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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







2 de jun de 2012

OH, CUPIDO!


O cúmulo da distração é cair dentro do lago do parque, ao se afastar dois passinhos para tirar uma fotografia. Todo primeiro encontro deveria ser perfeito, mas a vida real não tem ensaios, tudo é improvisado e inclemente. Aconteceu, já era.
Zé Antônio conheceu Maria do Sol no forró. Baile bom aquele! A morena dançou a noite toda, o suor dos dois misturado na mais perfeita química e, não fosse o adiantado da hora, Zé não teria ido embora.
O único dia de folga do Zé era o domingo, quando largava o caixa da loja de tecidos, onde trabalhava dez horas diárias, e voltava pro quartinho alugado na pensão. Maria do Sol era manicure do salão de beleza de uma dona que falava enrolado. Do Sol, como gostava de ser chamada, não sabia se a patroa era japonesa, ou italiana.
O encontro no parque foi combinado pelo celular. Zé caprichou na colônia após barba e no desodorante. Escolheu a melhor camisa, calça social e tênis que comprou em dez suaves prestações. Do Sol vestiu  um shortinho curto, da moda, aquele tecido com lycra.  A blusa com seu umbiguinho de fora. Seus pés calçados nas botas de salto alto, que achou lindas. Isso tudo parecido com o visual daquela personagem de novela .
O primeiro beijo teve sabor de algodão doce, comprado na barraquinha do moço que não tirava os olhos dos pernões de Do Sol. A ideia da foto foi do Zé, que sonhava em mostrar na loja onde trabalhava a formosura da morena, seu troféu de “pegador”. Já imaginava a inveja que os colegas do trabalho sentiriam de sua “irresistível pessoa”.
- Vai, bem, vai mais pra direita!
Esses celulares modernos, adquiridos nos grandes magazines, tiram fotos quase tão boas quanto as melhores câmeras fotográficas digitais. Zé comprou uma dessas com seu décimo-terceiro salário. Caprichou no ângulo, tratou de enquadrar as pernas de Do Sol na foto.
- Isso, linda, mais pra trás. Só mais um pouquinho. Legal, dá pra ver os patos nadando na água. Só mais um passinho. Aí!
E foi assim que, de modo estabanado, ela deu dois passos, ao invés de só mais um passinho. Do Sol não sabia nadar, nem o Zé. Quem salvou nossa personagem  das águas profundas do lago, foi o vendedor de algodão doce,  aquele dos olhos compridos, um tal de Edinaldo. Fez respiração boca a boca, agarrou os peitos da Do Sol, jurando que era massagem cardíaca. Zé se sentiu um corno.
A confusão começou quando Zé descobriu que a Do Sol tinha bebido muita água do lago, mas estava lúcida e nada afogada. De safada a mulher à toa, proferiu diversos desaforos. Deixou Do Sol falando sozinha e foi embora, resmungando que “mulher é bicho que não presta”.
Do Sol mudou pra casa do Edinaldo uma semana depois. Tudo muito rápido e intenso, com incontáveis e quentes reprises da cena dos primeiros socorros proferidos pelo Zé.  Aconteceram muitos beijos, mais doces que algodão doce, patrocinados por Cupido, aquele que mira a flecha sem mandar o menor aviso.

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