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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







13 de jan de 2015

O GENERAL DO ESTRELA DA GLÓRIA

O antigo edifício necessitava de reforma. Vinte andares, cento e vinte apartamentos, quinhentos e treze moradores, um zelador, quatro porteiros, dois faxineiros.
Desde a fachada enegrecida do prédio, até as vidraças faltantes, o edifício sorria sem dentes a ostentar o avesso da prosperidade. Os elevadores a chacoalhar e ranger.  Os interfones eram alegoria a mais, emudecidos com sua fiação exposta, fios coloridos a percorrer corredores e andares. Ali tudo a desfolhar, descamar, despencar, com exceção dele: o velho zelador, Adamastor Raimundo de Oliveira, o Adão, como era conhecido no pedaço.
Assim que o edifício Estrela da Glória começou a ser habitado, em 1963, Adão foi contratado para realizar serviços de limpeza. Na época, o zelador era o Laureano, um pernambucano baixinho e sisudo, que morreu atropelado em frente à padaria em 1970. Desde esse dia, em pleno revés do infortúnio, Adão assumiu o posto de zelador, com o direito de usar o quepe azul-marinho, que levava o nome do edifício bordado em cor dourada. Segurou as lágrimas de emoção no dia em que largou baldes e vassouras e, de barriga pra dentro, peito pra fora, plantou-se na portaria: ali estava o general do Estrela da Glória.
Querido por alguns, temido por outros, Adão comandava os funcionários com severidade e os moradores ele tratava com a cordialidade do bem servir. Entendia de remendos diversos, aplacava curtos-circuitos, libertava prisioneiros dos elevadores. Cada parafuso, cano ou fio daquele prédio era seu velho conhecido. Os habitantes, todos eles, estavam anotados com seus nomes, sobrenomes e telefones no caderno de capa dura que guardava como um tesouro. Letra miúda e quase ilegível, conhecia detalhes íntimos da vida  de gente de todos os andares: ouvia desabafos, dava conselhos, apartava brigas e até de primeiros socorros se tornou entendedor: infartos, fraturas, desmaios, lá ia Adão com sua caixinha de remédios a administrar leite de magnésia, água oxigenada, arnica. Quarenta e quatro anos, oito meses e dezenove dias, cada pastilha que caiu da fachada sem reposição era uma ruga a mais no rosto moreno do velho Adão.
Hoje, entre uma garfada e outra do almoço, li no obituário do jornal o seguinte anúncio: “É com extremo pesar que os moradores e funcionários do Edifício Estrela da Glória comunicam o falecimento de seu zelador, Adamastor Raimundo de Oliveira, Adão. Convidamos a todos para a missa de sétimo dia, que será realizada na Igreja Nossa Senhora da Glória, no bairro do Aterro”.
Adão morreu uniformizado, aos setenta e nove anos. Morreu em frente ao prédio, morte natural e súbita. O resgate chegou a tentar ressuscitá-lo, em vão. O olhar dos curiosos se apinhava em torno do corpo inerte do velho zelador do Estrela da Glória, que viveu e morreu em serviço. O quepe azul jogado na calçada, a observar a movimentação.

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