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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







18 de jul de 2012

RETALHOS DE UMA HISTÓRIA


O final de semana cinzento, chuvoso e gelado. Acordei vitimada pela preguiça. Pijama quentinho, meias de lã e pantufinhas. Admirei o dia frio pela janela do meu quarto.
Todas as caixas de papelão amontoadas no canto da sala guardavam livros, discos, fotografias antigas e objetos diversos que herdei de minha mãe. Demorei quase três anos para reunir todo esse material, uma espécie de herança que jamais desejei. Onde guardaria tantas miudezas?
Preparei chocolate quente, sintonizei aquela rádio com músicas dos anos 80. Suspirei resignada, talvez tão profundamente que espirrei várias vezes seguidas. Ah, essa minha alergia a poeira!
Abri a primeira caixa. Um avental que dei de presente à minha mãe. Quantos anos eu tinha? Lembrei: seis anos de idade. Bordado em ponto cruz. A professora, mal humorada e impaciente com minhas mãozinhas ainda miúdas, terminou o bordado entre uma reclamação e outra.  Jamais gostei de trabalhos manuais, exceto tricô e crochê. Lá estavam as agulhas de tricô. Todas coloridas. Quantos casacos, meias, gorrinhos e cachecóis teriam sido ali tecidos, ponto a ponto? Distraída, esbarrei em um vidrinho que abriu. Lantejoulas de cor púrpura salpicaram o chão.  Sentei-me sobre o tapete e iniciei minha viagem ao passado.
Na avenida perto de casa havia uma loja de armarinhos. Minha mãe comprava botões, linhas e algo que eu simplesmente adorava: vidrilhos, lantejoulas, miçanguinhas. As prateleiras da loja eram uma festa para o meu olhar que, no máximo, alcançava a ponta do balcão. Tudo parecia lindo e, ao mesmo tempo, gigantesco. As lantejoulas de cor púrpura bordaram um vestido de crepe da mesma cor, minha mãe vestiu-se de modo elegante em uma festa.
A máquina de costura trabalhava ao longo da noite, uma antiga Singer. O som era acolhedor, familiar. Moldes, giz, réguas, tesouras, alfinetes. A mesa da sala de jantar era o apoio para o trabalho de minha mãe. Revistas com modelos de roupas, as saudosas revistas Burda, com fotos de tailleurs, vestidos, casacos que saltavam do papel e ganhavam o guarda-roupas. Minha mãe, artista do corte e costura.
Abri outra caixa, encontrei uma tira de bordado inglês que serviu de bainha em um vestido branco que usei. Qual era a minha idade? Dezoito? Vinte anos? O vestido em organza, uma faixa de cor pink dava um toque moderno ao vestido. Fiz sucesso.
Antes de fechar a caixa admirei um casaquinho de bebê amarelo, um patinho bordado e lacinhos de cetim de seda a enfeitar a gola. Alguém o vestiu um dia. Teria sido eu, ou um dos meus irmãos?
Por fim, lacrei as caixas com fita adesiva, de modo decidido. Aterrissei no presente carregada de lembranças distantes. Vida alinhavada em querer bem. Saudade.

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