É proibida a reprodução não autorizada dos textos deste blog, de acordo com a Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que regula os direitos autorais.

Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







27 de dez de 2015

2016, ano novo: vamos curtir o pôr do sol...


Ano novo. Outro ano. A maioria das pessoas diz a mesma coisa: 2015 passou muito depressa e o ano foi difícil para quem dá um duro danado todos os dias, a vida inteira, e agora se vê desempregado, ou com receio de perder o emprego. Ano que foi ruim para quem tem uma empresa e o negócio depende do bom andamento da economia do país. Está difícil para quem sempre pagou as contas em dia e é honesto. É revoltante tudo isso, para quem nunca sonegou impostos. Porém, é ano novo e, um dia depois do outro, a gente não desiste de trabalhar, de tentar honrar nossos compromissos. 
Evito falar aqui de política, mas é vergonhoso, humilhante dedicar a vida inteira a uma profissão,  estudar sempre, lutar pra valer para ter um teto, comida na mesa, educar os filhos com princípios morais que são opostos à imoralidade que assola o meio político de nosso Brasil e agora não saber o que vai acontecer amanhã, porque o nosso amanhã foi parar nos bolsos de gente que sequer gente é: são monstros! Monstros que colocaram em risco todo o nosso trabalho decente da vida toda. Monstros que colocaram em risco o futuro de nossa família. 
Não me importa em quem você votou, aliás, talvez você nem seja brasileiro, brasileira. O que me importa muito é que, apesar dessa falta de vergonha dessa gente indigna de ser cidadã brasileira, nós faremos TUDO para reerguermos o nosso país. A começar por uma bela faxina nesses meandros políticos. E poderemos, um dia, acreditar que o nosso ano será novo, um ano tranquilo, sem medo de perdermos o emprego e sabermos que não faltará em nossas mesas o pão de cada dia.
Mesmo assim, eu lhes desejo feliz ano novo. 2016 não será fácil para quem vive neste país - está fácil apenas para quem depenou o país - mas nessa adversidade nos voltaremos mais para as coisas simples e belas, por exemplo: o pôr do sol, algo que ainda não foi roubado, afinal é difícil de carregar.

Cláudia

22 de dez de 2015

FELIZ NATAL!


Aos meus leitores,

A vocês, cada um de vocês, desejo Feliz Natal. Que o aniversariante esteja presente em suas vidas sempre, todos os dias.

Cláudia

9 de dez de 2015

NÃO SE PEDE AO VENTO QUE NÃO VENTE ( Ao meu irmão, Flávio, com todo o meu amor e saudade)


Há vários dias as palavras que eu gostaria de te dizer vieram em momentos inusitados. Durante o sono, em meio a alguma refeição, na estrada entre uma cidade e outra, até mesmo durante um corte de cabelo a inspiração surgiu e essas palavras me comoveram profundamente. Palavras que pareceram perfeitas.
Sem um bloco de notas em todas essas ocasiões, sem lápis, caneta, notebook, perdi as palavras por falta de anotação. Ideias são feito folhas secas ao vento, elas vêm girando, brincam aos nossos pés, rodopiam sobre nossas cabeças e vão embora. Todas as palavras bonitas que pensei em escrever em sua homenagem partiram intactas, em branco. O sentimento enraizado e perene, esse frutifica belamente a cada instante.
Juntei uma porção de fotografias de nossos momentos juntos. Você miudinho, nós dois ainda crianças, você meu padrinho de casamento, você ao lado do meu filho, você segurando meu cãozinho em seu colo, você fazendo força para viver. E eu chorei, as palavras todas inundadas, afogadas dentro do meu coração.
Hoje tentei me lembrar exatamente do que ocorreu há um ano. Um calafrio percorreu minha espinha. Você sofria, nós todos sofríamos em dias de dezembro de 2014.  E você se foi, minha mão sobre seu peito inerte, minha impotência, meu desespero.
Acho que você agora está se recuperando, tanta porrada que a vida nos deu, passei a acreditar em outras vidas, em um mundo espiritual que nos recebe, cura, auxilia. Menino, eu não me recupero facilmente, você sabe que não. E sofro, do modo mais dramático e subversivo que você possa imaginar: você me pediu que eu não sofresse, jamais esquecerei disso. Não se pede à chuva que não chova, ao vento que não vente, nem se pede a mim que não sofra. Simples assim.
Por aqui muito pouca coisa mudou em nossas vidas neste ano terrível. Alguns têm novidades, eu não tenho tantas. Tento ser útil, nem sempre sou agradável. As pessoas exigem a felicidade alheia, como o boiadeiro que junta a boiada, a ordem é: todos devem estar reunidos e felizes. Eu não estou feliz e não disfarço. Não suporto a tentativa de consolo, muito menos a mania que essa gente tem de rezar em cima da gente. Espinhos, acho que tenho espinhos. Rosas também têm espinhos, enfim...
 Folha seca solta ao vento, sou pura inspiração a girar no mundo da imaginação.  Os textos todos nas minhas ideias, pouca coisa escrita, quase tudo o que está escrito guardo para mim, sem divulgar. Este texto é exceção, é meu presente para você. Presente neste dia que é triste pra caramba, um dia que me faz lembrar o pior dia da minha vida, mas que é carregado de emoção, amor profundo e uma saudade absurda, que começou muito antes do dia 13 de dezembro de 2014: lembranças da nossa infância, da nossa juventude. Saudade de nós e do nosso mundinho perfeito, maninho!
Sonhei com você adormecido, protegido por nossos pais. Envolto em uma bolha que parecia ser de vidro, ali você se recuperava. E eu sei, maninho, eu sei, tive a honra de visitá-lo. Continua firme o nosso combinado: um dia, quando eu estiver bem velhinha, você virá me buscar. Se eu não envelhecer, o combinado continua a valer da mesma forma. A mim, basta que seja você a me buscar.
Ainda não recuperei as cores, o brilho, o encanto, a graça. Viver é preciso, mas para ser feliz é preciso não sofrer perdas irreparáveis e essas perdas, infelizmente, foram sucessivas e impiedosas. Mano, desculpe minha teimosia, meu sofrimento, mas até o dia do nosso reencontro eu poderei mudar meu nome para “saudade”.
Tratei de colher as poucas letrinhas que caíram ao meu lado, neste pomar de ideias sem fim. Palavras para você. Sei que as receberá. Até um dia, meu amor. Saudade...

De sua irmã que tanto te ama,

(Texto que escrevi para meu irmão, Flávio, que faleceu jovem e lindo no dia 13 de dezembro de 2014).




25 de out de 2015

A FOTO DE NÓS DOIS ( O AMOR E O FIM DO AMOR)

Veja este retrato. Nós dois na foto desbotada pelas décadas. Invulneráveis, pensávamos assim. Amor eterno, paixão renovada pela esperança de um futuro planejado entre risos e beijos. 
A foto do primeiro Natal, lembra desse dia? O dinheiro contado. Presentes tão simples, mas havia amor. Amor... Quando paramos de nos amar? Eternidade, a vida se exibia eterna. Quando começou o nosso fim?
Olho para esta foto e o meu coração aperta. Sonhos findos, planos interrompidos. Fomos derrotados por nós mesmos. Mas o amor segue em versos, mundo afora pelo Universo. Para quem? Para onde foi o nosso amor?
Amor que vai além de mim e ecoa aqui, sem ti. Consegue ver? Está aí? Aqui está a foto de nós dois.

9 de out de 2015

JÁ QUE É DIA DAS CRIANÇAS...

Parei em frente ao notebook, a digitar e depois deletar palavras que não alcançavam a dimensão do que eu gostaria de escrever sobre ser criança.
Quase todas as conversas atuais que tenho com meus irmãos desemboca na seguinte conclusão: sentimos saudade de nossa infância.
Acho que a vida nunca foi fácil, se hoje é complicada eu creio que para nossos pais e avós não foi diferente. No entanto, esses personagens de minha família deixaram muita saudade, fizeram o papel de super-heróis, às vezes vilões incompreensíveis com suas “adultices” esquisitas.
A infância tão distante, mas tão presente.  Cresci entre gente, bichos, árvores e histórias sem mais fim.  Uma casa cor-de-rosa, com a qual sonho de modo reiterado. Nesses sonhos, meus irmãos e eu somos imortais e nossos finais são sempre felizes.
Meus dedos hesitam sobre o teclado do notebook. Um dos meus irmãos faleceu recentemente. Bebo um copo d´água, respiro fundo, tento afastar a tristeza das palavras que parecem fugir, todas elas enlutadas.
Rio sozinha, estou velha. Sim, velha! As fotos do passado são em preto-e-branco e os adultos ali fotografados, quase todos eles, já se foram para o outro mundo.  Ainda não sei o que farei com tantos objetos antigos que herdei, os apartamentos modernos são minúsculos e eu não tenho espaço disponível para guardar as lembranças, senão dentro de mim.
Se fecho os olhos consigo sentir o aroma dos livros do meu avô, no escritório de advocacia enorme instalado na parte de trás de nossa casa. Dez mil livros e eu sentia algo que hoje posso definir como “um grande barato” em meio a prateleiras altíssimas lotadas de volumes e mais volumes de códigos, leis, tratados, pareceres jurídicos. Tanto tempo, tantos anos, resta o sabor do suco de frutas batido no liquidificador, oferecido às crianças pontualmente às dez horas da manhã. Afasto-me do computador, ajeito-me na cadeira. Uma confusão que envolve  os livros, o suco de frutas, as árvores, a casa cor-de-rosa, os adultos, meus irmãos, eu criança. Às vezes eu tentava imaginar como eu seria quando crescesse. Escolho os sonhos, neles os finais são felizes, nos sonhos há a imortalidade, a viagem ao passado sem qualquer explicação lógica. 
Palavras não traduzem a ausência de todos nós, uma família que sorri inocente nas fotos em preto-e-branco. Melhor guardar novamente essas fotos. Melhor! Que ser criança seja uma escolha atemporal. Todas as vezes que vou à livraria me perco entre as prateleiras, esqueço as horas e o aroma dos livros me leva de volta ao passado. A ideia deste texto brotou na livraria, acho que falei sozinha quando a inspiração me atiçou sem piedade: - Sou o que aprendi a ser. 
No moderno notebook termino o texto e me apresso em publicá-lo no blog, antes que eu o delete novamente.

30 de ago de 2015

Casamento: sim ou não?

Os dilemas humanos são tantos! Alguns são dilemas reincidentes, ideias fixas. Há sonhos pré-fabricados e, vez ou outra, caminhamos feito o coitado do gado rumo ao matadouro, sem percebermos que apenas cumprimos o triste papel de entrarmos pelo cano. Digo isso porque na minha publicação  Casamento: quando um quer, mas o outro não quer há muitos comentários. Não sei dizer quem faz os comentários, permito no meu blog comentários anônimos e, dificilmente, alguém com um “dilema do matadouro” irá se identificar. E quem sou eu para aconselhar alguém? Mais da metade da vida percorrida e até hoje não sei exatamente o que fiz com meus sonhos mais bonitos.
Casamento. Quando eu era criança os contos de fadas, aqueles que terminam sem contar o que vem depois: Cinderela, Branca de Neve, A Bela Adormecida, isso tudo forjou meu sonho de crescer, casar, ter filhos. E depois? Isso ninguém explicou. Bastava olhar ao redor: o destino de meus avós, meus pais, meus tios. Difícil encontrar um casal realmente feliz, a vida nem sempre é doce, fácil e as dificuldades nem sempre são suportáveis para algumas pessoas. Casamentos podem durar, mas o voo não é de cruzeiro. Sobrevive quem aprende a saltar de paraquedas, isso se tudo não explodir em uma fração de segundo.
Domingo é dia de acordar um pouco mais tarde, preparar o café forte que tanto aprecio, sentar-me à mesa e ligar o notebook. Comecei pelo blog e lá estava mais um comentário nessa postagem. E eu viajei ao passado, um tour pouco agradável. Senti vontade de viajar de corpo e alma no tempo e impedir que a garota bonita que fui sonhasse com finais felizes dos contos de fadas. Final feliz? Final é fim! Quem deseja um fim, quando o assunto é ser feliz?
Uma vez alguém me disse uma coisa que serve hoje para mim e, talvez, quem sabe, também sirva para todo aquele, toda aquela que procura a resposta para as dificuldades em um relacionamento amoroso. Não se deve sonhar com o casamento, se não houver reciprocidade do par nesse sonho. Um relacionamento deve ser vivido como um passeio bonito de trem, um passeio agradável em uma linda manhã ensolarada. A paisagem é linda. Assim é o namoro. Um passeio bonito, que poderia durar para sempre. Aproveita quem olha pela janela, quem se encanta com todos os bons momentos. Aqueles que sentem pressa de chegar ao destino, que estão tão ansiosos que não olham pela janela, esses não curtem a viagem: são os que querem se casar a todo custo, cobram isso de si, do par e não aproveitam o dia de hoje.
Não posso deixar de dizer que, quando um dos dois não quer se casar, isso é sinal de alerta para reduzir a velocidade do trem. Não acelere! Apesar de ser uma tremenda frustração alguém não corresponder às nossas expectativas, apesar do sentimento de rejeição, é necessário respeitar a vontade alheia, ainda que a nossa frustração seja enorme.
Casamento não deve ser objetivo, mas consequência. Casamento só tem uma chance de dar certo (apesar das dificuldades naturais da vida): os dois desejarem a mesma coisa, sem que um magoe o outro, frustre o sonho do outro. Casamento é isso: união de objetivos em prol de algo positivo e em comum.
Andaram me perguntando se eu casaria novamente. Claro que sim. Mas, eu casaria com quem vive um dia de cada vez, sem me colocar em um altar, afinal não sou santa, não sou princesa e nem sou a resposta para os sonhos delirantes de ninguém.
Aproveitem a viagem, curtam a paisagem. A vida passa muito depressa e não é justo perder um só segundo desse passeio, é injusto esperar tanto a próxima estação sem observar o quanto é bonito e especial este momento de agora. Quando um não quer, não há casamento. Pode ser tudo, mas não é casamento e nem é amor. Se insistir, entenderá o que escrevi aqui, letra por letra. Não vale a pena, então o melhor é seguir aproveitando os momentos, sem forçar a barra. Um não quer, dois não brigam. É isso.






26 de ago de 2015

Amor, amar, amar, amar...

A vida, às vezes, lembra aqueles balancetes contábeis. Contas difíceis de fechar.
Amar, experiência que parece uma assinatura digital intransferível e inviolável. Está no destino, quem ainda não amou, amará. É o que validará a passagem por estas bandas terrenas e, se chegar à terceira idade, tornará a bagagem desta existência algo valioso, com muitas cores e modos diversos, um peso bom de carregar.
Amor... Amar, amar e amar. Amar a mesma pessoa, amar várias pessoas, especialmente amar-se. Sem amor próprio nenhum amor é bem vivido. Amar escancaradamente, ou silenciosamente.
Amar sem ser amado, espinho que machuca o coração. Ser amado e não amar, dura situação.
Amor, nem sempre eterno, que desemboca na separação. Amor que é saudade. Amor de mentirinha. Amor virtual. Amor ao próximo. Amor real. Amor inconfessável. Amor platônico. Amor de verdade.
Amor, matemática perfeita, contas e mais contas que fecham na ponta do lápis de um poeta. Amor que inspira, que faz rir, chorar, lembrar, sonhar. Amor que vem e vai e adiciona à alma o perfume da esperança. Amor eterno. Amor findo. Amor por vir. Amor enfim. Amor...

11 de jun de 2015

FELIZ DIA DOS NAMORADOS

Aos amores, amados, aos namorados, casados e enrolados, desejo feliz Dia dos Namorados. Que os beijos sejam muitos, os abraços apertados, as palavras cheias de doçura,  os carinhos sejam quentes e os olhares apaixonados. Aproveitem!

Diva Latívia

8 de jun de 2015

ESCREVER POESIA, VIVER

Você nasceu poesia, dentro do supermercado. Sentimento inesperado. Olhei para os lados: feijão, ervilha, lentilha, testemunhas em grãos da inspiração inusitada. Busquei dentro da bolsa uma caneta, dedos aflitos a dedilhar chaves, bala de menta, batom, moedas. O lenço de papel serviu de lousa, o grão de bico pareceu sorrir pra mim. Rabisquei o que brotava de mim.
Amo-te enfim, após morrer em mim. Amo-te em teus defeitos, ser imperfeito que és.
Anotei rapidamente, debruçada no carrinho de compras. Sorri satisfeita e exclamei qualquer coisa em voz alta. Inspiração, coisa rara e breve. Paguei as compras, esqueci o alvejante de roupas.
Feliz da vida publiquei um novo texto no blog. Inspiração, respiração, coração, paixão. Vida em “ão”, poesia que voltou pra mim.

28 de abr de 2015

SAUDADE INTRUSA


Quando ele atirou a aliança sobre a mesa e foi embora, o aroma masculino teimou no ambiente.  Ela tentou se livrar da dor e mudou o sofá cor de areia do lugar.
Naquela manhã o café adormeceu na xícara, enquanto seu olhar tocava as paredes frias da sala e deslizava pelos edifícios cinzentos que encobriam o horizonte. Nas mãos o folheto da agência de viagens. Tomou a decisão: tiraria férias do dia a dia.
De malas prontas, certificou-se de não haver esquecido o passaporte e saiu apressada, sequer deu água às plantas, que secaram órfãs.
Em Amsterdã descobriu ter consigo a saudade intrusa.  Cada paisagem nova alimentava a esperança na reconciliação.  Regressou uma semana mais cedo, para assisti-lo a sorrir indolor. Seu coração secou feito as plantas,  em seu peito não mais floresceu amor.

5 de mar de 2015

150 MIL VISITAS AO BLOG

Hoje o blog chegou a 150 mil visitas. É um estímulo para que eu continue a escrever tantas histórias. Aos leitores deixo o meu agradecimento. 

Diva Latívia ( Cláudia)

AMOR MATERNO

Dezoito anos, um metro e oitenta e nove de altura. O caçula cresceu, apesar do meu esforço para conservá-lo criança. Assim que tirou a carta de motorista, começou a sair com uma colega do cursinho pré-vestibular. Saiu uma, duas, dez vezes. Minha preocupação era múltipla: dos perigos da cidade grande aos acidentes de trânsito. A insônia me encontrou várias vezes, lá estava eu a lamentar a passagem do tempo. Quando o som da chave a girar na porta me abençoava, eu fingia dormir no sofá da sala e sossegava com seu beijo em minha testa: - Oi, Gorda, vá dormir! - Era assim que ele me chamava, apesar de eu ter emagrecido seis quilos desde o último verão.
Era sábado, fui ao supermercado, depois ao cabeleireiro. Levei o cãozinho ao petshop. Cheguei em casa carregada de compras e a imaginar o que cozinharia para o almoço de domingo. Lá estava ele, sentado no sofá e sem camisa. – Gorda, você pode passar minha camisa branca?
Deixei as compras de lado, o cachorro a mastigar a gravatinha que ganhou no petshop. Tudo por fazer e eu a passar caprichosamente a camisa branca. Saiu e ainda levou duzentos reais, bastou um sorriso e abri a carteira.
Outra noite longa, assisti a dois filmes, bebi três taças de vinho tinto, roí as unhas que tinha feito naquela tarde. Eram três da manhã quando ouvi risos e o som da chave a girar na porta. Fiz meu número: fingi estar dormindo.
Ao invés do beijo na testa, ganhei um cutucão no ombro: - Gorda, acorda, esta aqui é a Ju!
Ju era a tal garota. Magra feito um caniço, o nariz desproporcional ao tamanho do rosto. Sobrancelhas que, certamente, jamais haviam visto uma pinça. A saia era tão curta que, arrisco dizer: ela estava quase nua. E aqueles cabelos? Acho que aquela tonalidade de tinta se chama beterraba!
- Boa noite, Ju. Qual é mesmo seu nome?
- Ju!
Ju? Jurema, Judite, Julieta, jurupoca do raio que a parta!
- Filho, um pouquinho tarde, os pais da moça podem estar preocupados. Eu dirijo pra você, vamos levá-la pra casa, que tal?
Riram. Riram de mim, ou pra mim, e rumaram para o quarto. Observei aquela tatuagem indecifrável no braço dela. Uma estrela? Um cometa?
- Gorda, não me acorda, tá? Ah, arruma aí uma escova de dente pra Ju?
Aquela foi a noite mais longa da minha vida. Mais longa do que a noite em que ele nasceu de parto normal. SofrI dezoito horas, mas valeu a pena sofrer por amor. E lá estava ele, de porta trancada, com a esquisita da tal de Ju.
Dormi quando o dia estava amanhecendo. Acordei tarde, fui à cozinha. Encontrei minha frigideira preferida com o teflon arranhado e, pelos restos mortais, pude notar que prepararam ovos mexidos. Fogão sujo, pia suja. Um pesadelo, talvez? Continuei o tour pela casa. O banheiro todo molhado, uma toalha jogada no chão.
Bati à porta do quarto. Uma, duas, cinco vezes. Resolvi abrir. Ninguém no recinto. A cama por fazer, uma garrafa de refrigerante destampada, um pacote de batatas fritas vazio, copos sobre a escrivaninha e minha escova de cabelos ali, no meio da bagunça. Se tem algo que me tira do sério é esse tipo de ousadia. Aqueles fios vermelhos emaranhados nas cerdas da escova, aquilo fez meu sangue ferver.
Tomei a decisão. Assim que ele reapareceu, desta vez sem a Ju Beterraba, declarei: - A partir de amanhã você vai trabalhar.
- Ah, Gorda, quero não...
No dia seguinte meu caçula foi trabalhar na loja do avô. A Ju ainda apareceu umas duas, três vezes, sempre de madrugada. Um dia finalmente evaporou, não antes de mudar a cor dos cabelos para um tom quase azul: azul espanto!
Estava com a sensação de missão cumprida quando um ano mais tarde tocou a campainha de minha casa a dita cuja. Ju, com os cabelos em tom arroxeado, segurava no colo uma criança recém-nascida, cabelinhos loiros, olhinhos muito azuis. Convidei-a para entrar, ofereci um café. Precisava ver a cara de espanto da Ju Jabuticaba.
- Dona Gorda, eu...
Não aguentei: Meu nome não é Gorda e pra você eu sou doutora, Doutora Diva.
Acho que peguei pesado demais, ela ficou tão pálida e o bebezinho começou a chorar. Tentei consertar:
- Que bonitinho, de quem é a criança?
- É do seu filho.
- Que filho? Perguntei de quem é o bebê.
- O bebê é do seu filho, Dona... Doutora Gorda.
- O João Alberto mora na Europa.
- Não, o bebê é do Rick!
- Rick? José Henrique?
- Hã, hã!

Acordei neste hospital, acho que estava na UTI. Havia uns fios que me ligavam à maquina barulhenta atrás de mim. A luz incomodava meus olhos. – Gorda, fale comigo!
 Era José Henrique, meu caçula.
- Filho, eu tive uma alucinação. Tinha uma mulher horrível com os cabelos vermelhos que mudavam de cor.
Alguns dias depois, no quarto 678 do hospital, eu recebi a visita da sagrada família: meu filho, a Ju de cabelos loiros e o bebê. Assim que tiver alta vou arrumar um emprego pra Ju. Pensando bem, acho que vou arrumar uma viagem só de ida pra mim: há vagas em Marte!
Meninos nascem, crescem e frutificam. Mas tinha que ser assim, José Henrique?


15 de jan de 2015

JE SUIS DIVA LATÍVIA!

Se existe um idioma que aprecio, acho sonoro, mas duro de aprender é o francês. Coisa do tempo de garota, quando estudei em um colégio franco-brasileiro.
As aulas de francês aconteciam em uma sala escura, a professora nada sorridente. Na parede o mapa da França e, desde aquela época, cismei que eu deveria conhecer Paris.
Dizem que nós, tupiniquins vitimados pela inflação, juros e insolação, quando muito conseguimos chegar ao bairro do Pari. Dito e feito, até hoje não conheci Paris.
Em meus planos para o futuro está a viagem à Europa, mas enquanto sonho e espanto os pernilongos que vieram visitar-me neste dia de calor, recordo os tempos de escola, o uniforme horroroso de cor marrom. Época feliz, o meu maior problema era meus cabelos: lisos e longos. Era o final dos anos 70, a moda era o penteado de Farrah Fawcett, atriz do seriado televisivo As Panteras. Os cabelos dela esvoaçantes, já os meus cabelos... Quanta diferença!  Era um  tal de fazer escova enroladinha, usar bobes, fixador, até cerveja passava nas longas mechas de cor aloirada, para obter volume. E quando chovia? Ah, a chuva tratava de fazer dueto com a cervejinha e tudo ficava meio emplastrado, emaranhado, uma tragédia que qualquer hair stylist chamaria facilmente de “horror”. Hoje, sinceramente, prefiro a cerveja bem gelada e goela abaixo, nada de fazer experimento alcoólico longe do meu fígado e sobre minha cabeça.
Justamente eu, que sou avessa ao uso contínuo de maquiagem, não saía de casa para o colégio sem usar: batom, rímel, sombra e blush. Imaginem isso aliado aos cabelos fixados com cerveja, nada a combinar com a cor de merde do uniforme escolar, eu a chacoalhar no ônibus da linha 001 às seis da manhã?
Meu coração era uma revolution.Vivia a me apaixonar, amores reincidentes que começavam em minha cabeça encervejada e terminavam no último dia do ano letivo, todos esses amores naufragavam antes mesmo do primeiro beijo. Por falar em primeiro beijo, isso quase aconteceu no intervalo das aulas, mas o garoto se aproximou, recuou e exclamou: - Nossa, que cheiro! Diva, você bebeu?
Resolvi abrir o baú de velharias. Vejam o que encontrei: as fotos daquela época. Por que será que fotos antigas podem parecer tão ridículas? Fotografias em branco e preto, eu de blusão escolar amarrado na cintura, para esconder as dimensões de minha bunda. Mãos cruzadas sobre o peito, para esconder o tamanho dos meus seios. Uma espinha enorme na testa, ou será uma testa em minha enorme espinha?
Incrível, encontrei o boletim escolar. Amarelado pelo tempo, ali as notas a denunciar meu péssimo desempenho.  A professora, Mme. Lili, anunciou solenemente: - “Divá ( ela me chamava assim, o A bem aberto): sua notá está péssimá! Zerrô erra o que você merreciá, mas deste vez eu deixá pra lá e te dar quatrrrro”-. Creiam, achei a nota excelente, porém a média era sete. Foi um custo passar de ano, mas esse dia chegou: estudei, mas estudei tanto que até hoje sei conjugar o verbo ètre.. Resta a inflação não nos devorar, o euro não disparar e o mundo não acabar. Paris, je suis Diva Latívia!

13 de jan de 2015

O GENERAL DO ESTRELA DA GLÓRIA

O antigo edifício necessitava de reforma. Vinte andares, cento e vinte apartamentos, quinhentos e treze moradores, um zelador, quatro porteiros, dois faxineiros.
Desde a fachada enegrecida do prédio, até as vidraças faltantes, o edifício sorria sem dentes a ostentar o avesso da prosperidade. Os elevadores a chacoalhar e ranger.  Os interfones eram alegoria a mais, emudecidos com sua fiação exposta, fios coloridos a percorrer corredores e andares. Ali tudo a desfolhar, descamar, despencar, com exceção dele: o velho zelador, Adamastor Raimundo de Oliveira, o Adão, como era conhecido no pedaço.
Assim que o edifício Estrela da Glória começou a ser habitado, em 1963, Adão foi contratado para realizar serviços de limpeza. Na época, o zelador era o Laureano, um pernambucano baixinho e sisudo, que morreu atropelado em frente à padaria em 1970. Desde esse dia, em pleno revés do infortúnio, Adão assumiu o posto de zelador, com o direito de usar o quepe azul-marinho, que levava o nome do edifício bordado em cor dourada. Segurou as lágrimas de emoção no dia em que largou baldes e vassouras e, de barriga pra dentro, peito pra fora, plantou-se na portaria: ali estava o general do Estrela da Glória.
Querido por alguns, temido por outros, Adão comandava os funcionários com severidade e os moradores ele tratava com a cordialidade do bem servir. Entendia de remendos diversos, aplacava curtos-circuitos, libertava prisioneiros dos elevadores. Cada parafuso, cano ou fio daquele prédio era seu velho conhecido. Os habitantes, todos eles, estavam anotados com seus nomes, sobrenomes e telefones no caderno de capa dura que guardava como um tesouro. Letra miúda e quase ilegível, conhecia detalhes íntimos da vida  de gente de todos os andares: ouvia desabafos, dava conselhos, apartava brigas e até de primeiros socorros se tornou entendedor: infartos, fraturas, desmaios, lá ia Adão com sua caixinha de remédios a administrar leite de magnésia, água oxigenada, arnica. Quarenta e quatro anos, oito meses e dezenove dias, cada pastilha que caiu da fachada sem reposição era uma ruga a mais no rosto moreno do velho Adão.
Hoje, entre uma garfada e outra do almoço, li no obituário do jornal o seguinte anúncio: “É com extremo pesar que os moradores e funcionários do Edifício Estrela da Glória comunicam o falecimento de seu zelador, Adamastor Raimundo de Oliveira, Adão. Convidamos a todos para a missa de sétimo dia, que será realizada na Igreja Nossa Senhora da Glória, no bairro do Aterro”.
Adão morreu uniformizado, aos setenta e nove anos. Morreu em frente ao prédio, morte natural e súbita. O resgate chegou a tentar ressuscitá-lo, em vão. O olhar dos curiosos se apinhava em torno do corpo inerte do velho zelador do Estrela da Glória, que viveu e morreu em serviço. O quepe azul jogado na calçada, a observar a movimentação.

9 de jan de 2015

AOS LEITORES

As palavras começam a fluir gradualmente, movidas pela necessidade de satisfazer o desejo do seu olhar, leitor, para aplacar a sua sede de novas estórias e histórias neste blog. Palavras hesitantes, trôpegas, doloridas. Diva recomeça a escrever, da mesma forma que um pássaro com a asa ferida recomeça a voar. O riso ainda está adormecido, mas o sorriso eu lhes entrego no formato de letrinhas que se divertem na ponta dos meus dedos, a digitar esta nova publicação, a primeira postagem do ano de 2015.
O meu coração está machucado. Dizem os religiosos, os tementes a Deus, que um dia terei o consolo, a resposta que explicará o motivo da perda grandiosa que sofri recentemente.
Hoje o olhar verde e sagaz do meu querido irmão, Flávio, não acompanha Diva Latívia. Seus olhinhos se fecharam e seu peito restou inerte, sem as batidas do coração cheio de coragem, fé, determinação, qualidades que o acompanharam durante mais de quatro anos na luta contra o câncer. Flávio faleceu no dia 13/12/2014.
Dizem os entendidos em assuntos celestiais, que a morte física é o descanso das batalhas terrenas. Tudo o que sei é que aqueles que ficam neste mundo, assim como eu, não descansam e sentem que dentro de si falta um pedaço imenso.Grita um vazio sem fim dentro de mim agora.
As palavras surgiram pela primeira vez desde o ocorrido. Preciso desse alimento, fonte vital para mim: escrever é sinônimo de felicidade. Desculpem-me, estive ausente, mas cá estou, voando baixo, com as asinhas meio tortas.
Que 2015 seja um ano de renovação da esperança, repleto de acontecimentos felizes. Saúde e amor para todos vocês que aqui chegam regularmente, ou casualmente. Novos textos chegarão em breve! Deixo aqui um vídeo com uma música do Queen. Flávio era um queen-maníaco adorável, desses que sabem cantar todas as canções da banda ( aliás, ele tocava ao piano algumas dessas canções). É uma homenagem a esse garoto, que foi embora tão jovem e que me deixou aqui cheia de letrinhas, que reúno com os olhos cheios d´água.

Um abraço da autora,

Cláudia

Love of my life ( Queen)