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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







8 de dez de 2012

O ANUNCIADO FIM DO MUNDO


Acho que eu tinha cinco, seis anos de idade. Creio que não mais do que isso, afinal eu estava na pontinha dos pés para visualizar meu rosto no espelho do lavabo. De onde será que eu tiro essas ideias malucas, que parecem ter sido adquiridas ainda na época em que eu era um embrião dentro do útero de minha mãe? Cismei que eu deveria olhar bem dentro dos meus olhos, refletidos naquele espelho que parecia imenso diante de mim. Ali fiquei por algum tempo, não sei se durante uma fração de segundo, ou se por vários minutos. Lembro muito bem do resultado: pânico! Olhar dentro dos olhos, ao admirar-me no espelho, revelou-se algo assustador. Medo! O tom azul esverdeado de meus olhos ganhou dimensões infinitas, que me conduziram para algum lugar estranho, longe daqui, dentro de mim. Sensação indescritível, gritei!  
Explicar o que eu, afinal de contas, havia aprontado, não foi muito simples. Minha mãe, já acostumada ao resultado de minhas travessuras, de modo surpreendente compreendeu que eu havia me assustado ao fitar demoradamente meus olhos no espelho do banheiro. Muitos anos mais tarde, eu soube que ela tinha tido a mesma experiência em alguma época de sua vida. Maluquice hereditária, talvez.
Hoje cedo, ao olhar-me no espelho do banheiro, esse episódio passou por mim, feito um filme antigo, em preto e branco. Olhei-me, corajosamente. Olhos nos olhos, eu e eu. O mesmo temor, desta vez controlado. Entendi que fora de mim havia apenas uma salvadora, uma super-heroína: eu! Eis a diferença daquela época de infância para o tempo de agora. Tudo o mais é desconhecido, misterioso, um tanto angustiante. Que mundo é esse, afinal? O portal que leva ao infinito parece ter sua chave no olhar!
Cedo demais para tamanho delírio, em meio a dúvidas, sentimentos, lembranças, puras e simples divagações. Bebi o café distraída, sem reparar que sequer o havia adoçado. Li algumas notícias do dia. Hoje, outro dia. Dezembro, outro dezembro.  Ano após ano.  A vida passa depressa, sem se importar com minhas perguntas sem resposta. 
Li algo sobre o anunciado fim do mundo, prometido para o dia 21 de dezembro de 2012. Fim do mundo com data marcada, um evento final, orquestrado por aqueles que se dispuseram ao papel de arauto do apocalipse.  Algo mais ou menos assim: - “Vai acabar, olha aí freguesia. Leve dois e pague três!”.  É pegar, ou largar. É pagar pra ver. O mundo no final, muita gente fazendo compras de Natal, planos para as viagens de férias, tocando a vida sem se importar com isso. E se for propaganda enganosa? A quem deveremos recorrer? Procon? Justiça? Polícia? Ir à delegacia e reclamar com o doutor delegado: -“ Dotô, fui pra festa do fim do mundo e nenhum meteoro bateu na Terra, nenhum furacão me levou, sequer o chão se abriu. Não fui pra pqp!”.
Fim do mundo? Isso é coisa de quem não tem muita coisa que fazer. De quem não fica três, quatro horas em um ônibus, ou trem, para chegar ao trabalho todos os dias. Isso é coisa de quem não usa sua energia, seus conhecimentos, sua força para edificar boas obras nesta vida. De quem pouco se importa com o sofrimento alheio. O mundo acaba quando acaba a esperança, quando o brilho do olhar se vai, deixando ali apenas as marcas opacas e fundas da indiferença e do egoísmo. Mundo que é mundo não acaba. Mundo que é mundo está dentro do coração de cada um. Mundo que é mundo a gente acessa no olhar, no sorriso, nas palavras de alguém. Isso tem aroma de eternidade, isso é inextinguível.  Temos os corpos mortais, frágeis, passageiros. Foi isso o que vi em meus olhos aos cinco, seis anos de idade. A minha mortalidade, a finitude de meus ossos, nervos e músculos. Tudo isso versus algo maior, indelével, interminável. Deus, esse o nome disso. Minha fé nasceu diante daquele espelho e hoje, tantas décadas mais tarde, quando escuto algo sobre o fim do mundo, eu rio de mim, rio de tudo isso. Algo além de nós, porém em nós, jamais acabará, feito chama que nunca se apagará: AMOR!


2 comentários:

Anônimo disse...

Vc é um ser humano muito lindo!!! bj Verônica

Cláudia Cavalcanti disse...

Verônica,

Adoro você, que também é muito linda!!!!

Beijo

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