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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







14 de nov. de 2020

OLHARES INDISCRETOS

 


Em plena pandemia há dias que séries e filmes, livros e música, nada parece ocupar-me mental e emocionalmente o bastante. Essa insatisfação compenso com café e momentos de distração, sentada na varanda do meu apartamento a observar o movimento da cidade que fica dezoito andares abaixo dos meus pés e, às vezes, assisto a vida passar no enorme cenário a alguns metros, logo à minha frente. Preparo um café e reparo no edifício em frente ao meu, duas dúzias de andares, muitos apartamentos, muitas varandas e janelas.

Paro o olhar na mulher de cabelos grisalhos e desalinhados, acima do peso, usa camisola curta e desnudas pernas brancas. Rega as plantas, parece conversar com as flores. Aparece um gato, desfila e desaparece novamente. Qual será a sua idade? Será sozinha? Terá amigos? Filhos?

Mudo meu olhar para outro apartamento, alguns andares acima. Um homem a praticar exercícios físicos e demonstra cansaço. Não mais que dois minutos e seu olhar bate no meu, sinto-me flagrada. Ele entra no apartamento e, ruidosamente, fecha a cortina. Desvio rapidamente o olhar, ajeito-me na cadeira, virada de costas.

O café parece ter esfriado, busco outro café e tento ser mais discreta. O casal idoso do apartamento quase em frente ao meu. Parece conversar harmoniosamente. Tem um cachorro. Não, não, não! Agora pude reparar melhor, parece ter dois cachorros.  E aquela mobília da sala? Pela porta de acesso à varanda vejo a estampa florida do sofá, o tapete estilo persa e o lustre com pingentes de cristal. Aquele quadro será um navio, ou um barco de pesca? Como alguém consegue atravessar uma quarentena morando em um lugar visualmente poluído?

Escuto risadas, vêm do apartamento ao lado daquele. O homem parece ter uns trinta e cinco, no máximo quarenta anos. De barba, cabelos ondulados, pele bronzeada. Onde terá tomado sol? Terá ido à praia? Sem camisa, veste uma bermuda, as pernas musculosas sobre uma cadeira em frente à sua. Nada mal, penso. Surge outro rapaz, também bronzeado e bem torneado. Será um casal? Serão amigos? Irmãos? Somem juntos para dentro do apartamento.

Eis que reparo na moça do andar de cima daquele, limpando a janela e olhando na minha direção. Olha-me como se minhas paredes fossem de vidro e não se acanha. Sustenta o olhar na minha direção, de modo desafiador. Finalmente, ela vai embora. Levanto-me, entro em casa e tento imaginar quem será aquela vizinha.

 A falta de privacidade neste condomínio precisa ser reportada aos demais moradores, farei isso na próxima reunião de condôminos. Gente depravada, só pode ser. Resolvo preparar outro café e volto para a varanda.

27 de out. de 2020

QUANDO TUDO ISSO COMEÇOU ( AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS)


Quando tudo isso começou, em março, lembrei que uma cartomante havia me dito no final de 2019 que meus planos de viagem precisariam ser adiados em 2020. Sem maiores explicações e seca assim: - Diva, não viaje nas férias, evite ir a países que ainda não conhece. Isso pareceu fácil, porque conheço meia dúzia de países e nada mais. Porém, eu pretendia ir à Itália, que ainda não conheço.

Despachei a bagagem no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, e pensei positivo. Quando o avião decolou, voltei a lembrar o que a mulher havia me dito e tentei ser discreta ao fazer o sinal da cruz. A cada sacolejo da aeronave eu dava um golinho a mais na taça de Malbec. Pelo sim, pelo não, rumei para um país que muito bem conheço e admiro: a Argentina, lugar encantador que é meu velho conhecido. Não sou supersticiosa, mas sei que as cartas não mentem jamais!

O passeio foi tranquilo, celebrei meu aniversário totalmente alheia ao noticiário e aproveitei cada segundo como se não houvesse amanhã. Embarquei de volta, dessa vez  menos preocupada e poucas vezes lembrei do alerta da cartomante. Quem sabe, ela tivesse cometido algum engano? Será que eu deveria ter ido à Toscana, que sempre quis conhecer? Boba, certamente, deixei de viajar para onde mais desejava e em vão!

Quando desembarquei no Brasil, deparei-me com os funcionários do aeroporto trajando máscaras, todos eles. E o pessoal da imigração, aquela gente toda que cuida da fiscalização de bagagens, a turma do Duty Free. Ecoava a todo momento no sistema de som, em vários idiomas, que deveríamos manter distância um do outro, lavar as mãos, que havia por aqui chegado o tal do vírus.

Cheguei em casa, tomei um banho demorado, dispensei minha diarista, cancelei o horário no salão de beleza, desmarquei os compromissos profissionais e presenciais. Comprei a preço de ouro dois litros de álcool em gel, estava em falta esse produto. Também paguei muito caro por uma caixa de máscaras descartáveis. Pedi o supermercado na internet. Quando as compras chegaram tratei-as como se fossem contaminadas, higienizei cada milímetro de cada embalagem. Minhas mãos ressecadas em poucos dias. Minhas costas doloridas de tanto fazer limpeza em casa. E eu ligada dia e noite no noticiário.

Não sei vocês, mas emagreci muitos quilos nos primeiros meses. Depois, bebi muitas garrafas de vinho e latinhas de cerveja, comi muita porcaria. Engordei o que emagreci e ganhei mais uns quilos extras. Passei a assistir às séries, maratonei noites afora. Sem visitar a família, sem ver os amigos. Meu companheiro, um cachorrinho, meu velho e paciente amigo. Todos os dias passo um paninho com álcool no livro que eu estava lendo em março. Continua sobre o meu criado-mudo. Até hoje, final de outubro, não consegui voltar a ler atentamente, minha mente voa para lugares distantes, mais distantes do que nos levam as histórias contadas na literatura.

Hoje, depois de tanto tempo, arrisco esta mensagem de bordo. Eu, Diva Latívia, não contraí o vírus. Estou viva, acho que sim. Ilhada, observo o movimento na rua pela sacada do apartamento. Minhas viagens suspensas, meus planos quase todos suspensos, meu trabalho perdido, minha família distante, meus amigos no WhatsApp. Mas, existe algo que nem mesmo a trágica pandemia tirou de mim: este blog e a delícia das letrinhas.

Tenho um sonho recorrente e nele saio à rua sem máscara e me sinto nua. Entro em pânico quando sinto meu rosto despido de proteção e pudor. Acordo aflita e, quando percebo que foi apenas um sonho, tento imaginar quando o pesadelo real vai terminar.

Tantas vidas perdidas, tanta gente com a saúde agredida, tantas famílias enlutadas, tantos empregos perdidos. Poderia ter sido a queda de um enorme meteoro sobre nosso planeta, ou um tsunami que varresse toda a costa atlântica. Mas, a nossa desgraça é microscópica.

Espero que um dia eu volte a fazer as malas e rumar para um país charmoso, no outro lado do mundo. Sem precisar de máscara, nem sentir medo do invisível. Nesse dia, espero assim, terei voltado a ler meus livros, a dançar sem motivo e a escrever as histórias.

Sobre a cartomante, se eu tivesse ido à Europa em março, quem sabe eu tivesse voltado doente? Como saber? A ela deixo um crédito de confiança e respeito. Boa a dica que recebi!

Fica aqui a minha homenagem a cada um que sofre, eu compreendo a dimensão de sua dor. A cada um que adoeceu e cada um que morreu. De algum modo estamos juntos, ainda que sem beijo, sem abraço e sem podermos revelar as nossas faces.

 

13 de out. de 2019

SOLIDÃO VERSUS VONTADE DE SER FELIZ


Oi, Diva Latívia!

Quero saber por que as pessoas são tão complicadas. Quero demais achar um namorado, namorido, marido, mas são tantas etapas pra gente encontrar alguém. Quero alguém pra gente ir junto ao cinema, teatro, viajar, dançar, ver filmes na TV e transar gostoso. Desculpa, mas transar gostoso eu acho que é fundamental! Só que eu estou sozinha faz muito tempo. E nem transo gostoso, nem faço nada legal porque sinto falta dessa pessoa que eu gostaria de encontrar. Pode me dar umas dicas?
V. L.

Depois de muito tempo, escolhi esta mensagem da V. L. para retomar meu papo com vocês, leitores. E espero ajudar quem vive o mesmo momento. Namorado, namorido, marido. Uma meta de muita gente, que nem sempre termina exatamente bem. Ir ao cinema, por exemplo, pode ser algo normal e simples, mas já imaginou fazer isso com alguém que ao chegar ao shopping center irá se estressar para estacionar o carro e depois se estressar para escolher o filme? Maridos e namoridos fazem isso! Namorados, às vezes também. Tem uns que até se engasgam com a pipoca e se zangam com a gente. Enfim... Será preciso mesmo ter um par para viajar, para ir ao cinema, teatro, ver filmes na TV? Transar até compreendo. Mas, tudo o mais, melhor repensar trilhões de vezes na escolha.
Acho também que não adianta nada sair buscando, caçando. Amor deve ser um bicho que, feito pernilongo, entra pela janela sem a gente perceber e nos ataca (no bom sentido).

V.L. vá em frente sem esperar parceria. Quem é bacana, do bem, um dia acaba por atrair bons amigos, a tal parceria para o cinema. Quanto ao transar, isso é outro assunto, mas eu acho que seria mesmo muito legal o parceiro de dança e cinema ser o parceiro de sexo. Um tanto difícil de acontecer, mas se você levar a vida com leveza e sem muita expectativa, isso poderá um dia acontecer. A humanidade anda muito sozinha, isso não é privilégio seu, nem meu. Alguns, sozinhos por egoísmo, outros por medo de envolvimento. Muitos perdem a chance de viver momentos incríveis com você, por exemplo. Vá ao cinema, ainda que sozinha. E, posso dizer por mim, viajar sem um par é possível! Dance sozinha, isso é delicioso! Teatro é um espaço pra lá de democrático e inclusivo, vá sem a pessoa errada ao seu lado, por favor! Curta a vida, V. L., se estiver no seu destino encontrar alguém, esse alguém, ele ou ela, surgirá mais dia, menos dia.

Boa sorte, afinal o que você deseja é o mesmo que a maioria das pessoas gostaria de encontrar ( consciente, ou inconscientemente).

Beijo da Diva Latívia ( Cláudia)


4 de mai. de 2018

O GALÃ DO CONDOMÍNIO


Foram dias seguidos de correria. Voltei de viagem, mal pude desfazer as malas, recebi um Whatsapp de Zezé, minha auxiliar do lar. Não poderia trabalhar durante toda a semana. Então, tal meu desespero, bateu a crise de gastrite, daquelas que não há remédio que resolva. Depois de dois dias, ainda com a barriga dolorida, observei o caos no meu lar, doce lar. Havia pacote de biscoito de polvilho aberto sobre a mesa lateral da sala; os cestos de lixo estavam lotados; meu cachorrinho parecia ter feito xixi por toda a lavanderia; havia roupas sujas aos montes esperando esta serva do lar socorrê-las. Acho que toda a louça jazia dentro e fora da pia da cozinha. E eu senti imensa vontade de sumir, ou fugir, quem sabe evaporar. Sem saída, tratei de começar pelo começo: as roupas. Três horas seguidas lavando roupas! Depois, lavei a louça, limpei a geladeira, passei aspirador de pó em toda a casa,  pano úmido no chão, tirei o pó dos móveis, lavei os banheiros. E tentei adivinhar quem poderia ter comido biscoitos de polvilho. Se não foi meu cachorrinho, só pode ter sido ele: Divo Latívio, o galã do condomínio.
A história do galã do condomínio é outra. Assim que terminei todos os terríveis afazeres domésticos, quando já pensava em tomar um banho, lavar os cabelos e vestir algo que me deixasse com ares de ser humano, tocou o interfone. Na portaria havia uma encomenda.  Calcei meu chinelinho de dedo, aquele encardido de fazer faxina, desci pelo elevador de serviço torcendo para não encontrar nenhum vizinho, tal estava miserável o meu visual.
Retirei a encomenda da portaria, passos ligeiros cheguei ao hall do elevador do andar térreo, faltava pouco para novamente estar no meu apartamento. Mas, qual o quê? Primeiro senti aquele aroma forte de perfumaria, forte mesmo. Alguém havia tomado banho de perfume, certamente. Meu olfato sempre dá o alerta! Em seguida meus ouvidos deram o segundo alerta, devia ser uma gata no cio. Praticamente miando, a morena com longos cabelos bem cuidados como quem passou o dia no salão de beleza ( e não lavando cueca e limpando banheiro), disse um melodioso boa tarde. Já era, fui flagrada fantasiada de bruxa.
- Boa tarde... A senhora é Dona Diva, né?
Eu poderia mentir, dizer que não, mas como mentir pra Gabriela Cravo e Canela urbana e pós-moderna? Detesto ser chamada de Dona, se bem que ela deve ter a metade da minha idade.
- Sim, sou eu. 
- A senhora é mãe daquele cachorrinho fofo, a senhora é esposa do Divo?
Ela disse Divo fazendo biquinho! E disse senhora mais duas vezes.
Tentei conter meu instinto assassino. – Sim, sou eu.
- Ai.... O cachorrinho da senhora é lindo, tão gordinho...
Pensei: putaquepariu, gordinho é o Divo!
-  A senhora sabe, Divo é uma simpatia, a gente já conversou algumas vezes sobre o cachorrinho da senhora...
Sinceramente, eu já estava vendo tudo escuro e aquele perfume começava a fazer meu estômago girar 360 graus.
Ela ajeitou os cabelos,  notei suas unhas imensas pintadas de esmalte de cor escarlate, pareceu ter empinado um pouco mais o traseiro e sobre aquela sandália salto 15 aproximou-se, deu-me um abraço perfumoso e disse: - Tenho que ir! A senhora manda um beijinho pro cachorrinho? E a senhora manda beijo também pro Divo! Diz que quem mandou fui eu.. A Cristieli! -  Ou será Krysthielly? Não sei como isso se escreve.
Voltei pro apartamento abraçada no pacote da encomenda. Observei-me no espelho do elevador. Meio descabelada, abatida, olheiras de quem vomitou as tripas nos últimos dias, lavou pilhas de roupas, limpou banheiros, lavou toda louça, estava quase louca. Certamente, meu perfume era de água sanitária. Eu, a Dona Diva, senhora...
Tratei de tomar um banho, cuidar um pouco de minha aparência. Duas horas depois Divo chegou feliz, assobiando, indiferente à minha dor. Nem reparou que eu tinha passado máscara nos meus cílios, penteado o cabelo com a risca para o outro lado, vestido um vestidinho de florzinhas amarelas. No televisor o futebol era urgente, havia um jogo do Liverpool x Sei Lá Quem pelo campeonato europeu. Apenas me chamou meia hora depois, aos gritos: - Diva, traz pra mim uma cerveja? E pica queijo, coloca azeite, orégano. E traz também azeitonas e guardanapo.
Fingi que nem ouvi, continuei sentada onde estava, tramando este texto. Se quiser falar comigo, que me chame de senhora. Pra ele agora serei Dona Diva, ou melhor, Doutora Diva, afinal sou doutora
.  Ainda não sei dizer se há água em Marte, nem se há vida após o casamento. Senti imensa vontade de sumir, ou fugir, quem sabe evaporar...  Preferi "divanear".




28 de jan. de 2018

QUANDO PAREI DE ESCREVER

Parei de publicar no blog porque sou de outro tempo. Um tempo em que não existia canal no Youtube, Tinder e Whatsapp.  Sou do tempo do caderninho espiral e da Bic azul com a tampa mastigada, apetrechos que eu utilizava para anotar impressões, ideias para um novo texto. Tantas vezes escrevi um conto sentada no metrô, ou bebendo café na padaria. Um tempo que desembocava no sonho de publicar um livro, que escrevi e jamais publiquei. Foi então que descobri que não existe espaço para novos escritores no Brasil. E o choque de realidade me fez entender que, por ser de outro tempo, eu ainda publicava em um blog.

Sou do tempo da ficha de telefone, do tempo do Bombril na ponta da antena do televisor, do tempo que para namorar a gente precisava do consentimento dos pais. Enfim, um dia acordei no mundo de agora e ainda não sei o destino deste blog, que aos poucos se torna tão obsoleto quanto se tornou o Orkut e o MSN. Quem sabe, em breve, Diva Latívia será somente um nome esquisito. Foi assim que parei de escrever aqui.

Diva Latívia

6 de dez. de 2017

O CAMINHO DAS LÁGRIMAS



Para onde irão as lágrimas quando elas evaporam?
As mãos úmidas a tentar contê-las...
Para onde irão nossos sentimentos incompreendidos?
Nossas lágrimas contidas, soluços sem voz. 
Cada pranto, cada instante, para onde irão nossos momentos?

25 de jul. de 2017

DIA DO ESCRITOR: EU PROTESTO!

Hoje é o dia do escritor. Autora do blog Diva Latívia, autora do antigo blog Janela das Loucas, tenho publicações em três coletâneas de contos e crônicas. Escrevi um romance não publicado. E esse fato, a não publicação do romance, passa pela indecorosa proposta de editoras, das menos conhecidas às famosas, com editores carniceiros, que apenas visam o lucro e nada mais. Desisti de publicar o livro, que cá entre nós, é bem melhor que as novelas da Globo, ou poderia ser uma ótima novela das 18 horas da Globo. 
Mas, o que faz essa gente que alcança um lugar estreito ao sol, que faz parte de um rol tão asfixiado e miúdo, com acadêmicos e autores que jogam confetes nas próprias cabeças e nas cabeças uns dos outros? Quais são os critérios para que uma obra seja publicada? 
Ser prostituta, com todo respeito à dita, mas ser Bruna Surfistinha e publicar um livro, isso é um caminho rápido para ter um livro publicado e se tornar campeão de vendas. 
No Brasil não existe uma faculdade de Criação Literária, apenas cursos de extensão, breves. Não há a formação universitária de escritores, como existe em países considerados de primeiro mundo. O que temos aqui é a faculdade de Letras, para a formação de professores, tradutores. E os escritores? Ah, os escritores... Nada para eles, nada para mim!
Abílio Manoel, falecido e querido amigo, abriu para mim o caminho, quando com seu talento e enorme generosidade me fez Diva Latívia, que fazia o público, cada dia maior, rir das desventuras de uma solteira à caça de um grande amor. Uma personagem, que deu origem ao meu blog.
O meu livro se tornou um projeto guardado. No Brasil não temos espaço para crescer. Não temos incentivo paras as artes e, quando há esse incentivo, é para alguns e, dificilmente, para a literatura. Ainda bem, cursei Direito. Ainda bem, tive outra profissão. Senão, quem sabe, estaria eu agora debaixo de alguma ponte, escrevendo poesias anônimas. Essa é a vida do escritor brasileiro. Vida de fome de reconhecimento. 
Este é o meu protesto, neste dia triste para meia dúzia de gatos pingados que podem comemorar!

Cláudia Cavalcanti ( Diva Latívia)



3 de jun. de 2017

DIA DOS NAMORADOS, SÓ QUE NÃO...

Dia dos namorados chegando. A pergunta que aqui chegou foi a seguinte: Diva, gente casada também comemora o dia dos namorados?

Caros leitores,

A imensa maioria das respostas para as suas indagações é por mim buscada no imenso arquivo de minhas próprias experiências. Aventuras, desventuras. Algumas antigas, outras recentes.
O último dia dos namorados, desse dia jamais esquecerei. Casada, enrolada e complicada, imaginei comemorar a data de um jeito econômico, porém romântico. Preparei um jantarzinho, acendi velas pela casa, ajeitei flores em um vaso de cristal e, para deixar o clima ainda mais festivo, escolhi música romântica, Seal cantando essas canções que a gente está cansado de ouvir.
Coloquei um vestidinho pretinho básico, salto alto, cabelos soltos, caprichei no perfume. Olhei para o relógio, passava das 21 horas e nada do meu marido chegar em casa.
Quase 21:30 achei estranho ele tocar a campainha, afinal tinha a chave da porta. Corri à frente do espelho, para checar o visual. Ele, impaciente, tocou mais duas vezes a campainha e pude ouvi-lo gritar qualquer coisa assim: - Abre logo essa porrr.... Porta ou outra coisa? Preferi entender “porta”.
Fiquei na pontinha dos pés e pude vê-lo pelo olho mágico. Havia algo em suas mãos. Fração de segundo e imaginei o que poderia ser: flores? Talvez, roupa da minha loja preferida? Champanhe?
Respirei fundo com ele chamando a porta de porra. Feio isso, dizer palavrão no corredor do apartamento, vai que as crianças do apartamento vizinho escutassem, não é mesmo?
Finalmente, com o coração aos pulos abri a porta e, antes mesmo de ouvir boa noite, ele me estendeu o que segurava nas mãos.
Sabe aquela sensação de ter tirado nota 5 na prova de matemática, depois de estudar dia e noite? Ou, a sensação de ter chovido no dia da festa preparada no quintal de casa? Foi mais ou menos essa a sensação.
O pacote enorme de rolos de papel higiênico, ele havia comprado em um atacadão, esses que vendem tudo em imensas quantidades. E havia mais: desinfetante, água sanitária, detergente e sabão em pó. Ia me passando a tralha toda, enquanto eu me equilibrava no salto alto.
Conforme ele ia me entregando a mercadoria, eu segurava o riso. Por fim, eu estava gargalhando. Provavelmente, riso nervoso. E ele, com ar indignado a me perguntar se eu estava louca. Demorou uns dez minutos para perceber que eu havia acendido velas. Tudo o mais precisei explicar, praticamente desenhar. Ele nem sabia que era dia dos namorados, aliás, não entendeu por que não o avisei previamente. Como se esse dia fosse algo exclusivo, pouco comemorado por aí.
Apaguei as velas, tirei o salto alto e calcei chinelos, prendi os cabelos e juntos bebemos a garrafa de Malbec por mim escolhida. Não antes de guardarmos toda a compra em prateleiras e armários diversos. Nada melhor que cumplicidade, fala sério, quanta originalidade, quem mais ganhou um fardo de papel higiênico nessa data? 

Casados celebram o dia dos namorados? Sim. Mas, às vezes, é melhor avisar com antecedência. Há exceções, mas só por precaução, fica a dica.

11 de mar. de 2017

SERES DIGITAIS

Meus filhos são seres digitais. Pode escrever sobre isso no Diva?
Confesso que em menos de dois minutos comecei a redigir o texto. A conversa que nós duas tivemos foi digital, não sei se ela percebeu isso. Mãe de jovens, essa amiga queixou-se que as novas gerações substituíram palavras verbalizadas por palavras digitadas.  A situação é a seguinte: você quer saber onde está seu filho? Envie um WhatsApp e espere que ele leia e responda a mensagem. Às vezes, ele está no quarto ao lado, mas você não se atreve a adentrar naquele território onde não será bem-vinda a sua presença. Enviar um WhatsApp e perguntar se está com fome, por exemplo, pode parecer a princípio algo absurdo, mas costuma resolver o problema. Um mundo com sabor de isopor, de plástico, na tela de um celular.  É amargo ter filhos digitais. Onde será que perdemos o fio da meada?
Enquanto digitava este texto chegou uma mensagem para mim. Uma sobrinha no WhatsApp: “Aê, blz? Parabéns, bj”. Li e reli. Parabéns? Não era meu aniversário, nem havia ocorrido algo especial comigo. Respondi: “Oi, querida, quanta saudade. Você está bem? Meu aniversário foi em janeiro, mas muito obrigada. Beijos”. Duas horas depois ela respondeu: “Foi mals, msg errada”. Só isso, mals com S no final, com L pelo meio, mensagem errada, grafia errada e para a destinatária errada. Precisei concordar com minha amiga: seres digitais. Se ao menos a gramática fosse respeitada, isso seria um alento. Melhor seria que não escrevesse nada.
No metrô observei os passageiros, a maioria deles a digitar palavras em seus smartphones. Hipnotizados, dominados pela realidade virtual, dedos ágeis a clicar na tela dos minúsculos aparelhos, expressões faciais congeladas, olhos presos e sentidos alheios. Senti angústia, lembrei do livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.  Será epidemia, será doença, será demência, será sinal do fim dos tempos? Onde está a realidade com olhos nos olhos, sorriso largo, beijo real, abraço gostoso, sem interrupções para mexer no celular, sem aquele sininho irritante e insistente que avisa a chegada de nova mensagem?
Ela só disse ao filho que iria ao pronto-socorro, o pé doía terrivelmente. O garoto não se ofereceu para acompanhá-la, estava ocupado, entretido e batendo um papo com alguém. Digitava ligeiro, de vez em quando ria.  O menino levantou-se do sofá, rumou para a porta da saída de casa, sem tirar os olhos do que lia e respondia.
Não é incomum isso. Parece que um alienígena abduziu pessoas, deixou no lugar androides que são alimentados pela luz dos smartphones. Esses androides só riem para a tela do aparelho, só se comunicam por digitação, eles dão ordens do tipo “quero almoçar”, ou “quero que passe a camisa xadrez”, “compre isso pra mim”. As poucas palavras verbais que proferem são breves, insensíveis e desconectadas da realidade órfã de pais atônitos.
Como disse Raul Seixas: "pare o mundo que eu quero descer!". Quero descer em um mundo que se comunique com palavras ditas por bocas benditas. Um mundo que se enrosque em abraços longos e salvadores. Um mundo com tempo suficiente para conversar sobre tudo e sobre nada, sem pressa, no banco da praça. Quero um mundo de afeto retribuído, com pessoas livres desse cativeiro digital. Um mundo realmente novo.


11 de fev. de 2017

PASSARINHOS NO TELHADO

Clareou o céu na cidade de São Paulo.  Entre cinza e azul nuvens esfiapadas desfilavam sobre os edifícios.
No topo de um prédio vizinho, um passarinho cantava bem-te-vi. Bebi um gole de suco de laranja e continuei a ouvir o chamado insistente: bem-te-vi, bem-te-vi! Vieram mais dois pássaros da mesma espécie. Pareceram confabular sobre um plano de voo. Ajeitaram-se, abriram as asas, remexeram-se. Em sicronia perfeita bailaram em direção a uma árvore no cruzamento das avenidas. Bem-te-vi!
Um após o outro voou sobre o semáforo e rumou para o telhado da padaria. Ciscaram, piaram, esconderam-se atrás do edifício em construção. Meu olhar acinzentou e não mais os viu.