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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







19 de abr de 2012

A EFICIENTE CLOTILDE


Clotilde, tão branquinha e gorduchinha, chegou em casa a prometer mil e uma maravilhas: lavaria toda a roupa, sem estragar nenhuma peça. Isso de modo rápido, com total eficiência e de modo econômico, prático, higiênico. Ainda havia um quesito que considero essencial: não faria muito barulho, o seu trabalho seria silencioso.
Fechei o negócio naquela loja que vende de tudo, de sofá a refrigerador. O vendedor pareceu satisfeito, sorria mostrando um pedaço de salsinha preso no molar. Sorriso largo e ecológico.  Dois dias úteis mais tarde, tocou o interfone e Serafim, o porteiro, avisou: - Dona Diva, os “homi” da loja estão aqui embaixo pra subir a máquina de lavar roupas.
Depressa, destranquei a porta de entrada de serviço e esperei tanto tempo que comecei a ficar preocupada. Cadê os “homi”? Chamei a portaria: - Serafim, está acontecendo algum problema? – É... É que... Dona Diva, a máquina não cabe no elevador.
Não pude acreditar no que ouvi. Como assim? Não cabia no elevador? Resolvi verificar com meus próprios olhos. No subsolo do prédio estavam dois entregadores da loja e o zelador. A caixa de papelão, embalagem da Clotilde, era enorme. Tive a ideia de tirar a máquina de dentro da caixa. – Ô dona, é melhor a senhora não fazer isso, porque se arranhar o gabinete a loja não vai aceitar de volta.
Ora, ora, ora... Eu teria mesmo que desembalar a máquina! Por isso, tentaram passar a Clotilde pra dentro do elevador desembalada. Puxa, empurra, mais pra lá, mais pra cá. E eis que Clotilde entrou no elevador. Começou então outro capítulo desse drama de lavanderia: a máquina não passou pela porta de entrada da área de serviço. – Só se a senhora mandar quebrar a parede!
Nem pensar. Jamais eu quebraria a parede por causa de uma máquina de lavar roupas. A solução foi içar a máquina pela janela da área de serviço do apartamento. Deixei a máquina no salão de festas do prédio, com um aviso de “NÃO MEXA” e contratei uma empresa especializada em içamento.
Clotilde veio subindo amarrada em cordas. De vez em quando o vento a balançava. Gordinha, rebolativa, chegou sã e salva. Desde então ela cumpriu tudo o que prometia seu manual de instruções: rapidez, qualidade incomparável aos produtos de outras marcas.  
Não sei o motivo disso, alguém resolveu tirar as meias sociais de cor preta e jogar na máquina, junto com a cueca de cor branca, a camisa de cor azul clara e duas toalhas de banho felpudas, que eu já tinha deixado anteriormente na máquina. É essa mania que tenho de fazer da máquina um cesto de roupas sujas. E esse alguém colocou sabão em pó no compartimento de amaciante e colocou amaciante no compartimento de sabão em pó. Ligou a máquina e foi ser feliz, assistindo a um jogo de futebol na TV e bebericando sua gelada cervejinha. Eu, que sequer desconfiava do mal feito, fui surpreendida pelo barulho de Clotilde a sacolejar irritadíssima. Abri a máquina e notei fiapos coloridos das toalhas de banho grudados nas meias sociais pretas. Notei também que havia tanta espuma de sabão que mais parecia propaganda daqueles produtos que lavam mais branco.  Respirei fundo, contei até dois e chamei Divo Latívio:
 - Divo, você ligou a máquina de lavar?
 – Hã?
 – Venha aqui!
 – Não posso. Diva, traz outra cerveja pra mim!
 – Divooooo! 
 – O que é?  Juiz ladrãoooo! Expulsa esse cara!
Por fim, desisti de chamá-lo e resolvi, eu mesma, tentar resolver o problema. Desliguei a Clotilde da tomada e retirei as peças de roupa de seu interior. O que era branco estava cinza, o que era preto estava cheio de fiapos coloridos. As toalhas estavam emboladas de um lado só do tambor. Minha vontade inicial foi de atirar tudo pela janela do apartamento.  Enxaguei todas as peças de roupa no tanque, uma a uma. Depois, removi  e lavei aquele compartimento plástico apropriado para receber sabão e amaciante de roupas. Escolhi as toalhas de banho para serem torcidas por Clotilde. Liguei a máquina na tomada, digitei o programa para centrifugar e... Nada aconteceu. Uma tentativa, duas, três... Divoooo! Quatro, cinco, vinte e oito... – Divoooooooooooo!!!
E ainda acham que mulher não gosta de futebol! – Diva, meu time está perdendo, o que você quer? A raiva era tanta que resolvi responder de modo malcriado: - Quero que seu time perca de 5x0!
Há homens que são capazes de aceitar quase todos os desaforos provenientes de uma mulher. Porém, rogar praga no seu time de futebol, isso pode ser imperdoável. O time de Divo perdeu de 4x1, o último gol quem marcou foi o Raimundinho, gol contra. 
Divo passou pela cozinha com ar de desprezo. Não disse boa noite e foi dormir, revoltado com minha falta de solidariedade.
Hoje, Clotilde foi consertada. O problema maior estava em uma peça que fica naquele cilindro da centrifugação. Uma meia soquete de Divo, de cor branca, tinha se enroscado e promovido todo o começo da confusão.
Agora, aqui em casa, a coisa funciona da seguinte forma: Divo só pode entrar na área de serviço com a minha autorização. Caso contrário, seu ingresso no recinto está proibido.
Ainda bem, Clotilde voltou a trabalhar do jeito que sempre prometeu: silenciosamente e com total eficiência!

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