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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







3 de out de 2012

A HOSPEDAGEM DE TIA DEUZINETE


Há quantos anos eu não via a Tia Deuzinete? Tentei calcular, puxei a memória até lembrar aquele dia. As férias escolares a gente passava no sítio. O pomar com jabuticabeiras, abacateiros e limoeiros. Goiaba com bicho, fiapos de manga presos nos dentes, mastigar cana-de-açúcar até virar bagaço. A vida corria lenta, morna, azulzinha. Doce época que foi a infância, a adolescência. Tempo bom demais! Titia costumava nos acompanhar nessas empreitadas.
Tantos anos mais tarde, o convite para Titia visitar São Paulo partiu da Tia Marieta, prima-irmã de Tia Deuzinete. Quem a convidou deveria hospedá-la, mas a missão foi a mim entregue. A casa de Tia Marieta pareceu muito distante do posto de saúde onde Tia Deuzinete deveria fazer seu tratamento para úlcera varicosa, coisa que deu em suas pernas.
E lá fui eu na rodoviária buscar Titia, munida de muita boa vontade, valores morais elevados, compaixão e senso familiar digno da perfeição retratada naquela propaganda de margarina. Juro, em minha cabeça até tocava insistentemente aquela música que fala do amor ao próximo:  é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã!
Mal aquele ônibus proveniente da Serra do Piriri atrelou na rodoviária, eu me aproximei da plataforma imbuída do mais alto espírito de amor, bondade, carinho sem fim por minha tia idosa, que eu não via há... Há... Trinta e quatro anos!
Tia Deuzinete, em 1978, tinha mais ou menos uns cinquenta anos de idade. Era gordinha, tingia os cabelos de cor de burro quando foge, não depilava as pernas e não suportava tomar sol, nem mesmo em nossas viagens à praia.  Um tanto rabugenta, em sua árida viuvez, não teve filhos que a ocupassem. Titia era um tanto desocupada, pra dizer a verdade. Vivia da pensão pós-morte do Tio Nicolau e não fazia muita coisa da vida, ou melhor, fazia sim: cuidava da vida alheia. Sabia de tudo o que acontecia na sua rua, na rua de cima, na rua de baixo. Era a fiscal da vida dos outros. Em suma, Tia Deuzinete era fofoqueira. Passava uma temporada na casa de um parente, depois rumava pra casa de outro parente, outro e outro. Itinerante, por assim dizer. Falava mal de todos, falava de uns para os outros. Era um inferno!
Ah, lembrei uma história! Passamos a Semana Santa e Páscoa no sítio. Naquela época, minha avó preparava deliciosas compotas e geleias com as frutas colhidas de nosso pomar. Os quitutes eram deliciosos e preparados no fogão à lenha, em pesadas panelas de ferro. Titia, muito religiosa, começava seu jejum na quarta-feira de cinzas, alimentava-se apenas com uma sopinha rala, torradinhas e chá. Na quaresma Titia emagrecia que era uma beleza, mas estava longe de ser formosa, tinha o  semblante sempre fechado, os cabelos presos em um coque baixo e amarrados com grampos de cor preta.
A Páscoa significava muitas guloseimas, especialmente na sexta-feira, quando bebíamos sangria,  preparada para acompanhar a bacalhoada no forno e o arroz branquinho. De sobremesa doce de leite, figos em calda, goiabada cascão.  Pois Tia Deuzinete, assim que despertou na sexta-feira da paixão, vestiu-se de preto da cabeça aos pés.  Titia parecia um urubu! Com o terço nas mãos e a expressão ainda mais sisuda do que o habitual, decretou que naquele dia o jejum da família seria total: somente água, nada mais, em homenagem a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Tibúrcia, nossa cozinheira, foi proibida de preparar ao menos o café da manhã. De nada adiantou um e outro resmungar. Era dia santificado, dia de chorar pelos nossos pecados. O jeito era fugir daquele luto, dar uma escapadinha e contrabandear maria-mole, pão doce e balinha puxa-puxa para o meu quarto. Sob o meu travesseiro Titia flagrou o resultado do meu furto à despensa. Uma trilha de formiguinhas me dedurou. Apanhei: - Diva, estique sua mão. Fechei os olhos e, enquanto meus dedos ardiam com a chinelada, escutei o “splac” daquele chinelo de quarto, de tecido rosa, estalar em minha mão. Doeu, muito!
Por sorte, o dia seguinte era aleluia! A fome era tanta que, se eu pudesse, comeria um bolo sozinha. Deve vir desse episódio o meu atual aumento de peso. Preciso anotar e contar à endocrinologista: tenho trauma de Tia Deuzinete!
E lá estava a Titia, parada no topo da escada do ônibus. – Não quero ajuda, sou velha, mas não estou imprestável!
Desceu a escada com muito sacrifício, um tanto aflitiva a cena. Olhou-me com arzinho de nojo, mediu-me da cabeça aos pés. – Quem é você?
- Titia, querida, como a senhora está? Sou eu, sua sobrinha, Diva!
- Diva? Engordou! Tá horrorosa!
Ela não precisava dizer mais nada. Eu levei Titia pra minha casa, tentei acomodá-la da melhor forma possível. Foram quinze dias de martírio, uma experiência que pretendo não repetir. Ela conseguiu me convencer que minha cama, meu quarto, eram mais apropriados para o seu conforto  e restabelecimento de sua saúde. E eu fui dormir no quarto de hóspedes.  Ela não suportava: meu cachorro, o tempero da minha comida, meus amigos, meu apartamento. Enfim, ela não me suportava e eu já começava a retribuir a esse desafeto na mesma moeda. Descobri que eu odiava Tia Deuzinete!
Para não ter que enfrentar a chatice de Titia eu comecei a fazer hora extra no trabalho. Quando chegava em casa, ela estava dormindo e roncando em minha saudosa caminha. Tudo correu relativamente mal, porém de modo contornável, até o dia em que o vaso sanitário da suíte entupiu. Facilmente descobri o que havia caído na privada. Essa mania de Titia deixar a dentadura sobre a pia do banheiro terminou mal, muito mal. Foi necessário chamar o encanador. Diagnóstico: o vaso sanitário precisava ser removido, para que a dentadura fosse capturada e o encanamento desbloqueado. Enquanto isso, até que enfim, Titia permaneceu de boca fechada, para que sua banguela não aparecesse. Após esse episódio, Tia Deuzinete decidiu ir embora de minha casa. Um lar nada cristão, em sua opinião. Ali, ninguém ia à missa, ninguém rezava o terço. Pecadora que sou, não consegui convencê-la que a dentadura caiu no vaso por um acidente. Chegou a insinuar que meu cachorro a pegou e atirou dentro da privada. Impossível, Bono é baixinho e não alcança a pia do banheiro.
Prima Rosa veio buscar Tia Deuzinete. Acompanhei as duas até o portão, ajudei a acomodar as malas no bagageiro do carro. Enquanto o veículo fazia a curva lá embaixo na minha rua, eu suspirei feliz, dando pulinhos de alegria e fazendo tchauzinho.  Que felicidade a minha, ufa!  Até que enfim pode tomar posse do meu quarto novamente. Precisei trocar  os travesseiros, com odor inexplicável, e o colchão, que estava mijado. De resto,  tudo pareceu de volta ao normal. Que bom ter minha vidinha de volta! Lar, doce lar!




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