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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







14 de fev de 2012

MINHA PALAVRA PREFERIDA


Era um dia ensolarado, estávamos as duas, minha mãe e eu, sentadas no chão do quarto. Havia várias revistas espalhadas ao nosso redor, as figuras me encantavam. Qual era a minha idade? Não mais que cinco anos. Peguei uma das revistas e fingi ler: A, E, I, O , U! As letrinhas eram verdes. Verdes? Acho que sim. Minha mãe, dedos longos, mãos bem cuidadas, apontou: -Esta é a letra A. - E esta letra aqui, mãe?- É a letra B! Juntei as letrinhas, pouco a pouco. Observei o sorriso satisfeito daquela “quase-uma-garota”, jovem demais pra ser mãe de quatro filhos. Exclamei o nome da revista: BURDA!
Não havia pote de geleia, manchete de jornal, placa de rua que eu não tentasse ler. Foi assim que aproveitei a distração do meu pai. A máquina de escrever, uma Olivetti, estava desacompanhada, sem nenhum adulto para vigiá-la. O papel, com metade de um trabalho datilografado, facilmente foi por mim retirado. Tentei recolocar o papel, o carrinho da máquina correu pra direita e um sininho tentou me delatar: tlim!
Assustada, tratei de me apressar. Letra A! Fiquei maravilhada, lá estava estampada a minha escolha! Toquei todas as letrinhas que pude, por fim as teclas se engancharam umas nas outras. Analisei o objeto. Descobri o segredo e abri o compartimento que protegia o rolo de tinta de cor vermelha e preta. Puxei o rolo, carimbei meus dedos , que limpei no encosto da cadeira.
Eu precisava escrever BURDA, a palavra mais bonita que conhecia, a minha palavra! O rolo de tinta não mais encaixava no mesmo lugar. Parecia uma serpentina capaz de sujar os dedos, o tapete, a colcha de cama e as paredes. Tudo tinha a minha digital! Diante da minha impotência, resolvi esconder o mal feito. Empurrei a máquina pra debaixo da cama. Por cima joguei o roupão de banho do meu pai. Desci a escada, me esquivando dos adultos da casa.
No banheiro esfreguei as mãos de modo vigoroso e persistente, o sabonete misturado à tinta de cor escura mudou de tom, estava meio lilás. Gastei metade do sabonete, a água corria da torneira fazendo um chuá digno de chamar quem por ali passava. De novo a vovó, sempre ela! Achou que eu estivesse brincando com a água. Falou da conta altíssima, do dinheiro que não era capim. E eu tentando esconder as minhas unhas, ainda azuladas. Cada minuto parecia uma eternidade. Eu precisava voltar ao quarto, esconder melhor a máquina!
Chegou a hora do jantar, quando meu pai sentava-se à cabeceira da mesa, ao meu lado. Uma prece rápida, para agradecer a refeição. – Diva, diga amém! Eu não conseguia dizer uma só palavra. – O que há com você, menina? -  Comecei a chorar escandalosamente, afinal eu certamente ficaria de castigo, levaria umas chineladas no traseiro e sequer tinha atingido o meu objetivo!
- Eu queria escrever BURDA!
- Agora não é hora de escrever, é hora de jantar. Tome toda a sopa!
Eu olhava pro prato de sopa e nele caíam minhas lágrimas. Canja à la choradeira, esse deveria ser o nome do prato. Meu irmão, sarcástico, arriscou: - Pai, ela tá chorando porque mataram a galinha, amiga dela, pra fazer canja. E emendou: - Ela morreu! Morreu! Morreu!
Saí correndo da mesa, subi a escada mais depressa do que pude, entrei no quarto dos meus pais, bati a porta e girei a chave. Estava lá, trancada, protegida, sã e salva. Ninguém poderia me alcançar, ninguém veria a máquina debaixo da cama!
Uma hora de negociação. – Abra a porta, querida. – Abra a porta, meu bem. – Abra a porta, garota. – Abra, senão vou derrubar a porta!
Foi nesse dia que, pela primeira vez, ouvi um palavrão: PUTA QUE PARIU! Foi isso o que o papai gritou quando passei pra ele, por baixo da porta, a chave. Ele entrou no quarto e encontrou aquele cenário caótico, com marcas de tinta e a ausência da máquina de escrever.
Chinelada dói, mas sempre achei que castigo doía muito mais. Castigo significava não assistir aos episódios de Perdidos No Espaço, em preto e branco, no televisor da sala. Castigo também significava que, durante muito tempo, eu teria que conviver com o olhar zangado do meu pai, algo que me assombrava terrivelmente.
Outro dia, estava eu na banca de jornal da praça, aquela mesma banca onde eu comprava gibis durante a minha infância. Resolvi folhear uma revista e deparei-me com ninguém menos que ela, a revista BURDA. Deixei de lado a revista e fui sentar em um banco pertinho da igreja. A velocidade do passar do tempo tomou conta de mim e da minha palavra preferida. Olhei ao redor, o cenário moderno, tantos carros, tanta gente estranha. BURDA! A casa foi demolida, no lugar nasceu um edifício com vários andares. BURDA! Meu pai partiu pro céu, depois minha mãe o acompanhou. BURDA, sinônimo de SAUDADE!

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