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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







7 de fev de 2014

A DESILUDIDA DA REPARTIÇÃO

Moramos em um país tropical, clima variado de norte a sul, leste a oeste. Inverno pra valer? Esqueça! Há os friorentos de plantão que se queixam do frio durante o inverno, mas frio de verdade existe somente no hemisfério norte do planeta. Friozinho não é frio pra valer. Porém, por aqui, em território tupiniquim, provamos o calor tropical com toda a intensidade possível. Haja calor neste verão! Escrevo este texto na cidade de São Paulo, a famosa “terra da garoa”. Neste momento, 14h00, sobrevivo a 35 graus de temperatura na sombra. Sob o sol o calor é outro e muito mais intenso.
Diva Latívia não gosta muito do calor. Verão é bom pra quem está na praia, de preferência pulando ondinhas do mar. Paulistanos em geral usam roupas sociais para trabalhar de segunda a sexta-feira.  As mulheres podem usar vestidos, blusinhas sem manga, sandálias, mas precisam prender os cabelos se não quiserem terminar o dia com o visual de quem foi à sauna totalmente produzida. A maquiagem derrete, os cabelos espetam, cacheiam, não há penteado que resista.  Meu eterno companheiro tem sido um leque que adquiri em uma feirinha no bairro da Liberdade, tradicional reduto oriental. Sinto que estou em ebulição!
Lidar com documentos, papéis, carimbos, ir a repartições públicas, isso faz parte da minha rotina profissional. Há alguns dias, mais uma vez quase morta de calor, escolhi um vestido comportado, comprimento acima do joelho. Para o frescor dos meus pés usei uma sandália. E lá fui eu, me abanando com o leque, para o segundo andar da tal repartição. Para ser atendida naquele forno precisei de uma senha. Busquei um lugar para sentar-me, achei uma cadeira perto da janela. Dez, quinze minutos. Passei a observar meus companheiros de infortúnio, gente que esperava ansiosa o chamado de seu número no painel eletrônico. Bingo infeliz!
Lá pelas tantas, chegou ao local um senhor com idade para ser meu pai. Barba e cabelos brancos, barriguinha protuberante. Pegou sua senha e resmungou alguma coisa intraduzível. Sentou-se distante de mim. Inquieto, parecia impaciente. Foi ao balcão de atendimento queixar-se com o funcionário, o pouco que escutei levou-me a crer que não estava nada disposto a esperar o  chamado da senha. Idosos tem atendimento prioritário, mas antes dele haviam chegado outras pessoas idosas. O jeito era esperar sua vez.
Eis que decidiu sentar-se perto de mim. Pareceu um filme antigo, em preto e branco, em “slow motion” ele dirigiu a mim um olhar significativo. Sou ótima quando o assunto é decifrar gente desconhecida. Apostei comigo mesma que o velhinho pensou: ai meu tempo de garoto, quando eu tinha cinquenta anos...
Colocou os óculos na ponta do nariz, pigarreou e veio aos pouquinhos, passo a passo na minha direção. Olhou fixo para minhas sandálias e subiu o olhar até meus joelhos. Há quanto tempo alguém não admirava assim os meus joelhos? Nada de errado com minhas pernas, mas hoje em dia homens costumam estar distraídos, atarefados e gostam de admirar outros atributos femininos.  Ajeitei-me na cadeira, não sabia se me sentia lisonjeada, ou chateada, afinal eu estava vestida de acordo com o decoro profissional exigido para o meu trabalho. Joelhos deixaram de ser escondidos pelas mulheres há meio século, pelo menos. Qual seria o adjetivo para qualificar um tarado por joelhos?  Joelhófilo?
Descruzei as pernas, tratei de juntar os pés  bem  juntinhos e firmá-los no chão. Pensei: com tanto calor, como eu poderia ter vestido uma calça comprida? Flagrei-me acanhada. Um velhinho a provocar o meu pudor! Coloquei a pasta de documentos sobre meus joelhos. Decidi tapá-los. Ele desviou o olhar, depois novamente pigarreou e pareceu grudar os olhos nos meus pés. Justamente quando eu estava com os pés horríveis, não havia tempo para ir à pedicure.
Resolvi levantar-me e perguntar ao atendente da repartição se aquilo tudo iria demorar demais. Levantei-me e senti o olhar do vovozinho a me acompanhar com atenção. Arrisquei observá-lo, discretamente. Nossos olhares se cruzaram e ele sorriu simpático. Creio, devolvi o sorriso.
Mais cinco minutos e, finalmente, meu número de senha foi contemplado. Feliz da vida, tratei de resolver depressa a questão e, quando eu desci os dois lances de escada e alcancei a rua, lá na calçada, virei-me vitimada pelo magnetismo do vovô para o edifício da repartição. Pude observá-lo na janela. Acenou pra mim.
Voltei pro escritório pensativa. Paquerada pela terceira idade, quem diria? Senti a mistura de satisfação com medo da velhice. Até outro dia eu aparentava muito menos idade do que denuncia meu RG. Será que preciso de plástica, botóx, coisas assim? Já estava procurando o cartão do cirurgião plástico em meio a caixas e pastas quando tocou meu celular. Atendi a chamada de um número não identificado.
– Diva? Aqui é o Ernesto, amigo do seu pai, lembra de mim?
– Doutor Ernesto? Como vai o senhor?
– Bem, obrigado, querida. Telefonei para lhe avisar que você esqueceu seu leque sobre a cadeira da repartição.
Foi então que juntei os fatos e compreendi que o velhinho paquerador era ninguém menos que um grande amigo do meu pai, o Doutor Ernesto, médico vascular. Minha cabeça rodou durante alguns segundos. Escolhi a saída de emergência, fingi naturalidade. – Doutor, o senhor me desculpe, eu estava sem meus óculos de grau, mas o achei tão familiar. Por que não falou comigo?
- Diva, liguei para devolver o seu leque e para lhe dizer que você precisa cuidar de suas varizes! Mulheres de meia idade, após a menopausa, precisam redobrar os cuidados com a circulação. Se quiser, posso indicar um cirurgião da minha equipe.
A ficha caiu. Mas, a ficha caiu como um bloco de concreto bem pesado. Varizes, eu? Meia idade eu? Pós menopausa eu? Que desilusão! Há instantes eu me sentia uma espécie de musa do vovô!
- Ah, obrigada, Doutor, eu entrarei em contato com o senhor assim que chegar o outono, pode deixar. Como vai a família? Como vai sua senhora? Como vai a vida? Obrigada por sua atenção. O leque? Ah, eu passarei um dia desses no seu consultório para buscá-lo. Ah, sim tomaremos um cafezinho. Obrigada, um abraço, tenha um bom dia.

Tive pensamentos compulsivos! Botóx? Preenchimento facial? Peeling de diamante? Ácido retinóico? Silicone? Um bom psiquiatra? Escolhi outra alternativa. Fui embora pra casa, fiz minha malinha e fui pra praia. Passei o final de semana bronzeando minhas pernas, ou melhor, minhas varizes. Indignada. Indignadíssima! Que varizes? Eu não tenho varizes!

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