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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







28 de fev de 2014

O CARNAVAL DAS CIGARRAS

Mais um Carnaval! Meu bloco não sairá às ruas. Munida de dois livros, que pretendo ler nesses dias de folia: Eva Luna, de Isabel Allende e A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, minha fantasia será a de leitora que viaja a todos os lugares, sem passaporte e à bordo da imaginação.
A cidade começa a se tornar diferente, os foliões estão nas estradas, rumaram para lugares distantes, onde a festa promete ser alegre. Desde criança, não gosto do barulho dos tamborins, que me desculpem todos aqueles que apreciam as escolas de samba, as marchinhas de antigamente, mas eu prefiro o sossego do meu lar, ou então a paz de algum lugarzinho sem muito barulho, sem lembranças de Rei Momo.
Sou aquele tipo de pessoa que faz do dia a dia a sua festa, nada daquilo o que é determinado pela sociedade me conduz. Nem o Natal, nem o ano novo, nem o Carnaval. Não sou vaca marcada em meio ao rebanho, nem sou alienada, eu penso livremente, portanto meu Carnaval acontecerá quando eu assim o desejar, talvez em agosto, quem sabe em maio?
O que mais me preocupa é o excesso de dias parados. Um país pobre e que tanto precisa de desenvolvimento, damo-nos ao luxo de quatro dias de folga e, pior do que isso, ao luxo de começarmos o ano depois do Carnaval. Será que eu deveria, neste momento, desejar-lhes feliz ano novo? Neste ano, tanto pior para nós, virá a Copa do Mundo de futebol e, depois, eleições. Um ano desperdiçado. 
Enquanto isso, os tamborins são aquecidos, nada importa, o que vale mesmo é a alegria, é o momento, o amanhã não interessa agora. Os resultados disso virão em forma de insatisfação, de maus resultados em projetos a médio e longo prazo, sejam esses projetos de trabalho, ou de estudos. Sabem lá o que sejam exatos dois meses a empurrar a vida com a barriga, a esperar março para começar a agir, começar a estudar, começar a pegar firme no trabalho? Aqui a coisa funciona assim, aqui em terras tupiniquins.
Tudo é questão de postura, quem não arregaça as mangas e se coloca totalmente à disposição de seu desenvolvimento pessoal, do verdadeiro desenvolvimento de seu país, não progride. Eis a diferença entre os países de primeiro mundo e o nosso país. Postura! Mas, isso nada tem a ver com tamborins, evidentemente. Certo? Qualquer coisa parecida com a fábula de Esopo, “A Cigarra e a Formiga”, não é simples coincidência. 

Moral da história:  “ não penses só em divertir-te, trabalha e pensa no futuro”.



26 de fev de 2014

CONFETINHO

Eu era uma folha de papel, essa minha última recordação. Apaguei quando me colocaram sobre uma prensa, ou algo assim. Acordei dolorido e colorido, notei que não estava sozinho. Eram tantos desconhecidos dentro daquele pacote, cada um de uma cor: verde, azul, cor-de-rosa, amarelo. Notei a minha cor, eu era azul. Um tom meio desbotado, esmaecido.  
Havia muito pouco espaço, estávamos todos, praticamente, prensados. Espremidos e colocados dentro de uma sacola. Tive sorte, minha visão era privilegiada, fiquei junto ao plástico transparente da embalagem. De lá fomos pra dentro de uma caixa de papelão, onde havia outras sacolas plásticas iguais à nossa. Ficou tudo escuro, balançamos muito, pra lá, pra cá. Ouvi vozes, eram humanos conversando. – Zé, essa caixa de confetes aqui é pra loja da Rua das Flores! Balancei tanto que até fiquei tonto. 
Não sei dizer quantos dias se passaram até que pegaram a sacola onde eu estava, fui parar em uma prateleira. Eu precisava  ser comprado, essa a minha única esperança de liberdade. Tratei de ajudar a sorte. A cada mão que esbarrava em minha embalagem eu me aprumava e sorria. – Hei, me leve com você! Quase fui escolhido, várias vezes.
Os dias foram passando e passando. As prateleiras mais e mais vazias,  as outras sacolas , quase todas elas, foram embora nos braços de gente desconhecida. Eu já tinha perdido a esperança, quando senti que alguém me tirou da prateleira. Finalmente! 
Novos balanços, pra lá, pra cá. Risos, música alta ( ala la ô, ô, ô, ô!). Abriram a minha embalagem. Pude, depois de tanto tempo de confinamento, respirar. Meus colegas de saquinho eram, pouco a pouco, libertados. Fui lançado para o alto, bailei no espaço, dei cambalhota, rodopiei feliz a dançar no ar, a girar, girar... Livre, finalmente, livre... Renasci!

25 de fev de 2014

O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS


21 de fev de 2014

LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS

Acordei mexida. Sim, mexida, remexida e atentem para o detalhe: sem rebolado! Ao contrário de minha Tia Assunta, ex-vedete do teatro de revista, não gosto de muito brilho, nem maquiagem, fujo dos flashes fotográficos e minhas vestes são discretas.
Sabem a farmácia ali da esquina? Aquela do japonês! Precisei levar uma blusa à lavanderia e o caminho a pé é relativamente curto. A miopia me obriga a usar óculos, as lentes de contato incomodam meus olhos. Cabelos presos, camiseta branca e calça jeans, lá fui eu por detrás das grossas lentes de grau. Distraída, sempre a pensar em novas ideias para meu livro, tropecei em algo parecido com um tijolo. O dedão do meu pé esquerdo esmigalhado, dolorido, ferido. Mais do que isso, dei mau jeito na coluna. Mais do que depressa, o farmacêutico veio em meu socorro. Curativo, palavras de conforto e uma caixa de um medicamento que, segundo informou, era inofensivo e porreta para curar toda e qualquer dor corporal. Voltei pra casa mancando, capengando.
Duas horas mais tarde, ainda a ver estrelas tal era a dor nas costas, decidi tomar o remedinho. Antes, li a bula. Letrinhas minúsculas, palavreado complicadíssimo. Analgésicos deveriam ser tomados com receita médica, mas eu não iria a um pronto-socorro para tratar um machucadinho simples, claro que não. Pensei um pouco e, por fim, tomei o remédio.
Deitei-me no sofá. Assim planejei: somente dez minutinhos de descanso para ajudar o medicamento a fazer efeito, depois continuarei meus afazeres. Fechei meus olhos. Adormeci e sonhei que estava em um lugar onde os animaizinhos, todos muito simpáticos, eram coloridos e fofinhos. Cores diversas: azul, laranja, cor-de-rosa. Eu deslizava, sem tocar meus pés no chão, como se andasse de skate.  Sobrevoava o arco-íris. As nuvens do céu eram esverdeadas e as flores do jardim brilhavam, com se fossem cobertas de purpurina. Um homem desconhecido apareceu e me disse assim:-  Lucy, você precisa provar quem é, cante a senha! E eu cantei “Lucy In The Sky With  Diamonds”, enquanto mergulhava em um riacho de marshmallow com morangos de todas as cores. Strawberry fields!

Despertei hoje, o dia seguinte. A coluna ainda pior, o dedão do pé inchado e dentro de minha cabeça parece acontecer um ensaio de escola de samba. E eu mexida, remexida, jurei que logo mais irei claudicante à farmácia tomar satisfações com o tal japonês. Viagens, todas elas, deveriam acontecer de modo planejado, malas prontas, passaporte em mãos. Um simples remedinho, que tremenda confusão! Bad trip!

17 de fev de 2014

AOS MEUS PÉS

Apaixonei-me à primeira vista. Quando o vi ali, no shopping center, eu sei disso, abri um sorriso franco e feliz. A primeira sensação que tive foi a de ter encontrado aquele que eu tanto esperava. Dizem que a primeira impressão é a que fica, não sei dizer se essa afirmação é correta, mas a primeira impressão que tive foi a de ter encerrado minha busca incansável. 
Meus sentidos todos entraram em ebulição, quis tocá-lo!Decidi prová-lo! Sentei-me confortavelmente, a ansiedade me fez deixar de lado o celular que tocava insistentemente dentro de minha bolsa. O mundo pareceu ser desimportante por alguns minutos. Nada mais me importava, somente ele!
Olhei ao redor, gostaria que ninguém me observasse naquele instante. Eu estava extasiada, praticamente hipnotizada quando o toquei pela primeira vez, publicamente. Notei uma senhora de meia idade a me observar, seu olhar cruzou com o meu olhar e eu, rapidamente, tentei disfarçar minha intenção de levá-lo comigo pra casa. Ele seria meu, só meu!
Ele aos meus pés, que escândalo.  Lindo! Caminhei sobre o carpete da loja e me olhei no espelho. Confirmado: era ele mesmo! Decidi levá-lo embora para a privacidade do meu lar. Scarpin estilo Chanel, cor preta, tamanho 37, salto 7. Par mais do que perfeito, encontro sensacional!

14 de fev de 2014

AH, O AMOR...

Da janela do quarto ela o viu do outro lado da calçada. As noites de verão causavam sua vigília interminável. Horas e horas a papear com a insônia. De tudo havia feito para adormecer, tentativas inúteis. Por fim, buscou um copo d´água e debruçou-se na janela, a observar o movimento de pessoas e veículos barulhentos que iam e vinham. Assim que, ao longe, observou aqueles cabelos grisalhos, seu coração acelerou. Era ele! Sua primeira intenção foi a de gritar seu nome: - Sérgio! Oi!
Conteve-se. De camisola, não havia muito tempo a perder, naquela altura dos acontecimentos ele já deveria ter alcançado a esquina. Mais do que depressa vestiu a primeira roupa que encontrou, o vestidinho sobre a cadeira. Calçou um chinelo e, ainda prendendo os cabelos com um grampo, chamou o elevador. Chegou à rua e não mais o viu. Foi à esquina, olhou para todos os lados e nada dele. Estaria louca, teria visto alma do outro mundo? Não era possível, aquele era ele. O jeito de andar, a camisa cinza que ele gostava de usar. Era ele sim! Voltou pra casa caminhando lentamente, cabisbaixa e mergulhada no passado.
Pegou o celular e hesitou durante alguns minutos. Telefono pra ele, ou não telefono? Sentiu um frio desconfortável a percorrer sua espinha. Respirou fundo e assumiu o risco de fazer papel ridículo: telefonou. Do outro lado a mesma gravação, a voz grave de Sérgio, a mensagem que lhe pareceu tão familiar: “você telefonou para o Sérgio, por favor deixe o seu recado, obrigado”. Balbuciou um recado: “ Sérgio, se você escutar meu recado, estou acordada, quero muito conversar com você”.
Isso fazia oito anos. Sérgio não telefonou, ela sequer soube se ele escutou o recado. O tempo passou, muitas outras vezes foi à janela e não mais o avistou. Sérgio se perdeu na multidão e, pouco a pouco, a dor de sua ausência foi enfrentada. No dia em que mudou de apartamento, de novo deixou um recado naquela caixa postal de celular, disse seu endereço. Mandou também um e-mail, que voltou com aquele recado infeliz e cibernético: “undisclosed recipientes”. Sérgio simplesmente sumiu sem dar a menor satisfação.
Oito anos é tempo suficiente para empalidecer as lembranças, mas ela guardava cada detalhe em sua memória, tudo parecia ter acontecido ontem. Para curar a insônia, aprendeu técnicas de meditação, tornou-se adepta da yoga. Estava certa de que tudo aquilo pertencia ao seu passado, uma enorme lacuna que não merecia explicação.
O presente de Natal que faltava ser comprado,  isso ela deixou para escolher no horário do almoço. Saiu do escritório e, sem perder tempo, entrou na livraria. Entre poesias de Drummond sentiu alguém tocar levemente seu ombro. Virou-se e mal podia acreditar: era ele, o Sérgio. Mais grisalho e charmoso do que nunca!
Em sua cabeça passaram todos aqueles anos, um flashback triste e inevitável. Ele falou alguma coisa que não foi possível compreender, tal era a barulheira que fazia seu coração a bater disparado. Sentiu as mãos frias, a garganta seca. Tentou disfarçar, derrubou um livro no chão.
Somente voltou a si quando ele disse: - foi bom te ver, estou com um pouco de pressa, tenho que buscar meu filho na escola. Tchau, Dorinha!
Sua cabeça rodava: Filho? Ele tinha filho? Talvez tivesse se casado. É, provavelmente ele se casou. Casou com outra, não casou comigo. Teve filho com outra, não teve filho comigo.Chorou publicamente. 
Foi embora da livraria sem comprar o presente e somente se recompôs quando, meses depois, conheceu o Daniel, também grisalho. Se conheceram naquela mesma livraria, onde ela passou boa parte de seu tempo de modo persistente, compulsivo. Meses e meses, com a vã esperança de mais um reencontro.
Rei morto, rei posto. Um grisalho por outro grisalho. Restava apenas convencer seu coração, que até hoje anseia por outro golpe do destino, um novo encontro, uma oportunidade para poder perguntar: que filho? 
Ah, o amor...





8 de fev de 2014

AOS QUE AMAM

O amor em frases manuscritas, caligrafia redondinha desenhada no papel.
Bê-á-bá ditado por lembranças vivas, que desafiam as horas, os dias, o passar do tempo. Alfabeto  ilegível, anotado em um bloquinho de recordações.
Papel perfumado, colorido, tinta azul. Amor sem rima, esboço preparado para a próxima publicação.
Traços indecifráveis, apagados em vão. Marcas permanentes. Amor eterno, amor-paixão.
Frases soltas, tortas, rabiscos assinados pelo coração. Amor em letrinhas, inspiração.


7 de fev de 2014

A DESILUDIDA DA REPARTIÇÃO

Moramos em um país tropical, clima variado de norte a sul, leste a oeste. Inverno pra valer? Esqueça! Há os friorentos de plantão que se queixam do frio durante o inverno, mas frio de verdade existe somente no hemisfério norte do planeta. Friozinho não é frio pra valer. Porém, por aqui, em território tupiniquim, provamos o calor tropical com toda a intensidade possível. Haja calor neste verão! Escrevo este texto na cidade de São Paulo, a famosa “terra da garoa”. Neste momento, 14h00, sobrevivo a 35 graus de temperatura na sombra. Sob o sol o calor é outro e muito mais intenso.
Diva Latívia não gosta muito do calor. Verão é bom pra quem está na praia, de preferência pulando ondinhas do mar. Paulistanos em geral usam roupas sociais para trabalhar de segunda a sexta-feira.  As mulheres podem usar vestidos, blusinhas sem manga, sandálias, mas precisam prender os cabelos se não quiserem terminar o dia com o visual de quem foi à sauna totalmente produzida. A maquiagem derrete, os cabelos espetam, cacheiam, não há penteado que resista.  Meu eterno companheiro tem sido um leque que adquiri em uma feirinha no bairro da Liberdade, tradicional reduto oriental. Sinto que estou em ebulição!
Lidar com documentos, papéis, carimbos, ir a repartições públicas, isso faz parte da minha rotina profissional. Há alguns dias, mais uma vez quase morta de calor, escolhi um vestido comportado, comprimento acima do joelho. Para o frescor dos meus pés usei uma sandália. E lá fui eu, me abanando com o leque, para o segundo andar da tal repartição. Para ser atendida naquele forno precisei de uma senha. Busquei um lugar para sentar-me, achei uma cadeira perto da janela. Dez, quinze minutos. Passei a observar meus companheiros de infortúnio, gente que esperava ansiosa o chamado de seu número no painel eletrônico. Bingo infeliz!
Lá pelas tantas, chegou ao local um senhor com idade para ser meu pai. Barba e cabelos brancos, barriguinha protuberante. Pegou sua senha e resmungou alguma coisa intraduzível. Sentou-se distante de mim. Inquieto, parecia impaciente. Foi ao balcão de atendimento queixar-se com o funcionário, o pouco que escutei levou-me a crer que não estava nada disposto a esperar o  chamado da senha. Idosos tem atendimento prioritário, mas antes dele haviam chegado outras pessoas idosas. O jeito era esperar sua vez.
Eis que decidiu sentar-se perto de mim. Pareceu um filme antigo, em preto e branco, em “slow motion” ele dirigiu a mim um olhar significativo. Sou ótima quando o assunto é decifrar gente desconhecida. Apostei comigo mesma que o velhinho pensou: ai meu tempo de garoto, quando eu tinha cinquenta anos...
Colocou os óculos na ponta do nariz, pigarreou e veio aos pouquinhos, passo a passo na minha direção. Olhou fixo para minhas sandálias e subiu o olhar até meus joelhos. Há quanto tempo alguém não admirava assim os meus joelhos? Nada de errado com minhas pernas, mas hoje em dia homens costumam estar distraídos, atarefados e gostam de admirar outros atributos femininos.  Ajeitei-me na cadeira, não sabia se me sentia lisonjeada, ou chateada, afinal eu estava vestida de acordo com o decoro profissional exigido para o meu trabalho. Joelhos deixaram de ser escondidos pelas mulheres há meio século, pelo menos. Qual seria o adjetivo para qualificar um tarado por joelhos?  Joelhófilo?
Descruzei as pernas, tratei de juntar os pés  bem  juntinhos e firmá-los no chão. Pensei: com tanto calor, como eu poderia ter vestido uma calça comprida? Flagrei-me acanhada. Um velhinho a provocar o meu pudor! Coloquei a pasta de documentos sobre meus joelhos. Decidi tapá-los. Ele desviou o olhar, depois novamente pigarreou e pareceu grudar os olhos nos meus pés. Justamente quando eu estava com os pés horríveis, não havia tempo para ir à pedicure.
Resolvi levantar-me e perguntar ao atendente da repartição se aquilo tudo iria demorar demais. Levantei-me e senti o olhar do vovozinho a me acompanhar com atenção. Arrisquei observá-lo, discretamente. Nossos olhares se cruzaram e ele sorriu simpático. Creio, devolvi o sorriso.
Mais cinco minutos e, finalmente, meu número de senha foi contemplado. Feliz da vida, tratei de resolver depressa a questão e, quando eu desci os dois lances de escada e alcancei a rua, lá na calçada, virei-me vitimada pelo magnetismo do vovô para o edifício da repartição. Pude observá-lo na janela. Acenou pra mim.
Voltei pro escritório pensativa. Paquerada pela terceira idade, quem diria? Senti a mistura de satisfação com medo da velhice. Até outro dia eu aparentava muito menos idade do que denuncia meu RG. Será que preciso de plástica, botóx, coisas assim? Já estava procurando o cartão do cirurgião plástico em meio a caixas e pastas quando tocou meu celular. Atendi a chamada de um número não identificado.
– Diva? Aqui é o Ernesto, amigo do seu pai, lembra de mim?
– Doutor Ernesto? Como vai o senhor?
– Bem, obrigado, querida. Telefonei para lhe avisar que você esqueceu seu leque sobre a cadeira da repartição.
Foi então que juntei os fatos e compreendi que o velhinho paquerador era ninguém menos que um grande amigo do meu pai, o Doutor Ernesto, médico vascular. Minha cabeça rodou durante alguns segundos. Escolhi a saída de emergência, fingi naturalidade. – Doutor, o senhor me desculpe, eu estava sem meus óculos de grau, mas o achei tão familiar. Por que não falou comigo?
- Diva, liguei para devolver o seu leque e para lhe dizer que você precisa cuidar de suas varizes! Mulheres de meia idade, após a menopausa, precisam redobrar os cuidados com a circulação. Se quiser, posso indicar um cirurgião da minha equipe.
A ficha caiu. Mas, a ficha caiu como um bloco de concreto bem pesado. Varizes, eu? Meia idade eu? Pós menopausa eu? Que desilusão! Há instantes eu me sentia uma espécie de musa do vovô!
- Ah, obrigada, Doutor, eu entrarei em contato com o senhor assim que chegar o outono, pode deixar. Como vai a família? Como vai sua senhora? Como vai a vida? Obrigada por sua atenção. O leque? Ah, eu passarei um dia desses no seu consultório para buscá-lo. Ah, sim tomaremos um cafezinho. Obrigada, um abraço, tenha um bom dia.

Tive pensamentos compulsivos! Botóx? Preenchimento facial? Peeling de diamante? Ácido retinóico? Silicone? Um bom psiquiatra? Escolhi outra alternativa. Fui embora pra casa, fiz minha malinha e fui pra praia. Passei o final de semana bronzeando minhas pernas, ou melhor, minhas varizes. Indignada. Indignadíssima! Que varizes? Eu não tenho varizes!