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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







21 de mar de 2014

O CHÁ DE ERVAS

Mosquitos, muriçocas, pernilongo, bichinhos inconvenientes e invasores de nossos lares! Mosquitos e calor, combinação perfeita para a minha insônia.
O calor era tanto que foi preciso deixar as janelas de casa abertas e, mesmo utilizando aqueles repelentes ligados às tomadas, fui banquete de pernilongos durante a noite. Amanheci com a orelha esquerda imensa, inchada, algo que me fez lembrar a orelha de Mickey Mouse. A outra picada, que falta de sorte, aconteceu bem na pontinha do meu nariz. Justamente no dia em que seria madrinha de um casamento.
Precisava pensar depressa: o que poderia disfarçar as marcas do mal feito? Pedi socorro ao Google. Pesquisei alguns sites e encontrei uma receita caseira, natural, que prometia milagres para combater a alergia à picada de insetos. Ali dizia que o melhor era beber chá de erva do mato misturada com capim do brejo. Pensei: sensacional, onde encontrarei essas ervas? Decidi, então, improvisar o chá com ingredientes que eu tinha em casa. Havia um chá que ganhei de presente de Tia Marieta, um pacotinho com uma etiqueta escrita com caligrafia trêmula da titia. Ali dizia: chá de ervas.
Titia, sempre tão preocupada com o meu emagrecimento! Nem lembrei disso. Mas, chá de erva do mato, capim do brejo, isso tudo deveria ser a mesma coisa que ervas, certo? Não! Errado! Preparei o chá, deixei esfriar um pouco e bebi dois goles. Amargo, tão amargo que cheguei a dizer uns nomes impublicáveis. Tratei de beber toda a xícara. Enquanto isso, telefonei para meu cabeleireiro e avisei: prepare-se, meu penteado terá que cobrir minha orelha e a maquiagem terá que cobrir meu nariz.
De repente minha barriga roncou. Não era fome, senti algo semelhante a uma ebulição, bolhas de ar se agitavam em meu intestino grosso, ou será intestino delgado? Segurar os gases, isso é algo que exige concentração. A coisa foi piorando mais e mais. Diarreia é uma coisa que ninguém merece. Fui muitas vezes ao banheiro. Maldito chá de ervas! Praguejei enquanto suava gelado, enquanto sentia que estava entrando em uma espécie de trabalho de parto.
A hora de ir ao cabeleireiro estava próxima quando, já convencida de que eu não conseguiria sair de casa, pedi que Jean Jacques viesse à minha casa me pentear e maquiar. Eu já tinha ido inúmeras vezes ao banheiro quando o interfone tocou. Jean, quando me olhou, ficou horrorizado. -Nossa, você está um lixo! Que cheiro horrível é esse?
Não sei onde eu estava com a cabeça quando imaginei que um chá do Google pudesse me salvar. Muito menos sei onde estava a minha cabeça quando imaginei que substituir o chá do Google pelo chá de Tia Marieta seria uma boa ideia.
Maquiagem feita, entre uma ida e outra ao banheiro. Cabelo arrumado, entre um punzinho contido e outro. Faltava menos de duas horas para o casamento e eu já tinha perdido as contas do número de vezes que tinha ido ao banheiro. Pensei: vou morrer!
Quando me senti um pouquinho melhor, tonta de fraqueza, vesti minha roupa, um vestido justo, com abertura lateral. Algo digno de uma Diva, mas difícil de vestir, difícil de tirar. Sabe aquela roupa que a gente veste e fica segurando a vontade de ir ao banheiro, porque senão vai ter um trabalho enorme pra se arrumar novamente? Pois é. Eu precisei vestir e tirar o vestido duas vezes antes de tomar dois copos de água com maisena, um tipo de cola de balão que costuma conter a tempestade intestinal.
Quarenta minutos antes do horário do casamento, saí de casa. Fui rezando durante todo o caminho. Pedi a todos os santos, cujos nomes fui lembrando. Fiz até promessa. Cheguei à igreja tão zoada que, se eu pudesse, me deitaria no primeiro banco que encontrei livre.
Cerimônias de casamento são muito bonitas. Ser madrinha de casamento é sempre uma honra. A noiva atrasou absurdamente Conheci o banheiro da sacristia.  Aquele espaço minúsculo, um cubículo e eu, feito uma contorcionista, a tentar levantar o vestido sem desfiar a meia fina, nem descer do salto alto. Ali estava, enjoada e desgraçada, quando escutei os clarins que anunciavam a entrada das damas de honra. Que desespero! Senti que melhorei, me ajeitei como pude e, quando fui sair do banheiro, a porta emperrou. Sim, a porta do banheiro da sacristia não abria. Eu bati, chamei: - Tem alguém aí? Estou presa!
Nada, ninguém. O coral entoava uma música de Bach e eu ali, prisioneira! Comecei a esmurrar a porta do banheiro: - SOCORRO!!!!
Eis que escutei a marcha nupcial. Como podia uma coisa dessas? Eu, madrinha, ninguém veio em meu socorro, ninguém sentiu minha falta! Pensamentos doidos e confusos começaram a invadir minha mente. Estaria eu morta? Sim, eu talvez tivesse morrido de caganeira e estivesse ali apenas meu espírito, confuso e assombrando o banheiro da sacristia. Eu, o fantasma loiro do banheiro da igreja!
Comecei a chorar. Aproveitei para novamente usar o vaso sanitário, ao menos uma vantagem existia naquela prisão. Enquanto tocava a Ave Maria, provavelmente durante a troca de alianças, alguém entrou no banheiro, finalmente.
- Tem alguém aí? Por favor, me ajude, estou presa!
Fui libertada por alguém, não lembro quem. Olhei-me no espelho, pálida, a picada de mosquito na ponta do nariz pareceu gigante, havia chorado tanto que o delineador estava borrado, eu parecia com o vocalista da banda Kiss. Decidi permanecer no banheiro e esperar o final da cerimônia. Esperei, esperei e quando tudo estava terminado passei pelo altar vazio, vi algumas pessoas conversando animadamente em rodinhas, todos felizes. Lá fora, os noivos a receber os cumprimentos. Abracei a noiva, que não demonstrou ter sentido minha falta. Abracei o noivo, que perguntou que era eu!
Acordei com o telefone tocando, era meu cabeleireiro, eu estava atrasadíssima, meu horário era 15h00, já passava das 15h30. Ah, aquele chá de Tia Marieta era tiro e queda para a insônia. Que pesadelo, nossa, eu sonhei que tinha levado umas picadas de pernilongo no rosto e bebido um chá laxante. Depois, fiquei presa no banheiro da igreja e não pude assistir ao casamento de minha prima, a Soninha. Que loucura, melhor jogar fora aquele chá, ele é meio alucinógeno. Deixe-me ir agora, estou muito atrasada e madrinhas de casamento precisam ser rigorosamente pontuais.Nossa, que sonho mais esquisito, melhor anotá-lo para contar pra minha terapeuta!



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