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Apresentação

Este blog nasceu no blog Janela das Loucas, onde assinava "Diva Latívia". Ali permaneci durante muito tempo, como autora principal das crônicas do blog. Redescobri que escrever é vital pra mim, guiada e editada por Abílio Manoel, cantor, compositor, cineasta e meu querido amigo. O Janela das Loucas não existe mais, Abílio foi embora pro Céu. Escrevo porque tenho esse dom divino, mas devo ao Abílio este blog, devo ao Abílio a saudade que me acompanha diariamente. Fiz e faço deste blog uma homenagem a aquele que se tornou meu irmão, de alma e coração. Aqui o tema é variado: cotidiano, relacionamentos e comportamento, em prosa e versos.







27 de out. de 2020

QUANDO TUDO ISSO COMEÇOU ( AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS)


Quando tudo isso começou, em março, lembrei que uma cartomante havia me dito no final de 2019 que meus planos de viagem precisariam ser adiados em 2020. Sem maiores explicações e seca assim: - Diva, não viaje nas férias, evite ir a países que ainda não conhece. Isso pareceu fácil, porque conheço meia dúzia de países e nada mais. Porém, eu pretendia ir à Itália, que ainda não conheço.

Despachei a bagagem no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, e pensei positivo. Quando o avião decolou, voltei a lembrar o que a mulher havia me dito e tentei ser discreta ao fazer o sinal da cruz. A cada sacolejo da aeronave eu dava um golinho a mais na taça de Malbec. Pelo sim, pelo não, rumei para um país que muito bem conheço e admiro: a Argentina, lugar encantador que é meu velho conhecido. Não sou supersticiosa, mas sei que as cartas não mentem jamais!

O passeio foi tranquilo, celebrei meu aniversário totalmente alheia ao noticiário e aproveitei cada segundo como se não houvesse amanhã. Embarquei de volta, dessa vez  menos preocupada e poucas vezes lembrei do alerta da cartomante. Quem sabe, ela tivesse cometido algum engano? Será que eu deveria ter ido à Toscana, que sempre quis conhecer? Boba, certamente, deixei de viajar para onde mais desejava e em vão!

Quando desembarquei no Brasil, deparei-me com os funcionários do aeroporto trajando máscaras, todos eles. E o pessoal da imigração, aquela gente toda que cuida da fiscalização de bagagens, a turma do Duty Free. Ecoava a todo momento no sistema de som, em vários idiomas, que deveríamos manter distância um do outro, lavar as mãos, que havia por aqui chegado o tal do vírus.

Cheguei em casa, tomei um banho demorado, dispensei minha diarista, cancelei o horário no salão de beleza, desmarquei os compromissos profissionais e presenciais. Comprei a preço de ouro dois litros de álcool em gel, estava em falta esse produto. Também paguei muito caro por uma caixa de máscaras descartáveis. Pedi o supermercado na internet. Quando as compras chegaram tratei-as como se fossem contaminadas, higienizei cada milímetro de cada embalagem. Minhas mãos ressecadas em poucos dias. Minhas costas doloridas de tanto fazer limpeza em casa. E eu ligada dia e noite no noticiário.

Não sei vocês, mas emagreci muitos quilos nos primeiros meses. Depois, bebi muitas garrafas de vinho e latinhas de cerveja, comi muita porcaria. Engordei o que emagreci e ganhei mais uns quilos extras. Passei a assistir às séries, maratonei noites afora. Sem visitar a família, sem ver os amigos. Meu companheiro, um cachorrinho, meu velho e paciente amigo. Todos os dias passo um paninho com álcool no livro que eu estava lendo em março. Continua sobre o meu criado-mudo. Até hoje, final de outubro, não consegui voltar a ler atentamente, minha mente voa para lugares distantes, mais distantes do que nos levam as histórias contadas na literatura.

Hoje, depois de tanto tempo, arrisco esta mensagem de bordo. Eu, Diva Latívia, não contraí o vírus. Estou viva, acho que sim. Ilhada, observo o movimento na rua pela sacada do apartamento. Minhas viagens suspensas, meus planos quase todos suspensos, meu trabalho perdido, minha família distante, meus amigos no WhatsApp. Mas, existe algo que nem mesmo a trágica pandemia tirou de mim: este blog e a delícia das letrinhas.

Tenho um sonho recorrente e nele saio à rua sem máscara e me sinto nua. Entro em pânico quando sinto meu rosto despido de proteção e pudor. Acordo aflita e, quando percebo que foi apenas um sonho, tento imaginar quando o pesadelo real vai terminar.

Tantas vidas perdidas, tanta gente com a saúde agredida, tantas famílias enlutadas, tantos empregos perdidos. Poderia ter sido a queda de um enorme meteoro sobre nosso planeta, ou um tsunami que varresse toda a costa atlântica. Mas, a nossa desgraça é microscópica.

Espero que um dia eu volte a fazer as malas e rumar para um país charmoso, no outro lado do mundo. Sem precisar de máscara, nem sentir medo do invisível. Nesse dia, espero assim, terei voltado a ler meus livros, a dançar sem motivo e a escrever as histórias.

Sobre a cartomante, se eu tivesse ido à Europa em março, quem sabe eu tivesse voltado doente? Como saber? A ela deixo um crédito de confiança e respeito. Boa a dica que recebi!

Fica aqui a minha homenagem a cada um que sofre, eu compreendo a dimensão de sua dor. A cada um que adoeceu e cada um que morreu. De algum modo estamos juntos, ainda que sem beijo, sem abraço e sem podermos revelar as nossas faces.

 

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