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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







27 de mai de 2012

ARROXO BANCÁRIO


Ela estava em plena TPM, era insuportável a presença dos seres humanos sobre a face da Terra. Parecia que a vida, repentinamente, conspirava contra si. Os nervos fritos e à flor da pele. Tamanha irritação se repetia mês após mês, há anos e anos.  Já tinha experimentado remédios caseiros, naturais, homeopatia, praticava yoga e fazia os exercícios de relaxamento. Nada, absolutamente nada, parecia servir de paliativo para o seu mal. 
Eis que resolveu apelar para aquele conselho que leu em uma revista feminina:  uma cinta modeladora, dessas com um tal de acessório magnético, uns botõezinhos mais finos que uma moeda de um real, embutidos no forro do tecido. Aquilo apertava tanto a barriga que a fazia sentir-se dentro de um espartilho. Imaginou como se sentiam Julieta, Scarlet O´Hara e a Dama das Camélias. Um tanto estrangulada, coube com folga em seu tailleur e lá se foi, meio asfixiada, rumo ao trabalho.
O maior problema, durante a manhã, foi ir ao banheiro. Uma ginástica, um malabarismo para livrar-se da cinta e, depois, novamente vesti-la. Já estava arrependida. Na hora do almoço decidiu comer o mínimo, para não sentir-se ainda mais arroxada naquela amarração toda. Comeu pouco e resolveu ir ao banco. Assim que tentou passar pela porta eletrônica, a coisa travou e aquela voz anônima disse: - “Deixe todos os objetos metálicos no compartimento ao lado”.
Ela se livrou do relógio, das chaves, do celular, mas nada da porta ser liberada. Já estava ainda mais irritada, seria capaz de fazer um strip-tease para provar que não portava armas, que não era uma ladra e sim uma cliente desejosa, simplesmente, de falar com o gerente da agência.  Oito tentativas em vão, a fila de clientes atrás de si aumentava mais e mais. Formou-se um coro de reclamantes, todos apressados, sem tempo, afoitos para ingressar no banco. Por fim, o vigilante da agência disse: - "Senhora, tire todos os objetos metálicos!". Pensou alguns instantes e eis que concluiu: a cinta!
Já fazia quinze minutos que ali estava, travando o acesso de todos ao banco, um centro de atrações tragicômico, patético. Não hesitou, levantou a saia e contorcendo-se, revirando-se, sob aplausos, vaias e xingamentos, tirou a cinta e a depositou no tal compartimento destinado aos objetos metálicos. Finalmente, seu acesso à agência do banco foi liberado.  Tudo filmado e fotografado por celulares de clientes indignados, apaixonados, curiosos e atrasados para seus compromissos.
Nesse dia, ela conseguiu melhores taxas para aquele empréstimo que tanto desejava. O gerente, com olhar safado e um tanto  encantado para suas pernas, suspirava de vez em quando.  Ah, essa TPM! Ao menos foi encontrado um aspecto positivo para tamanho suplício. Quem diria que seu sofrimento mensal poderia causar a queda dos juros bancários e render um vídeo no Youtube, que já conta mais de cem mil acessos?

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