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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







5 de abr de 2012

D, DE DIVA!


O questionário era longo, eu precisava atualizar os dados para aquele órgão público detalhista, que volta e meia quer saber o meu atual endereço. Eram tantas perguntas, que senti minha privacidade bisbilhotada. Aliás, duas vezes bisbilhotada, porque a fuxiqueira da Silvinha estava bem ao meu lado, esperando ansiosa para também preencher o formulário. Olhos de lince, atrás dos meus ombros ela podia ler tudo o que eu lançava no papel. Dei uma encarada séria, ela não se mancou,  ou fez de conta que não se mancou. 
Endereço novo informado. Deveria ser o suficiente. A próxima pergunta foi tão contundente quanto um golpe de baixo pra cima, igual àqueles golpes das lutas de UFC: estado civil. Pulei essa e parti pra resposta seguinte: número de filhos. Minha prole é reduzida, porém mais do que satisfatória: um!  A pergunta seguinte, sobre os novos cursos que fiz. Vontade de lançar no papel o curso de fotografia, as aulas de tricô e a minha vasta leitura a respeito da configuração do blog. Por fim, assinar “Diva Latívia”. Certamente, eu perderia o emprego. Tratei de parar de rir sozinha, o sujeito do tal do órgão público, vestido com um terno preto dessas lojas populares, suava em bicas e parecia burramente sem paciência para me esperar.
Entreguei o formulário, torcendo pra que ele não me perguntasse sobre o estado civil. Não adiantou nada.- “A senhora não preencheu uma das questões. Qual é o seu estado civil?”.  Ai que raiva! Perguntou isso com aquela voz desafinada, rouca, parecida com a voz do Pato Donald.  Silvinha deve ter tido um orgasmo de satisfação, porque soltou um gritinho histérico: - “Aiiiii! Ela é casada, né? Casou de novo, né? Tá casada, né?”.  A cada “né” eu me sentia sendo desnudada, um strip-tease da minha vida pessoal, assunto que só diz respeito a mim!
Silvinha, Maria Tereza, Lucineide, Regiane, Glorinha. Um galinheiro se formou ao meu redor. Cacarejavam ansiosas. Um prato cheio de milho lançado no terreiro em que se transformou minha sala de trabalho.
Inventar um dado, para um órgão público, oficial, é crime de falsidade. Portanto, eu estava em uma rua sem saída, encostada em uma parede, encurralada por uma turma de mulheres ávidas por informações de minha vida.
– Casada.
Reboliço ao meu redor. – Viu? Não disse que ela casou? – Casouuuuu? – Mas, pensei que ela morava com ele, só isso! – Uhuhuhu! – Cócócócó! – Casou de novo? – Corajosa, heim? – Nossa, que sorte!

Menti! Menti por falta de privacidade. Menti pra me vingar delas, do sujeito do terno preto, da vida e de mim.
Permaneci na sala, fingindo trabalhar, até o sujeito esboçar um cumprimento pálido, disse qualquer coisa parecida com “boa tarde” e rumou em direção à saída. Levantei-me da mesa rapidamente e o alcancei antes de entrar no elevador.
 – Senhor? A respeito do formulário que eu preenchi. Creio que uma das informações que forneci está equivocada.
Fui olhada de cima abaixo. Novamente desnuda. Resolvi atacar: - minhas informações pessoais não dizem respeito a todos, não são de domínio público! Respondi algo por constrangimento, preciso corrigir a informação.
Ele respondeu qualquer coisa em tom irado.
Contra-ataquei: - os seus superiores saberão que fui humilhada pelo senhor!
Peguei pesado, sei disso.
O cara abriu a pasta surrada onde guardava vários papéis. Lambeu o dedo e começou a folhear um a um. Encontrou o meu formulário e perguntou: - O que a senhora respondeu errado? 
- Eu sou divorciada!
- Então a senhora não é casada?
- Não senhor.
- Inventou isso para me enganar, senhora?
- Não senhor!
- Pensa que tenho tempo para perder, senhora?
Eu queria mandá-lo para aquele lugar que a luz não alcança, mas precisava pensar no meu emprego.
- Fiquei constrangida, esse formulário deveria ser preenchido de modo confidencial.
- Façamos o seguinte, senhora, colocarei aqui uma pequena observação. Farei de conta que houve um equívoco no preenchimento. A senhora pode rubricar abaixo?
Minha rubrica, um D. Tanto faz se é diferente daquilo o que assino. Deixei ali um D, de Diva. Diva, minha Diva. Diva que habita em mim, que me faz cometer loucuras reais, que me acompanha e pulsa dentro de mim e causa muitas confusões. Diva doida, alter ego,  meu lado D!






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