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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







1 de mai de 2013

DIA DO TRABALHO: O AMOR À PROFISSÃO


Dia do trabalho, ou dia da preguiça? A maioria das pessoas não trabalha neste dia, feriado celebrado com horas a mais de sono, passeios pela cidade, viagens, idas a restaurantes, almoços em casa, ou visitas a amigos e parentes.  Como diria a Nona: “il dolce far niente”, traduzindo: curta seu feriado, divirta-se!
Trabalhar, eu escutava esse verbo aos catorze, quinze anos de idade, como quem escutava falar do resto de toda minha vida. O que eu seria um dia? Vocação é algo sagrado, quem exerce seu ofício com dom apaixonado e apaixonante  simplesmente não trabalha, vive! E eu, ainda que em tão tenra idade, tinha essa noção da diferença que existia e sempre existirá entre realizar um ofício para ganhar o pão de cada dia e realizar o mesmo ofício com a habilidade e o amor de quem nasceu para exercê-lo.
Desde criança eu fui levada pelas mãos de meu avô, um renomado advogado da época, a fóruns, adentrava em salas de audiência puxada por suas mãos rechonchudas, era apresentada aos magistrados, que deixavam de lado suas expressões sisudas e sorriam simpáticos pra mim.  Jamais esquecerei uma cena: eu miudinha, com não mais que quatro anos de idade, sentada sobre uma mesa do Fórum João Mendes, atual Foro Central de São Paulo, caixa de bombons que ganhei em mãos e feliz a beber guaraná. Some-se a isso que eu dizia que, quando crescesse, seria médica pediatra, o que acalentava o sonho irrealizado de minha mãe e minha avó, donas de casa de meados do século 20, que se dedicaram ao lar, doce lar, enquanto suas verdadeiras vocações foram deixadas pra lá. Talvez, isso explique o motivo de algumas mulheres do passado terem se tornado amarguradas.
O tempo passou, saí de cima da mesa onde bebia guaraná e fui para detrás do balcão, sem mais observar sorrisos simpáticos. Ganha pão! São agora quase trinta e três anos de profissão, todos esses anos no mesmo emprego. A aposentadoria aponta no horizonte a acenar pra mim. Dezembro de 2013, dentro de sete meses poderei mudar para o lado de fora do balcão e, quiçá, levar meus futuros netos a passeios divertidos pelos corredores da Justiça de nosso país. A vida se repete.
O que farei depois da aposentadoria? Essa pergunta passou a atormentar meus pensamentos todos. Ficar em casa é ótimo, mas apenas por algumas horas. O mundo ferve e eu sou borbulha a mais de mil graus de temperatura. Um dia desses deparei-me com um teste vocacional on-line, em um desses sites destinados a estudantes prestes a ingressar nas universidades. Há mais de quarenta anos eu fiz um teste vocacional, isso no colégio de freiras onde eu estudava. O resultado foi medicina, ou jornalismo. Azeite, ou vinagre? Par, ou ímpar? Não pude levar a sério o resultado, tamanha diferença que imaginei entre as duas profissões. Deixei de lado o resultado e tratei de seguir o meu caminho: Direito, mundo das leis, dos parágrafos, artigos, códigos, decretos, mundo perfeito em letrinhas e imperfeito em ações. Mundo que eu conheci a saborear guaraná e que avistei  aos quatro anos de idade,sentada sobre mesas onde ninguém ousaria jamais recostar-se. Desiludida, afinal de guaraná a fel a vida mudou muito com o passar dos anos, agora eu me pergunto:  o que será que eu vou ser quando me aposentar? O quê? Veja bem, caro leitor, cara leitora, essa é a pergunta que eu faço e que muitos se fazem neste momento da aposentadoria. O que fazer com o resto da vida, que ainda haverá de durar no mínimo três, quatro décadas?
Fiz o teste vocacional on-line. Tratei de ser sincera ao responder todos os itens, um a um, inclusive algo sobre preferir morar sozinha a morar com meus pais ( a esta altura dos fatos, morar com meus pais significaria morar na terra dos pés juntos). Quando vi o resultado, tentei imaginar o que teria sido de mim, de minha história, se desde a época em que eu fazia meu número das perninhas cruzadas a beber guaraná nas salas de audiência,  eu soubesse que nasci para ser atriz, cineasta, ou escritora. E encontrei a explicação para a minha teimosa mania de escrever neste blog: vocação! Escreverei  meu ganha pão, essa será a minha profissão!

Hoje, Dia do Trabalho. Dedico este texto a meu avô, José, que me ensinou o valor do exercício apaixonado e honesto da profissão.




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