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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







13 de fev de 2016

PREFIRO PIPOCA ( Eu, na contramão dos fatos)


Como dizia meu saudoso pai, depois de um certo tempo neste mundo, tudo aquilo o que não arde, dói. E eu, com algumas décadas de vida e uma certa dorzinha na coluna, que não sai de mim, não sai, preciso tomar uma medicação que alivia os sintomas da hérnia de disco, instalada na região da coluna lombar.
Amanheci e, quando me virei de lado para sair da cama, a coluna fez créc. Não, não direi aquele clichê que pode estragar qualquer bom texto. Não direi que amanheci crocante, de modo algum!
Fiquei onde estava, tentando respirar cuidadosamente, porque até mesmo o ar que entrava e saía de meus pulmões cutucava a lesionada espinha, a caixa de ossos, o esqueleto. Enfim, eu estava travada, se me erguesse a dor me derrubaria. Se tentasse voltar para a posição inicial, ficaria na cama o resto do dia.
Gritei por ela: Zezé, minha auxiliar do lar. – Zezé, corra aqui!
Depois de dois minutos, mastigando o que imagino ser pão, Zezé entrou no meu quarto, sorridente e sossegada. Expliquei a situação.
- Ave, dona Diva, a senhora precisa mesmo é de uma benzedeira. Isso é mau olhado, coisa dessa gente invejosa.
Se inveja causa hérnia de disco, isso não posso afirmar, mas há muitos anos não ouvia alguém falar sobre benzedeiras. Isso, de certa forma, pareceu atraente. Quem sabe, uma oração pudesse me livrar do forte incômodo que, naquele exato segundo, me deixava dividida entre enfrentar a dor, ou permanecer deitada e imóvel.
- Zezé, me ajude a sair daqui.
Demoramos vários minutos até eu, curvada e sofrida, caminhar alguns passos na direção do banheiro. E depois de tomar o café da manhã, sempre acompanhada de minha fiel escudeira, fui ao pronto-socorro. O médico me examinou, pediu algumas radiografias, olhou os exames com ar de dúvida. – A senhora tem hérnia de disco.
Pois é, ele descobriu que o fogo queima, que a terra é redonda e que eu tenho hérnia de disco. Isso eu já tinha dito muito antes dele olhar as radiografias. – E a senhora precisa tomar uma injeção para a dor, uma outra medicação que vou receitar e faça repouso durante três dias. Nada de exercícios físicos e nem carregar peso.
O peso que eu carrego é o meu. Natal, ano novo, aniversário, carnaval. O resultado são os quilos a mais. Porém, quanto aos exercícios físicos, é promessa que fiz no ano novo de 2012, quando brindei com champanhe e disse que eu faria academia. Se a academia fosse de letras, eu estaria saradíssima. Nas academias de ginástica não suporto: o barulho daquelas anilhas batendo no chão. Aquela barriga para dentro e peito para fora dos saradões e saradonas.  E não suporto gente suada e nem música alta. Sinto muito, eu sou assim. Exercícios físicos eu gosto sim, mas algo do tipo yoga, caminhada no parque, natação, andar de bicicleta. E na boa, sem cobranças ou muitas metas.
Saí do hospital, caminhando com dificuldade e apoiada no ombro de Zezé, que de vez em quando proferia alguma de suas frases incomparáveis: - A senhora agora está mancando do outro lado, acho que é porque o médico lhe deu uma injeção desse lado da bunda.
Fomos à farmácia. Mal ali cheguei, fui passada à frente de outras pessoas, o que achei estranho, até injusto. O farmacêutico pegou a receita, trouxe o medicamento. – A senhora tem desconto de aposentada? – Epa! Isso me deixou sem fala. Não sou velha, que história é essa de olhar para mim e deduzir que sou aposentada? O pior é que tenho mesmo desconto de aposentada, o que é ótimo para fazer economia e péssimo para meu ego.
- A senhora gostaria de levar algum outro medicamento? Veja esta lista, todos os nossos medicamentos para controle da hipertensão estão com um ótimo desconto.
Vontade de mandar o farmacêutico para aquele lugar impublicável. Voltamos para casa, Zezé e eu. Tomei o remedinho, voltei para a cama, passei o resto do dia tentando afastar de mim todo e qualquer pensamento negativo. - Não, não estou velha. Não, não aparento ser aposentada. Esse foi um tipo de mantra que repeti até adormecer. Sonhei com uma aula dessas bem puxadas de aeróbica. Música alta, todo mundo suando e eu, comendo pipoca e assistindo à distância. Isso mesmo, eu comia pipoca e assistia à aula, como se fosse a um filme.
Acordei decidida: não passaria vontade nunca mais. Não ficaria novamente assim, sofrendo e pensando o tempo todo na mesma coisa. Estava resolvido. Chamei Zezé e pedi: - Faz pipoca pra mim?
E tem coisa melhor do que ter um sonho inspirador?




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