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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







26 de nov de 2012

PROCURANDO O ESPÍRITO DO NATAL


E eis que o espírito natalino invadiu meu coração. Resolvi decorar minha casa com luzes, enfeites coloridos, guirlanda, árvore de Natal. Pra entrar no clima, encontrei um antigo CD com "Jingle Bells" e etc.
Pra começar, escolher onde vai ficar a árvore de Natal, isso em um novo apartamento com dimensões muito reduzidas, não é simples. Perto da varanda, certamente a árvore voaria pelos ares com o vento. Perto da porta atrapalharia a passagem. Perto do corredor atravancaria o vai e vem.  Acabei por escolher a sala de jantar, um cantinho espremido entre a mesa e o buffet. 
Primeiro passo, abrir a imensa caixa de papelão lacrada com fita adesiva, com os seguintes dizeres anotados: “cuidado, frágil!”. Essa anotação eu fiz pra que a equipe da mudança não quebrasse os minúsculos e delicados enfeites natalinos.
Segundo passo, correr da barata que saiu voando de dentro da caixa de papelão.  Entrei em pânico, tive uma crise de nervos. A bicha voou direto pra dentro do meu quarto, a poucos metros da sala. Voou e pousou na porta do guarda-roupas. Procurei, em vão, um daqueles aerossóis que prometem eliminar insetos. Encontrei no armário da lavanderia os seguintes itens: bom ar, pinho sol, comfort e sabão em pó. Só? Sim, só. Olhei na direção da vassoura, a vassoura me encarou. Não tinha jeito, era vassourada, ou então conviver indefinidamente com aquele ser cascudo e repulsivo. Não sou muito de beber nada alcoólico em dias úteis, horário comercial. Porém, eu precisava tomar umazinha, pra criar coragem, matar aquele monstro horripilante. Era ela, ou eu.  Na dispensa da cozinha encontrei uma garrafa de uísque de Divo Latívio. Dispensei o copo, bebi um imenso gole direto no gargalo. Argh! Eu pulei segurando firme a vassoura. Eu estava preparada pra voar!
Marchei com passos decididos rumo ao quarto. A barata que se preparasse, aquela seria sua última cena! Abri a porta do quarto e... Cadê a barata? Tinha sumido. Procurei atrás da porta, segurei a respiração, me coloquei na pontinha dos pés e puxei a cortina da janela. Nada da fugitiva! Embaixo da cama, nada. Bati com a vassoura em cima do guarda-roupas, atrás do criado-mudo, balancei a roupa de cama. Simplesmente ela tinha desaparecido.
Voltei à decoração natalina mas, por precaução, deixei ao meu lado minha poderosa arma: a vassoura.
Esses pisca-piscas costumam dar pau depois que os guardamos durante vários meses. Estiquei aquele fio embaraçado de ponta a ponta na sala, uns quatro metros no máximo, já que a sala é liliputiana. Notei que havia um fiozinho solto, coisa simples de ser consertada. Onde eu teria guardado a fita isolante? Lembrei: na caixa dentro do guarda-roupas do quarto. Lá fui eu descalça, cantarolando "We Wish You a Merry Christmas". Abri a porta do guarda-roupas e quem estava lá, pousada na minha jaqueta de couro argentino? Ela, a barata voadora, que fez seu número e voou rasante sobre a minha cabeça. Foi pra sala, eu peguei a vassoura e acertei uma cacetada na mesa lateral, derrubei o abajur e quase mandei pelos ares um vaso de cristal, herança da bisavó de Divo. Aquilo estava além dos meus limites, era uma questão de honra: eu teria que exterminar a barata, ou não me chamaria mais Diva Latívia!
Atrevida, parou no alto da árvore de Natal, feito uma estrela guia. Falei um palavrão impublicável. Eu já não mais raciocinava, eu estava programada para matar a barata. Peguei a vassoura e... Bati na árvore de Natal com tamanha força que matei a barata e destrocei a árvore de Natal, que partiu em três pedaços.
Naquele instante, tocava "Noite Feliz" no CD. A casa toda revirada, o cadáver do inseto ali, inerte. O pisca-pisca atropelado pela vassoura. E eu? Ah, eu desliguei o CD, liguei o rádio naquela estação de rock. Busquei um copo, coloquei duas pedrinhas de gelo, peguei novamente aquela garrafa de uísque de Divo e me servi com dois dedinhos de uísque, que não aprecio, mas bem serviu pra relaxar. Dancei uma espécie de dança de vitória de guerra, algo atávico, herança ancestral dos vikings. Meio fora de mim, desisti de continuar a arrumação natalina. Adiei, por tempo indeterminado.
Essa foi a minha primeira tentativa de entrar no ritmo do Natal. Quem sabe, se eu visitar as ruas decoradas com luzes e enfeites muitos, eu volte ao clima? Quem sabe?

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