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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







4 de jun de 2013

DIVA LATÍVIA NO METRÔ DE SÃO PAULO

Eram oito horas da manhã de quinta-feira. Apressada, de novo eu estava atrasada para chegar ao trabalho. Na plataforma da estação do metrô havia outros muitos seres humanos, a maioria deles também atrasada.  Viagem de metrô. Quem foi que disse que aquele trajeto, naquele aperto e desconforto, seja uma simples viagem?
Vinte minutos me esquivando de cotoveladas, empurrões, cutucões nas minhas costelas.  Um alívio escutar o aviso sonoro: “Próxima estação, Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem”. Metade dos passageiros do trem deu meio passo na direção da porta, ainda fechada. Longa espera pela abertura da porta, uma espera que pareceu longa e anormal. Um minuto e os viajantes começaram a demonstrar impaciência. Dois minutos e nada da porta abrir. Do lado de fora do trem uma multidão a esperar a abertura das portas e, dentro do trem, outra multidão a esperar a mesma coisa.  Três minutos, uma criança começou a chorar. Quatro minutos, a senhora que segurava uma sacola de supermercado, sem cerimônia, vomitou dentro do pacote.  Nada pode ser tão ruim que não possa piorar, certo? Certo! Comecei a sentir aquela dorzinha de barriga velha de guerra, aquela que surge quando fico nervosa. Meu estômago fazia malabarismo e o odor proveniente da sacola de minha companheira de viagem agravava o meu mal estar. Alguém gritou: - “Abram!”.  Outros viajantes fizeram coro: - “Abram logo esta porta!”.  Alguns, ao invés de porta falaram outro nome, feio demais para aqui ser registrado.  Começou o empurra-empurra, a gritaria, a choradeira e eu senti que estava, francamente, com caganeira. Apesar de não ser religiosa, resolvi também reagir: - “Meu Deus, socorro!”.
No café da manhã, ao contrário do que recomendou meu médico, Doutor Antenor, eu evito comer muito bem. Comer muito bem  e seguir direto pro metrô pode dar dor de barriga. Para evitar a dor de barriga, como apenas o suficiente, ou seja: pouco, quase nada. Naquela manhã fatídica, atrasada para chegar ao trabalho, tomei um café da manhã pobre, muito pobre. Bebi café preto sem açúcar, comi uma torradinha com pouca manteiga e fui, ainda mastigando, chamar o elevador, não havia tempo a perder.
Finalmente, um comunicado do Metrô: - “Senhores passageiros, por motivos técnicos os trens não estão circulando. Pedimos aos senhores passageiros que estão nas plataformas que se afastem da linha amarela, para evitar acidentes, agradecemos a sua colaboração”.
Eu quis chorar: e eu? Eu não estava na plataforma, eu estava dentro de um trem lotado de gente à beira de um ataque de nervos! Li algo a respeito de meditação, deixar que na mente passem todos os pensamentos sem se prender a nenhum deles. Pensei assim:  ”xô dor de barriga, sai fora caganeira, eu estou curada, não tenho nada”.  Pensamentos positivos, portanto.
Dezoito minutos naquele sufoco e, até que enfim, a porta do trem foi aberta. Era gente se empurrando pra sair depressa, a mulher da sacola vomitada ameaçou segurar no meu braço e eu gritei: - “Sai, que vou me cagar!”. Um homem ao meu lado tampou o nariz, como quem diz: que nojo!
A Praça da Sé, coração da cidade de São Paulo, é um vai e vem de gente que caminha rumo a tudo quanto é lugar: trabalho,  escola, sei lá pra onde. Eu caminhava a esmo, sem saber exatamente onde eu poderia usar um banheiro limpo e decente.  Livrarias sempre foram uma espécie de segundo lar pra mim. Nas livrarias eu já li muitos livros, de orelha a orelha. Já conheci escritores, já tomei muitos cafés e até um ex-namorado conheci em uma livraria. Livrarias, muitas vezes, têm o banheiro limpo e ideal para socorrer uma refugiada do metrô.  Naquele banheiro tinha enxaguante bucal, fio dental, lenço de papel e música ambiente. Nesse banheiro estiloso eu consegui resolver o maior de todos os problemas que tive na vida (assim dimensionei o meu drama naquele instante de aperto). Para disfarçar o meu único intuito – ir ao banheiro - passei rapidinho pela sessão de livros jurídicos e agarrei o Código de Defesa do Consumidor, que depressa larguei na sessão de romances policiais, a observar de rabo de olho se alguém notava minhas verdadeiras intenções. Não levei o código, mas foi um excelente álibi para o meu ingresso no recinto. Cheguei atrasada ao trabalho, por motivos mais do que justificados, mas cheguei feliz, livre, leve e solta.



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