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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







4 de mai de 2018

O GALÃ DO CONDOMÍNIO


Foram dias seguidos de correria. Voltei de viagem, mal pude desfazer as malas, recebi um Whatsapp de Zezé, minha auxiliar do lar. Não poderia trabalhar durante toda a semana. Então, tal meu desespero, bateu a crise de gastrite, daquelas que não há remédio que resolva. Depois de dois dias, ainda com a barriga dolorida, observei o caos no meu lar, doce lar. Havia pacote de biscoito de polvilho aberto sobre a mesa lateral da sala; os cestos de lixo estavam lotados; meu cachorrinho parecia ter feito xixi por toda a lavanderia; havia roupas sujas aos montes esperando esta serva do lar socorrê-las. Acho que toda a louça jazia dentro e fora da pia da cozinha. E eu senti imensa vontade de sumir, ou fugir, quem sabe evaporar. Sem saída, tratei de começar pelo começo: as roupas. Três horas seguidas lavando roupas! Depois, lavei a louça, limpei a geladeira, passei aspirador de pó em toda a casa,  pano úmido no chão, tirei o pó dos móveis, lavei os banheiros. E tentei adivinhar quem poderia ter comido biscoitos de polvilho. Se não foi meu cachorrinho, só pode ter sido ele: Divo Latívio, o galã do condomínio.
A história do galã do condomínio é outra. Assim que terminei todos os terríveis afazeres domésticos, quando já pensava em tomar um banho, lavar os cabelos e vestir algo que me deixasse com ares de ser humano, tocou o interfone. Na portaria havia uma encomenda.  Calcei meu chinelinho de dedo, aquele encardido de fazer faxina, desci pelo elevador de serviço torcendo para não encontrar nenhum vizinho, tal estava miserável o meu visual.
Retirei a encomenda da portaria, passos ligeiros cheguei ao hall do elevador do andar térreo, faltava pouco para novamente estar no meu apartamento. Mas, qual o quê? Primeiro senti aquele aroma forte de perfumaria, forte mesmo. Alguém havia tomado banho de perfume, certamente. Meu olfato sempre dá o alerta! Em seguida meus ouvidos deram o segundo alerta, devia ser uma gata no cio. Praticamente miando, a morena com longos cabelos bem cuidados como quem passou o dia no salão de beleza ( e não lavando cueca e limpando banheiro), disse um melodioso boa tarde. Já era, fui flagrada fantasiada de bruxa.
- Boa tarde... A senhora é Dona Diva, né?
Eu poderia mentir, dizer que não, mas como mentir pra Gabriela Cravo e Canela urbana e pós-moderna? Detesto ser chamada de Dona, se bem que ela deve ter a metade da minha idade.
- Sim, sou eu. 
- A senhora é mãe daquele cachorrinho fofo, a senhora é esposa do Divo?
Ela disse Divo fazendo biquinho! E disse senhora mais duas vezes.
Tentei conter meu instinto assassino. – Sim, sou eu.
- Ai.... O cachorrinho da senhora é lindo, tão gordinho...
Pensei: putaquepariu, gordinho é o Divo!
-  A senhora sabe, Divo é uma simpatia, a gente já conversou algumas vezes sobre o cachorrinho da senhora...
Sinceramente, eu já estava vendo tudo escuro e aquele perfume começava a fazer meu estômago girar 360 graus.
Ela ajeitou os cabelos,  notei suas unhas imensas pintadas de esmalte de cor escarlate, pareceu ter empinado um pouco mais o traseiro e sobre aquela sandália salto 15 aproximou-se, deu-me um abraço perfumoso e disse: - Tenho que ir! A senhora manda um beijinho pro cachorrinho? E a senhora manda beijo também pro Divo! Diz que quem mandou fui eu.. A Cristieli! -  Ou será Krysthielly? Não sei como isso se escreve.
Voltei pro apartamento abraçada no pacote da encomenda. Observei-me no espelho do elevador. Meio descabelada, abatida, olheiras de quem vomitou as tripas nos últimos dias, lavou pilhas de roupas, limpou banheiros, lavou toda louça, estava quase louca. Certamente, meu perfume era de água sanitária. Eu, a Dona Diva, senhora...
Tratei de tomar um banho, cuidar um pouco de minha aparência. Duas horas depois Divo chegou feliz, assobiando, indiferente à minha dor. Nem reparou que eu tinha passado máscara nos meus cílios, penteado o cabelo com a risca para o outro lado, vestido um vestidinho de florzinhas amarelas. No televisor o futebol era urgente, havia um jogo do Liverpool x Sei Lá Quem pelo campeonato europeu. Apenas me chamou meia hora depois, aos gritos: - Diva, traz pra mim uma cerveja? E pica queijo, coloca azeite, orégano. E traz também azeitonas e guardanapo.
Fingi que nem ouvi, continuei sentada onde estava, tramando este texto. Se quiser falar comigo, que me chame de senhora. Pra ele agora serei Dona Diva, ou melhor, Doutora Diva, afinal sou doutora
.  Ainda não sei dizer se há água em Marte, nem se há vida após o casamento. Senti imensa vontade de sumir, ou fugir, quem sabe evaporar...  Preferi "divanear".