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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







29 de fev de 2012

SONHO DE UMA NOITE DE CALOR

Já tinha chegado ao centro da cidade, sob o sol escaldante do verão e carregada de documentos importantes. Entre um passo e outro, apesar do calor, gelei!
Esses fogões modernos, esses fornos elétricos, essas panelas de inox. Tudo isso nunca foi importante pra mim, mas na minha nova casa tem um pouco de tudo isso.
A geladeira lotada de legumes e verduras, eu pensei então em adiantar o jantar.  Cozinhei brócolis, couve-flor, cenoura. Uma deliciosa saladinha refrescante e leve, algo que combinaria muito com a temperatura  impiedosa do dia.
Gelei!  Um pensamento terrível tomou conta de mim: será que, antes de sair de casa, desliguei o fogão? Parei na calçada, as pessoas passavam por mim e levei alguns esbarrões. Angustiada, não conseguia concluir o meu jogo da memória. Tentei refazer mentalmente todo o meu roteiro:  fui ao banheiro, depois fui à sala e fechei a janela da sacada. Então, peguei minha bolsa, a pasta e... E não podia lembrar mais nada. Uma espécie de amnésia, talvez?
Pensamentos sombrios tomaram conta dos meus miolos. Um incêndio de grandes proporções destruindo os dois blocos do condomínio onde moro. Bombeiros e helicópteros, repórteres das principais emissoras de rádio e TV. Divo desesperado, sem casa para morar, contabilizando um prejuízo que levaria anos a fio para ser reparado.
Vi tudo rodando, rodando. Acordei em uma espécie de sala branca, quis sentar, mas uma enfermeira me disse: calma, você está bem e está no hospital. Sua pressão estava muito baixa e você desmaiou, o médico virá conversar com você.
Eu não queria saber onde eu estava, nem o que tinha acontecido comigo. Precisava voltar depressa pra casa, o fogão! O fogão! Saí pela rua descalça, vestida com aquele avental hospitalar, aquele com abertura no traseiro e entrei no primeiro ônibus que passava.
Acordei quando tocou o despertador. Eram 07h00. Levantei tonta de sono e fui direto à cozinha. Tudo limpinho, arrumadinho.  Tive um pesadelo. O culpado só pode ter sido esse calor! Quem consegue dormir direito?
Pouco antes de sair pro trabalho, olhei duas vezes se estava tudo certinho na cozinha. Cautela e caldo de galinha, vocês sabem como é.



27 de fev de 2012

GABRIELA NICHIMURA

Há alguns dias acompanho as notícias sobre um acidente ocorrido em um parque de diversões, na região de São Paulo. Uma menina de catorze anos foi atirada de um brinquedo em movimento e teve morte instantânea. Hoje assisti logo cedo a um telejornal. A entrevista com os pais da garotinha, a dor imensurável da mãe que relatou estar presente no momento do acidente, ter em vão tentado ajudar a filha. O lamento: "no momento do enterro de minha filha, o parque estava funcionando".
Indignação? Sim. Dor? Sim. Tristeza? Sim.
O sol brilhando, as pessoas rindo e se divertindo, alheias ao ocorrido, apesar da divulgação do episódio de modo exaustivo pelos meios de comunicação.  Como que pode isso? Pais levaram filhos ao mesmo parque. Pais permitiram que filhos fossem ao mesmo local, sem demonstrar luto, solidariedade, ou preocupação com a segurança dessas crianças e jovens.
Assim está a vida. Parece que o ser humano está habituado às tragédias. Impermeável à dor alheia. Alienado, totalmente alienado! É a teoria do “antes ele do que eu”.
É neste momento que me pergunto e também pergunto a você, leitor: onde estará o nosso coração? Onde?
Não conheço os pais da menininha. Certamente não saberão que deixei aqui, em letrinhas, a minha opinião a respeito do ocorrido.
Por que o ser humano precisa de fortes emoções para se divertir? Por que precisa de velocidade, giros, pulos, saltos pra se sentir feliz e vivo? Montanhas-russas, brinquedos velozes, grandes alturas, saltos e curvas aceleradas.
A vida será muito melhor quando as fortes emoções nascerem no sorriso do próximo, no abraço que acolhe o irmão, no auxílio generoso que nada pede em troca, senão a felicidade alheia. Até lá, um dia que parece quimera, parece apenas um sonho poético, outras garotinhas morrerão, outras mães chorarão e a festa não será interrompida, porque a diversão é urgente e “time is money”.
Falta muito para nos tornarmos verdadeiramente dignos do dom da vida. É preciso melhorar muito para aprendermos a nos colocar no lugar de outrem, sem nos sentirmos privados do imediatismo, do egoísmo e dessa apatia que congela os sentimentos diante de uma notícia terrível assim. Para nos privarmos da diversão, em  solidariedade a alguém que morreu e poderia ter sido você, poderia ter sido eu, ou muito pior que isso, poderia ter sido uma criança nossa.
Tenho um blog, considero um dever expressar minha opinião a respeito desse fato horrível. Mas, de modo especial,  preciso deixar aqui registrada a minha indignação com tamanha frivolidade, desrespeito e falta de sensibilidade de quem foi e continua indo ao parque se divertir, como se a vida da menina Gabriela nada fosse, senão mais um número fatal.
Descanse em paz, Gabriela Nichimura. 



25 de fev de 2012

TER A PIA!

E quem foi que disse que “felizes para sempre” seja algo mais que uma ilusão?
Amanheci desiludida. Fui preparar o café da manhã e a pia começou a encher sem escoar. Pensei que fosse o ralinho, mas que nada! Busquei aquele artefato indispensável. Não, não foi o desentupidor de pia, busquei Divo Latívio! Meio dormindo, com o humor deixando muito a desejar, Divo mexeu, remexeu e declarou: já era, deu problema no sifão da pia.
Casa nova, pia nova. O gaveteiro que mandamos fazer há apenas dois meses estava todo molhado, cheio de água com sabão, pedaços de salsinha, arroz e aquilo meio amarelinho não imagino o que seja.
Adeus almoço de sábado! Devolvi correndo a carne ao freezer, deixei de ir comprar os itens para a saladinha.
Divo, um tanto irritado, parecia um cirurgião de cérebro. Ia, vinha, as ferramentas batiam impiedosamente sobre a pia. Quebrou um copo, sujou dois panos de prato, respingou aquilo tudo no chão. E eu, só de longe, observando a situação.
Fui confundida com instrumentadora! – Diva, passe a chave de fenda. – Diva, passe o alicate. – Diva, passe o grifo! E foi aí que paralisei, deu branco. O que seria um grifo? E ele lá, com aquele mau humor corrosivo, o semblante fechado, impaciente, quiçá mal educado? – Cadê? Anda!
Foi assim que deixei Divo Latívio sozinho em casa. Ele, a pia, a chave de fenda, o alicate e toda a bagunça ao seu redor. Fui ao restaurante por quilo saborear uma deliciosa salada, depois fui ao cabeleireiro e fiz hidratação, escova e unhas. Saí de lá calmamente, parei na banca de jornal e escolhi uma revista.  Sem pressa, voltei pra casa.
Lá estava Divo, sentado no sofá, ar de doido, bebendo cerveja. A cozinha parecia cenário de inundação. Tudo sujo, molhado e bagunçado. Fingi não ver, fui pro quarto e, com fones de ouvido para escutar minhas músicas preferidas, li a revista todinha. Depois, dormi.
Falta de solidariedade? Nem sei. O fato é que, quando algo quebra, chamo um profissional para consertar. Divo não é encanador. Por isso mesmo, o sábado, pra mim, transcorreu normalmente. Já pro Divo... 

24 de fev de 2012

;-)

No começo eu resisti ao Facebook. Achava invasivo, uma casa com paredes de vidro. Avessa à falta de privacidade, preferi conservar meus amigos na listinha do MSN. Porém, quando percebi que só faltava eu naquela festa, criei um perfil e adicionei amigos próximos e parentes distantes.  Não entendo a opção “curtir”. Acordo de mau humor, deixo para todos  minhas frases, com  pistas dessa amargura matinal destilada em letrinhas, e sou curtida em massa.  Em suma, estar na contramão do dia ensolarado é a maior curtição!
 Inventaram uma tal de linha do tempo. Já que minhas fotos não correspondem a nenhuma ordem cronológica, creio que ganhei três anos de idade, porque nasci em 1964, casei em 1990 e de lá pra cá, o tempo voou tanto que pularam a década de 90 e aterrissei em 2012. As fotos em álbuns que não conserto, tão desorganizados quanto minha gaveta de calcinhas. Por falar nisso, e voltando ao tema privacidade, minhas fotos ilustram momentos bons, mas qualquer um pode copiar e colar as fotos da gente. Eis um bom motivo para fechar essas fotos para visitação somente daqueles VIPs, seres seletos que pertencem à nossa listinha de amigos.
Já briguei no bate-papo, com um amigo que parecia ter bebido um pouquinho além da conta e teimava em escrever: ”falaê” gatinha. No terceiro “ falaê” eu o “deleteiaê”.  Sem a menor paciência pra nada, não consigo ser sociável apenas por conveniência.  Se isso tudo fosse um concurso de miss, o meu título jamais seria o de “miss simpatia”.
Tanto impliquei com o Facebook que eu o batizei de “Facecoisa”. Aquela coisa da qual participo, onde tenho notícias de pessoas queridas, reencontro amigos perdidos no espaço. Uma vida tão diferente da que idealizei! Sinto falta das conversas ao vivo, sentada na sala de casa. Sinto falta de quando “curtir” significava achar um “grande barato”.  
Rastros de mim na internet. Não posso reclamar, afinal os traços mais evidentes estão neste blog. Tudo a um clic, simples assim! Agora irei ao Facecoisa, verificar se novas mensagens chegaram. Mensagens que terminam com um “bj”, com “abs”, ou com um sinalzinho meio assim: ;-)
É a vida!

22 de fev de 2012

40.000!!!

O blog chegou a quarenta mil visitas! Aos leitores deixo este registro e o meu abraço. OBRIGADA!!!


Diva Latívia ( Cláudia)

15 de fev de 2012

QUANDO ERA CARNAVAL


Entre caixas e mais caixas de papelão, comecei a organizar a mudança. A velha casa de minha mãe aos poucos desocupada, a placa de “vende-se” pendurada no portão. Cristais, louças, enfeites, coisas do meu tempo de infância. Fotografias em preto e branco, o álbum de casamento dos meus pais. E eu, com os dedos negros de poeira, perdida entre lembranças. Encontrei um pacote com serpentinas e confetes, tentei imaginar há quanto tempo ela havia guardado aquilo.
Larguei os afazeres e peguei um copo de água gelada. Sentei no segundo degrau da escada e, entre um gole e outro, busquei no passado o último carnaval que passamos todos juntos. A sala de casa com o chão forrado de confetes. Nos lustres, serpentinas penduradas. Nós, os quatro filhos, usando máscaras de papelão, aquelas com elástico para prender na cabeça. Martelinhos de plástico, que sonorizavam as pancadas que dávamos uns nos outros. Colares havaianos coloridos. Tinha também umas bisnaguinhas plásticas, dentro delas colocávamos água, para espirrar em quem passava na calçada. Acho, havia quem enchesse as tais bisnaguinhas com xixi, mas isso é outra história.
Qual terá sido o nosso último carnaval juntos? Eis que lembrei! Foi o carnaval em que o aspirador de pó quebrou na quarta-feira de cinzas e toda aquela bagunça na sala precisou ser varrida, do jeito mais tradicional e cansativo possível. Depois dessa, minha mãe resolveu nos levar anualmente à matinê do clube, onde ao som de marchinhas, suados e felizes, pulávamos e pulávamos.
Em meio à bagunça, procurei fotos daquela época. Lá estávamos nós, tão pequenos ainda! Todos fantasiados! Quanto tempo havia passado? Quarenta anos, pelo menos. Há quarenta anos não passamos o carnaval juntos e, justamente neste ano, surgiu a oportunidade. Recém-casada, terei que viajar com meu marido, faltarei à reunião dos irmãos. Uma escolha, sem escolha. Um sonho pelo outro sonho. Na vida, nada é completo, sempre falta um pedaço. Na vida, quando a gente menos espera, o passado volta com tudo e a lacuna na alma parece se agigantar.
Resolvi terminar de embalar as taças de vinho. Já estava tarde, não havia mais tempo a perder. Joguei no lixo o saquinho de confetes e serpentinas. Ainda olhei pra trás, feito quem se despede de um momento que não voltará jamais.

14 de fev de 2012

MINHA PALAVRA PREFERIDA


Era um dia ensolarado, estávamos as duas, minha mãe e eu, sentadas no chão do quarto. Havia várias revistas espalhadas ao nosso redor, as figuras me encantavam. Qual era a minha idade? Não mais que cinco anos. Peguei uma das revistas e fingi ler: A, E, I, O , U! As letrinhas eram verdes. Verdes? Acho que sim. Minha mãe, dedos longos, mãos bem cuidadas, apontou: -Esta é a letra A. - E esta letra aqui, mãe?- É a letra B! Juntei as letrinhas, pouco a pouco. Observei o sorriso satisfeito daquela “quase-uma-garota”, jovem demais pra ser mãe de quatro filhos. Exclamei o nome da revista: BURDA!
Não havia pote de geleia, manchete de jornal, placa de rua que eu não tentasse ler. Foi assim que aproveitei a distração do meu pai. A máquina de escrever, uma Olivetti, estava desacompanhada, sem nenhum adulto para vigiá-la. O papel, com metade de um trabalho datilografado, facilmente foi por mim retirado. Tentei recolocar o papel, o carrinho da máquina correu pra direita e um sininho tentou me delatar: tlim!
Assustada, tratei de me apressar. Letra A! Fiquei maravilhada, lá estava estampada a minha escolha! Toquei todas as letrinhas que pude, por fim as teclas se engancharam umas nas outras. Analisei o objeto. Descobri o segredo e abri o compartimento que protegia o rolo de tinta de cor vermelha e preta. Puxei o rolo, carimbei meus dedos , que limpei no encosto da cadeira.
Eu precisava escrever BURDA, a palavra mais bonita que conhecia, a minha palavra! O rolo de tinta não mais encaixava no mesmo lugar. Parecia uma serpentina capaz de sujar os dedos, o tapete, a colcha de cama e as paredes. Tudo tinha a minha digital! Diante da minha impotência, resolvi esconder o mal feito. Empurrei a máquina pra debaixo da cama. Por cima joguei o roupão de banho do meu pai. Desci a escada, me esquivando dos adultos da casa.
No banheiro esfreguei as mãos de modo vigoroso e persistente, o sabonete misturado à tinta de cor escura mudou de tom, estava meio lilás. Gastei metade do sabonete, a água corria da torneira fazendo um chuá digno de chamar quem por ali passava. De novo a vovó, sempre ela! Achou que eu estivesse brincando com a água. Falou da conta altíssima, do dinheiro que não era capim. E eu tentando esconder as minhas unhas, ainda azuladas. Cada minuto parecia uma eternidade. Eu precisava voltar ao quarto, esconder melhor a máquina!
Chegou a hora do jantar, quando meu pai sentava-se à cabeceira da mesa, ao meu lado. Uma prece rápida, para agradecer a refeição. – Diva, diga amém! Eu não conseguia dizer uma só palavra. – O que há com você, menina? -  Comecei a chorar escandalosamente, afinal eu certamente ficaria de castigo, levaria umas chineladas no traseiro e sequer tinha atingido o meu objetivo!
- Eu queria escrever BURDA!
- Agora não é hora de escrever, é hora de jantar. Tome toda a sopa!
Eu olhava pro prato de sopa e nele caíam minhas lágrimas. Canja à la choradeira, esse deveria ser o nome do prato. Meu irmão, sarcástico, arriscou: - Pai, ela tá chorando porque mataram a galinha, amiga dela, pra fazer canja. E emendou: - Ela morreu! Morreu! Morreu!
Saí correndo da mesa, subi a escada mais depressa do que pude, entrei no quarto dos meus pais, bati a porta e girei a chave. Estava lá, trancada, protegida, sã e salva. Ninguém poderia me alcançar, ninguém veria a máquina debaixo da cama!
Uma hora de negociação. – Abra a porta, querida. – Abra a porta, meu bem. – Abra a porta, garota. – Abra, senão vou derrubar a porta!
Foi nesse dia que, pela primeira vez, ouvi um palavrão: PUTA QUE PARIU! Foi isso o que o papai gritou quando passei pra ele, por baixo da porta, a chave. Ele entrou no quarto e encontrou aquele cenário caótico, com marcas de tinta e a ausência da máquina de escrever.
Chinelada dói, mas sempre achei que castigo doía muito mais. Castigo significava não assistir aos episódios de Perdidos No Espaço, em preto e branco, no televisor da sala. Castigo também significava que, durante muito tempo, eu teria que conviver com o olhar zangado do meu pai, algo que me assombrava terrivelmente.
Outro dia, estava eu na banca de jornal da praça, aquela mesma banca onde eu comprava gibis durante a minha infância. Resolvi folhear uma revista e deparei-me com ninguém menos que ela, a revista BURDA. Deixei de lado a revista e fui sentar em um banco pertinho da igreja. A velocidade do passar do tempo tomou conta de mim e da minha palavra preferida. Olhei ao redor, o cenário moderno, tantos carros, tanta gente estranha. BURDA! A casa foi demolida, no lugar nasceu um edifício com vários andares. BURDA! Meu pai partiu pro céu, depois minha mãe o acompanhou. BURDA, sinônimo de SAUDADE!

13 de fev de 2012

A POSSE DE MEUS SONHOS


A vovó era incansável em sua afirmação: “essa menina, quando crescer, vai ser médica pediatra! “. Dizia isso pras visitas, pros vizinhos, até pro Papai Noel da loja Mappin ela disse isso uma vez. Tanto ela falava isso, que resolvi mexer em sua gaveta da penteadeira, misturei seus cremes faciais com aqueles comprimidinhos cor-de-rosa, que imagino eu, eram remédios para a sua infindável asma. Dei ao cachorro,ao gato, por um triz escapou o papagaio. Fui flagrada.
De castigo, escutei ao longe o sorveteiro se aproximar do portão. Naquele tempo, os sorveteiros andavam tranquilamente pelo bairro de Moema, vendiam sorvetes de marcas diversas. A buzina era inconfundível, o som era de felicidade.
Descalça, passinhos ligeiros,bati na porta do quarto de minha avó. Demorou a responder. Lá de dentro escutei sua voz, um tanto séria. – Volte pro seu quarto, você está de castigo!
Não adiantou protestar. Subi na cadeira, pude ver o sorveteiro passar e sumir quando dobrou a esquina.
As bonecas Barbie já existiam, mas no Brasil a moda eram as bonecas Susi. Minha Susi enfermeira, projeto daquilo o que eu deveria ser um dia: loira, magra e médica. Peguei uma caneta esferográfica azul. Risquei o rosto da Susi, tanto, mas tanto, que quando terminei nenhum cantinho do plástico rosado de sua pele podia ser visualizado.
Desse dia em diante, os sonhos passaram a ser meus e de mais ninguém. Sonhos rabiscados.

JUNTADORA DE LETRINHAS


- Ah, tá! Você é escritora?
O cérebro, em situações novas e diante de perguntas inusitadas, ameaça frear e travar. Devo ter feito cara de espanto.
- Eu?
- Ué, você escreve, então é escritora!
- Imagine! Claro que não, sou apenas uma blogueira.
Porém, essa conversa me deixou com dor de cabeça. Tanto pensei que, parece, “fundi a cuca”. Escritora é a Clarice Lispector, eu sou apenas uma juntadora de letrinhas em um teclado. E olhe lá!
Que droga! Pensar pode causar efeitos colaterais: de novo escrevi!

12 de fev de 2012

I WILL ALWAYS LOVE YOU - Whitney Houston

A linda voz de Whitney Houston, que faleceu nesta data, e a bela canção I Will Always Love You.

PRA TUDO COMEÇAR NA QUARTA-FEIRA!


Por que será que o ano novo não acontece na quarta-feira de cinzas? Nada mais justo, afinal a vida parece recomeçar apenas depois do carnaval!
Fui à repartição pública na terça-feira às duas horas da tarde. Uma fila dessas de fazer a coluna doer, o pé inchar, a paciência acabar! Finalmente consegui uma senha: número 236. Olhei ao redor, tinha gente pra todo o lado. O painel eletrônico marcava o número 179. Quis fazer as contas, para descobrir quantas criaturas desafortunadas estavam na minha frente, mas sou péssima em matemática. Preferi buscar um lugarzinho qualquer pra sentar. Ao meu lado, uma senhora de uns oitenta e muitos anos de idade, parecia mastigar a dentadura. E eu, sem mais o que fazer, tentei ensurdecer.
Eis que, depois de duas horas, finalmente apareceu “236” no painel. Levantei da cadeira, cheia de felicidade. Mal cheguei no balcão de atendimento, fui barrada. – Senhora, espere ao lado, vamos atender primeiro os deficientes, os idosos e as mulheres grávidas. Pensei depressa: não sou deficiente ( mentalmente, talvez), não sou idosa ( ai de quem disser o contrário). Então, encontrei a solução: - Estou grávida! A atendente me olhou e olhou. Pediu a papelada e meus documentos. – Senhora, sua data de nascimento é 30.01.1961? – Exatamente. – Cinquenta e um anos? – Sim. – E está grávida?! Lembrei-me daquela atriz que engravidou aos 54 anos. – Estou sim, por quê? Com ar de desconfiança, pareceu olhar pra minha barriguinha. Ainda bem, a barriguinha depois das férias está grandinha. – Trouxe o original do IPTU? Busquei na pasta e entreguei o tal do IPTU. – Trouxe o comprovante de residência? Saquei da pasta a conta de gás, luz e telefone. As três de uma vez, para evitar mais pedidos. – A cópia autenticada de sua certidão de casamento atualizada, a senhora trouxe? Francamente, a minha certidão de casamento, de tão extensa, parece uma daquelas capivaras policiais. Fui solteira, fui casada, separada, divorciada. Viúva ainda não fui! – Três xérox do RG, três xérox do título de eleitor e todos os comprovantes de votação das duas últimas eleições. Foi aí que meu sangue gelou. Comprovante do quê? Faltou o comprovante de um dos turnos da última eleição. Quis argumentar, explicar, retrucar. Não teve jeito, precisei voltar pra casa e me contentar com um novo agendamento, para daqui a um mês.
Ainda olhei pra funcionária atrás do balcão, entre papéis, grampeadores, carimbos e um ar sacana de quem se livrou de mais um que, no caso,era eu!
Nada funciona nesse país antes dos confetes virarem cinzas. É durante a quaresma que a engrenagem dessa engenhoca começa a girar. Porém, começa tão lentamente que, se duvidar, só pega no tranco pertinho do Natal. E começa tudo de novo, até depois do carnaval.

10 de fev de 2012

PROMESSA É DÍVIDA!


Sabe aquele antigo dizer: “ só não perco minha cabeça porque ela está colada no meu pescoço”? Sou assim. Perco tudo, esqueço tudo em todos os lugares. As chaves, a bolsa, o casaco, o guarda-chuva, o celular. Difícil é lembrar onde foi mesmo que deixei! Todos os dias perco alguma coisa, geralmente objetos sem grande valor estimativo, do tipo uma caneta esferográfica, ou uma presilha de cabelos. Porém, na quarta-feira perdi algo importantíssimo, o meu cartão de crédito. Virei a casa nova, cheia de lugares inexplorados. Gavetas vazias, prateleiras com objetos ainda embalados. Procurei o danado do cartão dentro de bolsas, bolsos, sob almofadas.
Telefonei para o banco, a gerente já conhece meu defeitinho, sabe que sou um tanto esquecida. Sugeriu que eu procurasse mais um pouquinho e depois telefonasse, avisando se, realmente, havia perdido o cartão por aí.
Imaginei um ladrão comprando roupas de grife com meu cartão de crédito. O mau elemento indo ao shopping e adquirindo tudo aquilo o que meu bom senso me impede de comprar! Quem sabe, um cruzeiro de navio? Uma calça daquela marca que adoro? Talvez, faminto, fosse ao melhor restaurante da cidade e pedisse a carta de vinhos? Sinceramente, surtei!
Eis que lembrei de São Longuinho, aquele santinho que, se você pedir para encontrar um objeto perdido e prometer três pulinhos, o objeto aparecerá. Eu tentei me concentrar, busquei inspiração. “ São Longuinho, se o cartão de crédito aparecer, prometo três pulinhos”. Achei modesta a recompensa, diante da importância do objeto perdido. Reforcei a promessa: “São Longuinho, se eu achar o cartão de crédito, darei três pulinhos e publicarei no meu blog um agradecimento a você”.
Caro leitor, em menos de um minuto encontrei sob a pontinha do tapete da sala o meu cartão de crédito. Aqui está o meu agradecimento, público e notório. Valeu, grande São Longuinho. Ah, sim, já dei os três pulinhos!

LUA CHEIA, REDONDINHA!


Fotografei a lua na noite de quinta-feira. Vista da janela do meu quarto ela pareceu me chamar. Busquei a câmera fotográfica, cliquei uma, duas, três vezes. Redondinha, ela fez pose pra mim. Lua cheia, que transborda a maré e mexe com o juízo da gente. A lua cheia afina o meu humor, atiça minhas emoções.
Nuvens esfiapadas atravessaram sua frente e ganharam um tom prateado. Lembrei da canção, Blue Moon. Lua de mel, lua de papel, lua dos apaixonados, dos astronautas, dos poetas e dos loucos. Minha lua, com suas fases.
Daqui da Terra, iluminada, expõe sua devoção ao santo, tatuou na pele São Jorge e o dragão. As estórias infantis enluaradas, o ratinho que a levou embora, sonhando que fosse um queijo. Deliciosa confusão!
Lua tão distante, que em apenas um instante prendeu meu olhar no firmamento. Viagem sem foguete, rumo ao espaço sideral. Lua que me fez dar voltas e esquecer de mim!

ESSA TAL FELICIDADE


Tratados filosóficos, dogmas religiosos, amores e dores. Nada consegue explicar o que, afinal de contas, seja a tal “felicidade”. Para alguns, reside no amor ao próximo. Para outros, no amor materno, paterno. Há quem diga que ser feliz é ter um par romântico. Uma propaganda veiculada na TV há muitos anos atrás, dizia que dinheiro não compra felicidade, manda buscá-la. Creio que é impossível sentir-se plenamente feliz, a não ser que as aspirações sejam extremamente simples.
Parecem ser mais felizes aqueles que aproveitam a vida sem muitos planos, “curtindo” a família, os amigos, colhendo os frutos do trabalho sem muita ambição. Você sabe em qual fase está a lua hoje? Quais são as frutas da estação? O nome daquela árvore perto da sua casa, qual é? Eis coisas simples, ao nosso alcance, entregues pela vida sem qualquer ônus, mas que nem sempre aproveitamos.
É feliz quem atravessa a cidade em meio ao trânsito, diariamente, com as janelas fechadas para não ser assaltado? É feliz quem leva horas para chegar ao trabalho diariamente, horas que não voltarão jamais? E quem não reconhece o amor que lhe é oferecido, pode ser feliz? Não aproveita o crescimento dos filhos, não se deixa levar pela paixão, não ri de si mesmo? A vida foi feita pra gente dançar descalço. A vida foi feita pra gente tomar sorvete e lamber os dedos. A vida foi feita pra gente trabalhar naquilo o que mais gosta de fazer. Somos responsáveis pela nossa felicidade, pelo jogo de cintura em momentos ruins, pela volta por cima quando tudo parece ir mal, muito mal.
Estava sentada à mesa do café da manhã, na sala que sempre quis ter, no apartamento dos meus sonhos. Uma pontinha de infelicidade me invadiu. Humana e eternamente insatisfeita. Sempre falta algo, alguém, de alguma forma, para justificar o descontentamento. E ser feliz, mais e mais, é algo do momento. Feliz hoje, agora, com ou sem motivo. Feliz por estar vivo. Com ou sem dinheiro, com ou sem um par, estando as metas atingidas ou não. O que nos mantém vivos é sonhar e tentar realizar sonhos. Tudo o mais é vegetar. Ainda que o mundo vire do avesso, ser feliz ou infeliz é questão de escolha. Eu escolho ser feliz. E você?

8 de fev de 2012

ÓIA A CHUVA!


Primeiro dia de trabalho depois de férias mais do que merecidas. Que pena, tudo o que é bom passa muito depressa. Ainda bem que vem aí o carnaval! No escritório, ainda em estado de choque e um tanto de luto, fiz o possível para pegar no tranco, sem bocejar e disfarçando a vontade enorme de pegar a bolsa e ir embora pra casa. No horizonte nuvens escuras se amontoavam, uma espécie de motim meteorológico. Certamente, outro temporal cairia sobre a cidade de São Paulo.Aliás, parecia que a chuva já caía, justamente na direção do meu bairro.
Lá estava eu, discretamente olhando o calendário e contabilizando quantos feriados teremos em 2012, fingindo estar ocupada, quando meu celular tocou.
- Alô, Dona Diva?
Era a Zezé, minha assistente do lar.
- Oi, Zezé!
- Dona Diva que “disgracêra” aconteceu no seu apartamento!
Acho, meu cérebro travou. Acabei de mudar pro apartamento, tudo novinho, cheirando a tinta! Balbuciei a pergunta: - O que houve?
- Ai, Dona Diva! Seu Divo largô aquelas tranquera toda no terraço, veio a chuva e choveu tudo pra drento da sala.
- Quais tranquera... tranqueiras, Zezé?
Eu já estava trêmula, nem parecia ter voltado das férias.
- Os balde, as lata, a rede, os papel, tudo avoou pelo terraço e miserô o ralo todo.
Morar no décimo sexto andar de um edifício significa ter uma vista bonita da cidade. Morar no décimo sexto andar de um edifício também significa que o vento beira o vendaval.
Lembrei do restante do material de construção, amontoado no cantinho do terraço pelo teimoso Divo Latívio. Lembrei da rede, que reprovei, pendurada no gancho juntinho da porta da sacada da sala. Lembrei do ralo, bem embaixo da rede. Ai, que vontade de chorar!
- Estragou alguma coisa, Zezé?
Fiz a pergunta cruzando os dedinhos!
- Só estragô o vaso da pranta que tava perto da cadeira chiquetosa da senhora.
A cadeira chiquetosa é uma poltrona assinada por um famoso designer, premiada em Milão e ... Deixem isso pra lá.
- Molhou a poltrona, Zezé?
- Só um pouquim assim, oh!
Decidi reformular a pergunta. – Zezé, estragou alguma coisa? – Estragô o vaso da pranta, estragô também os tiçal de vrido do seu Divo.
Tiçal de vrido. Tantos anos de convivência com a Zezé, pude entender que os castiçais de cristal de Divo, herdados de sua bisavó lituana, haviam se espatifado no chão, tamanho foi o vendaval dentro da sala.
- Zezé, faça um favor pra mim. Preste bem atenção. Junte todos os pedacinhos do tiçal... do castiçal. Todos os pedacinhos que você encontrar, não jogue nada fora. Quando eu chegar em casa vou ver o que fazer.
- Tá, Dona Diva. E o quadro, faço o que com ele?
O único quadro que temos pendurado em casa é uma tela assinada por Miron Montez, artista espanhol impressionista. Obra arrematada em um leilão e avaliada em... Deixem isso também pra lá.
- O que tem o quadro, Zezé?
- Se preocupa não, dona Diva. Já lavei tudo e passei um paninho com lustra móvel.
- No quadro???
- Ficou bom, nem dá pra arrepará que sujou com a terra do vaso de pranta.
Foi assim que o primeiro dia de trabalho, depois das férias, foi interrompido por motivo de força maior. Corri pra casa. Zezé lustrou uma tela pintada a óleo. Sem saber o que fazer, para esconder de Divo o mal feito, passei uma flanela seca, que saiu colorida no final da operação.
- Xi, Dona Diva, a senhora estragô o quadro do Seu Divo!
- Zezé, onde estão os caquinhos dos castiçais de cristal?
- Caquinho do quê?
Tentei falar o idioma dela: - os tiçal de vrido!
- Ô Dona Diva, num "percisa me humilhá", eu falo errado, não tem que me "arremedá"!
Sinceramente, eu estava à beira de um surto psicótico!
- Onde estão os cacos do castiçal de vidro de Divo? E eu disse isso aos gritos.
Ela foi buscar o aspirador de pó, fazendo biquinho de quem ia chorar.
- Tá tudo guardadinho bonitinho "drento do aspiradô"!
O resto do dia reservei para me recuperar do trauma. Outro temporal assim e, creio eu, precisarei de um pouco mais de férias!
Quando Divo chegou do trabalho, no começo da noite, veio sorridente me cumprimentar. – Oi, querida, chegou cedo do trabalho? Que vidão, heim?
Preferi não responder e torci pra que ele não olhasse pro quadro, nem pros remendos dos castiçais, colados com superbonder. Um dia, ele vai perceber, mas espero que esse dia esteja bem distante e, que nesse instante, eu esteja longe e em lugar seguro!

6 de fev de 2012

NOIVO EM FUGA


“Diva, tá na hora de você escrever algo sobre um noivo em fuga”.
A conversa no Facebook rendeu uma visita ao perfil desse conhecido de longa data. Observei suas fotos, seu sorriso feliz, notei que momentos bons de sua vida foram clicados diversas vezes em flashes e cores, ao longo de seus últimos tempos. Feliz?
Essa mania que as pessoas têm de querer formalizar um compromisso, com o símbolo da aliança no dedo anular ( direito ou esquerdo). Essa mania que as pessoas têm de querer reduzir o amor a uma assinatura em um pedaço de papel. Creio que ele estava feliz em seu relacionamento, mas a moça resolveu cismar com o casamento, quis amarrá-lo, para eternizar sua presença. Isso não evita um rompimento futuro, afinal divórcios existem, traições podem acontecer. Então, por que será que casamento é algo tão desejado por algumas pessoas ( confesso que também desejo casar de modo formal)? Conjugar o verbo “casar” certamente o espantou pra longe de sua amada. Terminou o namoro.
Casar, para quem sabe quem quer, para quem sabe o que quer, é o mesmo que fazer uma escolha. Algo mais ou menos assim: “meu amor, entre todas as criaturas do planeta eu escolho você, para ser meu par”. Morar junto não é a mesma coisa. Quer saber por que penso assim? No meu aniversário, entre tantos cumprimentos que recebi, um sobrinho de Divo, um menino adolescente, escreveu o seguinte recado no meu Facebook: - Tia, espero que neste ano o tio pare de te enrolar e te peça em casamento”. Pois é, até mesmo as crianças sabem que juntado não é casado.
Ah, sim, existe a tal da união estável. Mas, para quem não tem qualquer tipo de impedimento legal, não faz o menor sentido ir a um cartório fazer uma escritura dessa união, ao invés de assinar uma certidão de casamento. É a mesma energia que se gasta, com a diferença de demonstrar de modo maduro, adulto, que assume seu relacionamento sério e definitivo. E se não der certo? Paciência, ao menos tentou!
E esse alguém está correndo desembestado, não sei pra qual lado. Medo dos “brabos” de ser laçado pelo compromisso com uma mulher. Quantos estragos é capaz um homem de causar? Quantas vezes? Quantos corações será capaz de quebrar? Nada pior que levar um balde de água fria quando o assunto é esse sentimento exclusivo, tão bonito: o amor. Nada pior que saber que aquele homem, justamente aquele a quem foi entregue o corpo e o coração, não deseja casar-se. Pra uma mulher, essa é uma das maiores decepções que podem ser vividas. Quem ama assume, sem se sentir preso, ou sufocado. Quem ama, somente quem ama!

1 de fev de 2012

VIAJANDO POR AÍ


Viajar para o exterior dá uma sensação de alegria, misturada com o profundo estresse da viagem. Viajar de excursão, dá uma sensação de riqueza misturada com pobreza, que só mesmo quem já passou por isso consegue compreender. O guia só falava espanhol. Ufa, ainda bem “yo sei hablar portunhol”! Passamos por edifícios que são velhos conhecidos dos brasileiros que assistem telejornais e novelas globais. Entendi o que o sujeito disse: “ esta é a Casa Rosada, a cor é rosada porque mataram um boi e usaram o sangue pra misturar com a tinta”. Senti nojo, senti pena do finado bichinho, mas senti forte emoção ao lembrar que ali Evita Peron entoou “Não Chore Por Mim, Argentina”. Divo me deu um cutucão na costela quando eu quis saber em qual janela aquela senhora tão afinada cantou para a população. – Diva, fique quieta! Ainda bem, o sujeito não entendeu uma só palavra que proferi. Descemos do ônibus para as fotos na Praça de Mayo. Curioso, parecia a Praça da Sé, a diferença é que ali não havia aqueles camelôs vendendo de tudo um pouco, mas havia outros protestando contra a guerra, pedindo paz e também exigindo algo que parecia passe de ônibus e metrô. Eu me senti em casa. – Divo, vamos tirar fotos? Pare ali, ao lado daquela tia. E Divo procurou a tia, deu até uma voltinha tentando entender quem poderia ser a criatura. Era um painel com a foto da presidenta da Argentina. – Pare aí, vai ficar legal a foto. – Diva, pelamordedeus! Ele nem teve tempo de resmungar mais nada, mais do que depressa, fiz o “clic” com a câmera digital. As demais fotos, a maioria tirada dentro do ônibus, retrataram avenidas, monumentos. Fomos a um show de tango. Divo chorou durante a bela apresentação de El Dia En Que Me Quieras. Disse que isso o fez lembrar-se de seu finado pai. Comecei também a chorar, creio eu que a culpa disso foi a garrafa de vinho que, juntos, bebemos inteirinha. Terminado o espetáculo, ainda emocionados e enxugando as lágrimas, fomos interrompidos pelo guia: - Todos os passarreros del ônibus nueve, bamos ir de vuelta ao nabio. Nabio era o navio e passarreros éramos nós. Vambora! As fotos que tiramos nesse regresso saíram cortadas, tremidas, coisas de quem sacolejava dentro do busão, movido a vinho tinto. Chegamos de volta ao porto, ríamos de tudo e de todos. A senhora gorda que tentava buscar o chapéu levado pelo vento; a família que carregava várias sacolas e caixas contendo compras de Calle Florida. Ríamos de nós, ríamos para nós, também carregados de compras.
Já fizemos a promessa de voltar a Buenos Aires por conta própria, sem tour, sem guia, sem pressa. Voltarmos e nos sentarmos em Porto Madero, com a calma e o prazer de quem sabe que viajar é renovar a alma!