É proibida a reprodução não autorizada dos textos deste blog, de acordo com a Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que regula os direitos autorais.

Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







6 de dez de 2014

VINTE E DOIS DE JANEIRO

No aeroporto ela esperou que o avião decolasse e o viu partir. Namorava o mesmo garoto desde os treze anos de idade, uma história que começou na rua onde moravam e que durava sete anos.
Aquela era a primeira vez que se separavam, justamente na época das festas de final de ano.
Olheiras escuras se penduraram sob seu olhar cor de mel. O ano terminou, outro ano começou, um mês afastados.  O tempo pareceu não passar e  tudo o que recebeu dele eram foram notícias breves e raras.
Era dia vinte e um de janeiro quando ele voltou das férias e, ao contrário do que era esperado, não a avisou sobre o dia e horário de chegada. Ela o descobriu de volta no dia seguinte, em fotos publicadas no Facebook. Um encontro dele com os amigos em um bar, ocorrido na véspera. Em sua companhia sorria com dentes muito brancos uma garota bronzeada. Mexeu e remexeu em perfis na internet até descobrir a tal de Taís.
No mesmo instante atravessou a rua e pisou duro os cem metros de distância entre sua casa e a casa dele. Tocou a campainha descontroladamente e ingressou na casa sem fazer cerimônia. Lá estava ele de bermuda, descalço e sem camisa, sentado à mesa do café. Ao vê-la gaguejou algo inaudível.
A cena do tapa que ela deu no braço do namorado foi assistida pela plateia composta pelo pai, a mãe e o cachorro barulhento da família, isso marcou a pele do rapaz e justificou o final do namoro no dia vinte e dois de janeiro.
O ano passou e seu isolamento social era discreto, mas perceptível. Conseguiu bolsa de estudos em uma universidade estrangeira, estaria a milhares de quilômetros daquela rua. De malas prontas rumo ao Canadá, a dois dias da viagem o encontrou no ponto de ônibus, ele de roupa social, a barba bem feita, os cabelos mais curtos. Seu coração voltou a bater e desejou que naquele instante parasse o tempo. Contou-lhe que mudaria para o Canadá, dele ouviu qualquer coisa do tipo: - boa viagem. O ônibus da linha 8769 chegou, ela embarcou e essa foi a última vez que o viu.
Há cinco anos em Toronto ela concluiu a faculdade e foi convidada para trabalhar em uma indústria farmacêutica. Conheceu Jean Paul, seis anos mais velho. Casou sem festa e nem papel e quase superou o passado, não fosse a celebração às avessas que ocorre todo dia vinte e dois de janeiro, quando chora às escondidas e acena para um avião imaginário. Depois lava o rosto, respira fundo e espera a chegada do dia vinte e três.

25 de nov de 2014

CASAMENTO: QUANDO UM QUER, MAS O OUTRO NÃO QUER - PARTE 2


Escrevo há muitos anos e nos blogs escrevo há seis anos. Muitas publicações fizeram e fazem sucesso, porém há uma das minhas publicações que é recordista de acessos: “Casamento: quando um quer, mas o outro não quer" . http://www.divalativia.com/2011/10/casamento-quando-um-quer-mas-o-outro.html
Vou agora continuar o assunto, porque eu sei que muita gente sofre por conta desse desencontro de intenções amorosas. Ver o caminho de seus sonhos de amor bloqueado, limitado porque o par não tem a intenção de se casar, isso é uma bifurcação na estrada do relacionamento. Se você for em frente, terá que abrir mão do que deseja e não mais pensar em casamento. Se desistir do relacionamento, terá que enfrentar a dor da perda do ser amado e, talvez, ficar com aquele sabor amargo do “e se”. E se eu tivesse persistido? E se eu tivesse dado tempo ao tempo? E se eu tivesse sido mais tolerante com ele, com ela? Toda escolha, seja a de ir em frente, ou a de terminar o relacionamento, significa uma perda. Nada romântico não ter planos de futuro, especialmente depois de alguns anos de namoro. Ir em frente colocará sim em jogo o romantismo, que é fundamental para manter a chama acesa, para alimentar o amor. Tem graça se casar com alguém que é tão firme quanto uma bolinha de sabão?
Sei que, às vezes, as dúvidas acontecem porque o relacionamento ainda não amadureceu o bastante para que o casamento seja planejado, mas tem gente que está junto há dois, três, cinco anos, até mais tempo que isso e mesmo assim esses planos são frustrados porque o par não quer se casar. E aí? O que fazer? Muitos ficam tão sentidos, tristes, que pesquisam no Google o assunto, na ânsia de encontrar publicações que abordem esse tema. Um conforto, uma luz? Algumas pessoas chegam até aqui, no Diva Latívia, e se deparam com minhas publicações sobre o amor e seus desencontros. Entendo a imensa responsabilidade que é escrever para quem não conheço.
O que eu faria nessa situação, se eu namorasse alguém que depois de alguns anos não pensasse em se casar comigo? Eu terminaria o namoro! Mas não desejo isso pra ninguém, nem recomendo isso aos meus leitores. Terminaria sim, porque acredito muito naquele dizer: “quem não sabe o que quer, não merece o que tem”. Casamento, seja ele formal ou informal, é o caminho natural do relacionamento amoroso. A união de objetivos é essencial. Se um quer casar e o outro não quer casar, talvez exista amor, mas não existe a união de objetivos ( sem isso não pode haver casamento).
É uma tremenda frustração investir em um relacionamento sem parceria, sem planos, sem sonhos, sem futuro. Dizer na metade do segundo tempo que não quer se casar, isso é uma imensa falta de consideração com o par. Por isso, cara leitora, caro leitor, deixo aqui a minha opinião sobre a dor que o assola. Há muita gente no mundo, certamente alguém busca o mesmo que você. Ninguém é o sol da vida de ninguém e outras pessoas estão por aí, dispostas a ter um relacionamento feliz e duradouro, sem limitações. Mas, se você quiser continuar nesse relacionamento, saiba que a sabotagem emocional está presente e essa é a vilã do final de todas as histórias de “amor”, uma bomba que faz tic-tac e irá explodir um dia, talvez quando o casamento tiver alguns anos, quando você tiver filhos e tudo ficar muito mais difícil do que hoje, quando está namorando e pode sim escolher entre ir em frente, ou desistir de quem não sabe o que quer ao seu lado. Se ele, ou ela, disse que não quer se casar, leve isso a sério e tome uma atitude. Você pode esquecer a ideia de se casar, ou no futuro se casar com alguém que não sabe direito o que quer. 

Esta é a minha opinião e eu os convido à leitura da primeira publicação do tema.

8 de nov de 2014

O TEMPO CORRE LIGEIRO

A bateria do meu relógio de pulso havia terminado. O relógio ali parado, algo que me causava mal estar, a sensação de que a energia ao meu redor estava paralisada e precisava, com urgência, voltar a fluir. Fui ao relojoeiro e troquei por uma bateria nova. A hora certa, os ponteirinhos  a girar e girar. Parecia que o controle do meu destino estava em meu pulso esquerdo, novamente eu era dona de minha vida. 
O tempo passou, vieram as festas de final de ano, depois as férias de verão, a volta ao trabalho, os feriados, finais de semana, todos os acontecimentos felizes e difíceis do ano. E as horas a rodar e rodar.
Outro dia, quando olhei para o relógio, os ponteiros estavam novamente parados. A bateria havia, mais uma vez, terminado. Indignada, voltei ao relojoeiro e reclamei: - Outro dia troquei essa bateria!
Foi assim que descobri que havia passado o tempo: um ano e dez meses se foram, sem que eu percebesse. Com o relógio a trabalhar, sentei-me à frente do notebook e cá estou a contar-lhes essa história. 
O tempo é maratonista, medalhista de ouro das olimpíadas da vida. Corre tão depressa que parece um vulto a passar. Nesses vinte e dois meses tanta coisa aconteceu, algumas coisas mudaram, outras deixaram de ser. Ficaram tantos planos de lado, coisas por fazer. Atire a primeira bateria de relógio quem nunca se assombrou com o tempo a voar. A vida passa sem a gente perceber, é preciso viver.

27 de out de 2014

LEMBRANÇAS DE MIM

Visitei meu próprio blog. Diva sem publicações recentes, sem lá muitas visitas. O leitor é exigente, gosta de qualidade e quantidade, tudo ao mesmo tempo. A vida tem sido árida, caro leitor, querida leitora. Vida árida, corrida e avessa aos versos meus.
Pensei no próximo texto e tramei letrinhas divertidas, qualquer coisa que os fizesse rir e imaginar quem sou, como pude imaginar coisas tão divertidas. Voltei minhas lembranças ao segundo turno da eleição presidencial. Preferi voltar à realidade dos meus dias, com ou sem eleição a vida continua.
Já estava preparada para desligar o notebook, vencida pela falta de inspiração, quando olhei para o céu. Um céu parecido com noites da minha infância. Um céu paulistano com poucas nuvens. A diferença é o excesso de edifícios, luzes que escondem as estrelas. Voltei no tempo. A infância com seus personagens, gente que partiu rumo ao infinito. O Natal com Papai Noel, pensei em minha tia Maria Luiza. Admirei um amontoado de nuvens na direção do por do sol. O que é o passar dos anos diante da imensidão do universo?
Lembrei de momentos da infância. Moema, bairro que cresceu tanto que até perdeu a graça. O casarão cor-de-rosa onde cresci, cercada de jardins e irmãos. Os adultos e suas histórias, um a um. Viajei até Águas de São Pedro, cidadezinha miúda e encantadora que abrigou feriados, férias, finais de semana inesquecíveis. O aroma da terra molhada, meus pés descalços, sonhos coloridos e tão inocentes quanto este texto, que saiu de qualquer jeito, mas carregado de lembranças que reanimaram a minha alma.
A vida anda difícil. Meus textos fogem de mim. A vida foi mais leve. O universo corre lá fora. As nuvens escondem as estrelas. No infinito estão as lembranças. A vida se tornou adulta. A criança miúda que fui ainda colhe flores no mesmo jardim.


10 de out de 2014

BORRALHO


No escuro de seus olhos me perdi.
Reflexo de minha dor,
Você não está mais aqui.
Descompasso e luz,
Lembrança de beijos em cinzas.
Poeira de mim.

3 de out de 2014

BEIJOS ROUBADOS

Ele puxou os fios longos dos meus cabelos. Arrancou dois, três fios e disparei um gritinho de dor e revolta. O professor de matemática interrompeu a equação que rabiscava na lousa. – Diva e Avelino, levantem-se.
Levantei-me, ainda a me queixar. Avelino, o garoto baixinho e com o rosto coberto de acne ostentava os meus fios de cabelo entrelaçados em seus dedos. Desde o começo do ano letivo eu vivia a esquivar-me de seus olhares, bilhetinhos e puxões de cabelos. As piadinhas dos colegas eram muitas e eu fugia do garoto do jeito que podia.
Na diretoria, sentados lado a lado, expliquei ao sisudo Sr. Nestor, diretor do curso secundário, que meu grito de dor escapou de modo involuntário. Ambos advertidos, voltamos à aula sob risinhos abafados pelos colegas.
No ano seguinte, Avelino mais alto, alcançou meus lábios e estalou um beijo babado e roubado. A aula de educação física ia pela metade quando fui pega de surpresa, pega pelos braços e reagi como pude: soquei Avelino bem no meio do rosto, quebrei seus óculos e arranhei profundamente sua testa. Dessa vez, a advertência do diretor foi além da reprimenda verbal. Suspensa três dias, fiquei detida na sala da diretoria escolar até meu pai vir me buscar  no final da manhã. Aos prantos e sem indulgência, expliquei o beijo forçado. Avelino teve a mesma sorte que eu, suspenso voltou pra casa escoltado pelos pais.
Três anos assim, ele ousava se aproximar de mim de um jeito equivocado, eu o evitava, brigávamos, parávamos na diretoria da escola, nossos pais nos resgatavam das garras do diretor, os colegas riam de nossa sorte e os professores torciam para que sentássemos longe um do outro, sob o risco da aula ser interrompida com gritinhos, risinhos e bilhetinhos.
Quando prestei vestibular, naquele ano não tive notícia de Avelino, que tinha se mudado para Londres e cursava jornalismo. Cada um dos colegas tomou um rumo e o mundo miudinho da sala de aula se tornou muito maior, com novas possibilidades e novos personagens. Conheci o Zé Marcelo, começamos a namorar.  De vez em quando o Avelino telefonava, ou escrevia. Nem sempre eu respondia, atendia, tentava deixar o passado apenas nas lembranças e nada mais. Cursei a faculdade, sem mais sequer lembrar-me dos episódios da adolescência, anos se passaram até que, um dia, ele me encontrou em um barzinho da Vila Madalena. Ambos adultos, livres, eu tinha me separado recentemente. Daquela vez os beijos não foram roubados e até imaginei que pudéssemos iniciar a nossa história a dois. Mas, ele voltou pra Londres e eu fiquei em São Paulo. Às vezes ele vinha ao Brasil e nos encontrávamos, às vezes eu ia a Londres. Assim foi até que em uma noite de outubro telefonou pra mim a Ana Célia e me contou que ele, o Avelino, tinha morrido em um acidente.
Naquele tempo a morte de pessoas queridas ainda não havia me tocado. Meus pais, avós, todos estavam vivos. Meu coração se fechou no luto surpreendente de quem gostaria de ter novamente a oportunidade de rir, ao invés de estapear; de compreender, ao invés de brigar.Tentei imaginar como teria sido a vida se eu tivesse correspondido ao amor de Avelino, se isso o teria salvado do acidente e me salvado da solidão. Afundei em lágrimas de tristeza durante meses seguidos.
Lá se foram muitos anos. Outro dia estava caminhando no parque quando encontrei a Ana Célia. Marcamos um almoço e voltamos no tempo, como se a vida não tivesse levado nossa juventude e encerrado os sonhos de menina. Voltei pelo caminho que fazia para chegar na escola. Parei em frente ao antigo colégio. As mesmas árvores frutíferas na calçada, a mesma fachada do prédio, de cor acinzentada. Observei os alunos em seus uniformes escolares modernos, em bando a rir, naquela inocência de quem tem a vida toda pela frente. Cancelei a reunião de trabalho, fui pra casa e tomei um remédio pra dor de cabeça, quisera que existisse analgésico pra dor das lembranças.
Este texto é a minha prece, não é uma oração convencional. Que meu abraço e meu beijo cheguem aí no céu, entre nuvens. Comporte-se bem por aí, Avelino, não puxe as asinhas dos anjos e nem roube beijos das estrelas. Até um dia. Amém!

1 de out de 2014

TIA DIVA ( e-book)




O e-book do conto Tia Diva, de minha autoria, já está na Livraria Cultura, pronto para ser baixado em seus computadores, celulares, Iphones, Ipads. Um grande sucesso, a preço bastante acessível, que divulgo em primeira mão para vocês! Adquiram e recomendem.

Um abraço,

Diva Latívia ( Cláudia Cavalcanti)

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=84752004&termo=TIA%20DIVA

27 de set de 2014

VERMELHO VIVO

Estavam os dois sentados à mesa do almoço. A comida era pouca. Ele de bermuda, sem camisa, o suor brotava na testa, tinha o olhar opaco e a barba mal feita. Ela, feições delicadas, olhos cor de jabuticaba, a juventude de um botão de flor. Havia um retrato pendurado na parede, na fotografia amarelada sorria uma mulher vestida de noiva e ao seu lado estava o mesmo homem, porém ali ele era jovem.
Sob a mesa, a cada garfada ruidosa, os pés sujos e calejados alcançavam as pernas alvas e trêmulas da filha, levantavam a barra da saia de cor azul e expunham as coxas firmes e bem delineadas. Ela cruzava as pernas, ele mandava que as descruzasse. Ela puxava a cadeira ligeiramente para trás, ele ordenava que voltasse. Obedecia e ele sorria com os dentes estragados. Foi assim até que ela cobriu o rosto com as mãos e soluçou. Depois, enxugou as lágrimas na ponta da toalha de mesa descorada, desceu as mãos até o ventre e multiplicou o choro.
O homem deu um soco na mesa, derrubou os copos. Amaldiçoou a geração futura. Levantou-se, puxou-a pelo braço, arrastou-a da sala até o quarto. Rendida, suplicou que a soltasse. Indiferente, ele mandou que despisse o uniforme escolar, ela se recusou. Deu-lhe um empurrão que a fez rodopiar, ela cedeu e o uniforme foi caindo pelo chão. Livrou-se da bermuda, bateu em sua barriga desnuda, que despontava saliente. Passou as unhas encardidas por seu corpo delgado, riscou suas costas. Virou-a de frente e surrou-a várias vezes. Ela se curvou, ele agarrou-a pelos cabelos longos, parecidos com os da mulher do retrato. Tirou-a pelo pescoço para dançar, uma dança sem música. Estavam vestidos apenas com a claridade que vinha da janela.
No baú de madeira escura buscou um trapo comido pelas traças. Cobriu a cabeça da filha com um véu de noiva, forçou-a a deitar-se na cama, tapou sua boca e calou-a. Gemeu sobre seu corpo franzino. Depois de muito tempo, soltou-a e adormeceu.
Já era o anoitecer quando de novo a caçou encolhida no sofá da sala e ali mesmo voltou a gemer. Ela tentou se esquivar, encolheu-se em posição fetal. Ele prendeu-lhe as pernas entre as suas. O sofá rangia e a silhueta dos dois na penumbra era ligeira. Quando terminaram, mandou-a dizer que o amava. Por fim, cobriu o rosto da noivinha com uma almofada. Ela gritou, se debateu, se contorceu, suas mãos tentaram livrar-se do objeto. Pouco a pouco, perdeu os movimentos até ficar inerte. Seus olhinhos castanhos estavam esbugalhados e ainda choravam, uma lágrima desceu pelos lábios entreabertos. O pai caminhou até à cozinha, serviu-se de uma bebida que escorreu por seu peito grisalho. Tirou o retrato da parede, lançou-o contra a cristaleira, choveram pedaços de vidro.
Era noite alta quando abriu a gaveta de um móvel e pegou um revólver. Sentou-se na ponta do sofá. A lua iluminava o olhar parado no mesmo lugar. Cacos de vidro cintilavam feito estrelas pelo chão. Chamou-a, ela não respondeu. Bateu em sua barriga com o cano do revólver: uma, duas, muitas vezes e ela não se mexeu.  Abraçou-a, olhou para a parede sem o retrato, apontou a arma para si e atirou. O véu ficou salpicado de vermelho vivo. 

12 de set de 2014

ATO FALHO AMOROSO

Dizem que a pressa atrapalha a perfeição. Quando estou apressada atropelo os móveis, topo o dedinho, derrubo objetos. Um tanto distraída, com uma pitada de mau humor típico de quem vive atrasada. Coisa de mulher urbana, com jornada múltipla. Casa, família, cachorro, trabalho, cursos, amigos, imprevistos e a cabeça sempre nas nuvens. Assim despertei na manhã fria de quinta-feira. Na agenda estava escrito com letras maiúsculas, minha caligrafia de causar vergonha:  NÃO ESQUEÇA A REUNIÃO ÀS 8H00.
Doutor Armando, meu ex-chefe, é personagem de sonhos assustadores e recorrentes. Desde que saí daquele escritório, ele povoa meus pesadelos. Fiquei traumatizada, sinceramente. A cobrança de prazos, o receio de perder algum papelzinho, aquilo se incorporou aos meus neurônios restantes. Todo compromisso de trabalho com hora marcada me assombra. Tive um pesadelo, lá estava Doutor Armando a rasgar todas as cédulas de cem reais que tirava da minha carteira. 
A noite mal dormida, sonolenta. Logo cedo encontrei Divo, também atrasado, porém pensativo e enigmático. Conversar assim que desperto, fazer a tal da “discussão da relação”, pra mim é impossível. Ele comentou qualquer coisa a respeito do final de semana, compromissos que modificariam meus planos de sossego. Contrariada, escutei e escutei calada. Voltei para a cozinha, bebi café forte e sem açúcar, fui tomar meu banho, depois dei comida pro meu cachorrinho. Olhei ao redor, Divo estava no terraço. Fiz um esforço apaziguador, me despedi e fui para o trabalho.Dez da manhã, no escritório, tocou meu celular, era da portaria do edifício onde moro: -  Dona Diva, o Sr. Divo está na sacada gritando, pedindo socorro.
O sangue esfriou tanto que imaginei hemácias on the rocks. Pensei na torradeira, que de vez em quando esqueço ligada. Um incêndio, assalto, desabamento?
Fui para casa e passei pela portaria sob o olhar do porteiro. Olhei para o alto, tentei visualizar o apartamento. O elevador subiu e subiu lentamente, Abri a porta de casa, o cãozinho latiu mais estridente do que o normal. Ao ouvir a minha chegada, a vizinha do apartamento ao lado apareceu no corredor. Disse apenas uma palavra: - Coitado!
Lá estava Divo, no canto do terraço, encolhido de tanto frio. A porta da sacada trancada pelo lado de dentro. Quando me despedi, tranquei a porta, um ato falho. Divo, possivelmente com a pressão arterial alterada, estava meio roxo. Abri a porta e ele somente lançou um olhar pontiagudo para mim.
Pedi desculpa, ele não respondeu. Busquei um copo d´água, que ele bebeu em um gole só. Perguntei se precisava de alguma coisa: café, remédio, médico, hospital. – Quero que você suma da minha frente!
E foi assim que eu sumi. Escrevo este texto ainda no escritório. Voltar para casa parece uma péssima ideia neste momento. Será que Freud conseguiria explicar essa situação? Bem que no meu horóscopo estava escrito que eu prenderia o amor nesta semana. Se fosse mais específico, o tal do horóscopo deveria ter avisado que eu o prenderia no terraço do apartamento.

4 de set de 2014

TAL MÃE, TAL FILHA

Sabe como é mulher, não sabe? Mulher é naturalmente vaidosa. Pode ser branca, negra, amarela, azul. Pode ser terráquea, ou marciana.
Minha vaidade foi colocada à prova recentemente. Estava no estacionamento do shopping quando encontrei ninguém menos que ele, o Zé Raylton. Pra quem não sabe, ou não consegue lembrar do dito cujo, Zé Raylton me abandonou em uma tarde fria e levou consigo o meu rádio. Sim, o rádio mesmo, que eu havia comprado em dez prestações. Levou e declarou: - o rádio é meu!
Claro que eu o mandei pra aquele lugar impublicável. Deve ter ido, porque levou o rádio e desapareceu.  Anos e anos de sumiço. Até que nos encontramos naquele estacionamento. 
Devo ter esbugalhado os olhos, ele estava enorme de tão gordo. O topetinho que ele usava de lado e fixava com camadas generosas de gel para cabelos, simplesmente caiu. No lugar havia uma careca lustrosa. Pensei: - será que ele usava tic-tac na franja e eu nunca reparei?
Percebi que ele encolheu a barriga pronunciada, prendeu a respiração. Lembrei que ele sofria de dor de barriga incurável e progressiva. Fez cara de quem precisava ir ao banheiro. Não deixei por menos:- Oi, Zé, há quanto tempo!
Ele se agarrou firme às sacolas de compras e respondeu algo rapidamente, não escutei muito bem. Fui atrás. – Não sabe quem eu sou?
Parou de andar, me olhou de cima abaixo. – Dona Bárbara Germânia! Há quanto tempo, como vai a senhora? E sua filha, a Diva, como ela está?
Bárbara Germânia era minha mãe. Comecei a rir. – Tá falando sério, Zé?
- A sua filha se casou?
Não aguentei. Ele realmente estava doido, ou cego, algo assim. Resolvi entrar na onda dele. – Casou e teve dois filhos. Mudou para a Indonésia!
- Que coisa boa. Menino ou menina?
- Menina e menino.
- Parabéns, Dona Bárbara. Foi um prazer encontrar a senhora, mande um abraço pra Diva.
Entrei no meu carro me sentindo literalmente zoada. Será que o Zé Raylton resolveu me sacanear? Será que ele ficou maluco? Ou... Ou será que estou assim tão parecida com minha finada mãe?
Minha autoestima despencou no chão, coisa que nem mesmo um litro de botóx conseguiria consertar.
Dois dias depois recebi um convite de amizade no Facebook. Quem era? Sim, ele, o Zé. Aceitei. Primeira conversa: - Diva, sobre aquele nosso encontro no shopping, preciso falar com você.
- Zé, minha mãe me disse que encontrou um cara parecido com você no shopping. Só não era você porque era careca e gordo.
Foi a amizade mais rápida que fiz naquele tal de Facebook. Durou 5 minutos. Fui deletada e bloqueada,
Coisa boa ter falado com o Zé.

Este texto se parece muito com tudo aquilo o que escrevíamos no antigo blog, Janela das Loucas. Escrevi pensando em você, meu saudoso amigo Abílio Manoel. Uma trapalhada de Diva Latívia, para adoçar os nossos dias. Saudade!

24 de ago de 2014

REFLEXO


Diga-me: seu olhar triste quando nasceu? Seu sorriso tímido ao que assistiu? E suas tênues linhas que emolduram o seu olhar, o que elas suportaram?
Diga-me, mulher, quem é você? O que há escondido no azul esverdeado de seus olhos? De onde veio? Para onde irá você?
Afastei-me do espelho sem resposta.

16 de ago de 2014

SUAVIDADE

Lá estava ela: leve e colorida. Pousou em uma flor, depois em outra, sobrevoou o canteiro de hortênsias e decolou novamente. As asas delicadas espalharam tons de azul ao seu redor. Eis que parou em meu ombro e cheguei a fechar os olhos e implorar em pensamento: - vá embora!
Arrisquei movimentar lenta e calmamente a cabeça para o lado. Observei-a  a poucos centímetros do meu rosto. – Não sou flor! Vá procurar rosas! – Pude notar que as asas da borboleta são quase transparentes. Suas patinhas parecem fiapinhos.
Segui caminhando pelo parque a levar comigo minha mais nova amiga, que me deixou minutos depois e voou na direção do topo de uma árvore. Suave companhia.

5 de ago de 2014

DIVA LATÍVIA ( A Origem do Nome do Blog)

Nós dois não nos conhecíamos o bastante para que ele soubesse que o nome sugerido para o meu blog nem sempre combinaria comigo, com a minha personalidade. As poucas vezes que olhou pra mim – sempre arrumadinha para passear  - fantasiou sei lá quantas e quais fantasias com meu “jeito Sandy de ser”. O que é “jeito Sandy de ser”? Bonitinha, comportadinha e pronta pra fazer propaganda da Devassa. Simplesmente ele fantasiou tanto que chegou à equivocada conclusão: “diva/cachorra”. Assim mesmo. Delírio irônico em prosa e versos, coisa típica de Abílio Manoel.
O mundo mudou muito dos tempos do telégrafo para a comunicação via e-mail. Algumas pessoas conhecemos através de amigos, nem todos conhecemos pessoalmente antes de adicionarmos aos nossos contatos das redes sociais. Assim aconteceu comigo e Abílio. Nós dois não nos conhecíamos pessoalmente, ao vivo. A não ser que a webcam faça esse tipo de apresentação. Nos tornamos amigos, confidentes, quase irmãos, tudo isso via internet. O “quase irmãos” é a minha visão dos fatos, porque ele inventou esse nome: Diva Latívia. Irmão não faz isso, não é mesmo? Definir Abílio é algo complexo.
No dia em que decidi conhecê-lo pessoalmente, senti um friozinho na barriga. Ali estava alguém importante pra mim, pra minha vida, alguém que havia me contado entre lágrimas seus medos, entre risos seus sonhos, que voltava das aventuras amorosas e confidenciava quem era a gata da vez, ou expunha seu sofrimento por amar e não se considerar amado. Alguém que interpretava de modo generoso, mas nem sempre tão generoso, as palavras que eu dedilhava em nossas conversas sem fim via MSN, e-mails. Nos papos divertidos ao telefone, ele com seu leve sotaque lusitano e voz de garoto. Olhamos um para o outro e o tempo parou de modo reverente. Pura emoção: o meu melhor amigo conheci na internet! (Deus te abençoe, World Wide Web).
Foi nesse dia que ele me disse:  - você não tem nada de Latívia, Diva! - Mas ali já era, o nome tinha “pegado” e eu não o mudaria jamais.
Já me disseram que o nome do blog parece nome de drag queen. Sem problema nenhum, afinal adoro o filme Priscila, a Rainha do Deserto. Nome de trabalhadora da mais antiga profissão, isso também me disseram. Se eu fosse me importar com a opinião urubulesca de uns e outros, me esconderia dentro de uma caixa perfumada e mudaria o nome do blog pra “lacinho cor-de-rosa”.

É essa a origem do nome do blog Diva Latívia, um nome que nasceu em uma conversa no MSN, entre palhaçadas e piadas recíprocas, Abílio e eu. Não era sério, mas ficou tão sério o negócio que cá estou a contar-lhes que raio de nome esquisito é esse.  Um nome que me conquistou aos poucos, mas definitivamente, e que tem o lastro sagrado da amizade autêntica, eterna, que hoje beija o infinito onde mora Abílio Manoel, amigo que faleceu há alguns anos. Alguém que amo, respeito, admiro entre lembranças e olhares na direção das estrelas. Saudade de Diva, saudade Latívia!

4 de ago de 2014

STAYING ALIVE ( anos 70)



Admirei longamente a minha imagem na fotografia. Meus cabelos volumosos, longos e cacheados, era o estilo de penteado usado pela atriz Farrah Fawcett no seriado televisivo “As Panteras”. A calça jeans de cintura alta e com a boca larga, que chamavam de “ boca de sino”. A bata de renda parecida com o tipo de blusa que é usada atualmente. Não mais do que 16, 17 anos na fotografia do final da década de 70. Foto em preto e branco.
Meu perfume era o “Charlie”, da “Revlon”. Um dia, em alguma passada pelo “Dutyfree” encontrei um vidro desse perfume, uma edição especial, segundo informava a embalagem. Fiz outra viagem, essa sem avião ou malas, eu voei na direção do passado alegre, feliz e inesquecível. Aterrissei resignada quando alguém me cutucou e reclamou: “- Não está me ouvindo? Onde está com a cabeça?” - Comprei o perfume e o guardei como quem guarda um troféu. Aroma do tempo.
Sabe o que é meia soquete de lurex? A moda era usar essas meias com sandália de salto alto e arrasar na pista ao som de John Travolta, Donna Summer, As Frenéticas. Eu dançava e dançava, como se o mundo estivesse no globo espelhado a refletir a minha despreocupação com o porvir. As festas eram chamadas de bailes, bailinhos da turma, bailinhos de garagem.
Voltei a olhar para a fotografia. Amarelada, o tempo passou tão ligeiro! O que eu faria se soubesse o que aconteceria em quatro décadas, se descobrisse que eu não era invulnerável, nem invencível, nem imortal? Admirei meu reflexo no espelho, esbocei um sorriso vitorioso de quem aprendeu com lições duras da vida. “Staying Alive” não saía da minha cabeça. Dancei no ritmo da saudade e sobrevivi.

31 de jul de 2014

VERSOS AMASSADOS

Ela deixou de lado o livro e embrulhou-se no xale de cor azul. A garrafa de vinho pela metade. 
Ao som de Robert Cray ( Don´t be Afraid of the Dark), escreveu algumas frases, depois rabiscou as palavras, amassou o papel e deixou-o cair a seus pés.
Terminou a taça de vinho e foi até perto da lareira, admirou as labaredas longamente. Voltou ao sofá, deitou-se e sonhou com o destinatário dos versos amassados. 

26 de jul de 2014

VOVÓ ( Dia dos Avós)

A loja era relativamente ampla. Estreita, comprida e mal iluminada. O pé direito alto. Prateleiras de ponta a ponta acolhiam o que estava anunciado na placa sobre a porta principal: tudo para o seu lar. 
A miudinha soltou a mão da avó. A senhora estava entretida com os modelos coloridos de sacolas de lona, destinadas às idas e vindas à feira livre e supermercado. Quando deu por si, lá estava a pequena, passos ligeiros a caminho da calçada.
Naquela época, o bonde cruzava a avenida ruidosamente. Um calafrio percorreu a espinha curvada e reumática. Segurou firme a mãozinha da rebelde e pagou a compra. O choramingo a fez ceder. 
Comprou argolas de plástico cor-de-rosa feitas sabe-se lá pra quê. As bonecas de porcelana foram presenteadas com auréolas  de anjo: - Toma, são presentes da Vovó pra vocês!

Um episódio verídico, acontecido há tanto tempo! Vovó, minha amada Adelina, aqui está um pedacinho nosso. Que você receba o meu texto embrulhado em nuvens brancas de algodão.

25 de jul de 2014

SONHO DE PASSARELA

Na ponta dos pés ela se aproximou do espelho do banheiro. Seus olhos brilharam, tocou seu reflexo com a ponta dos dedos. Subiu na cadeira e alcançou o estojo de cor dourada que estava sobre a prateleira, abriu-o e tirou de dentro vários objetos, espalhou tudo na pia.
Um tubo de cor preta foi a sua primeira escolha, passou ao redor dos olhos a tinta escura. Piscou os olhos diversas vezes a se admirar. Um pincel maior que seu nariz espalhou um pó de cor rosada nas maçãs do rosto. Ultrapassou os contornos dos lábios em tom carmim. Nos cabelos prendeu um coque desarrumado.
Passos ligeiros, foi ao quarto e se enfiou em um vestido vermelho, que escondeu seus pés. Calçou um par de sapatos de salto alto maior que seu número. O colar de contas negras alcançava seus joelhos e a echarpe azul de bolinhas amarelas teimava em cair de seus ombros. 
Ao som de Madonna ( Vogue), segurou a barra do vestido, a passadeira do corredor era a sua passarela. Deu uma voltinha desajeitada e seus pés miúdos a conduziram até a plateia sentada na sala de casa: pais, tios e avós. Flashes das câmeras dos celulares, aplausos, risos consanguíneos: sonho de crescer top model.

18 de jul de 2014

O OLHAR CURIOSO DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

Já passava das duas da tarde quando a fome gritou zangada: - hora de almoçar!
São Paulo aos domingos, restaurantes aos montes. Escolhi o restaurante que meu estômago encontrou primeiro. Lotado! A espera por uma mesa foi um tanto demorada, lembro-me que famílias com crianças pequenas permaneciam sentadas em mesinhas na calçada, entre risos e choramingo dos pequenos. Lá pelas tantas consegui a esperada mesa, um bom lugar próximo ao buffet de saladas.
Certamente, pedi uma cerveja, essa a boa pedida que sempre faço. Como sempre, meu olhar começou a girar 360 graus, a buscar elementos para a minha criação blogueira. Algo involuntário, sou meio "voyeur" ( isso já me causou problemas). Dessas cenas cotidianas, vez ou outra, capturo inspiração para meus textos. Não sei mais o que escolhi no menu, possivelmente massa – sou avessa às carnes em geral. Devo ter dispensado a sobremesa, o sentimento de culpa pós-gulodice costuma atacar nesse doce momento. O café bebi sem açúcar, isso faz parte da culpa.
Meu olhar giratório pousou na mesa ao lado. Ali estava alguém que reconheci imediatamente: o escritor João Ubaldo Ribeiro. Vestido de um jeito despojado, estava desacompanhado. Meu olhar rodopiante encontrou seu olhar curioso. Os mortais ao nosso redor lá estavam a ser duplamente analisados, suas vidas a ser imaginadas. De repente éramos os dois a nos observar.
João depositou seu olhar em mim longamente. Por fim, sorriu discretamente e acenou. E eu, tímida e cheia de reverência, devolvi o sorriso, paguei a conta apressada e fui embora. Senti o olhar do escritor a me seguir. Feitiço virado contra a feiticeira, ser capturada pela curiosidade do ilustre escritor me deixou sem graça.
Esse um episódio que nunca esqueci, gosto de literatura e aprecio os escritos de João Ubaldo. Espero que no Céu exista muito a ser desvendado, assuntos que aticem a imaginação dos recém-chegados. Que não falte lápis, papel e nem personagens interessantes que inspirem novas histórias. Siga em paz, João! Naquele dia não consegui lhe dizer que sou sua fã, mas acho que você me compreendeu.

17 de jul de 2014

AOS MEUS DESTINATÁRIOS ( Vida e Amor)

Coisa boba e tão comum escrever um desabafo em um pedacinho de papel e depois rasgá-lo, jogá-lo no vaso sanitário, queimá-lo em uma espécie de ritual do fogo, picar o papel tão miudinho que nem mesmo o mais hábil perito técnico possa juntar os pedacinhos.
Ela escrevia poesias, declarações de amor dessas que fingem não ter destinatários. Depois amassava, rasgava e mandava pra dentro da privada.Até que um dia, simplesmente rasgou a poesia em partes graúdas e atirou-a  na lixeira do banheiro de modo descuidado. Pedaços de papel grandes o bastante para que pudessem ser reunidos em partes, tal e qual um quebra-cabeças.
Distraída, sequer reparou nesse detalhe: a palavra “amor” e a palavra “vida” estavam legíveis, íntegras, apesar do recipiente imundo que as acolheu. Quando o lixo foi deixado na calçada, à espera da coleta, um gatinho rasgou o saco plástico à caça de restos de comida. Os pedaços do papel da poesia voaram pela calçada, deslizaram na sarjeta e dobraram a esquina.
No ponto do ônibus estava a Manuela, desiludida e pensando bobagem, quem sabe atirar-se debaixo de um carro, ou tomar veneno? O vento soprou na sua direção e aquele pedacinho de papel escrito “vida” caiu a seus pés. Papel cor-de-rosa, caneta esferográfica azul. Manuela abaixou-se e recolheu o papel. Em seu trajeto até o escritório leu e releu a palavra "vida", enquanto refletia sobre a importância de viver e a tolice que estava prestes a cometer.
E de pensar que uma poesia picotada teria o dom de salvar a vida de alguém? É por isso que tudo o que é escrito com a alma, ainda que não seja publicado, ainda que seja deletado, ou rasgado, tem a missão de despertar sentimentos. Toda poesia tem destinatário certo, ainda que esse destinatário seja um desconhecido.

13 de jul de 2014

A EXPERIÊNCIA DE TER UM BLOG

Se existe algo que, pra valer, gosto muito e faço sempre, esse negócio é ler. Leio livros, revistas, jornais, blogs, receitas culinárias, bulas de medicamentos, panfletos de propaganda. Leio qualquer coisa.
Assim que comecei a escrever em blogs aprendi que há vida inteligente na internet. Para quem é curioso, basta clicar no alto da página do blog e há um recurso chamado “próximo blog”. Foi desse jeito que encontrei outros seres capazes de escrever poesias encantadoras, cronistas divertidos, pensadores cibernéticos.
Aqui, no Diva Latívia, procuro não abandonar o barco. Há dias de correria, dias nublados e dias nada inspirados. Em contrapartida, há dias de temporal de ideias, dias em que escrevo tanto que o risco é publicar avidamente vários textos novos, todos ao mesmo tempo. Ano após ano, com o direito a quase ter perdido tudo quando um maldito hacker invadiu "minha casa". Sim, isso aqui dá um certo trabalho.
Creio que seja importante manter o blog atualizado. Um tanto decepcionante encontrar um novo blog, bem escrito, mas a última postagem ser tão antiga que resta a dúvida: cadê o autor do blog?
Todo esse trabalho criativo, que deixo aqui aberto à visitação, é um tanto trabalhoso. Cuidar de um blog exige carinho, dedicação, muita responsabilidade também. A divulgação não é fácil, há dias em que os leitores parecem sumir, outros dias em que parecem voltar todos juntos e dispostos a ler publicações de 2010. Inexplicável, recebo muitos elogios, mas poucos comentários são deixados e quase ninguém me segue publicamente.
Quando alguém admira o conteúdo de Diva Latívia e, de modo positivo, critica tudo o que escrevo, costumo manter os pés no chão e afiar ainda mais a minha certeza de que sou mera aprendiz de escritora. O que mudou nos seis anos em que escrevo em blogs foi a qualidade dos textos que navegam no espaço cibernético. Gente que escreve bem, mas nem sempre tem livros publicados. Se eu já tenho um livro? Está a caminho.
Termino o papo com o leitor com a sugestão, quiçá demais generosa: clique no alto da página do meu blog em “próximo blog”. Talvez encontre algo interessante e, se encontrar, divida comigo esse achado. A delícia de nadar neste espaço da internet é descobrir assuntos novos, abraçar igualdades e ampliar os conhecimentos.
Que você sempre volte ao Diva Latívia, um blog que não é um diário,um blog que faz parte da minha vida e que toca o coração de muitos que passam por aqui.  Um blog para quem gosta de ler!

10 de jul de 2014

AMOR E ROSAS

Calor, amor e flor. Quando o vi ali sentado imaginei um roseiral. Seu olhar sorriu iluminado, meu coração disparou. Passou as mãos pelos cabelos, ajeitou-se na cadeira. Pude tocá-lo e sentir o seu perfume.
Ao redor tudo desapareceu e deu lugar à tarde azul. Rosas cor-de-rosa, brancas e amarelas. Meu vestido mais bonito, laço de fita nos cabelos, flor e sol.
Beijei seu olhar e abracei o seu sorriso. Um sonho florido de múltiplas cores, essência rosada, perfume de nós. Pétalas vermelhas em um lindo jardim. Amor delicado de almas afins.

1 de jul de 2014

A TRISTEZA É CHICLETE GRUDADO EM MIM

Seu consolo era a leitura, de que outra forma poderia superar o amargo sabor do adeus? Zé, ai o Zé! Todo homem deveria ter um selo de garantia, todo amor deveria ter prazo de validade. Como sobreviver ao fim do namoro? Mergulhou na leitura, os livros eram companheiros certos que nada pediam, senão os seus melhores sentidos. Debruçou o olhar sobre essas palavras: “Tristeza é chiclete grudado no coração da gente, pega e não solta, doce que perde o gosto, coisa que não larga e parece não ter mais fim”.
As palavras encontradas no livro a fizeram cuspir a goma de mascar insípida e descolorida que há horas mastigava. Tristeza sem fim? Pois sim! Quem escreveu aquilo sequer poderia imaginar quem era o Zé Alfredo e o mal que aquela criatura carregava dentro de si.
O Zé era seu vizinho de muro. Cresceram juntos, estudaram na mesma escola, trocaram o primeiro beijo, inventaram as primeiras juras de amor e foram eles dois que protagonizaram o primeiro fora, o primeiro pé na bunda, o primeiro adeus. O Zé e seu olhar esverdeado, seus cabelos desalinhados, sua barba por fazer. Como esquecê-lo?
Desde o dia da despedida, quando terminaram o namoro em meio a desaforos e gritaria, a tristeza invadiu sua vida: desdita colada ao seu cotidiano, um grude que impedia seus passos livremente.
Assim foi até que ele apareceu sorrateiro, na maior cara de pau. Como se nada tivesse causado aproximou-se de repente, deu-lhe mais um beijo redentor. Feito chiclete de bola, ela se encheu toda. Sim, o maior mulherão da estratosfera, com mil metros de altura e dez centímetros de cintura, foi desse jeito que ela se sentiu: explodiu no ar de incontida felicidade.  Pegou o caderninho de anotações e escreveu assim: “Ai, a vida, a vida é bala de goma com sabor de abacaxi”.
Cuspiu o chiclete de bola e fim!
Plóc!

FORA DE SI, SIMPLESMENTE ( SOBRE A TAL FELICIDADE)

A felicidade escapa entre letras, enquanto a inspiração rabisca versos. Encanta-se nas páginas de um romance açucarado. É saboreada entre golinhos de café e no calor do abraço que entrega afeto. É caminho reto que pulsa quente, latente. Fora de si, simplesmente.
Ser feliz equivale a uma prece, se realiza entre milagres breves, entre beijos sob o cintilar das últimas estrelas. Ser feliz é admirar o amanhecer e nele guardar a mais doce esperança, repousar nos acordes da canção que nina as lembranças. É prosa correspondida, às vezes palavras sem resposta e lançadas ao vento.
A felicidade é um laço de fita que enfeita o coração da gente. Sentimento embalado em sonhos e desembrulhado em contentamento. 

29 de jun de 2014

SAUDADE EM SI ( Para Abílio Manoel)

Saudade em si,
Claves, letras, céu.
Lá, nuvens que fazem nó.
Fá, som ao redor.
Sem ti é tudo dó.
Som, som, som.
Sua voz, música entoada sem ti.
Ré, melodia que te faz aqui.
Canção dentro de mim.
Nosso elo, dó, dó, dói sem ti!
Mi, mi, mi.
Sol, saudade em si.
Mi, saudade em mim.

(É pra você, Abílio. Fique em paz aí no céu e vá pensando no que vamos aprontar juntos na próxima vida. 
Saudade!).

27 de jun de 2014

ABÍLIO MANOEL ( MANINHO, SINTO MUITA SAUDADE)


Abílio Manoel, meu irmão,
Quatro anos longe de suas maluquices, piadas, implicâncias e ideias sensacionais, isso é tanto tempo que parece uma eternidade.
Te amo, mano, e espero que minhas palavras todas fiquem escritas entre as estrelas, pra que você as leia e me devolva o afeto em formato de inspiração.

Diva Latívia ( Cláudia)




Abilio Manoel era cantor, compositor, escritor, cineasta e meu amigo muito amado. Alguém que fez grande sucesso na década de 70, ganhou festivais (o samba rock deve bastante a esse garoto). Tem uma música que ele compôs que, de modo interessante, eu aprendi na escola quando era criança. Algo que, talvez, meu leitor, minha leitora também conheça. Não é a canção que prefiro, mas é simples e muito conhecida. Bom Dia, Amigo!










25 de jun de 2014

A MULHER INVISÍVEL

Era cedo quando o marido passou por ela, carrancudo e apressado, estava de saída para o trabalho. Fez festinha pro cachorro e foi da cozinha para a sala. Passou pertinho sem se despedir dela, que ainda tinha os olhos inchados da noite mal dormida.
A xícara de café esquecida, a esfriar sobre a mesa. O noticiário ainda não lido na página da internet. Estava de cara lavada, cabelos presos em um coque displicente, um visual que espelhava a sua alma. Seu olhar o seguiu discretamente.
Assim que escutou o barulho da porta da entrada fechar, o som da chave a girar na fechadura, ela concluiu: - Eu sou a mulher invisível!

VIUVEZ

O mundo pareceu acabar quando morreu Matilde, esposa mais do que perfeita. A princípio, o viúvo Agenor tramou matar-se 
Quando o elétrico da linha 367 se aproximou, conteve o impulso suicida, embarcou no ônibus e desceu no ponto final. Caminhou trinta metros e esbarrou no cartaz da escola de dança de salão.  
Primeira aula: dois pra lá, dois pra cá. Encontrou Doralice, morena de meia-idade. Ao som do bolero abandonou o luto. 

24 de jun de 2014

A PALAVRA "DESTINO"

Quando eu era criança, apesar da insistência familiar para que eu pronunciasse corretamente as palavras, havia um substantivo abstrato que eu confundia. A palavra “destino” eu trocava pela palavra “intestino”. O meu “intestino” deveria ser de conto de fadas. Não é à toa que o final de algumas de minhas histórias nunca cheirou muito bem.
Intestino, quando solto, é uma tragédia, quando preso, uma desgraça. Do primeiro beijo ao adeus, do Lactopurga ao Imosec, jamais pude aceitar os reveses do “intestino”.
Até hoje, quando algo foge do meu controle, a barriga dói e a fada madrinha desaparece. A carruagem se transforma em abóbora, mistérios intestinais. Miséria do destino.
Não que a vida não cheire muito bem, mas é incrível a estranha coincidência. Sorte (ou falta de), tudo no final se transforma em texto, alguns escritos com batom em papel higiênico, emergência criativa.
Desídias, disenterias, pra isso não há purgante, ou antidiarreico que resolva. Desculpem a história, veio de minhas entranhas: o meu “intestino” não anda lá muito bem. Coisa do destino!

20 de jun de 2014

O AMOR EM TEMPOS DE COPA DO MUNDO

Os dois estavam sentados no sofá da sala. Assistiam no televisor a uma partida de futebol. Ela entediada e ele muito interessado no jogo.
- Querido, estive pensando, vamos  comprar passagens para Paris? Melhor parcelarmos em seis vezes no cartão de crédito. O que você acha se eu pedir pra sua irmã emprestado aquele casaco? No Duty Free tem umas coisas que eu gostaria de comprar. Que tal trazermos presentinhos pra todos? Sabe como está o câmbio? Precisamos de euros.
- Pô! É falta, marca aí juiz!
- Querido, vamos comprar um novo jogo de malas?
- Quem? Apita aí juiz!
- Vou telefonar pra sua irmã e pedir também as botas emprestadas.
- Expulsa esse cara, juiz!
- Que legal, ela me emprestou também as luvas!
- Juiz ladrão!
- Vou entrar no site da agência de viagens, o que acha melhor, comprarmos no seu cartão ou no meu?
- Dá o cartão pra ele!
- Tudo bem, no seu cartão.
- Em seis parcelas?
- Dá o cartão pra esses dois, juiz!
- Só duas parcelas? Você quem sabe, querido!
- Isso mesmo, dá mais cinco minutos aí.
- Agora já era, amor, finalizei a compra, em duas parcelas.

Apita o árbitro, final de primeiro tempo no Maracanã.

- Você falou alguma coisa, Milene?
- Oui! Je suis très feliz!
- Pega lá uma cervejinha pra gente, aquela que eu deixei no congelador.
- Nada disso, vou abrir champanhe!
- Prefiro a cerveja!
- Pra gente comemorar!
- Comemorar o que?
- Paris!
- Que Paris?

Começa o segundo tempo do jogo no Maracanã!

- Paris, as passagens que você comprou hoje!
- É pênalti! Marca aí, juiz cego!
- Um brinde, tim, tim!
- Pra fora! Cara ruim de bola!
- Vou comprar perfumes, todos franceses, uh, lá, lá!
- Tá, tudo bem. Leva essas taças de champanhe daqui, traz a cervejinha?
- Faço tudo o que você quiser, mon amour, Paris, Paris, Paris... Vou à casa de câmbio. Levo seus reais, ou os meus?
- Milene, o que você quer que eu faça pra você parar de falar durante o jogo?
- Os reais!
- Pega na minha carteira.
- Oba, já disse hoje o quanto te amo? Vou até a casa de câmbio, volto mais tarde, tá?Au revoir!

- É gol, gol, gol, goooooooooolllllllllllllllllll!!!!!!!!!!!

19 de jun de 2014

É DIFÍCIL SER DIFERENTE!

Despertei às 06h30, abri os olhos e notei que o dia já estava claro. Bocejei e estiquei meu corpo, um alongamento gostoso que batizaram "espreguiçar". Espreguicei. Todos os dias acordo nesse mesmo horário e, curiosamente, não preciso ser chamada pelo som agudo do despertador.
Tratei de apressar-me, fui ao banheiro, depois rumei para a cozinha. Preparei o café, busquei o bolo de fubá que eu havia preparado na véspera. Sentei-me à mesa e liguei o notebook. Entre um bocadinho de bolo e outro, um gole de café e outro, descobri que hoje é feriado de Corpus Christi. Foi então que compreendi o silêncio na cidade de São Paulo, a sensação de calmaria proveniente da rua, geralmente movimentada, onde resido.
Acordar cedo em pleno feriado, que sina a minha! Não me recordo quando dormi até tarde, deve fazer mais de cinco anos isso. Dentro da minha cabeça tem um cuco maluco que me chama pontualmente às 06h30. Cientistas devem ter alguma explicação pra isso. Pode ser feriado, final de semana, dia frio, ou ensolarado. Enquanto  quase todos dormem até às nove, ou dez da manhã, eu perambulo pela casa, cuido de muitos afazeres. Em compensação, meu expediente termina, no máximo, às onze da noite. Aí, mais uma vez, enquanto a maioria das pessoas se diverte, assiste à TV, ou lê um livro, eu durmo profundamente.
Difícil ser diferente,  mas há um ponto positivo nisso tudo: a maioria dos textos que produzi foi escrita antes das oito horas da manhã. Textos fresquinhos, quentinhos, um pãozinho saboroso que alimenta os sentidos de meus leitores.

Aos que já despertaram desejo bom dia. Aos dorminhocos desejo bom sono.

16 de jun de 2014

ESTILHAÇOS

Busquei letrinhas para juntar e os sentimentos paralisaram meus dedos, não consegui escrever uma só palavra. Insisti algumas vezes, reprovei o resultado. Este é o quinto texto que começo. Gostaria de falar de amor, de carinhos doces e sem fim. As frases não se casaram, nem foram felizes para sempre e eu as compreendi.

Somos parecidas, as palavras e eu, destino semelhante, com dias bons, dias ruins e a sensação ímpar de quem não consegue fingir contentamento. Busquei letrinhas para juntar, encontrei lembranças e estilhaços de esperança que explodiram no céu de mim.

13 de jun de 2014

DEVOLUÇÃO PARA SANTO ANTÔNIO

Dia 13 de junho, Dia de Santo Antônio, santo casamenteiro. Um dia após o Dia dos Namorados, uma espécie de "day after" com a oportunidade de rezar com fé e sair de vez da solidão. Há quem garanta que encontrou um namorado, ou marido após fazer promessas e simpatias. Mas há também quem obteve um milagre e depois se arrependeu do resultado. Duvida? Leia isso!

Querido Santo Antônio,

Santo Antônio pra quem tanto rezei, agradeço a Graça alcançada, o par amoroso que me trouxe. Mas, teve um problema e, desculpe o mau jeito, santinho querido,  preciso devolver o seu presente, aquele cara não pode ser meu pretendente, nem namorado, nem marido. O moço tem um sério defeito: várias namoradas e pavor de compromisso. Esse não é pra casar, acho que não é também pra namorar e, por isso, fiquei empacada, nem só e nem acompanhada. Moço nenhum me corteja, pra não desonrar meu suposto compromisso. Nem posso me cadastrar em um site de relacionamentos, porque acham que sou casada com o dito.

É por isso, Santo Antônio, sem querer fazer desfeita, que te devolvo o traste do jeito que o recebi, com as flores que ele me deu, com os poucos beijos e abraços que me ofereceu. Aproveito a ocasião e reforço o pedido anterior: Santo Antônio, meu santinho, traga pra mim um bom marido!
Amém!


11 de jun de 2014

AMOR, CENTELHA DE ESPERANÇA: AME!

Ame, porque sem amor a vida não faz sentido, não tem graça. Pra dizer a verdade, sem amor a vida não passa, ela se arrasta e nada mais.
É preciso existir um amor, ainda que escondidinho dentro do coração. Um amor quente, que sobreviva às intempéries e que seja uma espécie de herói que nos salva da solidão ocasional, do medo do futuro, das loucuras diárias, do amarelado do tempo.
Tem que haver um amor que seja centelha de esperança, fonte de felicidade, pra gente encostar a cabeça no travesseiro depois de um dia complicado e somente a lembrança do ser amado valer por todas as preces.
Porque o amor salva,  o amor cura, o amor rejuvenesce, o amor devolve sonhos e alimenta a alma. Então, nada melhor do que amar. O que você está esperando? Ame!

Feliz Dia dos Namorados!

EU TE AMO!

Sei que muitas pessoas procuram meu blog para encontrar aqui inspiração para escrever uma carta de amor, uma frase legal para uma mensagem. Há muitas coisas por aqui, mas vou lhes contar uma coisa: amor não se copia, amor se cria!
Ainda que você não seja escritor, não seja poeta, não saiba o que escrever em um e-mail ou torpedo no celular, basta dizer simplesmente “te amo”, ou “gosto de você”. O que há de tão poderoso nessas duas formas de expressar afeto? Há o mundo em poucas palavras. Dizer “eu te amo” é algo que costuma ser cuidado, medido e, às vezes, evitado. Como se amar fosse um compromisso que caminha à beira do abismo, ou correntes que prendem e impedem a liberdade. Uma bomba que faz tic-tac e está prestes a explodir.
Mundo estranho o nosso! Mandar alguém pra algum lugar pouco bonito de se escrever é fácil, mas dizer “eu te amo” pode causar desconforto, sensação de claustrofobia, pode ser comprometedor! Ser romântico pode parecer babaquice, tolice, até burrice. Ser indiferente, ou medir as palavras, causa uma sensação de segurança e invulnerabilidade: estou protegido(a), não disse eu te amo, nem demonstrei que gosto dele(a), estou são(sã) e salvo(a)!
“Eu te amo” são três palavrinhas que carregam o mundo dentro de si. Podemos dizer “eu te amo” para nosso par romântico, para nossa família, nossos amigos, nossos animaizinhos de estimação, para o sol, a lua, o mar, para nós mesmos! Não dói, não machuca, não nos torna bobos, nem é arriscado, é pura e simples expressão sincera de afeto. Para que este nosso mundo melhore, sem tantos problemas graves, sem tanta violência, sem tanto egoísmo, temos que exercitar mais vezes o amor. Pois que seja assim, dizendo “eu te amo” pra alguém, pelo menos uma vez ao dia.
Não é preciso escrever versos, nem é preciso saber escrever nada. Basta ter um coração e a boa vontade de amar. Essa é a minha sugestão pra vocês que aqui chegam e procuram boas ideias para escrever textos apaixonados. Seja simples, seja você mesmo(a) e diga o que sente em poucas palavras.

Eu te amo!

10 de jun de 2014

BEIJOS COM SABOR DE CARAMBOLA

Quando ele se aproximou de seu rosto, no quintal da casa e sob o pé de carambola, ela fechou os olhinhos muito negros e sentiu a respiração acelerada do garoto. Quantos anos eles tinham? Buscou em suas lembranças as datas, o tempo havia passado tanto que concluiu que isso não tinha importância. 
Eram duas crianças. Ele, um menino com os cabelos desalinhados, muito magro e sua pele queimada de sol. Ela, com aparelho nos dentes, sardas na face e laço de fita nos cabelos. O primeiro beijo tão apressado, o pedido de namoro. Ele, seu primeiro namorado. Depois a vida correu em sentidos opostos, a mudança de cidade, o fim da adolescência, o vestibular de medicina, não mais se encontraram. Ele se casou, ela morou na Europa, perderam o contato.
Voltou a fazer as contas, talvez quarenta anos, esse o tempo que havia passado desde aquela sensação de medo e delícia, tudo junto e ao mesmo tempo. O papel que embrulhou o primeiro presente que ganhou estava amarelado pelo tempo. Uma recordação dentro de uma caixa.
Aos cinquenta anos de idade visitou sua cidade natal. Buscou amigos de infância e soube que ele era avô, um senhor calvo, gordinho, dono de uma concessionária de veículos. Arriscou ir à loja. O tempo modifica tudo, mas na primeira troca de olhares se reconheceram, eram duas crianças outra vez. Um beijo longo, sem pressa e sem promessas. Voltaram a ser meninos. Amor passado, amor presente. Primeiro namorado, beijos com sabor de carambola.

8 de jun de 2014

DIA DOS NAMORADOS ( AME!)

Namorar é tão bom que o tempo deveria parar nesse instante e eternizar-se, entre beijos e mais beijos, sonhos e mais sonhos, entre todos os planos e desejos, sem futuro, só presente, todos os dias, infinitamente. Com um laço de fita com sabor de lua de mel e cores escorridas de paixão. 
Namorar é brilho escancarado no olhar e sorriso que devora os pensamentos. Despertar de sonhos adormecidos, adormecer de almas entrelaçadas. Doçura em gestos, paz pincelada de afeto. Energia vital, força divina que aquece o peito e se traduz em afagos sem fim. 

Seja feliz, ame, namore, viva! Nesta vida o que existe de mais significativo e valioso é o amor que levamos no peito e entregamos a alguém. Amar, isso torna a vida muito mais bonita. Feliz Dia dos Namorados!

7 de jun de 2014

UM TEXTO NADA INSPIRADO

O texto do final de semana entalou em minhas ideias, de um jeito tão justo e sob um sufoco tão grande que logo deduzi: ela foi embora. A inspiração gosta de brincar de esconde-esconde, pega-pega, duro ou mole. Na brincadeira de mocinho e bandido ela já foi o bandido várias vezes.
Perdi as contas, não sei quantas vezes fui por ela assaltada no meio da noite, em locais públicos movimentados, em situações socialmente inaceitáveis. Quantas vezes precisei de socorro urgente, uma caneta qualquer, um pedaço miúdo de qualquer papel. Cheguei a fazer de lápis batons, lápis de olhos. Justamente agora, sábado, aqui preparada e feliz com meu café com leite a esfriar, minha convidada não apareceu.
Talvez, a inspiração esteja adormecida, esteja de ressaca, ou bem acompanhada e dormindo de conchinha com seu amor. E eu, caro leitor, deixo aqui este breve texto de sábado, sem a inspiração, mas com as palavras que fluem facilmente na ponta dos meus dedos. Um texto solo, nada inspirado.

6 de jun de 2014

UMA PRECE PARA NÃO PARAR DE SONHAR

Que eu não perca a capacidade de sonhar, ainda que a vida me convide a perder o brilho do meu olhar.
Que eu não desista de amar, ainda que o amor alheio seja raro, miúdo e indiferente a mim.
Que eu não desista de meus planos mais bonitos, por medo, dúvidas e deduções injustas.
Que eu tenha a coragem de desmanchar tudo e recomeçar, quantas vezes for preciso.
Que eu não esqueça que a vida é rara e breve, não perca tempo a seguir caminhos equivocados.
Que eu tenha as palavras certas para confortar a dor alheia, o coração aberto para reconhecer a amizade.
Que eu viva até o fim com dignidade e a mesma coragem que me ensinou a aceitar aquilo o que não posso modificar.
Que eu não fique só, mesmo em momentos ocasionais de solidão.
Que tudo isso faça parte de meus gestos, palavras, pensamentos e atitudes, diariamente. Amém.

5 de jun de 2014

POEIRA DAS LEMBRANÇAS

Pensei em contar-lhes o que se passou comigo. Como eu já disse uma vez por aqui: ah, já que o blog é meu, então abusarei do olhar aqui derramado – o seu olhar, caro leitor – e entregarei um pedacinho de minha história contemporânea.
A casa antiga, de meus falecidos pais, está à venda. Um imóvel que foi o cenário de muitas alegrias, muitos encontros de parentes e amigos, paredes que assistiram a décadas da minha vida e da vida da minha família.
Todas as vezes que entro na casa sinto algo parecido com o que um ator sente ao ver o teatro vazio, sem plateia. Os espetáculos foram ali encenados, houve aplausos e alegria, mas hoje as luzes estão apagadas e não há um espetáculo em cartaz. Fiquei para apagar essas luzes, eu e toda a imensidão do vazio ao meu redor. Muitos textos escrevi ali, em meu antigo quarto. Muita inspiração brotou naquele endereço, uma rua tranquila da cidade de São Paulo.
Semana passada, depois de muita hesitação, eu me enchi de coragem e decidi buscar todas as fotografias antigas, guardadas no alto de um armário no aposento que foi o escritório do meu pai. Peguei uma escada, fiz uma espécie de prece para reforçar a coragem e deparei-me com muitas caixas de papelão, todas com um conteúdo que, pra mim, era um verdadeiro mistério. Segredos de minha mãe, talvez. Objetos bem guardados, uma herança de valor estimativo incalculável. Fotografias, fitas de vídeo, fitas cassetes, LPs de músicas clássicas, bonecas de porcelana, papéis aos montes dentro de pastas.
Desci da escada com meu coração aos pulos, talvez a mesma sensação de quem desenterrou um tesouro. Aquilo tudo estava ali guardado há muitos anos, sem que ninguém tivesse ousado profanar um santuário de memórias significativas, importantes para meus antepassados.
Fiquei ali no escritório parada, olhei pro alto durante muito tempo e admirei à distância a confusão daquele amontoado de relíquias. Voltei ao topo da escada e puxei uma das caixas de papelão, aliás muito pesada. Dentro estavam os álbuns de fotografia. Sentei-me no chão e abri o álbum de fotos de casamento dos meus pais. Lindos, jovens, sorridentes, eternizados. A casa de meus avós ali ainda existia, todos jovens em seus sorrisos, havia a certeza da eternidade.
Não sei quanto tempo esqueci da vida e me deixei levar pelo passado e por minha fértil imaginação e insaciável curiosidade. Uma lágrima teimosa desceu pelo meu rosto, saudade aperta muito o coração e inunda os olhos feito um mar. Enxuguei as lágrimas com o dorso de minha mão. Uma poeira fininha e muito preta cobria aquelas fotos, todas elas. Decidi trazer pra minha casa o meu tesouro, para organizar e guardar comigo aquele mundo de lembranças em preto e branco.
Um apartamento pequeno não comporta tantas recordações, mas dei um jeito de empurrar documentos e toda minha papelada para um lado e ajeitei como pude aquela caixa de papelão no canto da sala. De vez em quando eu pegava um álbum, outro, uma foto e outra, mostrei para meus amigos do Facebook o quanto eu era bonitinha em meus tempos de criança, a noiva bonita que foi minha mãe, meus irmãos ainda pequenos.
No dia seguinte amanheci com meus olhos muito vermelhos, coçavam sem parar. Logo deduzi: alergia, só pode ser isso. Fiz uma compressa de água fria, mas nada parecia amenizar o desconforto, que piorou tanto que precisei ir ao oftalmologista. O diagnóstico: conjuntivite viral. Medicada e cheia de recomendações médicas, passei a cuidar-me com mais atenção e a tentar descobrir como que fotografias antigas podiam ter infectado meus olhos.
Isso completou uma semana, já estou melhor, mas continuo com os olhos inundados de um mar de lágrimas a cada nova foto que admiro, afinal pra saudade não existe remédio.
Cheguei à conclusão de que a conjuntive aconteceu por culpa do vírus, mas especialmente porque doeu muito ver a vida perfeita flagrada por flashes de momentos únicos e mágicos. Momentos que hoje pertencem a um passado muito longínquo e cujos personagens envelheceram, ou faleceram.  De fato, eu preferia não ter visto nada disso, apesar de gostar muito das fotos de minha família.
Não é à toa que minha mãe guardou aqueles pertences no alto de um armário e fechou a porta para não mais olhar aquilo tudo. Tento imaginar quantas vezes minha mãe chorou ao olhar aquelas fotografias. Com meus olhos irritados e somados às lágrimas de orfandade, guardei a caixa de papelão em um armário bem alto de minha casa, para o futuro, ou quem sabe para nunca mais.
Episódio verídico ocorrido comigo, que por aqui assino Diva Latívia. Hoje voltei ao cenário do passado e resisti à necessidade de novamente trazer comigo recordações empoeiradas. Passado e presente, entre nós a poeira de recordações muitas.

4 de jun de 2014

ENTRE RENDAS E RESTOS DE SI

Entre rendas e restos de si, ela abriu a caixinha de costura e buscou descuidadamente o retrós de linha azul. Espetou o dedo na agulha e admirou a gotinha de sangue a despontar reluzente. Feito criança, lambeu o dedo na tentativa de curar a ferida.
Deixou de lado o conserto da meia rasgada, viajou em pensamentos distantes. A vida remendada, o coração trincado, o olhar emoldurado por ruguinhas de preocupação e cores de tristeza. O que se rasgou afinal?
Aterrissou dos pensamentos e voltou à costura, um band- aid no dedo anular. Tratou de correr contra o tempo, faltava pouco para o meio-dia. Manhã fria, a meia costurada calçada no pé. Fechou a caixinha de costura e saiu apressada.
O mundo lá fora a correr ligeiro, indiferente ao seu dedo ferido, ao seu coração partido, ao seu olhar apagado. Não havia tempo a perder, mergulhou na multidão, passos apressados.
Naquele dia não mais pensou na vida, a meia em seu pé voltou a rasgar, no dia seguinte novamente abriria a caixinha de costura para buscar o retrós de linha azul. Retalhos de sua rotina.