tem telejornal, metade do mundo parece ainda dormir, até o cachorro dorme até mais tarde no domingo. Amanheci sonolenta, rabugenta, perambulei pelo apartamento. Um helicóptero causou meu despertar. Helicópteros, tão modernos, deveriam ter um silenciador em seu rabo, quiçá em seu nariz. O que estaria tentando fazer esse piloto? Rodou, rodou, bisbilhotou os telhados do meu bairro longamente. Ingo, em pleno domingo! Por fim, lá pelas tantas, pude observar vizinhos do meu condomínio, vestidos em seus pijamas, caras amassadas, cabelos desalinhados, a buscar no céu a origem do barulhão que, feito a mim, os despertou.
Nada mais que fazer, preparei um café forte. Vim ao computador. Sem novos e-mails, sem novos comentários no blog, sem notícias interessantes. Ingo, é a chatice do domingo! Liguei o televisor. A programação domingueira é péssima, mas há exceções: Discovery History, Animal Planet. Girafas e seus longos pescoços, belo exagero da natureza. O helicóptero, finalmente, satisfez-se com o mal feito e partiu, rumo a outro bairro, para despertar outras gentes.
Mau humor! Domingo, dia de macarrão, não suporto frango! Dia de ler os jornais, visitar parentes, preparar pudim de leite condensado. Silvio Santos vem aí! Há coisa pior,famosos dançam, desafortunados recebem presentes e reencontram parentes, quase todos os times de futebol entram em campo!  Tudo isso arrasta consigo o dia de domingo.
Antigamente eu ia à missa dominical. Disse que ia, porque não mais voltei à igreja no dia em que o padre fez um longo sermão abençoando casais que permaneciam casados até que a morte os pegasse e levasse sabe-se lá pra onde. Problema deles, que tinha, ou tenho eu com isso? Porém, o padre disse que os divorciados, separados, os que vivem em união estável estão em pecado. Pecadora que sou, saí da igreja pisando duro, esqueci que o local é a casa de Deus e proferi uns nomes feios. Eu, pecadora? Hipocrisia! Decidi rezar em outras paradas.
Dia desses fui convidada a dançar. Dançar em um baile da saudade, em uma tarde de domingo. Não pude aceitar o convite, mas viajei no colo da minha imaginação, ao som do bolero, tudo para espantar o lero-lero. Domingo, saudade da infância. A casa cheia de parentes e amigos, das panelas o aroma de comida dominical.
A esta altura  da manhã todos despertaram em minha casa, tudo preparado para a largada da corrida de domingo. Ingo, serei feliz, oh domingo?  Admiro o dia de tempo seco, ao longe a serra que parece enevoada. Saudade de outros tempos. Onde estarão adormecidos os doces domingos?

13 de set de 2012

FUI SER FELIZ!


Buscar dentro de si o fio da meada e dar-se um nó de lembranças emaranhadas. Passado, coisa que escapa e foge pro meio da rua da vida da gente.
Amanheci pensando na vida. Onde será que errei, ao deixar aquele episódio banal ganhar dimensões dramáticas? Um simples capítulo transformou-se em epílogo, um ponto final.
Todo adeus é estabanado, afinal a Deus. Coisa de fim, término, infinito, nunca mais. Estabanei-me a chorar desesperadamente. Vinguei-me: fui ser feliz.
Fui pra balada sacudir meu esqueleto. A gente passa dos cinquenta anos e começa a ter dor nas juntas. Junta tudo e joga fora! Fui dançar e jogar fora o stress e a tristeza. No dia seguinte, com dor de cabeça, dor nos pés, dor em todos os músculos e ossos, tomei uma decisão: telefonaria pra ele.
Ligo, ou não ligo? O dilema fazia meu estômago dar voltas. Celular em mãos, várias vezes digitei os primeiros números e, rapidamente, desliguei o telefone. Ri, chorei, uma espécie de surto. O dia passou assim, confuso, desajustado, desequilibrado. Pura emoção!
Dois dias depois, umas duzentas ligações tentadas e não concluídas, falei com o Zé. 
Ele atendeu assim: - Alô! Quem é?
Quem é? Aquele "quem é" considerei um insulto. Não tem identificador de chamadas? Não reconhece minha voz? Fui removida de sua lista de contatos telefônicos? 
Gaguejei. - Sou... Sou...a...a... Di...va!
- Oi, Diva. Desculpe, mas estou ocupado neste momento. Outra hora ligo pra você. Beijinho.
Desligou. E eu, que tinha feito todo aquele ensaio, dois dias de sofrimento e ansiedade, sequer consegui responder oi, ou dizer tchau!
Raiva! Raiva de mim, raiva dele, raiva do celular. Depois da raiva vieram as lágrimas. Chorei por mim, por ele, pelo celular. 
Nunca mais tive notícias do Zé. Deletei seu número da minha lista de contatos do celular, eu o removi da minha lista de amigos do Facebook, do Orkut, do MSN, da lista de contatos de e-mail. Mas, não teve jeito. Nunca consegui remover o Zé das minhas lembranças e mágoas.  Três anos que passaram sem eu nem ver passar.
Estava saindo do supermercado, carregando duas daquelas ridículas sacolas retornáveis com estampa de frutas coloridas, quando escutei alguém me chamar. - Diva, oi! 
Voltei-me na direção do chamado. Gelei. Zé, era o Zé!
Quis dizer "oi", mas minha garganta secou tanto que minha voz desapareceu.
- E aí, Diva? O que está fazendo aqui?
Pensei rápido, respirei fundo e após um esforço gigantesco respondi algo mais ou menos assim: - Zé, agora não dá pra conversar, estou ocupada. Beijinho!

Andei até o estacionamento do supermercado com as pernas bambas, o coração acelerado. Quase um infarto histérico. Sentei-me no carro e ri de modo descontrolado. Fui até minha casa rindo sem parar. Eu ri de mim, ri dele, ri do celular, ri do nosso reencontro e ri porque, finalmente, eu estava livre daquela criatura. Adeus, Zé! Beijinho!

31 de ago de 2012

INSPIRAÇÃO ESCATOLÓGICA


Recorrer ao dicionário, ou Pai dos Burros, esse foi o meu recurso. Aurélio, o que seria de mim sem você? Meu olhar paralisou sobre aquela palavra esquisita, que não pareceu estranha, mas seu significado fugiu ao meu conhecimento. O que seria escatológico? Ali estava a definição: “nauseabundo, nojento”.  Eca, pensei! Escatológico é algo repulsivo!
Pois voltei à frase que continha o termo anteriormente por mim ignorado. Li e reli aquele comentário ao meu último texto, que chegara há instantes na caixa postal do meu e-mail.  Algo mais ou menos assim:  “Diva, seus textos são ruins e escatológicos”.
Toda crítica é bem-vinda, até mesmo essas críticas nauseabundas, inúteis e anônimas. Digo anônima porque chegou ao meu e-mail e tentei responder, mas voltou a mensagem com aquele “undelivery sei lá do quê”.
Não compreendo como alguém perde o precioso tempo a ler algo que o desagrada. Pior que isso, a entreter-se, divertir-se com o aborrecimento alheio ( no caso, o meu aborrecimento).
Escatológico,  leitor anônimo, é o seu ócio. Que me desculpem os demais leitores, mas esta blogueira não tem lá muita paciência com tamanha falta do que fazer.

Pensei, então, em escrever algo com essa palavra. Um texto com o termo empregado pelo infeliz comentarista anônimo de meus textos. Algo feito por mim, no capricho, para combinar com suas ideias, intenções e palavras escatológicas. Aproveite e obrigada por conduzir-me ao dicionário. Cultura, ainda que nauseabunda, nunca é demais! Eis o texto!

Sinônimo de escatológico. Palavras cruzadas é um ótimo passatempo, um entretenimento simples, que ajuda o tempo a passar e lubrifica as engrenagens do cérebro. Devo ter algum parafuso solto na cabeça, comecei as palavras cruzadas e esqueci completamente do meu afazer anterior: o feijão na panela de pressão. Estava lá, mordendo a tampinha da BIC e tentando encontrar a palavra de sete letras, sinônimo de escatológico. Terminava com a letra O. Escatológico, não sei porquê, lembrou arqueológico. Pensei em algo ligado a ossos, caveiras, esqueletos. Meu pensamento viajou longe, lembrei de Indiana Jones, depois de Harrison Ford. Já estava a recordar a segunda versão do filme Sabrina quando meu olfato deu o alarme: algo escatológico ocorria ao meu redor, que cheiro seria aquele? A cozinha enfumaçada e a panela de pressão surtadíssima sobre o fogo indiferente.  Medo, paralisei. Se me aproximasse, tudo poderia ir pelos ares justamente naquele instante. Porém, como resolver o problema, sem primeiro desligar a chama do fogão? Ah, o fogão! Divo adquiriu em três prestações naquela loja de departamentos e quinquilharias, o tal do fogão cook top, chiquérrimo. Divo, certamente, me ensinaria o significado de “escatológico”, assim que descobrisse o mal feito na cozinha, tudo praticamente zero quilômetros. Chama do fogão apagada, restava a panela de pressão parar de dar “piti”. TXI, TXI, TXI, TXI, TXI, TXI TXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.... Saí correndo, carregando meu cãozinho Bono Latívio, vestida de pijama de florzinhas e sandálias Havaiana nos pés. Dei de cara com Samir, aquele personal treiner bonitão que mora no apartamento  166. Agarrei seus formosos bíceps, pendurei-me em seus tríceps, completamente desesperada: - SOCORRO, minha panela vai explodir!
Tem homem que nasceu pra ser salva-vidas. Samir, entrou no apartamento e me fez lembrar Superman, Batman, Homem Aranha e Thor. Um super-herói com barriga tanquinho. Pegou a panela de pressão e a levou para a área de serviço. A panela tri-enlouquecida, chiava escandalosamente. Depois de dois minutos, já dentro do tanque, começou a acalmar-se. Por fim, fez um som mais ou menos assim: PUFFFF. O feijão queimado, totalmente escatológico, grudou na panela de um jeito irreversível. Ah, a panela de pressão elegantíssima, italiana, de inox! Divo jamais me desculparia. 
Assim que me despedi de Samir, meu herói, voltei pra cozinha. Fogão sujo, chão sujo, pia suja, panos de prato sujos e área de serviço em um estado que nem te conto. Fiz o que pude, do jeito que pude. Divo chegou em casa para almoçar e a situação, apesar de controlada, ainda estava escatológica. Expliquei o ocorrido, omiti as palavras cruzadas e a visitinha do saradão Samir.
Hoje, dois dias depois, Divo ainda me olha daquele jeito nauseabundo ( não direi escatológico). Meio de lado, um tanto sisudo. O fogão restou são e salvo, mas a panela de pressão Made in Italy, já era. Um prejuízo relativamente pequeno, pois não fosse Samir e seus poderosos bíceps e tríceps, o cook top também teria ido para o beleléu.

Este texto, por mim escrito, é uma homenagem ao leitor que chamou meu trabalho neste blog de “escatológico”. Obrigada, caro leitor anônimo, pela inspiração.






24 de ago de 2012

PALAVRAS A BROTAR

Não, leitora querida. Não, leitor querido. Você não está abandonado por mim. A bronquite e todos os demais "ites" furtaram o ânimo para alinhavar minhas histórias. Porém, estava a repousar e refletir, isso na penumbra dos meus aposentos, quando tive um delírio delicioso. Quiçá, um lampejo criativo e febril? Visualizei um notebook despejando frases ao vento, imaginei meu blog a espalhar ideias nascentes a cada sorriso,  ao franzir de testa de leitores e olhar marejado de personagens anônimos: vocês.
Abracei as frases, como quem junta brinquedos infantis espalhados no tapete da sala. O que será saúde, afinal? Além de saudação e forte desejo de bem estar físico, saúde é harmonia, equilíbrio, ordem interior. Desordenada, desorganizada, maluca, pirada, Diva Latívia! Reflito publicamente, com sua permissão, neste espaço que é público, tão público quanto a pracinha ajardinada pertinho de casa. Onde terei escorregado, derrapado, perdido o fio da meada? Adoecer é desarmonizar-se.
O delírio, asfixiante, entre uma crise de falta de ar e uma lágrima delirante, devolveu a luz ao final do túnel. Amanheci com as habituais profundas olheiras, que lembram os poetas românticos e suas estrofes dramáticas, problemas pulmonares incuráveis. O meu mal também é do século, porém moderníssimo: deprimi!
Resgatar em mim a força criativa, brincar de roda com as palavras, esconde-esconde metafórico, um pega-pega de letrinhas. Homeopaticamente, recupero-me. Vida, não a levarei tão a sério, não mais. Palavras a jorrar do notebook, palavras coloridas em tons alaranjados e esverdeados. Palavras com sabor de tangerina e kiwi. Frescas, nutritivas, suculentas. Alimento, medicamento, alento: escrevo, portanto crio e vivo!  Brotei.



20 de ago de 2012

AR, AR...


Eu observava quietinha, à distância, minha avó usar a tal da bombinha para a tal da asma. Um artefato de borracha de cor amarronzada, com outro artefato para bombear o ar em uma ponta, uma pequena mangueirinha de alguns centímetros de comprimento e estreito diâmetro. Na outra ponta, uma espécie de cálice de vidro cor de caramelo. Era a bombinha para asma de antigamente. Havia um broncodilatador que era usado nessa alquimia esquisita. Chamava-se ... Chamava-se... Não sei escrever, afinal naquela época eu sequer sabia ler! Minha avó chamava o remédio de “dispiné inhal”. Possivelmente, o nome era estrangeiro e a sua pronúncia correta deveria ser um tanto diferente. O que importa é que a vovó, pra onde fosse, carregava a sua bombinha e o vidrinho do tal do “dispiné inhal”.
Era curioso, interessante assistir a toda a operação. Primeiro, ela abria a gaveta de seu criado-mudo. De lá, retirava a bombinha. Então, abria o vidrinho do tal do broncodilatador e depositava uma quantidade a gosto no cálice de vidro. A seguir, aprumava as costas, segurava o ar e bombeava o líquido pela boca.
Então, permanecia calada, as narinas tentando absorver o ar. Vovó devia sofrer terrivelmente. Isso na década de 60, quando a poluição ainda engatinhava, sequer se aproximava dos alarmantes índices atuais.
Asma. Esse nome sempre pareceu horrível! Tão pequena, confundia asma com alma. Cheguei a confidenciar baixinho para meus coleguinhas de escola: a vovó tem asma penada! A história foi adiante e, por fim, acharam que eu morava em uma casa mal assombrada. Até que era mesmo mal assombrada, mas isso é outra história.
O tempo passou, a vovó usou sua bombinha até o fim de sua vida, aos oitenta e três anos de idade.  Foi-se, vitimada pela asma penada, em um inverno que a arrebatou desta vida.
E eu sempre tive horror de falta de ar. Uma vez, usei inseticida demais para matar uma barata que caminhava no banheiro da minha casa. A danada correu para dentro do armário sob a pia. Eu abri o armário, agachei-me e espirrei imensa quantidade do veneno, sem visualizar a nojentinha. Nem sinal dela, resolvi ver com meus próprios olhinhos.  Enfiei a cabeça dentro do armário e ali entalei. Respirei o veneno por um bom tempo e, pior que isso, lá estava a barata a sacolejar-se, moribunda. Eu gritava, a barata em pleno falecimento e de barriga pra cima. Por fim, tanto me debati que consegui sair de dentro do armário. Tonta, completamente tonta e com falta de ar. Bebi leite, lavei o rosto, telefonei pro médico, precisei tomar antialérgico.  Foi uma crise de asma penada da barata!
Anos a fio, jamais tive uma só crise de bronquite, rinite, sinusite, nenhuma ite. Porém, eis que agora eu poderia mudar meu nome para Divite! A bronquite que me maltrata há mais de três semanas é uma bronquite asmática! A falta de ar lembra um motor a falhar. E eu, que uso agora uma bombinha moderna, ao menos durante esta crise, já estou a correr para um médico homeopata. Tudo, menos tornar-me escrava de medicações com efeitos colaterais nocivos!
Asma penada. Alma penada. Eu, asmática. Dizem, herança genética.  Coisa da minha alminha que sofreu com as avarias penadas deste mundo, avarias que, por vezes, vieram do tempo da vovó. Ar, ar, eu preciso respirar! Meu oxigênio chega em letrinhas que brotam em minha cabeça. Inspiro e respiro!


18 de ago de 2012

DIVA, PÉSSIMA CONSELHEIRA SENTIMENTAL

O e-mail chegou assinado apenas assim: “P. L.”. O destinatário não era anônimo, afinal ali constava seu endereço eletrônico. E-mail empresarial.  Descuidado, talvez.
P.L. escreveu um longo, comovente e sensível desabafo. Quatro páginas de papel A4, que imprimi para ler e reler. Chorei, confesso que chorei ao concluir que já passei pelas mesmas situações, que tenho algumas de suas dúvidas e angústias. P.L. pediu minha opinião, o meu conselho. Não sou boa conselheira. Diga-me: quem sou eu para aconselhar alguém, P.L.? Na vida eu já enfiei o pé na jaca, já entrei em ruas sem saída, já pulei em despenhadeiros. Sobrevivi!
Meus personagens nascem, vivem, sofrem, amam, morrem. Ficção, que baseio em fatos hipotéticos. O fim de minhas histórias termina na última palavra escrita, no ponto final. O que dizer a você, P.L.? Não posso dizer-lhe que sofrer é normal, afinal sofrer não é normal! Não posso dizer-lhe que amar é algo sereno, porque não é sereno. Perder-se de um grande amor é superável, desde que jamais essa perda seja reconhecida à luz de nossas consciências. Nem sempre estamos preparados para o amor. Perder alguém para esse despreparo  e mais tarde dar-se conta é desesperador. O que fazer?
Isso pode acontecer um minuto depois de uma discussão. Pode acontecer no dia seguinte. Uma semana depois. Um mês depois. No seu caso, a “ficha caiu” anos e anos mais tarde, quando compreendeu que aquela era a mulher de sua vida. Ela agora comprometida  com outra pessoa e você casado com outra mulher.
Por onde começar? O que fazer? E eu aqui, escrevendo isso tudo para publicar no meu blog, a seu pedido. Pensei muito, tentei colocar-me no seu lugar.  O que eu faria? Choraria um rio de lágrimas, certamente. Pela perda, pelo “ah, é?”, pela burrada. Aliás, chorei mesmo, sua história se parece com a minha e com a de muitas pessoas que conheço.
A vida apresenta oportunidades raras, algumas são oportunidades únicas. É uma pena imensa que nem sempre estejamos preparados para essas ofertas-relâmpago da vida. Um reencontro, uma tentativa de reconciliação frustrada, um adeus estabanado, às vezes pelo medo de amar, de se ferir, de não ser feliz. E o que é viver, senão um risco? Que pena só percebermos isso mais tarde!
Não te aconselhei, mas entendi que você só se deu conta do amor que tem depois de passar anos e anos longe de sua amada. Só depois de casar com outra pessoa, depois de descobrir que sua amada também estava casada com outra pessoa. E doeu. Espero que não seja fogo breve, mas sim chama eterna. Que você seja fiel a si mesmo, que seja sincero consigo e com sua atual companheira. E depois? Depois faça o que mandar seu coração. Pode escrever novamente, mas eu juro de pés juntinhos que sou péssima conselheira sentimental. 
Um abraço,
Diva Latívia