É proibida a reprodução não autorizada dos textos deste blog, de acordo com a Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que regula os direitos autorais.

Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







31 de mar de 2012

PARA VOCÊ, LEITOR (A)!

Não sei se eu saberia chegar ao final do dia sem VOCÊ!
Deixo aqui o vídeo com a canção Tudo Sobre Você, cantada por Zélia Duncan.

30 de mar de 2012

O CONVITE DE CASAMENTO

O doce convite foi por mim recebido com lágrimas emocionadas. Eu, Diva Latívia, madrinha do casamento religioso de Juliana e Beto. Precisava comprar um vestido. Andei o shopping inteiro, nada parecia me agradar e, quando agradava, não tinha o meu tamanho. Em uma loja eu encontrei  um vestido justo, todo rendado. O preço? Oitocentos e cinquenta reais, que eu poderia parcelar em até cinco vezes no cartão de crédito. Fiz a minha escolha e fui conduzida pela vendedora até o provador. – O meu nome é Jéssica. E o seu? – Diva. – Então, Diva, estou aqui fora e, qualquer coisa, é só me chamar, tá?

Foi dada a largada na prova do vestido, ou melhor, na minha provação. Puxei o vestido mais pra direita, depois eu o puxei mais pra esquerda, estava entalado na altura do busto. Parecia uma aula de aeróbica. Escutei um som, mais ou menos assim: sshcréc. Rasgou o vestido, na parte lateral. Eu poderia jurar que era castigo merecido, afinal minha teoria anti-estresse tem lembrado as tirinhas de Garfield. Não tenho praticado exercícios físicos e todas as amolações diárias eu compenso com chocolate. Não recuso uma boa lasanha. Em suma: engordei. O vestido tamanho 42 ficou preso em mim, do mesmo jeito que uma camisa de força se amarra aos loucos. Realmente, eu estava doida, só podia estar.
Tentei enxergar a situação, mas o vestido estava preso desde a cintura até a minha cabeça. Nem sinal da vendedora, para me socorrer. Resolvi arriscar um pedido de socorro: - Moça, por favor, pode vir aqui no provador? Nada, nem sinal da dita cuja. Loja de mulher só tem mulher. Certo? Nada disso, tem homens também. Mas, eu precisava de ajuda. Abri alguns centímetros da cortina do provador e voltei a chamar: - Jenifer, socorro, o vestido está preso em mim! O nome deveria estar errado:- Dafine! Stefani! Alguém! Não encontrei outra solução, saí do provador.
 Sei que eu parecia a mula sem cabeça, mas eu estava sufocando, braços erguidos, sem poder enxergar nada. Andei alguns passos e, sob meus pés, senti a diferença de temperatura do piso. Descalça, pude notar que o carpete fofinho tinha dado lugar a um chão liso, frio, talvez de mármore. Não tinha reparado nesse detalhe da loja. – Marjorie, preciso de ajuda! - Senhora, por favor, não pode andar assim neste recinto! Um vendedor, um homem. Que vergonha! – Desculpe, mas eu preciso de ajuda pra tirar a roupa! - Senhora, por favor, colabore com a segurança do shopping e vista-se! Que coisa mais esquisita. Um homem vendedor, em uma loja de roupas femininas de grife. Um homem vendedor e antipático. - Onde está a Margot? Era ela quem estava me atendendo. Quero que ela tire o vestido de mim. - Senhora, em qual loja a senhora estava? - Como assim em qual loja? Eu estou nesta loja aqui! Escutei umas vozes ao meu redor, gente que parecia rir, falar. - O nome da loja, por favor, senhora. - Não dá pra ver nada, mas é na sua loja! Miss Fashion Look by New York! Senti que o sujeito me conduzia, meio que tentando encontrar por onde. Novamente senti o carpete da loja sob meus pés. Que loja estranha, que vendedores esquisitos! - Esta senhora estava lá fora no corredor, ela veio daqui? Eu estava no lado de fora da loja, com o vestido na cabeça, sem enxergar um palmo adiante do nariz. - Onde está a desgraçada da Kelly?
 - Senhora, eu sou a Jéssica e lamento o ocorrido. Por gentileza, vou levá-la de volta ao provador. Precisou cortar o vestido, para que ele desentalasse. Furiosa, me recusei a experimentar outro vestido e, pra completar, saí da loja sem pagar o estrago. A culpa foi da Jeannie, Josie, sei lá o nome dela.
 Duas semanas depois, faltando apenas quinze dias pro casamento, precisei voltar a procurar um vestido. Desta vez, escolhi outro shopping. Entrei em oito lojas, todas com vestidos feitos para as magras, as esqueléticas, as anoréxicas. E eu, farta de formas e curvas, não conseguia encontrar nada razoável e que não me deixasse parecida com minha tia-avó. Resolvi telefonar pra minha amiga, a Isis. – Preciso de um vestido para ser madrinha de casamento. Que sorte, ela tinha algo e poderia me emprestar. O mesmo manequim, a mesma altura. Que maravilha!Comprei sapatos, marquei o cabeleireiro e o maquiador e fui à casa da Isis, buscar meu vestido salvador. Lindo, azul escuro bordado na altura da gola. Discreto e chique, exatamente o que eu queria. Jurei cuidar bem do vestido e devolvê-lo intacto e lavado.
Dia do casamento, primeiro fui fazer o cabelo, as unhas e a maquiagem. Depois, fui pra casa me vestir. A primeira meia-calça que vesti foi super sacana comigo, rasgou bem na altura do fiofó. Já que o fio desfia, resolvi então pegar outra meia-calça, esta um pouco mais escura, mas servia. O vestido, que no dia em que provei estava maravilhoso, estava um pouco justo. Lembrei do episódio do entalamento no shopping. Melhor então vestir uma cinta modeladora, pensei eu. A maquiagem foi pro beleléu, eu transpirava loucamente. Aperta, estica, puxa e pronto! Mal podia respirar, mas eu coube no vestido. Não sei como Michelle Pfeiffer conseguiu sobreviver à fantasia de mulher gato. Mas, o casamento de Juliana e Beto valia todo e qualquer sacrifício. Entrar no carro, outro suplício. Em pé tudo parecia mais fácil, mas sentada eu sentia que a cinta apertava do útero ao duodeno, sem esquecer a medula e o cérebro, que já começava a latejar.
A cerimônia foi linda. De vez em quando eu tentava respirar. Lembrei do dizer daquele desenho animado: “sorria e acene”. E eu sorria sofrendo, mas acenar estava tão difícil! Cumprimentos muitos, fotos muitas. Hora de brindar. E eu, meio tonta, fiquei ainda mais tonta com o champanhe. A valsa dos noivos, algo tão romântico! Fui puxada para o meio do salão, Beto fez questão de dançar comigo. Ele me conduzia pra direita, meu pulmão queria ir pra esquerda. O contato da meia-calça com o vestido fazia um xuéc, xuéc que me preocupava. Tentava calcular: “comprei a cinta modeladora há quatro anos, quando eu usava manequim 42. Portanto, a cinta deve ser tamanho 40. Hoje, na melhor das hipóteses, uso manequim 44. Então, estou estrangulada em uma cinta tamanho PP e visto tamanho GG”.
 Eu já nem escutava mais nada, quando decidi sair à francesa e me mandar da festa. Cheguei em casa torturada, acometida de uma enxaqueca que começava no dedão do pé e parava nos miolos. Tentei tirar o vestido, mas minha coluna estava emperrada. Pra não rasgar o vestido da Isis, a única solução que encontrei foi telefonar pra ela. – Socorro, entalei de novo. Ela preferiu não acreditar nisso, achou que fosse piada. Dormi usando o vestido, isso depois de tomar dois remédios pra dor de cabeça. Acordei às 07h00 da manhã, parecia que um trem havia me atropelado. Notei algumas lantejoulas espalhadas sobre o lençol. Não teve jeito, precisei comprar outro vestido pra Isis.
 Se vou entrar em uma dieta severa? Nem pensar. A vida só tem graça quando a gente ri com vontade, bebe e come o que gosta. Manequim 44, seja bem-vindo ao meu guarda-roupa, mas nem ouse trazer com você o seu priminho, o 46.
Juliana e Beto se casaram, viajaram, voltaram e mandaram por e-mail as fotos em que apareço. Em todas as fotos estou de olhos meio arregalados, sorriso forçado, pareço estar com o pescoço duro e um tanto cianótica. Já andaram dizendo por aí que eu tinha aplicado botóx. Ah, se essa gente soubesse a metade desta história, eu viraria motivo de piada! Não conte pra ninguém, certo?

29 de mar de 2012

ATÉ O FIM, SEM FIM


Eles se conheram na praia, no verão de 2007. Ela, saindo do mar e ele jogando frescobol. A bolinha foi parar aos pés dela e, pela primeira vez, eles se viram e trocaram o primeiro sorriso. Pouco tempo depois veio o primeiro beijo, o segundo beijo e todos os outros beijos, até o final do verão. Ela contou que morava em uma rua perto da Avenida Paulista, ele contou que morava no interior de São Paulo. Ela contou que tinha conseguido uma bolsa de estudos, para cursar inglês em Londres . Ele contou que já sentia saudade dela. Ela se despediu, mas deixou o número do celular, que ele anotou no boné, com a caneta do vendedor de milho verde. Ela foi caminhando em direção ao calçadão, ele sentiu um aperto no coração.
O verão terminou, ele telefonou muitas vezes pro número que tinha anotado, mas uma gravação dizia que aquele número não mais existia. Ele resolveu tomar uma atitude, não podia deixar o amor de sua vida partir sem reagir, sem lutar. O nome da rua onde ela morava, era tudo o que ele tinha. Resolveu colocar faixas a cada quarteirão da rua, um gesto romântico e desesperado. Quem sabe assim ele a encontraria?
Lá estava uma faixa, em frente à casa dela, presa em dois postes. De ponta a ponta, não mais que poucos metros, estava escrito assim: “Juliana, volta pra mim”. De fato, não havia a vírgula, mas as quatro palavras pareciam dizer a angústia de alguém anônimo.
Durante meses a chuva, sol, poeira, passarinhos, vento, maltrataram os belos dizeres. De muito branca, a faixa com letras maiúsculas de cor vermelha, o “Juliana, volta pra mim” foi ficando apagadinho, encardidinho. Rasgos na altura das palavras “volta” e “mim” deixaram o texto confuso. Quem o lesse pela primeira vez poderia enganar-se ao ler: “Juliana, v pra mm”. E foi assim que alguém, em nome da moral e dos bons costumes daquela rua, promoveu um abaixo assinado contra a poluição visual. Mandar Juliana à mm, isso ofendia os preceitos morais de alguns. Foram arrancadas as faixas ao meio-dia de uma quarta-feira, sob os aplausos de senhoras, munidas de sombrinhas e sacolas de supermercado.
Uma semana depois, Juliana decidiu voltar pra casa dos pais, após seis meses em Londres. Triste, suspirava pelos cantos, torcendo pra que o Beto telefonasse. Não se desculpava por não ter anotado o número do telefone dele. Desolada, ia à janela e olhava na direção do lugar que ainda ostentava pedaços de corda que outrora amarraram as faixas removidas. Sequer desconfiava que seu sentimento era por ele correspondido. Procurou todos os Betos na internet. Falou com os Robertos, os Adalbertos, os Gilbertos, os Felisbertos e até com os Norbetos. Não conseguia encontrar o Beto! Por fim, desistiu, mas seu coração sempre nutriu uma pontinha inconfessável de esperança. Um dia, ela iria reencontrá-lo, claro que sim!
Há dois meses, no supermercado, mais exatamente no setor de vinhos, Juliana estava distraída, indecisa entre um vinho chileno e outro vinho. Beto, empurrando um carrinho de compras contendo iogurte, cerveja e pizza congelada, mal acreditou que diante de seus olhos estava o amor de sua vida. Todos os dias, durante mais de quatro anos, tentou encontrá-la em cada rosto desconhecido, em todos os lugares por onde andou. Procurou-a na internet, falou com todas as Julianas que encontrou e, então, se mudou pra São Paulo, afinal entre milhões de habitantes estava a sua amada e, certamente, o destino trataria de ajudá-lo.
Juliana, ao ver Beto, sentiu uma mescla de sentimentos bons com o alívio de quem não mais precisaria sofrer. Saíram juntos do supermercado, com os respectivos telefones anotados. Desse dia em diante, nunca mais se perderam um do outro. Sobre a mesa da sala, junto ao vasinho de flores, eu deixei o convite de casamento deles dois. No convite está assim escrito: "Juliana e Humberto, pra sempre, até o fim, sem fim!".

27 de mar de 2012

ESPELHO, ESPELHO MEU!


-Ah, que legal o nosso álbum de fotos de formatura!
Eu não guardei nenhuma foto, não lembro o motivo disso. Fui visitar minha amiga, ex-colega da turma de Direito de 1984. Lá estava o álbum. Nossa, tanto tempo! Arrisquei uma perguntinha:
- E essa mocinha, quem era ela?
– Diva, está brincando comigo?
Não, eu não estava brincando. Uma jovenzinha linda, sorridente, que usava franja.
– Era você, Diva!
Era. Já era. Nossa, o que o tempo é capaz de fazer? Acho que fiquei uns dois dias evitando o espelho. Eu e todos os quilinhos extras que se recusam a me abandonar. Ai, essas ruguinhas ao redor dos meus olhos! E esses fiozinhos de cabelo branco que precisam de retoque de tinta a cada 15 dias?!
Telefonei pra minha avó, que do alto de seus 91 anos de idade tem muitas histórias pra contar.
– Oma, onde você estava? Telefonei três vezes, ninguém atendeu!
– Ai, menina, eu estava no quintal consertando o carrinho de feira, nem queira saber, ele quebrou no caminho. Mas tudo bem, já consertei.
E foi assim que voltei a me olhar no espelho, a curtir minhas ruguinhas ao redor dos olhos, a não resmungar por conta do retoque de tintura na raiz dos cabelos. Eu sou uma menina! Sob o ponto de vista de minha avó, sou ainda uma garotinha. Se ela tem 40 anos a mais do que eu, possivelmente dentro de 40 anos estarei indo sozinha às compras, consertando os futuros carrinhos das futuras feiras. E ainda acharei que alguém com 50 anos de idade é quase uma criança! Tudo deliciosamente relativo!
Envelhecer não é problema, ter ruguinhas é natural, engordar faz parte desse processo. Que bom será estar viva e com boa saúde em 2052, assistir a toda transformação tecnológica e social. Difícil imaginar como estará o mundo, acho que mais parecido com o desenho dos Jetsons. Quem sabe, as pessoas vivam até os 100 anos de idade e eu ainda esteja batendo um bolão, dançando dança de salão, fazendo caminhada no parque, escrevendo minhas aventuras e desventuras?
Ter medo do espelho? Não mais. Ali, refletida, estou eu: Diva Latívia. Uma menina na metade do caminho.

24 de mar de 2012

ÀS EDITORAS: EU ME RECUSO A PARTICIPAR DISSO!


Não tenho um só livro publicado. Pra quê publicar um livro, pergunto eu? Hoje em dia, a maioria das editoras se transformaram em uma mistura de gráfica com buffet infantil! Eles imprimem os textos, fazem uma capa meia-boca, uma revisão gramatical que muito deixa a desejar, promovem uma festinha brega em uma livraria e te entregam os exemplares do livro. Você paga a conta, alta por sinal. Daí em diante, vire-se!
E onde está o reconhecimento ao trabalho do autor? Ah, diriam os editores: venda os livros e nós reconheceremo$ o seu trabalho.
Já briguei com editor. Já mandei editor pra aquele lugar que você bem pode imaginar qual é. Já enviei cópias de minhas crônicas a muitas editoras. E já perdi meu tempo com isso diversas vezes.
Certa vez, participei de um concurso de crônicas. Não sei onde estava a minha cabeça. Minha crônica, uma das mais lidas neste blog, sequer foi classificada. O livro me deu tanta vergonha que nem divulguei neste blog. Um panfleto, um horror ( é, dona editora, eu não gostei!).
Difícil ter o seu trabalho reconhecido. Difícil ter o seu mérito colocado no patamar que merece ter. E, por isso mesmo, eu prefiro ser blogueira a ser escritora. Ao menos, os 47 mil visitantes do meu blog sempre voltam aqui. Voltam e reconhecem que meus dedinhos digitam palavras que vão de encontro à sua inteligência e sensibilidade. Perder-me entre prateleiras de uma livraria, esperando que um exemplar seja tocado, escolhido e comprado? Não sou Paulo Coelho, não sou Rubem Fonseca. Sou apenas Cláudia, que assina Diva Latívia.
E é por isso, leitor, que todos os meus textos estão flutuando na internet. Sem um só registro na Biblioteca Nacional, sem um só lançamento, noite de autógrafos. Meu trabalho tem o seu reconhecimento e eu sou, por assim dizer, uma desconhecida.
É o mundo dos negócios. Um mundo do qual eu me recusei a participar. Meu talento não está à venda em demanda. Nem pagarei pra ver um monte de livros amontoados no quartinho dos fundos de minha casa. Ou reconhecem o meu talento, ou jamais teremos um livro com as crônicas que assino. E “TEJE DITO”! Meus leitores pedem um livro, mas eu não sou famosa, não causei estragos, nem escândalos. Não sou prostituta famosa, nem sou criminosa reconhecida. Qual valor terá um livro publicado por alguém honesta, ficha limpa, casada, trabalhadora? Não é mesmo?
Que este texto seja desculpado pelos meus leitores. Esta postagem é um comunicado às muitas editoras que me procuram e oferecem pouco, pra ter o melhor de mim: meus textos.

PS: Caros editores, se algum de vocês ainda tiver um pingo de bom discernimento, entre em contato ( duvido!).

23 de mar de 2012

DE SÃO PAULO A MOUNTAIN VIEW ( aos leitores do meu blog)


Meu vício? Escrever. Já passei apuro, sem caneta ou papel, sem computador, sem eira e nem beira. O jeito foi improvisar: batom e guardanapo de papel; lápis de olhos e embalagem de padaria. Já escrevi no espelho do banheiro, com a ajuda do vapor. Frases curtas, do tamanho do momento. Já escrevi palavras no ar, meio maluca a gesticular. Fiz versos caminhando no parque e, pra não esquecê-los, gravei-os no celular. Já aproveitei uma caixa de papelão e restos de tinta de parede pra escrever e ri, com as mãos lambuzadas em tom pastel. Já escrevi no verso do extrato bancário um desabafo, um manifesto indignado, eu precisava extravasar sentimentos, enquanto a fila se fazia longamente.
Alguém pode emprestar uma caneta? Minha caligrafia, minha velha conhecida. Ainda rabisco letrinhas, no dedo um sofrido calinho. O computador, que não tem férias, é meu moderno arquivo de anotações. Um pedacinho de história aqui, outro pedacinho de história ali. Mexo, remexo, reviro e pronto! Um novo texto, mas neste texto falo disto aqui: o mundo que cabe em um blog. Escrevo sem fim, de mim, em mim, pra mim e chega aí, não sei onde, em quem, alguém.
Vejo as cidades que acessam o blog, há um mapa que aponta em azul em qual ponto do mundo está o leitor. Quem é você de Mountain View? Escolhi esse pontinho, apenas um exemplo, essa cidade americana que diariamente se ilumina no mapa do blog. Meus leitores, alguns jamais vi de perto, outros me conhecem pessoalmente. E o mundo parece tão pequeno nesse mapa, com pontinhos que cintilam ininterruptamente. Um texto chega após o outro, as ideias são muitas, a vida inspira todas as histórias. E eu, aqui em São Paulo, sigo os dias emendando letrinhas, formando palavras, sem ponto final. Escrever faz parte do meu infinito. Aqui, aí, isso é coisa da alma.
Diva Latívia, tão curiosa! Termino o texto torcendo pra que o leitor, ou leitora, de Mountain View se comunique, se identifique. A isso arrisco-me! Um desafio! Disso virá outra história, provavelmente. Tinta de caneta esferográfica corre em minhas veias, meus dedos serpenteiam o teclado do computador. De novo, outra vez, escrevi!

Este texto, originalmente, foi escrito na capa de uma revista, com uma caneta Bic, em uma viagem de metrô. Assim que cheguei em casa, publiquei no blog. É meu jeito de dizer que estou aqui, plantando sonhos e colhendo vida.

ADEUS, CHICO ANYSIO


Um minuto de silêncio, por favor. Partiu rumo ao infinito Chico Anysio, com sua inteligência ímpar e criatividade incomparável. Levou consigo Salomé, Coalhada, Tavares, Pantaleão, Popó, Professor Raimundo, Alberto Roberto, Bozó, Azambuja, Veio Zuza, Nazareno e tantos outros personagens, nascidos de sua genialidade, criados ao som de nossos risos e aplausos.
Deixo a minha despedida sentida, com o olhar no firmamento. Há um rastro de estrelas que seguem Chico, uma constelação de personagens que viram muitos de nós nascer e crescer. Que brilhem eternamente, encantem os anjos com suas graças e se eternizem em nossas recordações. Assim desejo.

22 de mar de 2012

OUTONO EM MIM


As manhãs de outono têm uma luminosidade quase infantil. O sol parece querer brincar de roda, seus raios agora iluminam o jardim, dançam sobre a copa das árvores e se refletem no laguinho do parque. Aproveitei a manhã e fiz uma caminhada, mergulhada em reflexões.
Sensação de passado, passo a passo. A brisa fresca, anúncio do tempo que avançou, do verão que se despediu. O chão coberto de folhas, quem terá avisado às árvores que março está chegando ao fim? Os pássaros em festa, os filhotes crescidos, em breve migrarão rumo a outro verão, distante daqui. Os pés de acerola ainda carregadinhos de frutas. Experimentei uma, o sabor azedinho, simplesmente sorri. A temperatura da manhã, antes friazinha, aqueceu aos poucos a cidade de São Paulo. Começou o império do outono, sua claridade mostra que chegou para ficar.
Busco fios de lã, guardados há vários meses. O primeiro cachecol será tricotado nos finais de semana. Tons quentes, avermelhado, alaranjado. Jeito prudente de aguardar o frio, provisão de calor e cor. Dia após dia, o tempo avança incessante. Parece apressado, indiferente às nossas histórias. Manhã clara de outono, pisando em folhas secas lembrei de mim.

19 de mar de 2012

QUEBRANDO SEM BOTAR


Ela não conseguia dizer coisa com coisa. Repetia sucessivamente:
- Foi aquela coisa de café “ impresso”!
Desde que contratei Josilaine para ser faxineira, isso durante as férias de minha assistente do lar, Zezé, eu já tinha perdido as contas do que ela havia quebrado, derrubado, lascado e desgraçado em meu novo apartamento. Assim que telefonei pra casa e ela mencionou a cafeteira italiana, que comprei há poucos dias, logo entendi: Josilaine tinha feito mal à cafeteira.
Tudo começou há duas semanas, quando Zezé viajou para sua cidade, que fica pra lá da Serra do Tereré. Sem tempo, nem paciência para limpar a casa, contratei a temporária Josilaine, que deveria limpar a casa e passar as roupas. No primeiro dia ela conseguiu explodir o ferro de passar roupas. Digo explodir, porque não sobrou nada do aparelho, senão pedaços que voaram desde a área de serviço até a sala. Ela não soube explicar o que aconteceu.
Dias depois, ela deixou cair pela janela da cozinha uma panela daquela grife caríssima, que eu tinha comprado há menos de um mês. Disse que lavou a panela e a deixou tomando um arzinho. Infelicidade, a panela caiu do 16º andar, já que não tem asas para voar, caiu em cima do toldo da entrada do prédio. Outro estouro, esse custou uma multa do condomínio.
Não bastasse tudo isso, Josilaine conseguiu acabar com o sinal de TV a cabo e internet do apartamento. Foi preciso chamar a empresa, que depois de duas horas de conserto descobriu que alguém ( adivinhe quem?) tinha deixado cair algo parecido com farinha de mandioca sobre o modem da internet e a caixinha da TV a cabo. Enfim, parecia obra de algum saci.
Eu já estava disposta a assumir a limpeza, o cesto imenso de roupas pra passar, e dispensar a Josilaine. Justamente hoje ela ligou a cafeteira sem colocar água no aparelho. Ligou e foi conversar com a faxineira da vizinha. O apartamento ficou cheio de fumaça, o alarme de incêndio do prédio foi acionado. E eu fiquei sem a cafeteira, sem a paciência e, finalmente, sem a faxineira. Coisa de café impresso. Era só o que me faltava!

A FLORIDA SEGUNDA-FEIRA


Começa mais uma semana. Segunda-feira, ninguém compreende esse dia! Para a maioria das pessoas, um dia indesejável, basta observar o semblante de algumas pessoas ao nosso redor, para sentir o drama. Nesse dia a gente engata a primeira marcha e segue em frente, rumo ao trabalho, à faculdade, ao banco, aos muitos compromissos que, teimosamente, são agendados justamente para o dia que precede o final de semana. Um balde de água fria pra nos acordar e fazer-nos voltar ao frenético ritmo do cotidiano.
A incompreendida segunda-feira, vista sob outro prisma, antecede a terça-feira, que nada mais é do que a prova de que o tempo não para e de que amanhã será quarta-feira. Interessante isso! Em breve será quinta-feira, véspera de sexta-feira! Ah, que delícia o sábado, que preguiçoso o domingo!
Corri até o calendário. Nossa! Dia 19 de março! Em breve será Páscoa, depois virá o dia das mães, as festas juninas, o dia dos pais, o dia das crianças e, finalmente, o Natal e o ano novo.
Enquanto isso, a gente suspira resignado quando escuta a musiquinha do Fantástico, tocada em alto e bom som em nosso televisor, ou no televisor de algum vizinho. É o final do fim de semana, é uma espécie de marcha fúnebre que avisa: amanhã será segunda-feira, dia de enfrentar o começo da semana. Tudo de novo, sempre adiante!
Isso tudo pode parecer terrível, isso se apenas considerarmos que o tempo voa, que momentos bons não retrocedem e que estamos caminhando rumo ao desconhecido. Mas, nesta vida, nossa postura diante de toda e qualquer adversidade, ou dúvida, pode temperar a vida, seja de modo exagerado, apimentado, ou sem sabor. Tudo depende dos ingredientes usados e do bom senso nas pitadas e doses utilizadas.
Do que estou falando, afinal? Falo do ânimo de cada um, para fazer a vida valer a pena. Outro dia ganhei um vaso de flores. Os botões estavam fechados, a plantinha pareceu ser muito frágil, cheguei a duvidar que sobrevivesse dentro de um apartamento. A cada dois, ou três dias, limitei-me a regá-la com um pouquinho de água. Há uma semana repito o mesmo ritual: encho metade de um copo com água e rego a terra da plantinha. Pois hoje, depois desse tempo, os botões, antes fechados, amanheceram abertos. A plantinha exibiu sua beleza, ofereceu sua delicadeza e demonstrou ter respostas a muitas perguntas que faço. A vida não usa calendário, de modo ininterrupto segue em frente. A vida floresce, sem se importar com o dia da semana.
Hoje é segunda-feira, o dia em que o vasinho de “lágrimas de Cristo” amanheceu coberto de flores brancas. Esse o tempero que faltava para adocicar suavemente os compromissos do dia. Irei sorrindo, para aproveitar a florida segunda-feira.

16 de mar de 2012

FREE CLOONEY!


Toda diva, ainda que apenas diva de alma, tem o seu ídolo, ou ator favorito. O meu, confesso aqui, é o bonitão George Clooney. Já suspirei um bocado, assistindo aos filmes e entrevistas do belo grisalho. Hoje, lendo uma notícia aqui, outra ali, soube que ele foi preso ao protestar em Washington em frente à embaixada do Sudão. Um protesto justo, carregado de espírito humanitário. A campanha, da qual já participo, tem o seguinte slogan: FREE CLOONEY!
Apesar dos USA estarem tão longe do Brasil, algo similar se passa entre o nosso país e aquele país. Um homem que não é bandido, foi algemado e preso. Esse tipo de excesso, esse exagero em nome da ordem pública, causa indignação, sempre! Na cadeia devem ficar homicidas, traficantes de drogas, gente da pior espécie. Prender alguém que protestava? Um absurdo! Onde está aquele país que se diz "de cidadãos livres"? Isso não se parece, nem um pouco, com democracia!
Segue o link com a notícia: http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5668901-EI8141,00-George+Clooney+e+preso+em+protesto+na+embaixada+do+Sudao.html#tphotos

15 de mar de 2012

MULHER DE PEITOS


Fui espetada e está doendo. Não tirei até agora aquele band-aid redondinho que deixaram no dorso da minha mão esquerda. Ainda lembro quando a enfermeira perguntou: - qual você prefere, a mão direita ou a esquerda? Não respondi, ela pegou a mão que estava mais perto e ... tóim! Doeu. Mas, mulher que é mulher suporta a dor do parto, a dor do sapato de salto alto, suporta depilar as pernas, suporta a cólica menstrual. Portanto, eu sequer disse “ai”. Ao meu lado a médica radiologista explanando a respeito do futuro procedimento, uma ressonância magnética das mamas: necessária, afinal fui rotulada, eu sou Bi-Rads 3. Bi, de bicho feio. Rads, de rads que o parta, como dói ser espetada! Nem escutei direito o que ela falou sobre a possibilidade de uma biópsia futura. E foi assim que, vestida com aquele avental ridículo, por baixo do avental apenas a calcinha (esqueça, eu não estava sexy...), fui conduzida à sala do exame. Fria. A maca tinha dois buracos, adivinhe pra encaixar o quê? Pediram que eu me deitasse de barriga pra baixo e encaixasse nos buracos os peitos, todos dois. Veio a pergunta: - você tem claustrofobia?
Claustrofobia começa com Clau. Toda Clau dá trabalho. Eu, Cláudia ( nome verdadeiro de Diva Latívia), sou claustrofóbica desde o útero materno. – Tive sim, moça, eu já tive síndrome do pâ.... Nem precisei dizer mais nada, me entregou uma campainha pra eu apertar em caso de emergência, colocou em mim fones de ouvido e disse:- faz barulho, mas qualquer coisa aperte a campainha. Explicou mais alguma coisa sobre a injeção de contraste.
Há vários dias, apreensiva com o tal do resultado Bi-Rads 3 da mamografia, venho tirando o sono de Divo Latívio, estou abatida, olheiras profundas e até andei tomando um porre no final de semana, coisa que costumo evitar fazer. Mas, diz o meu médico que é apenas excesso de zelo, melhor tirar qualquer dúvida, afinal 98% de chance de ser benigno é quase 100% de chance. Legal... Quase não é algo total. Bateu na trave!
A maca deslizou pra frente, eu não podia ver nada, minha cabeça voltada pro chão. – Não se mexa! Arrisquei uma perguntinha: - E se eu espirrar?
Começou o funk da ressonância magnética: kreu, kreu, kreu, kreu, kreu... Já tinha me acostumado, quando mudou a música: pidão,pidão,pidão,pidão,pidão.... E depois veio o próximo hit: voulá, voulá, voulá, voulá... TIIIIIIIIIIIIIBUUUUUUUMMMMM... tá,tá,tá,tá,tá... Imaginem isso, de barriga pra baixo, usando um avental hospitalar, os peitos encaixados em dois buracos e sem poder se mexer?
Já tinha perdido a noção do tempo e do espaço quando parou tudo e escutei uma voz masculina dizer: -tudo bem? Vontade de dizer que estava tudo uma merda... Mas, respondi educadamente que sim, estava tudo bem. Ai, quanta falsidade...- Então, continue quietinha e sem se mexer, agora vai ser injetado o contraste, ele é geladinho.
Mais de uma pessoa foi por mim abordada nos últimos dias, entre elas o próprio Divo Latívio, para me contar como foi a sua experiência em uma ressonância magnética. O que mais ouvi foi: é rápido, o contraste não dá efeito colateral nenhum. Todos deveriam me pagar indenização por dano moral, tá? Dói a injeção, a maca é dura, o túnel é gelado, o barulho é terrível e o contraste dá enjoo!
Quando terminou, eu comecei a chorar. A técnica de radiologia pareceu solidária ao meu sofrimento. - Calma, vai ficar tudo bem!
Encontrei Divo me esperando no corredor. Semblante aflito. Sabia o que eu tinha passado. Desmoronei, de tanto chorar eu até soluçava. Em um hospital isso é tão comum que ninguém observou, acho.
Vim embora pra casa enjoada, o curativo na mão, a cabeça rodando. Bi- Rads 3. O resultado virá dentro de alguns dias. E ainda é preciso agradecer muito aos homens, máquinas e, principalmente a Deus, por existir a prevenção do câncer de mama. Amém!

14 de mar de 2012

DE TAILLEUR E PANTUFINHAS


O rádio-relógio não despertou às 06h40, horário impiedoso, que desrespeitava o cansaço semanal, com momentos espremidos e compromissos infindáveis. Todos os dias ela se levantava da cama ainda tonta de sono, preparava o café, enquanto organizava mentalmente os compromissos da manhã. Naquele dia, a reunião com um cliente importante estava agendada para as 09h00. Na véspera, assim que saiu do escritório, foi ao cabeleireiro, fez as unhas, retocou a tinta dos cabelos e fez uma escova. Sua aparência deveria estar impecável. Quando foi dormir, o sono teimava em não acompanhá-la, adormeceu depois das 02h00.
Abriu os olhos, eram 07h25. O rádio-relógio foi omisso, não despertou. Desistiu de preparar o café, depressa tomou um banho, não teve tempo suficiente para arrumar a cama, vestiu um tailleur azul claro, não encontrou a pulseira de madrepérola, que tão bem combinava com o tom de azul.
Já estava dentro do táxi quando percebeu que tinha esquecido sobre a mesa da cozinha o celular. Sentiu um frio na barriga, sem o celular não poderia atender chamadas importantes. Pensou em voltar e buscá-lo, mas já estava perto do escritório, eram 08h35. A pressa a tornava esquecida, era sempre assim.
A reunião, enfadonha como eram todas as reuniões de negócios. A todo instante observava o olhar do cliente para si, intrigada. Um olhar que parecia dirigido às suas pernas. Lembrou que o mesmo episódio havia acontecido na portaria do seu prédio, quando um vizinho passou por ela e a mirou de cima abaixo. Depois, o taxista parecia, sorrateiramente, observá-la pelo espelho retrovisor. Sentiu um certo desconforto, um traço de insegurança.
Assim que terminou a reunião, voltou pra sua sala, respirou fundo. Sempre que relaxava, esticava as pernas. Aproveitou a privacidade do momento, a solidão de sua sala, fez um leve alongamento, esticando os braços, movimentando os pulsos, depois o pescoço, para direita e para a esquerda. Foi assim que olhou para o chão, em direção aos pés. As pantufas cor-de-rosa, de bichinho, ela havia comprado recentemente. Pareciam bênçãos para seus pés cansados. Naquele dia, as pantufinhas seguiram em seus pés pelas ruas, dentro do táxi, na calçada, na entrada do edifício comercial onde trabalhava. Em seus pés, atravessaram a recepção da empresa onde trabalhava, adentraram a sala da diretoria, depois a sala de reuniões, recepcionaram o cliente, ficaram ali, apontadas ostensivamente a cada cruzada de pernas.
Naquele mesmo dia comprou um despertador tradicional, aqueles de cordinha. O rádio-relógio, acompanhado das pantufas, foi atirado na lixeira. Um jeito de vingar-se daquele dia, o dia em que seus pés voltaram para casa felizes, relaxados, indiferentes ao seu constrangimento.

10 de mar de 2012

AZUL DERRAMADO EM PURO MEL

Para onde irão os amores não realizados? Aqueles que foram sonhados, que inspiraram suspiros e pensamentos sem fim? Será que giram ao redor da Terra, esbarrando em estrelas? Será que mergulharam no fundo de algum oceano, que estão submersos em sal e esquecimento?
Para onde irão os sonhos sonhados, aqueles que foram interrompidos? Os sonhos abandonados, os sonhos arrancados? Feito plantinha sem água, terão esses sonhos secado, ou morrido sedentos para nunca mais ser?
O amor que corria nas veias, que pulsava e acalentava os minutos. Estarão os amores findos apenas adormecidos, esperando um sinal para acordar? Questões sem resposta, formuladas em momentos de pura reflexão.
A vida leva, a vida devolve, um vai e vem que lembra o anoitecer seguido do amanhecer. E a vida se renova, em contínua poesia. Olhar azul, derramado em puro mel. De verso em verso, dia após dia.  Colorido sem fim. Para onde irá o amor irrealizado, apenas sonhado? Pra longe dos sentidos. Pra longe de mim. 

9 de mar de 2012

TRISTONHAS MELANCIAS

Amanheci jururu. Quem usava muito esse adjetivo era minha avó paterna, uma amazonense miudinha, olhinhos muito verdes e o temperamento forte, típica matriarca. Talvez, metade do que digo seja fruto do que aprendi com essa senhora. Adelina, esse era o nome dela.
Está gravado no dicionário da língua portuguesa, ou pai dos burros, como ela mesma assim o chamava: jururu significa tristonho, sorumbático, melancólico.
Ah, a melancolia. Melancolia, quando eu era muito pequena, imaginava que fosse alguma fruta, algo parecido com melancia. Começa com mel, mas nada traz de doçura em seu experimento.  É agridoce a tal da melancolia.
Dona Adelina era difícil de ser engolida, melancolia não é melancia. Pequenininha, aparentemente frágil, a criaturinha era uma rocha inabalável. Jamais a vi chorar, por mais que a vida nela batesse, por piores que fossem seus dias. Não se curvava aos dissabores da vida.
Ruim com ele, pior sem ele. Essa frase marcou uma fase que parecia interminável na minha vida. Na metade do século XX, quem quisesse viver em sociedade precisava jogar pra torcida e suportar um casamento arrebentado e insatisfatório. Casou? Azar o seu. Ou, como ela também dizia: quem seu fundo aluga, não escolhe onde sentar. Osso duro de roer, ela era assim.
Sinto que sou um possante carro de Fórmula 1, lidero a corrida desde a largada, porém, preciso agora parar no box, para abastecer, ou não cruzarei a linha de chegada em primeiro lugar. A menos de dois anos da sonhada aposentadoria, há dias em que sinto vontade apenas de passear no parque. Talvez, após os 50 anos de idade, a gente saiba exatamente aquilo o que não quer. Afinal, saber aquilo o que se quer é um tanto complexo demais. Não quero mais cotoveladas em vagões lotados do metrô. Não quero mais caminhar sob o sol causticante, pisando o asfalto escaldante da cidade de São Paulo. Sinto vontade de atirar longe o celular, ficar temporariamente fora de serviço. Andar descalça, sem maquiagem, a raiz dos cabelos um tantinho crescida e sem tintura. E rir de mim, por mim e pra mim, sem prazo, sem cobranças, sem dia e sem hora, apenas escrevendo textos que jamais saberei se alguém irá ler.
Vontade de correr pro colo da minha avó. Perguntar a ela se jururu é doce ou salgado? Se tapioca é a mesma coisa que sorumbático e depois ganhar um beijo, desses que só mesmo as mães de alma sabem ofertar.
Tristonhas melancias, o tempo passa, o colo seguro se vai, restou apenas a lembrança melancólica, com aroma de balinha de alcaçuz, que juntas saboreávamos em total cumplicidade. Saudade!

Deve existir no Céu algum setor especial, com nuvens de algodão doce e aroma de alcaçuz. Lá estão as avós que se transformaram em estrelinhas. Este texto carregado de saudade é pra você, Vó. 





VIDA EM MIM

Por que minha cabeça não para de pensar? Eu gostaria de entreter-me com assuntos banais, ter prazer em simplesmente cozinhar, ou caminhar. Mas, justamente nesses momentos, os pensamentos aterrissam e me fazem mergulhar profundamente em mim.  
Por que minhas preocupações não são fúteis, assim como considero fúteis as preocupações de alguns? Por que não vivo sem a pitada acentuada da responsabilidade com os demais, sem ter que me lançar no mar de adversidades para nadar contra as dificuldades diárias?  Por que não passo por esta existência sem a missão de ser salva-vidas, salvar os demais? Sem ser comandante desta nau, a última a abandonar a embarcação? Por que tudo não pode ser normal, comum, com o controle remoto nas mãos, o teclado na ponta dos dedos, o mundo de faz de conta, ao invés da vida real? 
Por que não posso preocupar-me com amigos virtuais apenas, com amores que delirei e nada mais, coisas comuns, que muita gente faz! Deixar que horas me carreguem imaginando o que irei vestir no final de semana, se engordei ou emagreci? Tentando adivinhar aquilo o que talvez imaginem a meu respeito, se irei à balada ou não, se ele me ama ou não, se vai chover ou se fará sol? Nada disso entra no cardápio agridoce dos meus dias, a vida pisa fundo e me chama para apagar incêndios descontrolados, para participar de dramas acentuados, para enxugar lágrimas alheias e esconder as minhas próprias lágrimas. 
Vida densa assim, até o fundo, até o fim.  Apanhando feito rocha que as ondas do mar moldam ao longo de séculos. Vida feita sob medida pra mim!

7 de mar de 2012

RUA SONHOS DE DANDARA

Nós duas nos perdemos no bairro do Alto dos Moinhos. O nome da rua era Sonhos de Dandara. Achei meio esquisito, mas quem inventa nomes de ruas,vez ou outra, padece de falta de imaginação. Saí do trabalho apressada, fui ao encontro da Maria Rita. Há mais de um ano a gente não se encontrava.
Lá fomos as duas, ela dirigindo. Bem que eu poderia ter pesquisado o caminho no guia de ruas. Bem que ela poderia ter um GPS no carro. Chegamos ao bairro sem saber se deveríamos seguir a avenida principal, contornar depois do cemitério, ou se deveríamos fazer a conversão à esquerda.
- Ritinha, acho melhor a gente ir pelo caminho do cemitério.
- Tá doida, Diva? Isso é muito fúnebre. Vamos virar à esquerda.
Paramos em uma praça. Sequer sabíamos onde estávamos. Resolvemos perguntar a quem por ali passava.
- Moço, hei, psiu!
O sujeito fingiu não ouvir e foi adiante.
- Que mal-educado!
- Grosso!
Seguimos mais dois quarteirões.  Novamente paramos quando avistamos um homem de terno e gravata, parado na porta de um empreendimento imobiliário.
- Moço! Conhece a rua Sonhos de Dandara?
Ele se aproximou do carro, chegou pertinho da janela, no lado onde eu estava sentada.
- Sonho de quem?
Depressa repondi: da Dandara!
Ritinha interveio: - Diva! Deixa que eu explico!
- A rua Sonhos de Dandara, por favor.
- Dando o que, senhoras?
Não me contive: - dando nada, não! Tá ruim de dar, moço!
Ritinha, já irritada comigo, deixou o homem falando sozinho e engatou a primeira, saiu com o carro.
- Diva, ele vai pensar que estávamos dando alguma coisa!
- E estávamos mesmo.
- Diva, o que é isso?!
- Ritinha, estávamos dando a ele a oportunidade de nos ajudar a encontrar o caminho!
Rodamos meia hora pra encontrar a tal da rua. Estávamos tontas de tanto virar à esquerda e à direita.
Rua Sonhos de Dandara. Quem terá sido a Dandara? O que será que a Dandara sonhou?  Fiquei imaginando uma rua chamada Diva Latívia. Ah, deixe pra lá. Pelo jeito, somente quem já morreu recebe esse tipo de homenagem, somente quem vai pra terra dos pés juntos tem seu nome estampado em uma placa de rua. Certamente, a Dandara já era e seus sonhos foram pro beleléu.  Coitadinha, será que ela deu alguma coisa antes de morrer? Pois que descanse em paz!

Pra você, Li, com quem dividi mais um momento tão bom de viver!

6 de mar de 2012

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Mãe, irmã, amiga, tia, prima, neta, avó, bisneta, bisavó, sobrinha, filha, namorada, esposa, vizinha, conhecida, desconhecida, sogra, nora, cunhada, colega, presidenta, diretora, secretária, leitora, médica, advogada, enfermeira, companheira, engenheira, jornalista, fisioterapeuta, professora, eleitora, esportista, artista, dona de casa, bancária, vendedora, empresária, consultora, locutora, economista, dentista, cientista, doutora, delegada, juíza, promotora, ascensorista, copeira, faxineira, cozinheira, telefonista, babá, motorista, diarista, comissária de bordo, comandante de aeronave, escritora, guia turística, tradutora, socióloga, psicóloga, numeróloga, astróloga, astrônoma e meteorologista. Há muitas outras, mas aqui não caberia tão extensa lista!
Homenagem ao belo exemplar humano, detentor do par de cromossomos XX. Parabéns, leitoras, pelo Dia Internacional da Mulher!

3 de mar de 2012

CIUMENTA!

Acordamos cedinho, um sábado quente e nublado. Fizemos uma mala pequenininha, com uma muda de roupa e alguns itens necessários para viajarmos até uma cidadezinha próxima.
Quem tem casa, sabe que a gente leva horas diárias cuidando de assuntos banais, às vezes enfadonhos: lavar louça, secar louça, guardar louça. Verificar se tem lixo dentro da lata de lixo, remover o lixo, trocar o saco de lixo da lata, levar o lixo para o lugar do lixo. Enfim, a gente quer sair de casa, mas os afazeres precisam ser encerrados antes de sairmos.
Já tinha resolvido quase tudo, regado a plantinha da sala, fechado as janelas cuidadosamente. Resolvi levar o saco de lixo ao depósito que fica no subsolo do prédio. Divo estava no quarto, achei desnecessário avisá-lo. Eu, o saco de lixo, ambos dentro do elevador. Quando chegamos ao oitavo andar a luz apagou, o elevador parou. Busquei no bolso da minha bermuda o celular, precisava chamar alguém, avisar Divo, pedir socorro. Percebi que tinha esquecido o celular dentro de casa.
Apertei o botão de emergência. Longa espera. Lembrei do que minha mãe me ensinou, quando eu ainda era criança: se o elevador quebrar, não fique perto da porta e sente no chão, no fundo do elevador. E foi o que eu fiz. Eu e o saco de lixo.
O tempo não passava. O que será que Divo tinha jogado dentro daquele saco de lixo, que estava assim tão lotado? Uma distração, finalmente! Abri o saco de lixo. Casca de mamão, filtro descartável de café, duas latinhas de cerveja e... Que papel seria aquele? Guardei no bolso, para posterior averiguação.
Incrível, Divo sequer me procurou. O que estaria fazendo? Como não sentiu minha falta?!
Uma hora e quinze minutos, foi esse o tempo que demorou para  que Jailson, o zelador, ao lado de um técnico da empresa de elevadores, abrisse a porta da minha cela.
Quando voltei pro apartamento, Divo dormia profundamente, o televisor ligado e ele roncava a sono solto. Peguei o papel dentro do meu bolso. “Anete – 0000-3333”. Letra de Divo. Quem era aquela Anete? Anete, em meus pensamentos, era uma loirinha com longos cabelos, não mais que 25 anos, corpo perfeito, quem sabe surfista nos finais de semana? Em minha cabeça passava de tudo. Fui abandonada presa dentro do elevador e ele tinha uma amante, chamada Anete, com idade para ser filha, quem sabe neta dele? Pervertido! Traidor! Dei-lhe um safanão. Acordou pulando, desorientado como quem cai de alguma nuvem. – Tá louca?
Trêmula, peguei meu celular e telefonei para a Anete- 0000-3333. Alô?
Voz melosa. Filhadamãe!
Alô. Quero falar com a Anete.
Divo, incrédulo, pálido, disse qualquer coisa que sequer escutei.
- Quem gostaria de falar?
- Não é da sua conta, chama aí!
Divo tentou puxar o celular da minha mão. Cravei-lhe minhas longas unhas, deve ter doído, porque ele saiu soprando os dedos em direção à cozinha.
- Bom dia, sou a Anete, quem está falando?
- Anete, seu telefone está aqui, anotado entre os pertences do meu marido.
- Quem é seu marido?
- Claro, claro. Você deve ter dado... o telefone.. pra muitos maridos, certo?
- Senhora, eu interrompi uma consulta para atendê-la.
- Consulta? Hahahaha! A coisa mudou de nome?
Foi assim que Divo conseguiu tirar o celular de minhas mãos, com um tranco.
- Doida! Maluca! Ciumenta paranoica!
- Eu?!
- Anete é a minha cardiologista!
Só acreditei quando ele mostrou os pedidos de exames, todos assinados pela tal da Anete.
Incrível mesmo é que ele, em momento algum, me perguntou onde eu estava durante mais de uma hora. Indiferente à minha clausura, dormiu feito um bebê, sequer notou minha ausência!
Magoados, ficamos dois dias apenas nos comunicando com monossílabas e sinais. Sim, não, tá, é, oi, tchau.
Aprendi a deixar o saco de lixo para ser retirado pelos faxineiros do condomínio, tudo conforme as regras do local onde moramos. Aprendi também a não mais fuçar a lata de lixo. Ah, essa minha vida vira-latas!