É proibida a reprodução não autorizada dos textos deste blog, de acordo com a Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que regula os direitos autorais.

Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







28 de dez de 2013

FELIZ ANO NOVO!

Paz, amor, beijos, abraços, sorrisos, gargalhadas, cafunés, friozinho na barriga, dinheiro suficiente, boa saúde, comemorações alegres, bons amigos, notícias felizes, viagens agradáveis, novos livros, muitas músicas, alguns versos, prosa e poesia. Que 2014 seja repleto de instantes deliciosos, pessoas maravilhosas e se torne positivamente inesquecível. FELIZ ANO NOVO!

25 de out de 2013

A METADE DA LARANJA


8 de set de 2013

O AMOR EM TEMPOS DE CANDY CRUSH SAGA


Há quanto tempo não recebo flores, bombons, qualquer coisa assim? Observei a figura desligada, até mesmo um tanto desleixada de Divo, atirado sobre o sofá da sala. Em suas mãos o iPhone. Digitava compulsivamente, tentei calcular quanto tempo havia passado: quarenta minutos, talvez cinquenta minutos. Que mensagem de texto longa, pensei.  Resolvi apurar os fatos.
- O que você está fazendo?
Não respondeu. Ainda mais cismada e curiosa, repeti a pergunta, dessa vez com um leve cutucão em seu braço. – O que está fazendo?
- Não, obrigado.
Impossível ser compreendida por um ser que digita alucinadamente em um telefone. Não, não me diga que iPhone é outra coisa que não um telefone, afinal o meu eu uso pra telefonar, às vezes pra tirar fotos, coisas assim. Desperdício de tecnologia, talvez.
- Divooooooo!!!
Finalmente escutou minha voz.
- Oi, o que é?
- O que você está fazendo?
- Jogando Candy Crush!
Finalmente entendi o que ele fazia. Candy Crush, o viciante joguinho das balinhas coloridas que explodem. Também jogo, estou na fase 152!
Há quanto tempo não sentamos lado a lado e conversamos? Um beijo romântico, um convite para um passeio ao luar? Qualquer coisa assim?  Esqueça...
- Anjo, você vai ganhar um presente.
Quando escutei isso até me animei. Presente? Que presente? Meus pensamentos visitaram o shopping center. Uma nova calça jeans, um relógio de grife, o meu perfume favorito, um jantar à luz de velas, a viagem pra Montevideu!
iPhone, essa coisa é do capeta, sinceramente. Eu estava ali, distraída a sonhar com meu presente quando escutei um barulhinho. Nova mensagem. Quem seria? Era uma nova mensagem de texto assim escrito: “Você recebeu um presente de Divo, três jogadas extras do Candy Crush Saga”.

Não falei mais com ele pelo o resto do dia. Amuei!

AMOR QUE ATRAVESSA O TEMPO

Todo final de tarde soprava a brisa fresca vinda do mar. A mudança pra casa da praia havia lhe feito muito bem.  Solange estava bronzeada, cabelos cacheados e soltos, parecia ter rejuvenescido dez anos. Resolveu caminhar descalça à beira-mar. Mergulhou em pensamentos.
Há trinta anos havia conhecido o primeiro marido. Justamente ali, naquela praia. Dizem que amor de praia não sobe a serra, mas os dois começaram a namorar no verão de 82 e viveram felizes para sempre. Sempre? Todo sempre um dia acaba. O divórcio chegou em 2002.
Vinte anos de casamento é coisa à beça!  O ex  tinha Facebook. Conseguia ver sua nova foto do perfil, mais magro e feliz. Feliz sem ela. Seria melhor que  não tivesse foto alguma. A filha nasceu, cresceu e foi embora morar em Roma. Artista, a menina era artista plástica, orgulho da mãe.  Precisava de notícias, a garota parecia não ler suas mensagens inbox.
O pensamento voou novamente ao passado distante.  Pai e mãe deveriam ser eternos. Seu pai morreu cedo, ela ainda era adolescente. A mãe foi embora aos pouquinhos, perdeu a memória, se refugiou no passado vitimada pelo Alzheimer.  Onde estaria sua irmã? Estava sempre tão ocupada e morando tão longe, pena que não tinha Facebook, poderiam conversar no bate papo, trocar fotos, algo assim.
Observou o voo de uma gaivota. Que pena, estava sem o iPhone. Poderia tirar a foto e enviar pro seu perfil. Suas amigas, todas elas morando na capital, costumavam curtir as fotos marítimas, que colecionava aos montes agora.
Pérsio. Onde estaria o Pérsio, aquele primeiro amor do tempo de escola. Não podia esquecer de pesquisar no... Facebook, claro. Caminhou até a ponta da praia e voltou com passos apressados. Melhor chegar em casa, tomar um banho e ligar o computador. E se o Pérsio também estivesse divorciado? Se morasse ali perto? Poderiam se reencontrar, quem sabe reatar aquele romance amarelado pelo passar do tempo?
Seu notebook era novo, coisa comprada em oito parcelas no cartão de crédito. Internet como mandava o figurino: sem fio. Colocou na busca do Facebook o nome do ex-amor: Pérsio das Flores Paixão. Imediatamente apareceu o perfil do dito. Irreconhecível. Os cachos de cabelos loiros, que garantiram o apelido de Anjinho, haviam caído todos. Careca, o Pérsio agora era careca. Gordo, rosto redondo. No mínimo, aquela fotografia do perfil se parecia com a foto do pai do Pérsio. Resolveu clicar nas informações do usuário. Sobre: mora em São Paulo, é engenheiro civil,  está em um relacionamento sério com Ana Paula da Silva, estudou no colégio Deus Meu, em São Paulo. Não pensou duas vezes, enviou convite de amizade para o Pérsio, ou aquilo o que restava dele. Deveria existir algum modo de visualizar fotos fechadas com cadeado. Coisa pra hacker, certamente.  Convite enviado, decidiu compartilhar o feito com a Rosana, sua amiga do tempo de escola. Juntas riram e se divertiram com a ideia. Rosana também enviou convite de amizade pro Pérsio.
Duas semanas, esse foi o tempo que demorou pro tal convite ser aceito. Ele aceitou e gentilmente enviou uma frase pra ex-namorada: “bom reencontrá-la, boa tarde”.  Coisa mais fria, brega, formal, sem graça. Nem parecia o Pérsio! Foi xeretar seu perfil. Fotos de carros, motos, da namorada. Idade pra ser filha mais nova dele. Uma garota. Pérsio, portanto, era quase um pedófilo. De anjinho a demônio, que trajetória infeliz a dele. Sentiu uma ponta de inveja, ou talvez de frustração. Mas, teria ele se casado, tido filhos? Não conseguiu descobrir, talvez um dia ele aparecesse online no papo e, então, poderia fazer perguntas muitas que pulavam histéricas em sua cabeça.
Seis dias sem qualquer contato com Pérsio. Pareceu não adiantar nada tê-lo adicionado no Facebook. Talvez, a namorada o obrigasse a ficar longe da internet. Talvez, ele estivesse tão exausto de tentar acompanhar a garota que, agora, estivesse sem ânimo pra nada, nem mesmo pra digitar poucas letrinhas. Um mês, nada. Seis meses, nada. Até havia se esquecido da inclusão do Pérsio no seu  perfil quando, um dia, recebeu uma longa e simpática mensagem dele: “Solange, há quanto tempo! Somente agora pude ver seu perfil calmamente. Observei suas fotos. Você continua linda! Parece que mora na praia, isso é muito bom. Por aqui continuo a luta pela minha recuperação. Não sei se você soube, eu sofri um acidente de carro há mais de um ano e fiquei oito meses internado no hospital. No acidente faleceu minha namorada, a Aninha. Viu as fotos da Ana Paula? Eu gostaria muito de te rever! Moro em São Paulo, vou te deixar meu e-mail pessoal, meu celular e meu telefone fixo. Quando você vier a São Paulo me avise e venha me visitar. Um beijo e carinho, Pérsio”.
Ela leu a mensagem, releu duzentas vezes, no mínimo. Pérsio havia sofrido um grave acidente. Oito meses no hospital, muito tempo! Melhor se apressar e logo ir a São Paulo. Antes, deixou recado inbox pra Rosana:  “Rô, estou indo até Sampa resolver umas coisas, quando eu voltar te contarei uma novidade. Bjs”.
Ver o Pérsio depois de tantos anos, isso era mais do que uma alegria. Suas mãos suavam gelado, seu coração estava acelerado. Quando o porteiro do prédio avisou que ela poderia subir até o apartamento, entrou no elevador e sentiu as pernas bambas. A poucos segundos de rever o maior amor que tinha tido na vida, seu primeiro amor!  Uma senhora atendeu à porta, estava vestida de branco. Enfermeira, talvez?  Sentada em um sofá confortável aguardou longos cinco minutos. Eis que ele surgiu diante de si. Em uma cadeira de rodas. Pérsio, no acidente, havia fraturado uma vértebra cervical. Não andaria mais.
Essa mania de idealizar as situações, ela achou que encontraria Pérsio, no máximo, com uma cicatriz no queixo. Jamais havia dimensionado a gravidade da situação. Os dois conversaram durante mais de quatro horas. Falaram do acidente, do tempo de escola, dos amigos perdidos no passado, do casamento e divórcio de ambos, dos planos de futuro. Quando se despediram, ficou a promessa: se falariam online muitas vezes, não perderiam o contato no Facebook, jamais. Coisa difícil, o Pérsio não era muito chegado nesse tipo de mensagem, pouco conversava por ali. Resolveu desencanar, não investir em uma reaproximação. Certamente, ele sofria com todo o resultado do acidente e não desejava sua companhia.
Ela voltou pra praia e, sempre que caminhava à beira mar voltava a mergulhar naquela época, nos sonhos, no amor do passado.  Foi em uma dessas caminhadas que conheceu o salva vidas mais bonitão daquelas bandas, o Joel. Papo vai, papo vem, encontrou alguém fora da internet, alguém de carne e osso, ou melhor, de sensacionais músculos peitorais, bíceps, tríceps.  Namorar um salva vidas, melhor que isso só mesmo casar com o salva vidas. No dia de seu casamento, lá estava Pérsio. Acompanhado de uma moreninha com não mais que 20 anos. Sua nova namorada. Saia curtinha, pernas longas e bem torneadas. Entendeu com clareza: o negócio dele era gatinha, não gatona com mais de 50 anos.
Até hoje eles conversam no Facebook, perdem o contato ocasionalmente e, depois de tempos, voltam a conversar. Por falar em Facebook, o salva vidas também tem um perfil. Fechado, completamente fechado, um mistério. Jurou: ainda descobriria a senha e o segredo. Mas, isso é outra história. O que importa é que vive à beira mar, que sonha enquanto pisa descalça na areia e que alguém com braços fortes, praticamente, a salvou. Tudo o mais pertence ao futuro, tempo que ainda não nasceu.






1 de set de 2013

FOTO 3X4

A foto 3x4, ainda recente. Quando a tirei? Há um, ou dois anos? Não soube dizer.A necessidade de ter uma foto recente me levou à busca dessa tal foto 3x4.
Séria, talvez triste. Cabelos longos e soltos. Olhar de quem pensava em algo chato, muito chato.
Quando será que tirei essa foto? A princípio não consegui lembrar.
Foto para documento de identidade tem que ser recente. Decidi perguntar a quem estava ao meu lado: - Você acha que está boa esta foto? Olhou-me com um sinal de desinteresse, outro olhar de crítica severa. - Não, mas eu acho que é melhor tirar outra foto, coisa recente.
O tempo passa. Noites insones, profundas olheiras, ruguinhas que brotam feito capim à beira da estrada.
Onde estará minha jovialidade? Feito flor a despetalar, senti-me aos pedaços com o comentário a respeito de minha foto 3x4. Eu acabando, acabada, sem solução. A opinião masculina, infelizmente, é vital para o viço feminino. Meio que morri assim...
Sem graça, fiquei sem graça. Uma mulher desinteressante, talvez? Velha, possivelmente. "Barangada", talvez. Descobri a data da foto, não mais que dez meses! Recente, portanto. Envelheci cem anos em dez meses, quem sabe?
Tentei decifrar naquele homem, distraído, frio, um sinal de interesse, ou desinteresse por mim. Alheio, totalmente alheio à minha aflição. Eu, a mulher invisível que apareceu na foto 3x4. A foto com o olhar triste de quem precisa,com urgência, emergir e voltar a viver. Voltar a amar e ser amada. Voltar a ser uma bela mulher.
Solidão acompanhada, esta a pior de todas as solidões. Autoestima feminina requer amor apaixonado. Sem isso, melhor não ter fotos 3x4, muito menos quem as comente.

23 de ago de 2013

NOITE DELIRANTE

Onde foi parar o fiozinho da meada, a sequência que me ligava ao melhor da vida, a este instante atual? Loucura, talvez? Deveria eu me embebedar para evitar a lucidez?
A longa noite insone foi povoada de vultos de vivos e mortos. Todos a rodear meu quarto. Febril, gripada, eu tossia. Juro, minha avó me perguntou se eu queria chá preto. Juro! Foi ela, vinda direto da terra dos pés juntos, que puxou a coberta e aqueceu meus pés.
Delirei! Eu estava a nadar na piscina do clube, primos que não vi crescer, que perdi de vista, todos eles a rir naquela algazarra deliciosa e sem fim. Minha tia estava ali. Arrisquei: - Hei, tia, você morreu! Estamos aqui juntas, então eu também morri? Ela sorriu benevolente, como quem dizia: - Chamem depressa um médico, a febre da garota subiu!
Despertei com o ronco amado. Cutuquei a mesma costela de sempre: - Pô, você me acordou! Ele resmungou qualquer coisa, fez alguma referência à minha falecida mãe. Ah, minha mãe... Ela também estava lá, no clube. Corpo de miss. Minha mãe tinha o corpo esguio, longilíneo, algo ao estilo Grace Kelly. Melhor, muito melhor, era perfeita! Pude admirar sua estampa ali, classuda, a tomar o solzinho leve da década de 60. Década de 60? Que idade eu teria? Admirei meus dedos, todos enrugadinhos d´água. Mãos miudinhas, dedinhos bonitinhos. Ah, o maiô laranja. Matei a charada: 1967, algo assim. Pirralha, não mais que seis anos.
Voltei no tempo, sempre desejei voltar no tempo e finalmente tinha conseguido! Poderia ser então jornalista, veterinária, chacrete, atriz da globo, ou simplesmente dizer que a enfadonha canção Ai Se Eu Te Pego era minha composição e ficar rica, muito rica! Onde estariam meus irmãos? Não os vi ali, naquela folia. Vai ver, era uma farra minha só minha, privê! Caminhei na direção da minha tia. Passou as mãos nos meus cabelos e disse: Diva, está na hora de acordar, já são 06h00. Acordei com o despertador.
A garganta ainda dói, o corpo parece que foi atropelado. Estou meio confusa, acho que estive no clube, que voltei à infância que revi minha mãe e minha tia. Não gostei nadica de nada de acordar! No passado com a memória do presente, com a experiência do dia de hoje. Qualquer coisa que poderia ser escrita e dirigida por J. J. Benitez, Operação Diva de Troia! Está feito, vou tratar de dormir mais cedo hoje, quem sabe meus fantasminhas retornem? Se bem que, a febre passou! Direto do túnel do tempo...

28 de jun de 2013

ABÍLIO MANOEL, TRÊS ANOS DE SAUDADE

A ausência de alguém querido, breve ou longa, tem aroma de eternidade.
Seus risos, sorrisos, devaneios, sua genialidade livremente impressa e expressa.  Sua musicalidade!
De repente, sem avisar, ele foi embora. Derramei meu olhar no firmamento, a procurar estrelas no Céu, a buscar sua presença, encontrei um vazio inominável!
Abílio Manoel, mais que amigo se tornou meu irmão. Sua morte prematura, um fato que tirou de mim o chão, que machucou profundamente o meu coração.
Três anos, longa espera para nos reencontrarmos e, felizes e despreocupados, criarmos outros tantos personagens e rirmos feito bobos, crianças grandes e unidas pelo mais belo laço que se faz nesta vida: a amizade!
Saudade, meu amigo, muita saudade!

( Dia 29.06.2010 faleceu o cantor, compositor e cineasta Abílio Manoel, que nos deixou sua obra e deixou Diva Latívia, sua amiga, irmã e aprendiz de escritora).


16 de jun de 2013

ASSUMA O SEU AMOR

Li algo mais ou menos assim: “não evite aquilo o que lhe faz bem, assuma!”.
Diversas situações passaram por minha cabeça, mas a principal foi o amor. Tanta gente evita o amor, ou não o encara frente a frente, não mergulha sem medir a profundidade do oceano.
A nossa existência aqui nesta vida, neste plano, é muito rápida, breve. Raro e belo encontrar um ser que nos entregue o que existe de mais puro e sublime, o amor. Essa devoção, dedicação, merece mais do que indiferença, relutância, mais do que a displicência de quem encara sentimentos nobres como jogo, ou brinquedo. Amar é a finalidade do existir.
Ir fundo no sentimento e permitir que o amor flua, sem diminuir a velocidade, sem cálculos matemáticos. Amor não rima com razão, amor é calor e emoção. Quem ama e é correspondido vive a mais bela edificação de sua vida, algo raro e magnífico.
Amor não rima com brincadeira, amor não é passatempo. Quem evita se envolver se joga nos braços da solidão e a conta, mais dia, menos dia, virá em forma de arrependimento, de tristeza ao enxergar-se oco, vazio, irremediavelmente ímpar. Medo de amar é a mais funda e sofrida negação da vida.
Amar requer a mais deliciosa falta de juízo. Sem conveniência social, sem jogar pra torcida, sem se importar com o que vão dizer “lá em casa”. Amar, sabendo que amanhã haverá muito mais a vivenciar desse amor. Amar sem temer repetir erros do passado, cometidos ao lado de “outras gentes”. Amar sem medo de se ferir.  Amar e viver, do jeito mais simples e bom de ser. Amar e assumir esse amor. Amar!


12 de jun de 2013

DIA DOS NAMORADOS

É a energia propulsora da vida, o motivo melhor para seguir em frente, a razão das boas lutas e de todas as vitórias. Amor! Hoje, Dia dos Namorados, uma data celebrada de modo doce, alegre e muito romântico.
Felizes aqueles que têm um par que balança seu coração, alguém tão harmônico que sem ele, ou ela, nada mais parece fazer sentido. Quem ama vive, quem ama realiza a mais bonita missão nesta existência ao entregar a outro ser o melhor de si.
Que todos os amores sejam puros, sejam possíveis, sejam infinitos. Aos namorados, essas criaturinhas felizes, desejo ainda mais amor e muitos momentos mágicos, encantadores e inesquecíveis. Parabéns, amem-se!

8 de jun de 2013

VOCÊ COISOU O MEU CORAÇÃO

A frase do dia, aquela que não quer se calar, li no Facebook: VOCÊ COISOU O MEU CORAÇÃO. Um compartilhamento ocasional.
Coisar, verbo transitivo, que na linguagem informal do povo brasileiro ( o mal falado português) significa tudo aquilo o que queremos dizer, mas não sabemos expressar em palavras. Você coisou o meu coração. Coisou? Conquistou, derreteu, arrebatou, atropelou, alegrou. Pode ser algo menos feliz: quebrou, abandonou, arrebentou, partiu, feriu. Porém, estamos próximos daquela data boa de ser celebrada a dois, à luz de velas, embalados por música romântica e ao sabor de vinho, ou qualquer coisa assim. Vem aí o dia dos namorados.
Namorar, também verbo transitivo, combina com coisar. Quem namora quedou-se coisado, definitivamente. Apaixonar-se é, literalmente, coisar-se. Quem se coisa não tem remédio, senão cair nos braços daquela coisa, objeto de sua paixão: o ser amado.
Coisa boa que é estar coisado, isso torna a vida uma coisa muito mais leve, gostosa, coisa boa de ser vivida. No dia dos namorados, os amantes, os românticos, os coisados apaixonados celebram a data entre beijinhos, carinho, momentos doces e bons de viver.

Para arrematar, eu deixo aqui escrita a seguinte coisa: “Você coisou o meu coração e este texto eu escrevi pra você. Que coisa!

7 de jun de 2013

AMOR QUE ALIMENTA A ALMA

Todas as vezes que eles se encontravam acontecia a mesma coisa. Ela podia ensaiar um jeitinho de quem nada queria, ele podia fazer ar de difícil, estufar o peito e ganhar ainda mais centímetros de altura. De nada adiantava tanta pose e postura. Bastava seus olhares se cruzarem e faíscas pareciam riscar o ar. Seus corações pulsavam secretamente mais depressa, suas mãos ficavam frias. Sintomas claros de paixonite crônica. Porém, se afastavam ligeiro e tempos depois inventavam desculpas para um novo reencontro, uma conversa qualquer, um motivo leve. E lá estavam novamente a provar o friozinho na barriga, a delícia de se ver no brilho do olhar um do outro.
Às vezes deixavam passar meses e meses até o próximo encontro. Porém, nem sempre conseguiam conter seus sentimentos. Mais de uma vez se renderam ao irresistível beijo, aquele beijo que parece magnético, uma atração irresistível com total compatibilidade química e anatômica.
Anos se passaram nesse jogo de sedução, instantes breves de pura adrenalina que alimentava durante dias e meses suas almas. A cada novo encontro parecia que recarregavam sua energia para sobreviver às agruras do dia a dia. Eles eram a vitamina, o energético um do outro. Havia amor, mas não havia um relacionamento amoroso, eram amigos, apenas amigos.
Assim foi até o dia em que ela surgiu com uma aliança dourada no dedo anular esquerdo. Ele fingiu nada ver, mas a todo instante lançava um novo olhar para o adereço. Casada, ela tinha se casado e sequer havia lhe contado. O encontro foi rápido, caminharam algumas voltas juntos no parque, ele deu uma desculpa e foi embora. Foi pra casa, evitou retornar para o escritório. Deitou-se no quarto escuro e chorou feito menino. Ela tinha se casado com outro!
O tempo passou. Ele ficou sozinho e o casamento dela logo acabou. Inventaram um novo pretexto, um café para conversar a respeito do enguiço do computador. Experimentaram a mesma sensação, tudo igual. Seus olhos se encontraram, faíscas pareciam soltas no ar. Seus corações dispararam, suas mãos ficaram frias. Novos beijos, energia renovada. Naquela tarde de verão eles dois resolveram não mais se separar, casaram durante o inverno do mesmo ano e suas vidas seguem  de olhar em olhar, na batida forte de seus corações, um relacionamento apaixonado, desses feitos para durar. Amor que alimenta a alma.


4 de jun de 2013

DIVA LATÍVIA NO METRÔ DE SÃO PAULO

Eram oito horas da manhã de quinta-feira. Apressada, de novo eu estava atrasada para chegar ao trabalho. Na plataforma da estação do metrô havia outros muitos seres humanos, a maioria deles também atrasada.  Viagem de metrô. Quem foi que disse que aquele trajeto, naquele aperto e desconforto, seja uma simples viagem?
Vinte minutos me esquivando de cotoveladas, empurrões, cutucões nas minhas costelas.  Um alívio escutar o aviso sonoro: “Próxima estação, Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem”. Metade dos passageiros do trem deu meio passo na direção da porta, ainda fechada. Longa espera pela abertura da porta, uma espera que pareceu longa e anormal. Um minuto e os viajantes começaram a demonstrar impaciência. Dois minutos e nada da porta abrir. Do lado de fora do trem uma multidão a esperar a abertura das portas e, dentro do trem, outra multidão a esperar a mesma coisa.  Três minutos, uma criança começou a chorar. Quatro minutos, a senhora que segurava uma sacola de supermercado, sem cerimônia, vomitou dentro do pacote.  Nada pode ser tão ruim que não possa piorar, certo? Certo! Comecei a sentir aquela dorzinha de barriga velha de guerra, aquela que surge quando fico nervosa. Meu estômago fazia malabarismo e o odor proveniente da sacola de minha companheira de viagem agravava o meu mal estar. Alguém gritou: - “Abram!”.  Outros viajantes fizeram coro: - “Abram logo esta porta!”.  Alguns, ao invés de porta falaram outro nome, feio demais para aqui ser registrado.  Começou o empurra-empurra, a gritaria, a choradeira e eu senti que estava, francamente, com caganeira. Apesar de não ser religiosa, resolvi também reagir: - “Meu Deus, socorro!”.
No café da manhã, ao contrário do que recomendou meu médico, Doutor Antenor, eu evito comer muito bem. Comer muito bem  e seguir direto pro metrô pode dar dor de barriga. Para evitar a dor de barriga, como apenas o suficiente, ou seja: pouco, quase nada. Naquela manhã fatídica, atrasada para chegar ao trabalho, tomei um café da manhã pobre, muito pobre. Bebi café preto sem açúcar, comi uma torradinha com pouca manteiga e fui, ainda mastigando, chamar o elevador, não havia tempo a perder.
Finalmente, um comunicado do Metrô: - “Senhores passageiros, por motivos técnicos os trens não estão circulando. Pedimos aos senhores passageiros que estão nas plataformas que se afastem da linha amarela, para evitar acidentes, agradecemos a sua colaboração”.
Eu quis chorar: e eu? Eu não estava na plataforma, eu estava dentro de um trem lotado de gente à beira de um ataque de nervos! Li algo a respeito de meditação, deixar que na mente passem todos os pensamentos sem se prender a nenhum deles. Pensei assim:  ”xô dor de barriga, sai fora caganeira, eu estou curada, não tenho nada”.  Pensamentos positivos, portanto.
Dezoito minutos naquele sufoco e, até que enfim, a porta do trem foi aberta. Era gente se empurrando pra sair depressa, a mulher da sacola vomitada ameaçou segurar no meu braço e eu gritei: - “Sai, que vou me cagar!”. Um homem ao meu lado tampou o nariz, como quem diz: que nojo!
A Praça da Sé, coração da cidade de São Paulo, é um vai e vem de gente que caminha rumo a tudo quanto é lugar: trabalho,  escola, sei lá pra onde. Eu caminhava a esmo, sem saber exatamente onde eu poderia usar um banheiro limpo e decente.  Livrarias sempre foram uma espécie de segundo lar pra mim. Nas livrarias eu já li muitos livros, de orelha a orelha. Já conheci escritores, já tomei muitos cafés e até um ex-namorado conheci em uma livraria. Livrarias, muitas vezes, têm o banheiro limpo e ideal para socorrer uma refugiada do metrô.  Naquele banheiro tinha enxaguante bucal, fio dental, lenço de papel e música ambiente. Nesse banheiro estiloso eu consegui resolver o maior de todos os problemas que tive na vida (assim dimensionei o meu drama naquele instante de aperto). Para disfarçar o meu único intuito – ir ao banheiro - passei rapidinho pela sessão de livros jurídicos e agarrei o Código de Defesa do Consumidor, que depressa larguei na sessão de romances policiais, a observar de rabo de olho se alguém notava minhas verdadeiras intenções. Não levei o código, mas foi um excelente álibi para o meu ingresso no recinto. Cheguei atrasada ao trabalho, por motivos mais do que justificados, mas cheguei feliz, livre, leve e solta.



27 de mai de 2013

LUA DE OUTONO


A noite de outono estava fria. A serra, em noites de lua cheia, faz graça e desenha um dos mais belos espetáculos da natureza.  O brilho das estrelas contrasta com o negro do infinito. A lua cheia desponta entre nuvens e parece tocar o topo das montanhas. Cor cintilante enluarada.
Naquela noite o vento soprava friozinho, respirei fundo e mergulhei nas minhas lembranças, flutuei em músicas que adoçaram momentos inesquecíveis, em todo o romantismo que então me faltava. Um cenário perfeito para um beijo perfeito, assim imaginei. A lua poderia ser uma discreta testemunha. Viajei nas lembranças, senti em meu peito todo o querer bem aprisionado, contido.
Decidi me aquecer perto da lareira, eu e uma taça de vinho tinto. A beleza do fogo a consumir a lenha,  por fim esqueci do tempo, das horas e antes de adormecer nos braços da saudade pedi à lua que levasse um sinal, um sentido, um toque que o fizesse de mim recordar. Lua cheia redondinha,  naquela noite eu o encontrei em sonhos e dançamos ao luar. Lua cúmplice faceira, lua confidente mensageira.

20 de mai de 2013

CORAÇÃO PARTIDO


A penumbra do ambiente, a luz da luminária antiga. Sua cabeça doía e parecia brincar de roda, um gira-gira de lembranças que iam e vinham e a assombravam. A janela do terraço restava aberta, o vento espantava a cortina de renda, que rodopiava assanhada a derrubar os enfeites de cristal sobre a mesa lateral. Cristal quebrado, admirou impassível os minúsculos pedacinhos coloridos espalhados sobre o tapete. Assim era a sua história, a sua vida, assim estava o seu coração: partido!
Todos os amores deveriam nascer com um certificado de garantia eterna. Amores deveriam ser infinitos e intensos, mais e mais, a cada dia. Suspirou e enxugou outra lágrima. Olhou para o relógio e percebeu que ali estava, praticamente jogada sobre o sofá, desde as cinco horas da tarde. O tempo parecia paralisado, ela não notou o caminhar das horas. Tratou de enxugar as lágrimas, recolher os minúsculos pedacinhos de cristal, fechar a janela. Antes de chegar ao quarto, escutou o som da chave a rodar na porta de entrada. Era ele!
Amores deveriam morrer silenciosamente e à seco. Sem choro, sem lágrimas, sem gritos, sem apelos patéticos. Amores deveriam morrer dignamente. Seu coração acelerou, sua cabeça parecia querer explodir. Perdeu o controle de si. Seus gritos foram escutados em outros apartamentos, em outros andares. Enfurecida, magoada, ensandecida. Havia ainda um sentimento qualquer dentro de si, algo que implorava: “ por favor me ame, não me deixe! “. Amores deveriam ser recíprocos!
A dor do adeus, para vida, ou para a morte, é lancinante. Dizer adeus, nunca mais saber se aquele alguém está feliz, ou triste. Se está resfriado, ou se viajou novamente. Se ainda bebe café com cinco gotas de adoçante, ou se continua escutando as mesmas músicas. Perder alguém, perder-se de alguém para a vida! Adeus...
Ele passou ligeiro pela sala, atravessou o corredor e fechou-se no quarto.  Não mais que meia hora e saiu de lá carregando duas malas e uma sacola. Falou qualquer coisa sobre o advogado, a separação. Teimosas lágrimas, outra e outra a escorrer por seu rosto. Olhos inchados, mãos trêmulas. Quis dizer alguma coisa, balbuciou seu nome. Ele saiu pela porta sem olhar na sua direção. Foi embora sem dó e rapidamente. Pelo terraço do apartamento ela conseguiu vê-lo entrar no carro, lá embaixo, na calçada do lado oposto da rua. Acenou, ele não a viu. Adeus... Todo adeus deveria durar apenas uma fração de segundo e ser sucedido por uma reconciliação calorosa e feliz.
Amor, feito rosa, desabrocha lindamente e, um dia, se esvai. Pra onde irão os amores desfeitos, cujos laços se desmancharam pela vida, ou pela morte? O sol voltou a brilhar no dia em que derramou o olhar sobre um outro alguém. Feito roseira, uma nova flor despontou em botão, um recomeço, o papel do amor a se executar outra vez. O perfume das rosas é eterno, as flores são mortais. Que pena, os amores bailam na vida em um vem e vai, brotam no olhar, na voz, nas palavras todas e morrem no adeus, a esperar uma nova primavera em flor. Adeus...

17 de mai de 2013

O ÚLTIMO CAPÍTULO DA NOVELA SALVE JORGE


O dia amanheceu friozinho e chuvoso na cidade de São Paulo. Sexta-feira que convida a um final de dia em casa, enroladinha no abraço de alguém querido, ou sozinha, mas bem acompanhada da novela Salve Jorge, em seu último capítulo.
Sei que muita gente se recusa a assistir às telenovelas, não apreciam essas tramas e declaram que telenovela “emburrece” e não é arte. Discussão a respeito desse tema à parte, eu assisto às telenovelas sempre que encontro um tempinho. Difícil deparar-me alguém que não oculte sua espiadinha nas novelas, tem gente que age como fosse candidato à Academia Brasileira de Letras, cultíssimo e avesso à estória que rolou na Turquia. No salão da minha cabeleireira posso revelar esse meu prazer televisivo e descobrir o que aconteceu no capítulo de ontem, que não pude assistir. O povo gosta da novela e eu também!
Salve Jorge não é minha novela preferida, mas o tema da novela é excelente. Tantos jovens caem na armadilha de criminosos ligados ao tráfico humano! Todo alerta, toda denúncia salva vidas. Tenho a personagem que mais gosto na novela, interpretada pela atriz Giovanna Antonelli,  a delegada Helô, com quem me identifiquei, quem me conhece sabe o porquê. Dizem que, parece, copiaram meu jeito, meu estilo e criaram a Helô. Acho divertido e, lá no fundo, me identifiquei com a tal delegada e seu jeito firme e desajeitado, tudo ao mesmo tempo.
Hoje a noite friazinha paulistana promete vinho, queijo e Salve Jorge. A novela imita a vida, a arte imita a vida e eu, com uma tacinha de vinho e uma mantinha de lã não perderei esse último capítulo por nada. Salve Jorge!

9 de mai de 2013

MÃE ( Dia das Mães)


Quando escutei o chorinho daquele que tinha acabado de sair do melhor lugarzinho do mundo ( o meu útero), eu me senti gigante! Eu, mãe!  Grandiosa sensação! Eu, mãe de um sujeitinho que pesava 3,100kg e que parecia impaciente, parecia querer depressa conhecer aquela que tanto o mimou e ninou durante a gestação, ao acariciar a barriga e a chamá-lo por seu futuro nome: Gabriel. Longos nove meses de espera e ali estava ele, em meus braços. Parecia me reconhecer, tocou meu rosto, segurou meus lábios e olhou fixo dentro dos meus olhos. Ficou ali selado o mais puro, perfeito e infinito de todos os amores que vivenciei neste mundo: eu, mãe do Gabriel.
A vida passa, o mundo dá suas voltas. Impossível controlar o destino, impossível deter o crescimento de uma criança. De garotinho a adolescente, de adolescente a adulto. O tempo correu ligeiro, virou suas páginas. Meu menino é um belo homem. Menino, pra mim sempre um menino que tento proteger com o mesmo calor que o  embalou ainda recém-nascido, protegido junto ao meu peito. Mãe, eu mãe!
A vida é uma espiral sem fim. Eu, mãe e filha. Eu, mãe e neta. A saudade sem alívio, a ausência de minha mãe, de minha avó. O céu estrelado e meu olhar a buscá-las no firmamento. Missão sublime, a maior honra que um ser pode receber nesta existência: ser mãe! E eu, mãe, tudo o que peço neste dia é que meu menino sempre volte pros meus braços e que no meu abraço ele, um homem dono de seu nariz,  volte a ser criança. Saudade dos abraços de minha mãe, de minha avó, saudade de ser menina. Mãe!

Desejo a todas as Mães a alegria de ter seus meninos  e meninas em seus abraços: MÃES! Parabéns pelo seu dia!


1 de mai de 2013

DIA DO TRABALHO: O AMOR À PROFISSÃO


Dia do trabalho, ou dia da preguiça? A maioria das pessoas não trabalha neste dia, feriado celebrado com horas a mais de sono, passeios pela cidade, viagens, idas a restaurantes, almoços em casa, ou visitas a amigos e parentes.  Como diria a Nona: “il dolce far niente”, traduzindo: curta seu feriado, divirta-se!
Trabalhar, eu escutava esse verbo aos catorze, quinze anos de idade, como quem escutava falar do resto de toda minha vida. O que eu seria um dia? Vocação é algo sagrado, quem exerce seu ofício com dom apaixonado e apaixonante  simplesmente não trabalha, vive! E eu, ainda que em tão tenra idade, tinha essa noção da diferença que existia e sempre existirá entre realizar um ofício para ganhar o pão de cada dia e realizar o mesmo ofício com a habilidade e o amor de quem nasceu para exercê-lo.
Desde criança eu fui levada pelas mãos de meu avô, um renomado advogado da época, a fóruns, adentrava em salas de audiência puxada por suas mãos rechonchudas, era apresentada aos magistrados, que deixavam de lado suas expressões sisudas e sorriam simpáticos pra mim.  Jamais esquecerei uma cena: eu miudinha, com não mais que quatro anos de idade, sentada sobre uma mesa do Fórum João Mendes, atual Foro Central de São Paulo, caixa de bombons que ganhei em mãos e feliz a beber guaraná. Some-se a isso que eu dizia que, quando crescesse, seria médica pediatra, o que acalentava o sonho irrealizado de minha mãe e minha avó, donas de casa de meados do século 20, que se dedicaram ao lar, doce lar, enquanto suas verdadeiras vocações foram deixadas pra lá. Talvez, isso explique o motivo de algumas mulheres do passado terem se tornado amarguradas.
O tempo passou, saí de cima da mesa onde bebia guaraná e fui para detrás do balcão, sem mais observar sorrisos simpáticos. Ganha pão! São agora quase trinta e três anos de profissão, todos esses anos no mesmo emprego. A aposentadoria aponta no horizonte a acenar pra mim. Dezembro de 2013, dentro de sete meses poderei mudar para o lado de fora do balcão e, quiçá, levar meus futuros netos a passeios divertidos pelos corredores da Justiça de nosso país. A vida se repete.
O que farei depois da aposentadoria? Essa pergunta passou a atormentar meus pensamentos todos. Ficar em casa é ótimo, mas apenas por algumas horas. O mundo ferve e eu sou borbulha a mais de mil graus de temperatura. Um dia desses deparei-me com um teste vocacional on-line, em um desses sites destinados a estudantes prestes a ingressar nas universidades. Há mais de quarenta anos eu fiz um teste vocacional, isso no colégio de freiras onde eu estudava. O resultado foi medicina, ou jornalismo. Azeite, ou vinagre? Par, ou ímpar? Não pude levar a sério o resultado, tamanha diferença que imaginei entre as duas profissões. Deixei de lado o resultado e tratei de seguir o meu caminho: Direito, mundo das leis, dos parágrafos, artigos, códigos, decretos, mundo perfeito em letrinhas e imperfeito em ações. Mundo que eu conheci a saborear guaraná e que avistei  aos quatro anos de idade,sentada sobre mesas onde ninguém ousaria jamais recostar-se. Desiludida, afinal de guaraná a fel a vida mudou muito com o passar dos anos, agora eu me pergunto:  o que será que eu vou ser quando me aposentar? O quê? Veja bem, caro leitor, cara leitora, essa é a pergunta que eu faço e que muitos se fazem neste momento da aposentadoria. O que fazer com o resto da vida, que ainda haverá de durar no mínimo três, quatro décadas?
Fiz o teste vocacional on-line. Tratei de ser sincera ao responder todos os itens, um a um, inclusive algo sobre preferir morar sozinha a morar com meus pais ( a esta altura dos fatos, morar com meus pais significaria morar na terra dos pés juntos). Quando vi o resultado, tentei imaginar o que teria sido de mim, de minha história, se desde a época em que eu fazia meu número das perninhas cruzadas a beber guaraná nas salas de audiência,  eu soubesse que nasci para ser atriz, cineasta, ou escritora. E encontrei a explicação para a minha teimosa mania de escrever neste blog: vocação! Escreverei  meu ganha pão, essa será a minha profissão!

Hoje, Dia do Trabalho. Dedico este texto a meu avô, José, que me ensinou o valor do exercício apaixonado e honesto da profissão.




28 de abr de 2013

GASTRITE E OUTRAS ITES


Há alguns meses encontrei a Sônia Regina no supermercado. Olhou-me como quem me achou gorda. Ultimamente tem sido assim, cismo de um modo quase psicopata com o olhar alheio. Creio, a dieta da lua, aliada à dieta da sopa, somada à dieta de líquidos, mais as escapadinhas “engordiet” de final de semana, os banquetes divinamente preparados por Divo Latívio, tudo isso me levou à tal da gastrite. Ite, esse tal de ite tem me perseguido: gastrite, otite, sinusite, bronquite.
Cismei com o olhar da Sônia Regina! Engordar enlouquece qualquer mulher diante do espelho! Louca ao tentar vestir, em vão, aquela calça jeans entalada na altura dos meus quadris. Danada da vida ao tentar, inutilmente, fechar o botão da blusa. E aquela jaqueta de couro caríssima pude esquecer pendurada no guarda-roupa, quem sabe para o final do inverno, ou para nunca mais?
E foi assim que decidi: dieta urgente! Li em uma dessas revistas dirigidas ao público feminino que suco de couve é ótimo para desintoxicar o fígado e um poderoso ajudante na missão quase impossível: emagrecer! Limão, adoro isso! Dois limões espremidos e meia folha de couve, em jejum. Depois,  com o estômago queimando, caminhar duas voltas me arrastando pelo parque. Voltas lentas, ultrapassada por senhoras idosas ligeirinhas, senhoras com idade para ser minha avó. Não envelheci, creio que eu apodreci! Tudo emperrado, o que não arde, dói. Como diria meu pai: estou no bico do urubu.
Sônia Regina, que deve viver internada em alguma clínica de estética, não tem uma só ruguinha de expressão, os peitos são de silicone, passou por mais de uma lipoaspiração. Aliás, ela não tem expressão facial, sorri patética, parece a Barbie. No velório da Tia Madalena ela parecia sorrir, um sorriso congelado, plastificado. Botóx,, muito botóx!
- E aí, querida, como está, Diva?
- Bem, obrigada e você, Sônia Regina?
- Casei, querida!  E você, ainda solteira?
- Eu nunca fui solteira, Sônia.
- Ah, é? Eu esqueci. Mas, quem é o...O...Felizardo?
- Divo.
- Que bom, na sua idade é uma bênção encontrar um chinelo velho.
- Que idade, porra? (Desculpe o leitor, mas eu falei porra pra Sônia Regina).
- Calma, querida! É que você é mais velha que eu... E engordou um pouquinho, não é  meu bem?
- Dois meses, cacete!  Sou dois meses mais velha que você! E se engordei isso é problema meu, porra ( de novo)!
- Nossa, seu palavreado mudou tanto...
- Mudou mesmo e dá licença que eu tenho que fazer minhas compras.
Larguei a Sônia Regina com aquele sorriso congelado, ali, entre as gôndolas de granola e iogurte natural zero. Fui resmungando outros palavrões, que prefiro não publicar aqui.
Cheguei em casa e fiquei pensando: "tenho que emagrecer"! E foi assim que parei no suco de limão com meia folha de couve, seguido da caminhada lenta, aos trancos e barrancos, lá no parque do Tereré.
Moral da história? Caro leitor, cara leitora, tive diarreia súbita e fulminante na segunda volta no parque, isso outro dia. Vim pra casa, podia escutar o som da coisa a escorrer pelo meu par de tênis novinho: shuépt ,slépt. Algo constrangedor. Dois quarteirões infinitos até minha casa.
Fui ao médico e tudo o mais culminou na endoscopia. Já fez endoscopia? Quem fez sabe como é, quem não fez... Ah, deixe isso pra lá. Amanheci como quem engoliu um guarda-chuva que abriu dentro do estômago. Algo mais ou menos assim.
Evidente que agora emagreci! E eis, ao mesmo tempo, a explicação para o meu sumiço. Diva Latívia, com uns quilinhos a mais e os nervos à flor da pele, andava por aí se arrastando em parques e brigando em supermercados.
Li um dia desses que há exatos cem anos o modelo de mulher ideal era a dona com 1,70 de altura e 77 quilos. Isso mesmo, uma cheinha com sobrepeso era ícone de formosura. Essa era a gostosa dos sonhos masculinos e femininos  há um século. Creio, daqui a cem anos, uma mulher com 1,80 de altura e 55 quilos estará completamente fora dos padrões de beleza.  Sinto que cheguei ao mundo atrasada, eu seria modelo sexy de fotos em preto-e-branco, daquelas câmeras fotográficas que pareciam explodir a cada clic, com direito a estouro e fumaça. Talvez, meio magrinha para os padrões. Eu, magrinha... Ai, ai!
Termino a prosa aqui, com a certeza de que, aos poucos, retomarei o antigo ritmo de publicações neste blog. Sem muitas dietas malucas, nem muitas endoscopias. Aos poucos, menos quilos,mais textos, assim manda o meu novo figurino.Sem tantas ites, especialmente a malvada celulite. Até breve!

13 de abr de 2013

SMACK! Hoje é o Dia do Beijo!

Hoje é o Dia do Beijo. Permitam-me contar-lhes como foi a minha experiência com esse acontecimento gostoso, que selou o inicio, ou a tentativa de início de meus relacionamentos.
O meu primeiro beijo aconteceu aos 15 anos de idade, aliás eu tinha quase 16 anos. Em um bailinho. Bailinhos eram as nossas festas de garagem, ou de salão de festas dos prédios de amigos, colegas de colégio, vizinhos. Nos bailinhos tocavam músicas estilo discoteca, às vezes músicas lentas. Justamente nas músicas lentas, ao estilo Bee Gees, algum garoto tirava alguma garota pra dançar. How deep is your love? Ocasião ideal para ficarem ali, na boa, agarradinhos.
Beijo não tinha nada a ver com essa moda atual do ficar. Beijar por beijar, beijar sem nem saber quem está beijando, nem pensar. A gente escolhia muito bem quem iria beijar, ou quem nos beijaria. Beijo era sinônimo de SIM: sim, eu quero ser sua namorada!
Meu primeiro beijo, eu demorei um ano para escolher com quem aconteceria. Um garoto que paquerei o ano inteirinho na escola. Paquerei, paquerei... Ele parecia ser desligado, ou então não estava a fim de mim, simples assim. No bailinho da escola, final do ano letivo, o danado tomou sei lá quantas cubas libres e me deu o melhor beijo que já ganhei em toda minha vida. Ainda lembro o sabor, juro! Depois disso, nos vimos umas duas, três vezes. Ele disse que precisava estudar, que não tinha tempo pra namorar. Espero que tenha feito isso, realmente. Não nos vimos mais. O segundo beijo que troquei eu já esqueci, mas lembro de alguns tantos, inclusive do beijo que mudou minha vida, afinal eu disse sim e depois me casei com ele.
Lembro do beijo de Divo Latívio, tão bom que decidi eternizar em prosa e versos. O tempo passou e eu continuei dizendo sim, apesar do mundo ter mudado tanto que, pra mim, se tornou irreconhecível. Beijo bom  tem jeitinho de conto de fadas, final feliz.
Hoje, Dia do Beijo. Pra celebrar, vale beijinho na testa, vale também beijo na face,  esses eu deixo pra cada um de vocês. A minha comemoração? Claro, vou beijar muito, afinal beijos foram feitos para colorir e enfeitar as nossas vidas. Desejo a todos vocês beijos que acelerem seus corações, que os façam sentir que estão mais vivos do que nunca! Bons beijos! Smack!

11 de abr de 2013

ANIVERSÁRIO DESTE BLOG ( 3 ANOS)

Pensou que eu havia esquecido? Não te esqueço jamais!
Diva Latívia, como eu poderia esquecer que hoje é seu aniversário? Você, ainda que um tanto sumidinha ultimamente, faz parte de mim. Meu alter-ego, provavelmente. Meu lado B!
Seu pai, Abílio Manoel, me entregou sua página recém-decorada com tamanho capricho! Naquele dia, 11 de abril de 2010, aprendi o nome dessa coisa: layout!
Menina, como eu poderia esquecer que hoje é seu aniversário? Três anos! Quantas coisas aconteceram durante esse tempo! Abílio foi embora pro céu. Lembra quando eu tentei, pela primeira vez, publicar sozinha um texto no blog? Que confusão, não foi mesmo? E as configurações, Diva, lembra disso? O medão enorme de errar o clic e te deletar inteira!
Nós choramos juntas, rimos juntas. Duas em uma, minha agridoce e dupla personalidade em letrinhas!
Diva, meu presente querido. Diva Latívia, como eu haveria de esquecer que hoje é outro ano? Como eu poderia, Diva?

Parabéns a Abílio Manoel, criador do layout deste blog, editor, webmaster, crítico, maluquinho adorado que  logo após a criação do Diva Latívia partiu em direção às estrelas. Te amo, cara!

Cláudia ( Diva Latívia)

25 de mar de 2013

O GRANDE AMOR DE SUA VIDA


Um amor, outro, outro... Outro!Grandes amores?
Esse rodízio de homens e mulheres (esqueçam vacas e espetos) passa a impressão de que um grande amor não foi vivido até então, ou de que um grande amor foi vivido e fincou na alma, feito espinho encravado na pele, daqueles que inflamam e dão tétano.  Que dor!
A sede desesperadora para encontrar o grande amor da vida afasta o grande amor da vida. Explico: táxi ocupado roda e permanece ocupado. A melhor oportunidade para encontrar o grande amor da vida é permanecer sozinha, ou sozinho. Acha difícil?
O grande amor não se procura, nem se acha, ele é descoberto pouco a pouco e lado a lado. A parceria, a troca afetiva, o companheirismo revelam aos poucos o grande amor da vida de alguém. O grande amor nasce em meio ao cotidiano. Tudo o mais é estado de paixão, show pirotécnico belíssimo, com luzes, sons, coisa de fazer o coração saltar pela boca. E depois? Fim! É só varrer a sujeira e ir em frente. Acabou!
Quem encontra um grande amor, outro, outro e outro, depara-se com a solidão. O vazio após o término de um relacionamento breve causa imensa frustração. E lá vai novamente a criatura buscar seu grande amor em outros braços e abraços.
Meu texto anterior sobre o e-mail que uma moça enviou ao ex-namorado, com a ajuda desta autora, resultou em desapontamento. Ele não respondeu e ela insistiu. Por fim, soube que ele tinha encontrado outro “grande amor de sua vida”. Meu conselho foi que ela esperasse atenta, porém silente, seguisse aquele velho dizer a respeito da água mole em pedra dura: deixe estar, um dia ele haverá de voltar. 
O que eu penso a respeito desses amores rapidinhos? O grande amor da vida de alguém está do outro lado do espelho. Vá ao espelho e se olhe. Viu? Acorde! O grande amor de sua vida é VOCÊ!

21 de mar de 2013

UM E-MAIL DE AMOR


Ela chegou com seu jeitinho tímido e com a voz em tom bem baixinho me pediu: - Você pode me ajudar a escrever um e-mail?
Há muito tempo descobri que tudo aquilo o que não perguntamos cabe na melhor parte: a nossa imaginação. Então, decidi não perguntar pra quem era o tal e-mail, simplesmente respondi que sim, eu a ajudaria a escrevê-lo.
Notei seus gestos ansiosos, aflitos. A todo instante ela estalava os dedos das mãos.
- Você está com algum problema?
- Eu? Não... É que..
- Deixa pra lá, vamos começar o e-mail. O que você quer escrever?
Ela me olhou fixamente, como quem tenta abrir com saca-rolhas uma garrafa de vinho. Dentro de mim estava aquilo o que ela considerava a solução: as palavras certas para um certo alguém.
- Tive uma ideia: que tal você me dizer se o e-mail é de trabalho, se é para algum amigo, ou parente?
Ela mordeu os lábios, novamente estalou os dedos das mãos.  – Não é nada disso do que você falou.
- Não? Então o e-mail é para algum namorado, pretendente, algo assim?
Ela ficou sem graça, se ajeitou na cadeira, tirou a franja caída na testa e suspirou. – É mais ou menos isso aí.
- Vocês dois estão namorando?
Ela quase gritou, apressadamente: - Não!
- Ele está a fim de você?
- Não mais, mas já foi a fim há muitos anos.
- Um ex-namorado?
- É!
- Você está a fim dele, é isso?
- É!
- Quer um e-mail romântico?
Ela sorriu: - Você sabe escrever tão bem! Faz esse e-mail pra mim?
- Qual é o nome dele?
- Antônio.

Escrevi o e-mail, aqui está:

Oi, Antônio!

A gente não conversa faz tanto tempo! Eu não sei se você continua ouvindo as mesmas músicas, se guarda minhas fotos antigas, se usa o mesmo perfume. Todas as vezes que passo perto da sua casa eu paro na calçada, olho pro alto e tento contar os andares, achar a janela do seu apartamento. Fico ali, como quem não pode ser vista, mas na verdade gostaria de ser flagrada, abraçada e beijada por você. O tempo passa, eu ali parada, meus pensamentos confusos... 
Terá você uma namorada? Será que ainda lembra qual é o sabor do meu beijo? Serei eu, entre todas as mulheres ao seu redor, aquela com quem você viveria feliz pro resto da vida? Penso tudo isso, estico o olhar novamente pro seu prédio e vou embora, lembrando de nós dois. 
Tanto tempo! Será que seu coração ainda se lembra de mim?
Um beijo,
Eu

Enviamos o e-mail que, depois de duas horas, continua sem resposta. Mas, nesse tempo atual ninguém tem tempo pra nada. Existe iPhone, iPad, ai isso, ai aquilo. Vai saber se o moço leu, ou não leu?  Estou na torcida, quem sabe ele responda? Tomara!

9 de mar de 2013

NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO


Na vida aprendi algumas coisas. Truques novos, truques antigos e já descobertos por outros habitantes terrenos. Uma das novidades que descobri , algo relativamente recente, é que para escrever é preciso ser meio maluco. Quem escreve imagina coisas, ouve vozes, vê vultos, ri, chora, se zanga, perdoa, se apaixona, nasce, morre e fala sozinho.  Quem escreve chega a sentir aromas, alguns totalmente estranhos. Cheiro de mato, de perfume barato, de pratos preparados para si durante a infância. Sente dor, frio, calor. Volta o passado, desenterra os mortos. Amanhece adolescente, renasce dolorosamente, no final do dia dá à luz um novo texto e depois adormece um ancião, carregado de sabedoria. Eu, que escrevo, sou uma e tantos outros, cada qual à sua maneira, sou homens e sou mulheres, com personalidades e anseios diversos: personagens!
Assusta-me a viagem que faço para dentro de mim, seguida das crises de total ausência de atenção a coisas banais durante o dia. Lá estava eu, a trabalhar, quando algo me chamou a atenção. Um antigo peso de papel, daqueles com formato de bola de vidro. Viajei nas asas da imaginação, a observar o objeto contra a luminosidade que vinha da janela. Lembrei do peso de papel do escritório do meu avô, eu com quatro, cinco anos de idade. Admirei o reflexo raiado de sol e cores diversas, como se sentiria aquele peso de papel? Voltei para o mundo sendo observada por alguém que, certamente, achou que eu estava tendo uma crise psicótica, ou algo assim. Eu estava longe dali, tão longe que exclamei sozinha, em alto e bom som : - Achei! Vou contar a história do antigo escritório do Vovô! Quem ali me observava franziu a testa e murmurou algo frio, incompreensível: - Diva, você está bem? E foi assim que aterrissei na realidade, eu estava ali, no escritório, tramando um novo texto. Terei falado sozinha? Terei feito careta? Impossível saber, a inspiração me leva a uma espécie de transe, eu esqueço de mim, abstraio quem está ao meu redor. 
Diva Latívia, ela viaja em pensamento e esquece: a panela no fogão, o horário marcado no dentista, esquece até mesmo de carregar a bateria de seu instrumento de trabalho, o computador. Um mundo paralelo, no qual os finais podem ser trágicos, patéticos, hilários, românticos. Um mundo que imita a realidade, regido pela ponta dos meus dedos a dedilhar frases que definem o destino de gente que ganha vida a cada frase. Para escrever é preciso ser meio doido, ou fica tudo muito chato. Ler um texto chato, ninguém merece. O leitor quer entrar no texto e se deliciar, lambuzar-se divertida, ou dramaticamente.  Diva torna-se guia turística de viagens literárias.
Amanheci cheia de ideias, doida pra escrever. Escreverei sobre a edícula de minha casa de infância, o antigo escritório de advocacia de meu avô. Um dia, quando eu menos esperar, essa história tomará conta de mim e eu, que poderei estar trabalhando, cozinhando, visitando alguém, ficarei meio fora do ar, a matutar o novo texto. Normal, amanheci com meus personagens a esperar ansiosos pela sua participação em minhas estórias que, ocasionalmente, são histórias assim escritas, com “h”. Histórias que são filhas prediletas, que pari ao longo da vida e aqui amamento em prosa e versos. Mãe dos meus textos, esta sou eu, Diva Latívia.

8 de mar de 2013

OLHA A PÁSCOA CHEGANDO AÍ, GENTE!


Passou o Dia Internacional da Mulher? Já acabou? Ótimo, nada como um dia após o outro, uma data comemorativa após a outra. Enfim, passou!
Agora vem aí a Páscoa! As propagandas na TV mostram coelhinhos, coelhões, ovinhos, ovões. Já li sobre os preços exorbitantes da delícia embalada em papel brilhante e colorido. Chocolatinho caro esse! Mais que isso, apesar de ser outono, o clima anda doidinho de tudo. Na Páscoa faz calor, muito calor.
Não adianta explicar tudo isso pra Tia Violeta, ela cisma, todos os anos, que domingo de Páscoa é dia de feijoada. Sou meio vegetariana, digo meio porque não resisto a um churrasco de carne bovina bem passada. Porém, pé de porco, orelha de porco e sei lá mais o quê do porco, isso eu dispenso. Tia Violeta curte feijoada radical, com direito a tudo do porco e mais alguma coisa. Dá medo essa feijoada!
Ano passado estávamos reunidos na casa da Prima Amélia, filha da Tia Cândida. Enfim, tinha parente de todo jeito, primos, filhos dos primos, primos dos primos, tios que eu não via há mais de trinta anos. Perdi a conta de quantas vezes o Tio Alaor, com noventa e oito anos de idade,me confundiu com a minha mãe! 
Já que cozinhar não é o meu forte, resolvi participar do setor dos que sentam e esperam pra comer. Caipirinha, petisquinho e muito papo furado. A mulherada mais prendada, vez ou outra, me lançava aquele olhar de Mariazinha, sabe como é? Aquele arzinho de mártir fodida, esbaforida e cozinhado pra... mim!
Costumo dizer que posso pagar o restaurante. A minha parte, evidentemente. Que culpa eu tenho se resolvem fazer feijoada “completa” no calor do domingo de Páscoa? Mas, aquele almoço tinha começado mal, muito mal.
Prima Amélia, namorava a Sônia Helena, sua antiga colega de cursinho pré-vestibular. Muito escutei minha avó, boquiaberta, praguejar horrorizada a respeito do assunto.  A ideia da feijoada com pé, rabo, orelha e sabe-se mais o quê do porco, foi apoiadíssima pelo casal, que ainda providenciou torresminho e couve refogada com muito bacon.
O almoço demorou horrores. Quando a coisa ficou pronta, eu já estava meio tonta com tanta caipirinha. Começou a minha pescaria no panelão de feijoada:- Isso aqui é qual parte do porco? Com medo de comer o fiofó do bicho, eu acabei me contentando apenas com o feijão. Ainda assim, almocei cheia de receio de comer alguma porcaria, literalmente.
Depois do almoço, veio o Tio Arnaldo, ridículo, vestido de coelho da Páscoa. Dava uns pulinhos, segurando uma cesta lotada de ovos de Páscoa miúdos, de marca e qualidade duvidosas.  Pra mim, ovinhos de cor vermelha e cor-de-rosa, disse o titio que pra combinar com meus olhos. Putz, não posso beber que meus olhos ficam assim!
Comi o chocolate, aceitei o pudim das nove neves ( nem me perguntem que diabos era isso), bebi o licorzinho de jabuticaba preparado pela Tia Violeta. Alguém aí já ouviu falar em terremoto dentro de si? Eu senti minhas entranhas trepidando, se revirando e nem deu tempo de correr. Vomitar é nojento, eu sempre achei isso. Ainda bem que não me caguei, não desta vez! Vomitar é politicamente correto, cagar-se não! A culpa sempre foi atribuída às minhas caipirinhas, mas eu tenho certeza que meu fígado rejeitou os ovinhos de Páscoa, o feijão, a couve com muito bacon e, claro, o torresminho e o calor de 32 graus na sombra.
Neste ano haverá nova celebração na casa da Prima Amélia. Já disseram que, desta vez,  o cardápio será outro: vatapá. Pediram que eu leve sal de frutas, só pra prevenir. Coisa dessas mulheres que, ao invés de sentarem pra contar umas piadas ao sabor de uma cervejinha, ficam lá na beira do fogão, com ódio de mim. Danem-se, de novo vou sentar com a Sônia Helena e observá-la contar os últimos lances do campeonato de futebol. Isso sim, muito mais divertido e, na pior das hipóteses, fonte inspirativa para novos textos de Diva Latívia. Mal posso esperar!


DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Compreender a essência feminina, para os leigos e amadores, requer santa paciência e o lamento: falta-lhes um manual de instruções. Cá estamos, mulheres, em nossos escritórios, com nossos diplomas, títulos de doutoras e mestras em ciências exatas e inexatas. Cá estamos, mulheres, em nossos lares, criando filhos, amando parceiros, enfrentando situações e tarefas que só mesmo nós, mulheres, poderíamos realizar. Somos incríveis!
Somos mães, somos filhas, somos esposas, namoradas, amantes.  Aos nossos filhos ensinamos as primeiras palavras, os primeiros passos, o sentido primeiro e mais importante da vida: AMOR. E amando, sentindo, educando, somos as matrizes que conduzem meninos e meninas, frutos de nossos ventres, na direção do dia de amanhã. O mundo em nossos ventres, o mundo gerado, gestado, parido e criado por nós. Ser mulher é uma condição sublime, não de seres doces e frágeis, mas de seres incomparavelmente fortes e belos.
A todas nós, mulheres, parabéns pelo nosso dia. FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

Diva Latívia

22 de fev de 2013

100 MIL VISITAS AO BLOG. VAMOS CELEBRAR!!!


Para celebrar 100.000 visitas a este blog, escolhi um dos meus textos antigos para ser novamente publicado. Um dos meus textos preferidos, que escrevi em parceria  com o “Quicky”! Aqui está, em homenagem a esta marca que significa muito pra mim e, tenho certeza, significa muito pro Abílio e pra minha Mami, lá no Céu!
Leitora, leitor, muito obrigada por sua ajuda, incentivo, participação. Vamos agora rumo a 200.000 visitas! Vambora!!!

Um beijo,

Diva Latívia ( Cláudia)



SAUDADE NO PRESENTE (Diva Latívia e Quicky , em setembro de 2009).

Desde pequenos aprendemos que saudade é algo que nos remete ao passado. Alguém, algum lugar, alguma coisa, mas descobri outra verdade. Hoje sinto saudade no presente, saudade de um amor que vive dentro do meu coração e perfuma a minha alma. Saudade daquele que me acompanha invisível, ou quase, pouco maior que uma foto 3x4, mas aqui, no meu peito, nas minhas veias, ao meu lado, latente, mas real. Esteve comigo do raiar do dia até o anoitecer. Do dia em que cheguei ao mundo até agora, sempre por perto mesmo não sabendo onde.
A Lua vem e vai e suas fases delimitam um estado de espírito que começo a conhecer. Às vezes ele chega de mansinho pra tocar jazz, blues, uma sinfonia que embriaga meus sentidos.
Dançar, sonhar, cada qual em seu lugar. Meu amor, meu par, meu bem querido é uma saudade presente. Tão perto de mim. Um dia após o outro, passo a passo, se aproxima aos pouquinhos, meu coração diz que sim!
É sutil a afinidade, que se revela na ausência, em silêncio e chega na brisa a esperança de finalmente quebrar a barreira do que nos distancia pra que se torne presente e dancemos felizes sob o luar. Igualdade. É o que há entre nós. Dois corações, duas almas, dois seres que não estão nem longe nem perto, sempre estiveram juntos.
Saudade de um momento do agora, de qualquer momento, de todos eles! Enquanto estou aqui sentada e pensando em você, que pensa em mim e me adora. Eu quero você, agora! Mas fique, não vá embora. Que todos os dias sejam agora. Até o fim, presente, desde o passado até o fim, pra sempre.

21 de fev de 2013

UMA CARTA DE AMOR, TIPO ASSIM...


-Tanta coisa pra dizer, por que não escreve sobre coisas belas?
-A vida não é bela!
-Claro que é, lembra aquele filme?
-Tá louca? O filme conta uma história triste, sobre a guerra!
-Ué, eu pensei que A Vida é Bela fosse a história daquele cara dos filmes em preto-e-branco, aquele da bengalinha, o Carlitos!
-Charlie Chaplin. Não, A Vida é Bela não tem nada a ver com ele.
-Por que você não escreve uma carta de amor, alguma coisa assim, bem bonita?
-Carta de amor pra quem?
-Ah, pode ser de verdade, ou de mentira, não funciona tipo assim?
-É sim, tipo assim.

E foi assim que resolvi escrever uma carta de amor, tipo assim...

Não há, entre todas as palavras que já escrevi, entre todas as palavras que já li, uma só palavra que possa definir o que sinto. Ganho e perda, preto e branco e colorido, amor e amigo, perto e longe, ontem e hoje, com e  sem, vai e vem.  Amor,  amor no mais bonito e harmonioso sentido. 
Você, que em fração de segundo me tira do trilho, me faz rir sozinha e rodopiar feito bailarina, descalça, sobre o tapete.  Que me faz chorar, feito menina. 
Se é verdade, ou mentira, o que importa é que esta mensagem seja lançada ao mar, para que navegue até você e, então, o faz de conta acabe aqui.

-Gostou?
-Não entendi nada, quem é ele?
-Não era pra inventar, não foi você quem disse que poderia ser de mentira?
-Com tanto sentimento? Mentira nada!
-Nisso que dá te ouvir. Vou imprimir e jogar no mar, tchau.

AS QUATRO MARIAS


Quatro Marias: Maria da Luz, Maria Rosa, Maria das Graças e Maria do Prazer.
Maria da Luz tinha olhos muito verdes, mãos delicadas, dedos longos. Cabelos castanho claros, lisos e bem cuidados. Altiva, esguia, elegante.  Moça bonita, assim era Maria da Luz. O que estragava sua formosura era seu jeito sério, carrancudo, não era muito de prosa a Maria da Luz.
Maria Rosa herdou de sua mãe os olhos castanhos, suas mãos eram rechonchudas, dedos gordinhos, porém harmoniosos. Cabelos loiros e cacheados. Não era tão bonita quanto a Maria da Luz, sua irmã mais velha, mas irradiava beleza e simpatia inexplicável ao sorrir com os olhos. Assim era Maria Rosa.
Maria da Luz depressa se casou, tinha apenas dezessete anos quando seu pai lhe arranjou um pretendente, um doutor formado em medicina na Federal do Rio de Janeiro. Teve um filho, dois e três. Raramente sorria a Maria da Luz, simplesmente vivia, aceitava seu destino sem questionamento.
Maria Rosa ficou pra titia, assim era o que parecia. De fato, tornou-se amante de um político importante daquela época, 1934. Ganhou casa longe da cidade, com empregados, automóvel e móveis de luxo. Vivia coberta de riqueza e de  mimos a Maria Rosa, que apesar de não ser tão formosa ,levava uma vida confortável às custas de seu poderoso “patrocinador”.
Aos trinta e seis anos faleceu Maria da Luz, disse o médico da família que uma mulher não deveria parir velha daquele jeito. Morreu de parto ao dar à luz uma menina, a Maria das Graças. O pai, viúvo inconformado, assistiu o parto impotente, sem nada poder fazer, na qualidade de médico, pai e marido. Assim que pegou a pequena Maria das Graças em seus braços decidiu: a menina era a culpada pela morte de sua amada Maria da Luz, pois que fosse entregue a  algum parente, que fosse criada longe de si e dos demais filhos do casal.
Após o enterro de Maria da Luz, Maria Rosa levou consigo a pequena sobrinha, a órfã miudinha e frágil. A menina tinha sete anos de idade quando o político que se relacionava com Maria da Luz faleceu e deixou em nome de sua tia um quarteirão inteiro com imóveis na região do bairro de Santa Ifigênia.
Maria da Luz matutou, matutou e resolveu: abriria um puteiro de luxo, algo que a tornaria ainda mais rica e levaria adiante aquilo o que ela mais prezava na vida: alegria e prazer. Assim pensando, tornou-se famosa cafetina da cidade. Maria das Graças, na casa que ficava a duzentos metros do estabelecimento, fugia ocasionalmente de casa e, às escondidas, espiava a movimentação do bordel, cheia de curiosidade.
As coisas iam mal durante a segunda guerra mundial, era 1940 quando, prestes a fechar as portas do puteiro, Maria da Luz teve a ideia de alavancar o negócio com uma  grande atração. Maria das Graças foi leiloada, usando o uniforme do colégio de freiras que frequentava. Tinha apenas treze anos de idade e quem a levou foi um homem gordo, bêbado, um dos políticos mais poderosos da época.
Não mais saiu da vida de puta a Maria das Graças. Enriqueceu assim, no meio dos ricos e poderosos. Bonita, tão bonita quanto tinha sido sua mãe, Maria da Luz. Fogosa, tão fogosa quanto tinha sido sua tia, Maria Rosa. Em 1960, rica e embrenhada no meio de ricos, famosos e poderosos,  mudou-se para Brasília, a nova capital.
Sua filha, Maria do Prazer, herdou da mãe uma rede de motéis e prostíbulos na cidade. Seu pai é conhecido, mas a identidade do sujeito foi preservada, por motivos políticos. Maria do Prazer se candidatou a um cargo político. Talento hereditário, coisa de berço. Empresária próspera, não precisou ingressar na carreira de puta, tornou-se mulher da política. O lema de sua campanha eleitoral foi: "a moral familiar em primeiro lugar”. Foi eleita e reeleita, com louvor. Se orgulha de ser a ovelha negra da família, de não ter seguido a profissão de suas antepassadas. Essa é a história das quatro Marias.

16 de fev de 2013

NOITE ADENTRO (Você!)

Não sei definir com exatidão o que agora sinto. Falta luz, escrevo à luz de velas. A taça de vinho tinto reflete tons luminosos, as chamas tímidas se agitam levemente no ar. Um ballet. Não há silêncio, senão a calada da noite. Meu coração padece inquieto, preciso escrever, ou meu sentimento inexato transbordará de dentro de mim,, se derramará na penumbra da noite.
Tento encontrar em minha arritmia um indício, uma explicação para o meu desassossego. Você! Perco-me em lembranças remotas, mas tão recentes, um paradoxo atemporal. Dor, a dor de sua ausência, a mescla de saudade e impotência. Você! Seu perfume parece ter invadido cada linha, cada letra, todas as palavras. Você!
Tento me agarrar à recordação de instantes nossos, que pareceram imortais. Você! O amor que tranquei no peito, transformei em versos e exorcizei em textos. Minha alma na sua alma. Você!

5 de fev de 2013

CONFETINHO


Eu era uma folha de papel, essa minha última recordação. Apaguei quando me colocaram sobre uma prensa, ou algo assim. Acordei dolorido e colorido, notei que não estava sozinho. Eram tantos desconhecidos dentro daquele pacote, cada um de uma cor: verde, azul, cor-de-rosa, amarelo. Notei a minha cor, eu era azul. Um tom meio desbotado, esmaecido.  
Havia muito pouco espaço, estávamos todos, praticamente, prensados. Espremidos e colocados dentro de uma sacola. Tive sorte, minha visão era privilegiada, fiquei junto ao plástico transparente da embalagem. De lá fomos pra dentro de uma caixa de papelão, onde havia outras sacolas plásticas iguais à nossa. Ficou tudo escuro, balançamos muito pra lá, pra cá. Ouvi vozes, eram humanos conversando. – Zé, essa caixa de confetes aqui é pra loja da Rua das Flores! Balancei tanto que até fiquei tonto. 
Não sei dizer quantos dias se passaram, até que pegaram a sacola onde eu estava, fui parar em uma prateleira. Eu precisava  ser comprado, essa a minha única esperança de liberdade. Tratei de ajudar a sorte. A cada mão que esbarrava em minha embalagem eu me aprumava e sorria. – Hei, me leve com você! Quase fui escolhido, várias vezes.
Os dias foram passando e passando. As prateleiras mais e mais vazias,  as outras sacolas , quase todas elas, foram embora nos braços de gente desconhecida. Eu já tinha perdido a esperança, quando senti que alguém me tirou da prateleira. Finalmente! 
Novos balanços pra lá, pra cá. Risos, música alta ( ala laô, ô, ô, ô!). Abriram a minha embalagem. Pude, depois de tanto tempo de confinamento, respirar. Meus colegas de saquinho eram, pouco a pouco, libertados. Fui lançado para o alto, bailei no espaço, dei cambalhota, rodopiei feliz.  Eu, livre a dançar no ar, a girar, girar... Livre, finalmente, livre... Renasci!

3 de fev de 2013

LETRINHAS HOMEOPÁTICAS


Domingo é aquele dia feito sob medida para dormir muito. Minha caminha aconchegante, quentinha, eu totalmente despreocupada, relaxada. Que coisa boa que é a paz, o sossego!
Creio, escutei um som. Talvez, proveniente de algum apartamento vizinho. Um alarme, talvez o telefone. Que gente inconveniente, domingo a essa hora? Que horas seriam? Ah, isso não importava. Virei-me, arrumei o travesseiro de um jeito tão bom que o sono me abraçou novamente.
Despertei. Teria sido o interfone, ou a campainha? Meu cãozinho, Bono, latiu estridente. Sem acreditar no que ocorria, zonza, caminhei sem rumo. Bati aquele ossinho do pé na quina da porta do quarto. Esmurrei a porta de tanta raiva: - porta filha da ....!!! Divo falou qualquer coisa: - Oi? Eu?
Antes que eu chegasse à cozinha, o interfone disparou duas vezes. Atendi e escutei a voz de Lindomar, o porteiro. – Dona Diva, tem uma muié aqui embaixo dizendo que é sua tia, ela pode subir?
Bono latia, o pé latejava, pensei em dizer ao porteiro que inventasse qualquer desculpa, dissesse que não tinha ninguém em casa. Eu estava meio dormindo, meio  morrendo de dor no pé.  Bono decidiu por mim, ao abanar o rabinho todo satisfeito.  - Qual o nome dela, Lindomar?
- Pera aí que vou preguntá.
- É Violeta.
Tudo o que eu não queria naquele domingo começava a acontecer. Olhei pro relógio da cozinha, 08h15 da matina. Domingo. O sono era tanto que, se eu pudesse, dormiria em pé.
-Manda subir!
Nem tive tempo de escovar os dentes, a titia apertou a campainha diversas vezes seguidas. Bono voltou a latir.Saí do banheiro mancando, de camisola, despenteada. – Bom dia, titia, seja bem-vinda!
Sequer respondeu, atirou-se sobre o sofá, com seu guarda-chuva. – Ai, estou muito cansada. O que você tem pra beber?
Busquei água pra titia. Admirada, repreendeu-me. – Menina, a esta hora da manhã você deveria estar vestida. Eu prefiro café, onde está o café?
Tinha começado o inferno do meu domingo. Um domingo ensolarado.Pra quê aquele guarda-chuva?
- Titia, vai chover?
- Está louca, garota? Não vê que está fazendo sol?
- Mas, esse guarda-chuva...
- O que tem? Eu uso o guarda-chuva pra minha proteção!
Achei melhor não fazer mais perguntas. Proteção contra raios solares? Contra ladrões? Talvez, já caduca, ela estivesse vendo inimigos imaginários!
Divo acordou com todo aquele barulho.
Titia, ao vê-lo na sala, não se conteve. – Nossa, você está horrível, meu filho. Precisa emagrecer, ou vai morrer do coração.
Divo olhou-me atravessado.Não tive dúvidas, peguei aquele comprimidinho tranquilizante natural que a minha médica homeopata, Dra. Norma, havia prescrito pra mim. Tomei logo dois. Homeopatia, segundo eu imaginava, era algo leve, inofensivo, quase docinho pra criança. Sentei-me à mesa e observei titia mastigar avidamente pão integral com requeijão. O som que produziu ao beber café com leite fez Bono rosnar.
- Diva, menina, quem vai buscar minha mala na portaria do prédio?
-Sua mala?
-Claro, como acha que vou passar uma temporada na sua casa sem trazer minhas coisas? Mande seu marido ir buscar! 
Mal terminou de falar, tirou a dentadura, sem a menor cerimônia e, com dificuldade, caminhou até a cozinha, escolheu um dos meus copos favoritos e lá colocou a dita cuja. 
Homeopatia é coisa natural. Feito maracujá, erva doce, essas coisas. Tomei mais um comprimidinho de calmante e não lembro muito bem se falei com Divo, ou não. O que sei é que consegui chegar até minha cama.
Sonhei que eu voava, que a montanha-russa tinha asas e que as nuvens eram esverdeadas.
Acordei às 17h23, assim marcava no rádio-relógio. Meu quarto silencioso, tudo muito confortável. Onde estaria Divo?
Cheguei à sala, titia fazia crochê e assistia Silvio Santos. Divo e Bono deixaram um bilhete assim escrito: fomos almoçar na casa da mamãe.
- Diva, sua irresponsável! Uma mulher tem deveres, quer perder seu marido pra outra? Como que você dorme até essa hora?  Por isso que você está assim, gorda! Seu marido ficou sem almoço e eu estou faminta! O que vamos ter para o jantar?
Fugi de volta pro quarto e telefonei pra prima Rosa. – Rosinha, pelo amor de Deus, me ajude!
Titia, para meu alívio, foi exportada pra casa da Rosinha, ela e sua mala. Passei dois dias meio avoada, calma demais. Homeopatia, é? Aquilo é uma bomba-calmante!  Comigo agora é assim: na portaria do prédio deixei ordem de jamais, nem mesmo em caso de incêndio, o interfone tocar antes do meio-dia.
Quinta-feira, dez horas da manhã, chegou o televisor novo, comprado por Divo no sábado. Lindomar, o porteiro, não recebeu e nem me chamou, afinal não era meio-dia. Sacana!
Pensei em tomar outro calmante homeopático, mas concluí que aquilo dava barato, com nuvens esverdeadas e tudo o mais. Melhor enfrentar a realidade à seco. E tudo isso eu devo à tia Violeta, que de casa em casa, de parente em parente, causa confusões familiares incríveis.
Hoje cedo telefonou a prima Rosa. Queria, de todo jeito, me convencer que agora era minha vez de ficar com a tia Violeta. Segundo propôs: uma semana cada uma, um revezamento.Mais do que depressa eu inventei uma desculpa: - Vou operar, não posso!
 – Operar o quê?
 – É... Hã... Não seja indiscreta, Rosinha!
 – Ah, já sei, vai colocar silicone na bunda, né?
O desaforo de Rosinha me fez entender que melhor do que calmante homeopático são exercícios físicos regulares. Escrever, meu esporte preferido, é um bom tranquilizante e não tem efeitos colaterais, mas tem nuvens esverdeadas e me faz voar pra qualquer lugar. Santo calmante!


2 de fev de 2013

TEXTOS COLHIDOS EM CAMPOS FLORIDOS


Há algumas semanas recebo mensagens diversas de leitores deste blog com a seguinte reclamação: DIVA LATÍVIA, ONDE ESTÃO SEUS NOVOS TEXTOS?
Boa pergunta, queridos leitores.Os meus novos textos estão...Hã... Estão... Não sei onde eles foram parar. Já comecei frases que deletei, já joguei na lixeira do computador ( e na lixeira de papel) textos que reli e não gostei. Às vezes, surge uma ideia nova. Porém, essa ideia nova costuma ser inoportuna, teima em surgir em meio a uma reunião de trabalho, por exemplo. Não anotá-la é o suficiente para que a danada vá embora, sem deixar um só rastro de lembrança em minha cabecinha ocupadíssima com os afazeres diários.E assim, em minha rotina, deixo os textos em algum lugar.
Estava sentada na varanda de casa, em uma noite enluarada. As luzes da cidade de São Paulo apagam as estrelas. Sentei-me na rede e comecei a matutar. Viver em uma grande cidade compromete não apenas os pulmões, mas também a saúde emocional de qualquer ser vivo. A poluição do ar, da água, a poluição visual e sonora. O trânsito, o medo de sair de casa e sofrer alguma espécie de violência. Os alimentos comprados em hipermercados, a falta de qualidade das frutas, legumes e verduras. Quanto agrotóxico!  Mais e mais estou descontente com esse modo de vida que, pra mim, fez sentido enquanto eu era jovem, estudava e trabalhava nesta imensidão de concreto cinza.
Quero o mato. Quero pisar descalça na grama úmida do orvalho da manhã. Quero observar o voo de pássaros e insetos em meu pomar. Quero sentar-me sob uma mangueira e me lambuzar com seus frutos suculentos, sem me importar com o dia da semana, ou o horário.  Quero, preciso com urgência, fugir da cidade de São Paulo, definitivamente.
Meus novos textos residem em alguma cidadezinha pacata, entre montanhas. As letrinhas aguardam ansiosas para serem por mim reunidas em frases, feito um campo de flores a enfeitar o olhar de quem o admira. Textos à beira do fogão à lenha, textos artesanais, sem corantes, conservantes, saudáveis e naturais. Essa a morada de meus textos, ali eles estão. Enquanto esse dia não chega, eu me conformo com o pequeno palmo de céu que consigo visualizar da sacada do meu apartamento.  Segue aqui, para vocês, mais um texto urbano, semente que lanço em direção à serra.