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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







22 de jun de 2012

A SURDEZ MASCULINA


Bem que eu o avisei: - Divo, esse frasquinho de remédio sobre a prateleira da cozinha é o remédio pra verme do cachorro.
Ah, esses homens! Eles escutam a primeira frase que a gente diz, isso quando estão a fim de nos escutar. Porém, Divo estava tão entretido com o jogo de futebol na TV que não deve ter escutado uma única palavra do que eu disse. Anda tão estressado que comprei um vidrinho de floral pra ele, uma tentativa de ajudá-lo a melhorar o astral. O frasquinho tão parecido com o vidrinho de “mata-vermes” do cãozinho!
Sábado sempre é um dia especial. Acordamos cedo, vamos caminhar no parque, depois vamos à feira comprar verduras, legumes, comer pastel e beber caldo de cana. Depois, levamos o cãozinho Bono ao pet shop para tomar banho. Voltamos pra casa felizes, preparamos o almoço juntinhos. Sábado é uma delícia! Mas, aquele sábado não seguiu o script, tudo saiu errado.
Acordamos, fomos caminhar no parque e, lá pela segunda volta ele reclamou que estava com dor de barriga. Voltamos pra casa correndo, literalmente. Pobre Divo, mal deu tempo de entrar no banheiro. E assim foi pelo resto do dia, de meia em meia hora Divo corria pro banheiro. Difícil convencer um homem a ir ao médico. Homens não gostam de hospital, nem de injeção. E quem gosta?
Precisei ir à farmácia comprar fralda geriátrica de tamanho XXL. Divo foi se borrando pelo caminho, tadinho! Fiquei imaginando o que ele teria comido. Teria sido a pizza da noite anterior? Teria sido o leite longa vida? Ah, eu sempre desconfio da água! Em quinze minutos, a fralda cheia e o odor ao redor insuportável, Divo foi chamado. – Senhor Divo Latívio! Segurei sua mão gelada, fria, suada.  O médico era um desses sujeitos baixinhos, que fala tudo rapidinho: - O senhor tem alguma doença? É diabético? É hipertenso? E blábláblá. Escutei outro pum. Putz. Ele, realmente, não conseguia controlar a situação.Foi pro soro.
Fui chamada pelo médico. – Senhora, o que seu marido comeu ontem e hoje. Sorri amarelinho. O sujeito repetiu a pergunta, desta vez seu tom de voz ainda mais grave e irritadinho: - Ele tomou algum medicamento?
Divo não toma remédio, nem mesmo quando o médico prescreve. Claro que não tinha tomado medicamento algum.
- Ele tem sentido algum mal estar ultimamente?
 Divo é saudável, ele agora se tornou adepto dos florais de Bach, toma 10 gotinhas regularmente.  Resolvi contar isso pro doutor baixinho.  Ignorou totalmente a minha informação, achou impossível que floral desse tamanho piriri em alguém.
Divo estava pálido, enjoado e cagado. Resolvi demonstrar minha solidariedade. Respirei fundo antes de entrar no box  do pronto-socorro, onde estava repousando. O cheiro estava de matar! Respirei pela boca, me esforcei para sorrir. – E então, meu bem, está melhorzinho? Ele resmungou qualquer coisa impossível de ser traduzida. – Divo, você tomou algum remédio hoje? – Floral, tomei o vidrinho todo pra me acalmar.
Floral, ainda que alguém beba o vidro todo, não mata, nem envenena, isso disse o médico. Bom saber...
Divo precisou ficar em observação no hospital por 12 horas. Saiu de lá capengando, fraco, irreconhecível. A causa de seu mal-estar foi atribuída a uma virose. Quando a causa da doença é desconhecida ela se transforma em virose.
Domingo, a gente sempre acorda mais tarde, depois vamos à casa de nossos parentes. Acordei ainda sonolenta, o cãozinho Bono feliz e faminto. Lembrei que, devido à confusão da véspera, não tinha lhe dado o vermífugo. Procurei o frasquinho, não estava no mesmo lugar. Procurei e procurei, eis que o encontrei sobre a mesa da sala de jantar: vazio.
Pude então entender que Divo havia tomado o vermífugo do cachorro. Eis a explicação!
Decidi não contar a ele o que aconteceu. Melhor assim! Ah, esses homens. Tivesse eu falado qualquer coisa sobre a bunda da Juliana Paes, sobre a queda das ações na bolsa de valores, sobre a Taça Libertadores, ou sobre um modelo moderno de automóvel, ele teria escutado tudinho.  Fazer o quê?


6 comentários:

Bruna Araújo disse...

Adorei o blog, muito lindo, amei tudo. Parabéns mesmo, vou sempre estar aqui.

ontendency.blogspot.com

Cláudia Cavalcanti disse...

Bruna,

Que nome lindo o seu!
Obrigada pelo comentário e seja sempre bem-vinda!
Um beijo da autora,
Cláudia

Ulisses Vasconcellos disse...

Excelente texto!

Infelizmente gomens são assim mesmo.

Bom, que, pelo menos, o time dele tenha ganhado!

Cláudia Cavalcanti disse...

Ulisses,

Que nada, o time dele perdeu! kkkk

Um beijo

Vanessa Soares disse...

Adorei,
Chorei de rir...fiquei só imaginando as cenas!!
Parabéns...
Abraço!

Cláudia Cavalcanti disse...

Vanessa,

Obrigada!!!

Beijo

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