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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







4 de mai de 2012

DESVENTURA MATINAL


Desde que eu era criança nada parecido ocorria. Era muito cedo quando acordei e, quando acordo, pareço sonâmbula. Mal sei quem sou, onde estou, ou pra onde vou.  Levantei-me e fui ao banheiro.  Lembro que acionei o botão da descarga do vaso sanitário, lavei as mãos e o rosto, depois fui à cozinha preparar um café forte. Liguei o rádio na minha estação preferida: música dos anos 80. Deixei a mesa do café da manhã posta e resolvi tomar um banho. Adorava minhas pantufinhas cor-de-rosa, elas eram tão quentinhas e aconchegantes! Senti um certo desconforto ao escutar algo mais ou menos assim: shlept, shlept, shlept! Zoadíssima, meio dormindo, deixei isso pra lá. 
Quando entrei no banheiro, a descarga continuava acionada, aquele sachê perfumado tinha caído dentro do vaso sanitário e restado apenas o ganchinho de plástico transparente, que o prendia à tampa do vaso. Mau sinal: onde teria parado o artefato perfumoso?  Péssimo sinal. Dei uns tapas no botão da descarga, que pareceu gostar muito de apanhar. Masoquista, continuou disparado.  Aquela água com xixi vazava até o chão do banheiro. Comecei a acordar! Talvez, a privada tivesse engolido o sachê. Possivelmente, ela estava entupida! Passei a procurar o registro do banheiro, eu tinha que cortar aquela cachoeira! Minhas pantufinhas cor-de-rosa, pude descobrir naquele momento, soltavam tinta. A barra da calça do meu pijama, outrora amarelinho, estava alaranjada.  
Desliguei um registro meio emperrado, mas a descarga continuou disparada e indiferente ao meu suplício. Lá no alto, bem na penúltima fileira de azulejos, havia outro registro. Por exclusão, tinha que ser aquele! Lá fui eu pela casa, à procura de um banquinho, escada, algo que me ajudasse a alcançar o dito registro da descarga. Já descalça e com o pijama dobrado até à altura dos joelhos, eu tremia com o frio de 12 graus, que só piorava ainda mais a minha situação.  Não encontrei a escada, que provavelmente não tinha sido devolvida pela vizinha do apartamento 32, a Raimundinha. Assim, escolhi aquele banquinho da cozinha, o mesmo que estava com as perninhas um pouquinho arqueadas, devido ao peso de Divo Latívio. 
A água já tinha invadido meu quarto, o tapetinho beira-de-cama com estampa imitando tapete persa já era! Mais do que depressa, subi no banquinho e rosqueei o registro pra direita, sentido obrigatório para fechar uma torneira. Girei, girei e ... créc! O banquinho arriou, me segurei no registro e a coisa emperrou. 
Sem mais saber o que fazer, peguei o interfone e chamei a portaria. Atendeu o Severino, porteiro. Expliquei o ocorrido, ele prometeu subir para resolver o problema, porém demorou uns quinze minutos. A água já tinha alcançado a sala. Perguntou se eu tinha um grifo, devo ter feito cara de burra, porque essas coisas eu não tenho em casa! A essa altura, o vizinho do apartamento 31 apareceu na minha porta e tentou ajudar. E eu, doida, ensopada e de pijama, com um rodo a puxar a água pra qualquer lado. A água invadiu o corredor, desceu pelo elevador e deixou nada menos que 200 moradores a pé, pela escadaria.  O relógio marcava 08h30 quando resolveram fechar a água do prédio todo. Sem elevador, sem água e eu atrasada pra ir pro trabalho. 
O conserto foi feito, precisei mandar trocar o registro do banheiro, consertar a descarga,  desentupir a privada, chamar a faxineira para limpar o apartamento, mandar os tapetes pra lavanderia e jogar no lixo minha querida pantufinha cor-de-rosa. Ufa! Quando o encanador mostrou o que havia caído dentro do vaso sanitário, fiquei admirada! O sachê perfumoso estava acompanhado de um vidro de desodorante, que tinha caído de uma prateleira que fica sobre o vaso sanitário. E eu, que sempre saio da cama parecendo uma zumbi, cheguei a imaginar que aquilo fosse um pesadelo, mas era real e custou caro, muito caro! Uma desventura matinal, coisa natural na vida de Diva Latívia.

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