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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







14 de abr de 2016

LEMBRANÇAS LAVADAS E ALVEJADAS ( Eu: minha vida em Downton Abbey)

Sou dessas poucas criaturas que não precisaram, desde a infância, lavar a própria louça, limpar a casa, lavar e passar as roupas e cozinhar. Afortunada, nasci em uma família que tinha muitos empregados para realizar essas tarefas. Algo parecido com Downton Abbey, talvez.
O tempo foi passando, da infância para a adolescência. E nada mais era como antes. Com poucos empregados e menos dinheiro, cada membro da família precisou sair para a luta, ou seja, trabalhar. Quando digo trabalhar, eu me refiro às tarefas do lar, doce lar. E eu, que sabia lavar meus cabelos e olhe lá, aprendi rapidinho, e na prática, que água de lavadeira era alvejante de roupas poderoso. Estraguei roupas caras, misturei vermelho com branco, preto com cor-de-rosa e até esburaquei peças de roupa delicadas, ao depositar a bunda quente do ferro de passar roupas sobre suas tramas delicadas e sintéticas.  Bom mesmo foi aquele dia, quando reuni toalhas de banho, calças jeans, camisetas, meias, lotei a capacidade da lavadora de roupas até acima de seu limite máximo. Caprichei na quantidade de sabão em pó, algo em torno de duas xícaras de chá, girei o seletor de comando e fui sonhar com a vida, admirar-me no espelho, tentar me recompor do trabalho que considerava extenuante e injusto para a grandiosidade de minha beleza. Não demorou muito, gritos vieram ao meu encontro. Mãe, avó, tias, todas gritavam em coro coisas do tipo: segura, cuidado, pega e socorro. A máquina, com as peças de roupa mal acomodadas em seu interior, isso aliado ao peso desproporcional das roupas e ao excesso de sabão em pó, havia se movido, pulado, espumado, como se estivesse enlouquecida. Girou, rodou e tombou. Quando cheguei na lavanderia, nada havia o que fazer. Era um mar de água com sabão e espuma. A lavadora jazia inerte em posição horizontal, visivelmente falecida, despachada desta para a melhor.
Foi assim que aprendi que toalhas de banho não podem ser lavadas juntamente com calças jeans. Que sabão em pó não pode ser usado em excesso. Aprendi também que, para comprar uma nova lavadora de roupas é preciso ter dinheiro, muito dinheiro. Na semana seguinte, sob o olhar severo de minha mãe, comecei a trabalhar em meu primeiro emprego: recepcionista de um consultório veterinário. Cada centavo que recebia no final do mês era destinado ao pagamento das prestações da nova moradora de nossa casa: a Brastemp gorducha e muito branca.
Pensando bem, foi durante esse meu primeiro emprego que despertou em mim a afinidade com os animais (todos, exceto os humanos). Mas, isso é outra história que lhes contarei mais adiante.
Hoje, muito cedo, quando liguei minha lavadora de roupas, lembrei desse episódio. O tempo passou, ainda não inventaram a máquina que lava e passa roupas. Já imaginaram? Colocar roupas sujas dentro da lavadora e de lá, em instantes, sair a roupa limpinha, passadinha, cheirosinha. Entre um gole de café e outro, escrevi este texto. Mas, não me distraí um só instante do barulho suave que fazia a lavadora. Trauma não superado de que ela sambe, gire e caia dura na lavanderia.  Da sala de estar para a cozinha, sem drama ou excesso de nostalgia, tudo o que tenho a reclamar é: às vezes sinto uma pontinha de falta de toda antiga mordomia.




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