É proibida a reprodução não autorizada dos textos deste blog, de acordo com a Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que regula os direitos autorais.

Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







31 de out de 2012

PAPO DE FINADOS


Finados, de coisa finda, finita, findada. Já foi, já era! Findou!
Há quatro décadas, usando trancinhas e lacinho nos cabelos, eu acompanhava uma comitiva “sui generis” ao cemitério no Dia de Finados. Minha avó, acompanhada de sua irmã, uma  tia e uma prima. Na floricultura em frente ao cemitério a vovó comprava palmas vermelhas, funéreas. E lá íamos nós, pelas alamedas da terra dos pés juntos, o sol escaldante a nos maltratar. Ano após ano, o ritual se repetia. Ao chegarmos ao túmulo de nossos falecidos parentes, todas faziam expressão de tristeza profunda. Silêncio! A vovó, abraçada às flores, mexia os lábios em um quase filme mudo. Estava rezando em voz baixa, tão baixa que eu tentava inutilmente ler seus lábios. A seguir, começava a enfeitar o túmulo, de terra, com as flores funéreas. Formava caprichosamente uma cruz. Mais algumas preces quase mudas, um sinal da cruz e íamos embora, a observar as esculturas das sepulturas e as inscrições em suas lápides. Programa fúnebre, pouco indicado para uma criança de sete, oito anos de idade.
O tempo passou e hoje eu visito o jazigo de minha mãe, no Cemitério do Morumbi, em São Paulo. Sem túmulos, apenas o gramado e uma placa com o nome da mamãe. Pra ela eu costumo levar margaridinhas e esqueço o tempo, a hora. Minhas preces, provavelmente, também se parecem com um filme mudo. Algo particular, somente nós três sabemos o que rezei:  Deus, Mami e eu. E é assim que compreendo o que ia fazer minha avó naquele cemitério, o que ela rezava, por que insistia em repetir o mesmo ritual anualmente. Lá no cemitério estava enterrada minha bisavó Almerinda, a mãe da vovó.  Saudade! Mães, avós, bisavós. Todas deveriam ser imortais!
Às vezes eu evito ir ao cemitério. As flores são entregues semanalmente por uma florista, um jeito que encontrei de homenagear minha falecida mãe. De tudo isso restou o pavor que tenho de cemitério, um trauma de infância. Já decidi que, quando eu partir desta pra seguinte, quero que meu corpo seja cremado. Nada de enterro, nada de cemitério.
E esse papo funerário, inspirado no Dia de Finados, termina com um dizer de ninguém menos que minha saudosa avó: “vivam cada dia como se fosse o último”. É isso aí, Vó, você sabia das coisas!




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário!