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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







13 de dez de 2012

FELIZ NATAL, FELIZ 2013!


Natal lembra infância, a casa com aroma de alimentos deliciosos preparados para a ceia, burburinho de gente feliz a conversar e rir, muitos presentes, muita saudade.  Esta época do ano eu considero difícil de enfrentar, porque minha viagem ao passado tem passagem só de ida, preciso voltar a pé todas as vezes que vejo uma árvore de Natal com luzes coloridas, que escuto as canções de Natal. Meus pais, meus avós e bisavós, meus tios, meus irmãos. Muitos partiram deste mundo, em direção ao infinito. Lembro de um Natal que deixou lembrança especial.  
Talvez, eu tivesse quatro, cinco anos de idade. No céu vi uma luz que se movia entre as estrelas. Talvez, fosse um avião, ou um satélite. Pra mim era o Papai Noel, com seu trenó iluminado.  Meu coração acelerou, eu pulava de contentamento! Noite Feliz! Quase todos os anos eu pedia o mesmo presente: uma nova boneca Susie. 
Minha mãe e minha avó me levavam às compras, que faziam de modo discreto, conseguiam me enganar direitinho. As lojas escolhidas, invariavelmente, eram a Sears e o Mappin, aqui na cidade de São Paulo. A loja Sears ficava localizada onde hoje funciona o Shopping Pátio Paulista, na Rua Treze de Maio. O Mappin ocupava a esquina da Praça Ramos de Azevedo com Rua Xavier de Toledo, no Centro da cidade.  Nenhuma dessas duas grandes lojas de departamentos sobreviveu ao passar das décadas.  Eu adorava ir à Sears. Havia no fundo da loja um setor destinado aos gulosos e esfomeados, ou seja, um setor feito sob medida pra mim!  Guloseimas irresistíveis, tais como amendoim e castanha de caju torrados na hora, eram pesadas e acondicionadas em saquinhos de papel branco. Havia também um chocolate branco, em formato de bichinhos, de sabor inesquecível. Balas azedinhas da Sönksen.  Tudo isso e mais um pedido especial: Papai Noel, traga pra mim a minha boneca. A foto sorrindo ao lado do bom velhinho é em preto e branco. Eu usava um lacinho de fita, vestidinho rodado e sapato branco de pulseirinha.  Zeca, meu irmão, ao meu lado, rostinho feliz e sapeca.  Esperar pelo Natal era o melhor da festa. 
O dia em que minha mãe buscava as caixas guardadas com todos os enfeites natalinos era um dia mágico. Montar a árvore, aquela confusão de bolinhas que quebravam, luzes do pisca-pisca que volta e meia não funcionavam. Risos, alegria, esperança. O grande dia, a mesa caprichosamente posta, todos reunidos para celebrar o nascimento de Jesus Cristo.  Anos mais tarde, vi o mesmo sorriso feliz, o mesmo brilho nos olhos verdes do meu filho. A magia do Natal que passei adiante, o doce encantamento da espera do Papai Noel.  Outros dias virão, a vida segue em frente, o tempo passa. Um dia, meus netos viverão o mesmo instante, feito uma brincadeira de roda infinita, um laço bonito que enfeita a vida.
Natal, pra mim, é saudade. Saudade de você, Mami, que fez dessas datas um momento inesquecível pra mim e meus irmãos. Saudade de você, Pai, Vó, Tia, Vô. Meus personagens reais, que me ensinaram a ser quem sou.  Celebrarei mais uma vez, escondendo em uma caixa bonita o meu coração quebradinho pela ausência de todos vocês. Celebrarei buscando no Céu estrelinhas muito brilhantes, que acenarão pra mim. Meus “Papais Noeis”, que tanta alegria me trouxeram ano após ano, lembranças que valem mais do que todo e qualquer presente que alguém possa comprar.

A você, leitor, leitora, deixo aqui o meu desejo de um Feliz Natal, com muito Amor, muita Paz. Que o ano de 2013 seja repleto de bons motivos pra você celebrar a Vida, com saúde, harmonia, prosperidade.
Diva Latívia sai agora de férias. Até a volta!

8 de dez de 2012

O ANUNCIADO FIM DO MUNDO


Acho que eu tinha cinco, seis anos de idade. Creio que não mais do que isso, afinal eu estava na pontinha dos pés para visualizar meu rosto no espelho do lavabo. De onde será que eu tiro essas ideias malucas, que parecem ter sido adquiridas ainda na época em que eu era um embrião dentro do útero de minha mãe? Cismei que eu deveria olhar bem dentro dos meus olhos, refletidos naquele espelho que parecia imenso diante de mim. Ali fiquei por algum tempo, não sei se durante uma fração de segundo, ou se por vários minutos. Lembro muito bem do resultado: pânico! Olhar dentro dos olhos, ao admirar-me no espelho, revelou-se algo assustador. Medo! O tom azul esverdeado de meus olhos ganhou dimensões infinitas, que me conduziram para algum lugar estranho, longe daqui, dentro de mim. Sensação indescritível, gritei!  
Explicar o que eu, afinal de contas, havia aprontado, não foi muito simples. Minha mãe, já acostumada ao resultado de minhas travessuras, de modo surpreendente compreendeu que eu havia me assustado ao fitar demoradamente meus olhos no espelho do banheiro. Muitos anos mais tarde, eu soube que ela tinha tido a mesma experiência em alguma época de sua vida. Maluquice hereditária, talvez.
Hoje cedo, ao olhar-me no espelho do banheiro, esse episódio passou por mim, feito um filme antigo, em preto e branco. Olhei-me, corajosamente. Olhos nos olhos, eu e eu. O mesmo temor, desta vez controlado. Entendi que fora de mim havia apenas uma salvadora, uma super-heroína: eu! Eis a diferença daquela época de infância para o tempo de agora. Tudo o mais é desconhecido, misterioso, um tanto angustiante. Que mundo é esse, afinal? O portal que leva ao infinito parece ter sua chave no olhar!
Cedo demais para tamanho delírio, em meio a dúvidas, sentimentos, lembranças, puras e simples divagações. Bebi o café distraída, sem reparar que sequer o havia adoçado. Li algumas notícias do dia. Hoje, outro dia. Dezembro, outro dezembro.  Ano após ano.  A vida passa depressa, sem se importar com minhas perguntas sem resposta. 
Li algo sobre o anunciado fim do mundo, prometido para o dia 21 de dezembro de 2012. Fim do mundo com data marcada, um evento final, orquestrado por aqueles que se dispuseram ao papel de arauto do apocalipse.  Algo mais ou menos assim: - “Vai acabar, olha aí freguesia. Leve dois e pague três!”.  É pegar, ou largar. É pagar pra ver. O mundo no final, muita gente fazendo compras de Natal, planos para as viagens de férias, tocando a vida sem se importar com isso. E se for propaganda enganosa? A quem deveremos recorrer? Procon? Justiça? Polícia? Ir à delegacia e reclamar com o doutor delegado: -“ Dotô, fui pra festa do fim do mundo e nenhum meteoro bateu na Terra, nenhum furacão me levou, sequer o chão se abriu. Não fui pra pqp!”.
Fim do mundo? Isso é coisa de quem não tem muita coisa que fazer. De quem não fica três, quatro horas em um ônibus, ou trem, para chegar ao trabalho todos os dias. Isso é coisa de quem não usa sua energia, seus conhecimentos, sua força para edificar boas obras nesta vida. De quem pouco se importa com o sofrimento alheio. O mundo acaba quando acaba a esperança, quando o brilho do olhar se vai, deixando ali apenas as marcas opacas e fundas da indiferença e do egoísmo. Mundo que é mundo não acaba. Mundo que é mundo está dentro do coração de cada um. Mundo que é mundo a gente acessa no olhar, no sorriso, nas palavras de alguém. Isso tem aroma de eternidade, isso é inextinguível.  Temos os corpos mortais, frágeis, passageiros. Foi isso o que vi em meus olhos aos cinco, seis anos de idade. A minha mortalidade, a finitude de meus ossos, nervos e músculos. Tudo isso versus algo maior, indelével, interminável. Deus, esse o nome disso. Minha fé nasceu diante daquele espelho e hoje, tantas décadas mais tarde, quando escuto algo sobre o fim do mundo, eu rio de mim, rio de tudo isso. Algo além de nós, porém em nós, jamais acabará, feito chama que nunca se apagará: AMOR!